Como Dennison Ramalho passou de amigo a roteirista do Zé do Caixão
(ATENÇÃO: Este texto pode ter spoilers de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO!)
Só falta uma corcunda e metade do rosto deformado para Dennison Ramalho ser a representação na vida real de Bruno, o fiel amigo e inseparável capanga de Zé do Caixão em ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER e ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Do lado de cá da tela do cinema, Dennison pode até não ser um assassino implacável como o Bruno nos filmes, mas em compensação é o fiel escudeiro que acompanha José Mojica Marins e, várias vezes, o auxilia em momentos de dificuldade - seja resgatando o cineasta quando ele foi "esquecido" no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, em 1995, seja servindo de intérprete quando um grande fã internacional do Zé do Caixão, Rob Zombie (antes de virar cineasta), foi visitar o estúdio de Mojica em São Paulo.
Logo, ninguém melhor que Bruno... ops! Dennison, para acompanhar fielmente Mojica também em sua nova empreitada. ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, o retorno triunfal de Zé do Caixão aos cinemas em pleno século 21, é metade Mojica e metade Dennison, mas fica muito difícil separar estas metades, já que o jovem trabalhou também como assistente do diretor. Dennison escreveu o roteiro a partir de todas as idéias não-aproveitadas para o filme desde 1966, e teve que ajudar incansavelmente o seu mestre quando tragédias como a morte do ator Jece Valadão travaram os trabalhos - foi necessário criar um novo personagem, um irmão de Jece inexistente na trama original, para que a coisa funcionasse.
Dennison Ramalho tem 34 anos e é gaúcho de coração, mas não de nascimento. Nasceu em São Caetano do Sul (SP) e foi registrado em Santo André, mas com 6 anos sua família mudou-se para Porto Alegre, onde ele viveu até os 26 anos e onde deu seus primeiros passos no mundo do cinema.
Mas, como o mercado gaúcho da sétima arte ainda é bastante incipiente, desde 2000 ele mora em São Paulo - onde sua carreira vai muito bem, obrigado.
O roteirista do Zé do Caixão formou-se em Jornalismo na PUC, em Porto Alegre, e nunca estudou cinema, mas ainda na faculdade começou a dar seus primeiros passos como cineasta. Em 1994, ele e alguns colegas dirigiram "Narcosatanico" em vídeo, filme que não entra em sua filmografia "oficial" por ser muito amador. "Era mais uma brincadeira, um trashão-lixo mesmo!", confessou Dennison à Boca do Inferno. Antes de dedicar-se integralmente ao cinema, ele tentou empregos mais "normais": foi professor de inglês para crianças e até trabalhou com seu pai por algum tempo. Mas então surgiu uma idéia para um filme...
NOCTURNU, curta-metragem filmado em 16mm e em preto-e-branco no ano de 1998, fez Dennison ter certeza de que queria ser um cineasta de horror no Brasil. Com 11 minutos, o curta mostra vampiros e demônios em busca de sangue e carne humana. No elenco, além do cineasta underground catarinense Peter Baiestorf e sua musa, a atriz Denise V., aparecem Cleo De Paris (recentemente vista em ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO) e a escritora Clarah Averbuck (que teve um de seus livros recentemente adaptado para o cinema em NOME PRÓPRIO). O curta estreou faturando os prêmios de Melhor Curta 16mm e Melhor Diretor no Festival de Cinema de Gramado, e fez seu jovem diretor ir a São Paulo para investir no mercado de cinema.
Dennison conheceu Mojica na metade dos anos 90, quando ainda estava na faculdade e queria fazer seu trabalho de conclusão de curso sobre os filmes do Zé do Caixão. O tema depois mudaria (para canibalismo no cinema), mas a amizade com o diretor, então em fase de vacas magras, continuou. Tanto que o então aspirante a diretor mostrou NOCTURNU para o mestre quando ainda estava na fase de edição, e Mojica deu valiosas dicas ao seu pupilo sobre mudanças que poderia fazer para tornar o curta mais "redondinho" - inclusive uma alteração no final.
A amizade continuou com as já citadas aventuras de Dennison como intérprete do "mojiquês" para o gringo Rob Zombie e o pessoal da sua banda, a White Zombie, e também como salvador do abandonado Mojica no aeroporto porto-alegrense (na época, ele participava, como ator, do bangue-bangue O HOMEM SEM TERRA, filmado no Rio Grande do Sul, mas foi "esquecido" no aeroporto pela produção do filme, tão obscuro que nem o próprio Mojica viu!).
Mas foi a explosão nacional e internacional do curta seguinte de Dennison, o impecável AMOR SÓ DE MÃE (finalizado em 2002 e lançado em 2003), que abriu as portas para o trabalho conjunto da dupla em ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Este segundo curta-metragem, marcado por uma atmosfera de puro horror, pela sacanagem e pela violência explícita, tudo embalado numa produção de Primeiro Mundo, ganhou tantos prêmios mundo afora que nem seu diretor sabe o total: "Acho que foi por volta de 15", chutou ele. Também ficou famoso por ter feito muita gente passar mal e/ou vaiar em festivais de cinema mais tradicionais, como o de Gramado.
Quando assumiu a difícil tarefa de escrever o roteiro de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, provavelmente nem o próprio Dennison imaginou que a coisa seria tão complicada. Primeiro, ele teve que se basear em diferentes roteiros escritos desde 1966, quase todos eles ainda com um Zé do Caixão em ambiente rural, a exemplo dos dois primeiros filmes. Foi preciso adequar trama e ambientação para este período de 40 anos em que o personagem não aparece no cinema, e também dar um jeito de explicar o envelhecimento de Mojica (que inicialmente queria outro ator para fazer o personagem).
Durante o Fantaspoa 2008, realizado no começo de agosto em Porto Alegre, e que teve o pré-lançamento do novo filme de Mojica, Dennison esteve presente e fez uma palestra onde contou, em detalhes, como foi o processo de transportar Zé do Caixão de 1966 para o século 21.
Também manteve seu posto de fiel escudeiro do cineasta ao acompanhá-lo na entrevista coletiva à imprensa e na apresentação das sessões do filme. Na primeira delas, Dennison estava sentado em meio ao público, mas Mojica fez questão de chamá-lo para a frente do público, pediu aplausos e rasgou a maior seda para seu jovem amigo, como o leitor pode testemunhar no vídeo abaixo:
Na palestra como roteirista de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, Dennison começou contando sobre as diferentes versões da história: "O primeiro roteiro é de 1966 e eu nem li, nem o Mojica tem mais. Foram seis versões do roteiro entre 1966 e 1980, e eu só li esta de 1980. O Carlos Primati, que é especialista em Zé do Caixão, ele leu outras versões e falou para mim que tem umas loucuras como o Zé entrando no purgatório pela privada. Esta versão de 1980 já era bem diferente e mais parecida com os dois outros filmes da trilogia. O roteiro começa no céu: o Zé do Caixão realmente tinha morrido no final de ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER e estava sendo julgado pelos seus crimes. O Mojica dizia que o Glauber Rocha amava esta cena, que terminava com o Zé do Caixão matando todo mundo no céu com uma metralhadora giratória e acordando de volta na terra!".
Sabe aquela moda recente de continuações que se dedicam a explicar a origem dos personagens, tipo fizeram com Hannibal Lecter, Leatherface e muitos outros? Pois Mojica, mostrando que realmente é um sujeito muito à frente do seu tempo, já havia pensado em contar a origem do Zé do Caixão em uma das versões do roteiro de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Dennison contou como seria: "O Zé era um garoto normal, filho de uma família rica, dona de uma cadeia de funerárias. Era um bom rapaz, apaixonado por uma moça, mas foi com os pracinhas lutar em Monte Castelo, na Segunda Guerra Mundial. O filme teria cenas de batalha e tudo mais. E quando ele voltou para o Brasil, encontrou sua amada com outro, matou este outro e virou o Zé do Caixão! Ah, e tinha uma cena legal onde ele matava um crente com um espeto de churrasco, ainda com carne espetada. Mas este roteiro era basicamente infilmável, tinha até toques de fantasia estilo Tolkien, como uma batalha entre bárbaros e ninfas dentro do corpo humano".
Dennison também resumiu a odisséia de 40 anos para que o filme finalmente saísse do papel, história que o próprio Mojica já havia contado à imprensa na véspera, e que envolveu a morte de produtores e, principalmente, a falta de verba e os problemas com a censura.
Como a palestra era aberta a perguntas, aproveitei para perguntar ao roteirista se ele pretendia continuar a dobradinha Ramalho-Mojica em uma possível continuação das aventuras de Zé do Caixão, já que, na véspera, o diretor deixou escapar, acidentalmente, que pensava em fazer mais um filme com seu famoso personagem. "Fazer parte do mundo do Mojica é muito bom, mas também pode ser paralisante. Preciso ir atrás de viabilizar meu próprio longa-metragem, e, não reclamando, fazer parte do mundo do Mojica te deixa meio refém. Eu já estou escrevendo um outro roteiro para ele onde o Mojica é o protagonista, mas não fará o Zé do Caixão". Dennison se refere a O DEVORADOR DE OLHOS, projeto que Mojica já havia anunciado na véspera, e que é baseado num roteiro que Rubens Francisco Lucchetti escreveu em 1968, no auge da popularidade do diretor, mas que nunca foi filmado.
Mas será que o Zé está realmente morto e enterrado após o final de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO? "Não, filme de terror nunca tem fim. Olha os Dráculas da Hammer, o Jason, a série HELLRAISER... Sempre é possível continuar. Eu até toparia participar, depois de ter meus projetos encaminhados. Mas agora preciso continuar minha história, senão vou acabar que nem o Lucchetti, que viveu para o Mojica, ou o Mário Lima, que se enfiou 100% nas suas colaborações com o Mojica, mas nunca colheu os frutos desta colaboração".
Outra pergunta que faço é em relação às mudanças que o seu roteiro original para ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO sofreu com a morte de Jece Valadão, que interpretava o grande antagonista de Zé, o coronel Claudiomiro Pontes. A solução envolveu criar um novo personagem, que acabou aumentando o número de inimigos do Zé do Caixão.
"Muita gente me ajudou a pensar na mudança do roteiro depois da morte do Jece. Eu fui muito resistente em relação a criar mais um inimigo, porque a gente já tinha dois, o coronel e o padre - um representando a autoridade instituída e o outro a Igreja. Quando o Jece morreu, foi muito foda! Ele estava doente já há alguns dias, e o [produtor] Paulo Sacramento até comentou que estava todo mundo preocupado com a possibilidade de ele morrer. Eu não pensei que o Jece realmente iria morrer, mas aí ele teve um infarto. Eu ainda tinha esperança de manter o roteiro original, mas logo veio a notícia que ele tinha morrido", narrou Dennison. Em outras palavras: "Meu roteiro morreu com o Jece", declarou o jovem roteirista, numa entrevista à revista Rolling Stone em 2007.
Esta notícia criou um clima de comoção no set e de desespero para os produtores, claro. Mojica, então, deu um discurso para toda a equipe dizendo que o filme continuaria em homenagem à memória de Jece, e que seu roteirista iria encontrar uma forma de contornar o "probleminha". Em outras palavras, como se fala por aqui, botou o do Dennison na reta. "Eu queria matar o Mojica, porque ele me botou na obriga na frente de todo mundo!", lembrou Dennison, rindo. "Eu disse que não ia ficar legal isso de botar um outro cara para continuar o trabalho do Jece, tipo um dublê, mas o Mojica veio com a idéia de inventar um irmão para o personagem, e o Paulo achou legal. Mas meu medo era que a figura desse policial do Jece se diluísse se fossem dois. Sorte que o Paulo fez uma montagem muito comprimida, foi hábil, e isso não aconteceu".
Assim, entrou o ator e diretor Adriano Stuart (responsável por divertidas atrocidades como BACALHAU e OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS) como o capitão Oswaldo, que não estava no primeiro roteiro de Dennison. Várias ações que originalmente seriam do personagem de Jece passaram para o "tapa-buraco" Adriano Stuart, entre elas a execução de criancinhas na favela. No fim, Stuart quase rouba o posto de grande vilão do filme, já que também comanda a perseguição final a Zé do Caixão no lugar do falecido. Uma das cenas em que mais é perceptível a ausência de Jece Valadão é justamente a morte do coronel Claudiomiro: um dublê aparece de costas, sendo atingido com um tiro de Zé, num desfecho bastante anti-climático, ainda mais para quem esperava um grande duelo entre os dois personagens.
"A montagem ficou ótima, e na verdade só tem dois planos em que usamos um dublê: na cena em que ele leva o tiro, e na cena que todo mundo corre pela favela atrás do Zé. A gente pegou um velhinho que tinha o corpo parecido com o do Jece. Mas foi foda: quando colocamos o Jece no filme, teve comentários nas listas de discussão como 'Jece Valadão contra Zé do Caixão? Isso é melhor que Marvel versus DC!'", disse Dennison.
O primeiro trailer de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, que vazou na internet em 2007, mostrava algumas cenas que não estão no filme, onde Jece se debatia numa cama de hospital enquanto uma mulher caminhava pelo corredor (veja algumas fotos abaixo, capturadas do trailer). Peço que Dennison explique como seria esta cena.
"Nas primeiras versões do roteiro, a personagem da Cristina Aché [Lucy Pontes, esposa do coronel Claudiomiro] era amante do Zé, teve um caso com ele e queria ser a mulher superior. Tanto que, quando ele saía da cadeia, era a Lucy quem estava lá esperando por ele. A gente filmou isso até, mas ficou muito ruim e tiramos. E também era ela que morria na cena do rato, mas mudamos isso também. A cena do hospital fazia parte deste arco do casal. O coronel perdia o olho, no roteiro original, quando ia para a favela matar as crianças, e aí o Zé do Caixão furava o olho dele. Então tinha a cena no hospital, em que o Jece está com o curativo no olho e quer sair do quarto para matar o Zé, gritando: 'Me soltem que vou matar aquele filha da puta!'. Aí tem um plano da Lucy andando no corredor do hospital até o quarto e, quando ela chega, ele olha e xinga ela, fazendo o espectador entender que Lucy era esposa do coronel", explicou o roteirista, lamentando: "Eu adorava esta cena do hospital, ficou muito engraçada!".
Até o meio da semana, quando terminei de escrever estas linhas, Dennison já tinha visto ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO seis vezes oficialmente - se contabilizarmos todas as vezes que viu durante a pós-produção, passa de 15 vezes! É como um pai que tem orgulho do seu filho, por mais feio que o bebê seja (ou sujo e violento, no caso do filme). Pouca gente sabe, mas ele garante que, no filme, também foi "dublê de corpo" de Mojica em algumas cenas onde só aparece a barriga do Zé do Caixão (como quando o personagem emerge do poço de sangue)!
No momento, ele está na expectativa de obter recursos para dirigir seu primeiro longa-metragem, e ao mesmo tempo termina de escrever o roteiro do novo filme de Mojica, O DEVORADOR DE OLHOS.
Numa conversa telefônica que tive com Dennison esta semana, terminei o papo pedindo que ele dissesse qual a maior asneira e o maior elogio que escutou, até agora, sobre ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. "Asneira é essa coisa de chamar de trash", lascou, sem nem pensar duas vezes. "Eu discordo disso, a obra do Mojica até pode ter momentos trash, mas nenhum dos três filmes do Zé do Caixão merece este comentário. Tantos filmes da Hammer e da American International que têm defeitos e todo mundo chama de clássicos, mas quando chega no Mojica é só trash!", revolta-se.
A fúria de Dennison com o termo pejorativo é antiga. No seu blog sobre as filmagens de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, ele já havia deixado uma mensagem para críticos de cinema e jornalistas brasileiros explicando o que significa, na verdade, um filme trash. Mas, a julgar pela quantidade de abobrinhas que se lê na imprensa, não adiantou. Na entrevista coletiva durante o Fantaspoa, quando assessorou Mojica, ele novamente aproveitou para dar um tapa de luva nos repórteres e voltou a insistir que Zé do Caixão não é trash. Você pode conferir o vídeo deste momento no link abaixo:
Já ao comentar sobre o maior elogio que o filme recebeu, Dennison divertiu-se: "Gostei muito da matéria da revista Carta Capital, que falou do resgate que fizemos do Mojica. Mas o que eu realmente adorei foi quando o Villaça [Pablo Villaça, do site Cinema em Cena] chamou a gente de pornografia-tortura. Cara, é a primeira vez que se fala em torture-porn no Brasil, então, como sempre, o Mojica está na vanguarda! Mas, na verdade, acho que o Villaça é meio desinformado, pois se você pegar só O ESTRANHO MUNDO DO ZÉ DO CAIXÃO, tem cenas de tortura muito antes dessa atual tendência de torture-porn", desabafou.
Dennison Ramalho. Guarde este nome. Se depender dele, o horror nacional está em boas mãos. Ensangüentadas, mas boas mãos.
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