Em comum, eles tem o terrível drama particular vivido pelo personagem
principal, que se envolve numa situação completamente inesperada. No filme
de 1957, dirigido por Jack Arnold, baseado num livro de Richard Matheson, um
homem (interpretado por Grant Williams) começa a encolher após ficar exposto
a uma nuvem radiativa, num processo irreversível que o coloca frente à
perigos mortais como seu gato de estimação ou uma simples aranha no porão. O
personagem tem que lutar por sua sobrevivência e aceitar sua nova condição
encarando as novas realidades à medida que encolhe e participa de novos
mundos. Já o filme de 1977, dirigido e escrito por William Sachs, traz um
astronauta (Alex Rebar) que retorna de uma missão espacial nos anéis de
Saturno como o único sobrevivente da expedição e trazendo consigo uma doença
misteriosa que literalmente derrete seu corpo aos poucos, deformando sua
mente e transformando-o num assassino gosmento.
“O Incrível Homem que Derreteu” foi lançado no mercado brasileiro de vídeo
VHS pela Globo, mas já está há muitos anos fora de catálogo,
transformando-se numa enorme raridade para os fãs do gênero.
O drama do astronauta Steve West começa logo quando sua nave retorna de
Saturno. Como único sobrevivente da missão e com o corpo todo coberto de
feridas pútridas, ele acorda no leito de um hospital do exército todo
enfaixado, com o governo mantendo em sigilo o fracasso da expedição e a
morte dos astronautas, isolando a imprensa e a população dos fatos reais.
Ao descobrir o estado deformado de seu rosto e mãos, o astronauta se rebela
furiosamente e ataca uma enfermeira, matando-a de forma violenta e fugindo
desorientado do hospital, vagando sem rumo pela floresta vizinha (esses
filmes são super divertidos justamente pelas cenas absurdas do roteiro como
nessa sequência que é bem inverossímil, pois só há uma única enfermeira no
local e o assassino consegue fugir pelos corredores desertos do hospital com
extrema facilidade).


Caminhando pela floresta desnorteado por descobrir sua real condição de
“homem derretido”, o astronauta Steve encontra um pescador e arranca sua
cabeça com as mãos, jogando-a num riacho. Essa cena de horror é de forte
impacto, principalmente para a época da produção, e foi bem explorada
mostrando a cabeça decepada do pescador descendo o rio até uma pequena
cachoeira e se espatifando contra uma pedra, jorrando sangue para todos os
lados.
A mente decomposta do astronauta incitou nele um instinto selvagem para
matar e a cada nova vítima ele ganhava mais força para continuar vivo. Para
perseguí-lo, surgem então o médico Dr. Ted Nelson (Burr DeBenning) e o
militar do exército General Perry (Myron Healy), amigos de Steve e que
tentam capturá-lo antes que ocorram mais mortes e possam descobrir a razão
de sua doença para tentar uma cura, cuidando também para que o caso seja
devidamente abafado e não venha ao conhecimento geral. Porém, antes de
encontrar o astronauta, o assassino ainda aumenta sua ficha criminosa
retalhando um casal de idosos que inadvertidamente parou seu carro numa
estrada deserta e escura para pegar limões num pomar.
Derretendo cada vez mais a ponto de perder uma orelha ao encostar numa
árvore, e deixar fluídos de seu corpo pingando pelo caminho, o astronauta
ainda mata o General Perry e ataca um jovem casal de namorados que chegava
em casa, matando o rapaz. Nessa sua última empreitada, ele perde o braço
esquerdo num golpe de faca da jovem Mel Winters, que sobrevive mas torna-se
histérica após o confronto.
Continuando a perseguição estão o Dr. Nelson e agora o xerife da cidade Will
Blake (Michael Alldredge), que conseguem localizar o astronauta derretido
nas instalações de uma fábrica. É noite, o ambiente está escuro mas eles
encontram Steve tentando fugir. O xerife é então violentamente morto ao ser
jogado do alto de uma plataforma e sendo eletrocutado por fios de alta
tensão que incendeiam seu corpo. Outros dois policiais aparecem e também são
mortos, porém um deles consegue disparar um tiro certeiro no Dr. Nelson
matando-o na hora, no momento em que ele tentava interceptar a ação dos
policiais contra o astronauta enfurecido.
Após a tentativa fracassada em capturar Steve, ele consegue fugir de seus
perseguidores mas não por muito tempo. O processo de derretimento atinge o
seu clímax máximo e ele encosta-se próximo a uma lata de lixo e agoniza
lentamente derretendo numa massa gosmenta de carne, ossos e sangue.
No dia seguinte pela manhã, um faxineiro aparece para o trabalho na fábrica
e vê a enorme sujeira ao lado da lata de lixo, aquilo que um dia foi um
homem, e calmamente pega uma vassoura e pá e inicia a faxina. Enquanto isso,
uma segunda missão espacial tripulada com destino à Saturno levanta vôo,
ignorando as trágicas consequências da expedição anterior as quais estavam
sendo secretamente escondidas pelo governo.
Um final “não feliz” no melhor estilo, pois todos morreram, principalmente o
astronauta num sofrimento incrível sentindo em seu corpo um processo de
derretimento contínuo, e tudo ocultado secretamente numa verdadeira
conspiração governamental (daria uma boa idéia de argumento para um episódio
de “Arquivo X”). E o que sobrou do “homem derretido” sendo literalmente
varrido para o lixo. Um final excepcional para um filme super interessante.
Como curiosidades, temos uma sequência onde o assassino derretido encontra
uma menina na floresta e ela saí correndo procurando por sua mãe gritando
que havia visto o “Frankenstein”. Essa é uma confusão frequente envolvendo
esse famoso personagem do cinema de horror. Na verdade, Frankenstein é o
nome do cientista que criou o monstro, e este passou a ser chamado de a
“criatura de Frankenstein”.
Um pouco antes dessa sequência podemos ver um grupo de três jovens crianças
tentando fumar um cigarro, numa cena politicamente incorreta, principalmente
naquela época dos anos 1970.
O filme foi filmado a cores e as cenas envolvendo o maníaco gosmento
ganharam uma intensidade muito forte, evidenciando uma massa disforme de
sangue, carne e todos os tipos de fluídos melequentos e repugnantes, algo
significativo para a época. Isso é o resultado da excelente maquiagem e
efeitos especiais de Rick Baker, que mais tarde se notabilizaria por seus
magníficos trabalhos em “
Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), “
Lobo”
(1994) e “Planeta dos Macacos” (2001), citando apenas alguns exemplos.
Para um filme cuja intenção não é apresentar um simples “serial killer” de
adolescentes em férias como no posterior “
Sexta-Feira 13” (1980), o
astronauta Steve West, “
O Incrível Homem que Derreteu”, não fica muito
atrás, pois num curto período de tempo (uma única noite), ele matou
violentamente nove pessoas.
Em todas a cenas envolvendo o astronauta caminhando em seu martírio
solitário e derretendo de forma asquerosa, podemos ouvir sua respiração
ofegante traduzindo seus gemidos de dor e desorientação do mais puro e
absoluto sofrimento.
Enfim, “
O Incrível Homem que Derreteu” é mais uma pérola do cinema
fantástico, que apesar da produção de baixo orçamento, atores desconhecidos
e alguns furos no roteiro com situações inverossímeis, tem qualidades e
interesses que o colocam em destaque na filmografia de ficção científica e
horror dos anos 1970, e deve ser sempre enaltecido e reverenciado como um
interessante filme de entretenimento.
O INCRÍVEL HOMEM QUE DERRETEU(The Incredible Melting Man, EUA, 1977) –
cores, 83 minutos, VHS – Globo Vídeo.
Direção e Roteiro: William Sachs. Produção Executiva: Al Burgess & Paul Gwynn.Produção:Kevin Attew & Don Hawkins.
Efeitos Especiais e Maquiagem Rick
Baker.
Elenco: Alex Rebar, Burr DeBenning, Myron Healey, Michael Alldredge,
Ann Sweeny.
Texto: Renato Rosatti