DIA DOS NAMORADOS MACABRO

Por Felipe M.Guerra

Quando a Censura mutila mais do que o assassino do filme...

Comemorar qualquer data festiva nos Estados Unidos é um hábito arriscado: você pode ser impiedosamente esquartejado por um assassino psicopata mascarado, que considera aquele o "seu dia", elegendo a data para atacar e fazer suas vítimas. Se for no Dia das Bruxas, é o Michael Myers, da série HALLOWEEN. Se for numa sexta-feira 13, quem ataca é o Jason Voorhees, da interminável franquia do mesmo nome. Mas há outros psicopatas menos ilustres para as diversas datas: 1º de abril (em A NOITE DAS BRINCADEIRAS MORTAIS), Natal (a franquia NATAL SANGRENTO), réveillon (em RÉVEILLON MALDITO), Páscoa (em PRAIA DO PESADELO, de Umberto Lenzi), e até o Dia das Mães, além de outras datas menos célebres.
Sobrou até para o Dia dos Namorados. Se você quiser festejar a data com sua namorada, tenha muito cuidado, pois é neste dia que o maligno Harry Warden sai às ruas, com sua picareta suja de sangue, vestido com roupa de minerador, louco para mutilar e arrancar o coração de vítimas inocentes. É essa a essência de DIA DOS NAMORADOS MACABRO (My Bloody Valentine), feito em 1981, no Canadá. Como pode-se perceber pelo resumo da trama, nada de novo. Entretanto, o filme é divertidíssimo!



Quem nunca viu e for assistir hoje, com certeza vai achar uma porcaria, alegando que o filme é repleto dos mais batidos clichês do subgênero "slasher". Claro que sim! Mas o que é preciso salientar é que o filme foi feito lá atrás, entre os primeiros slasher movies produzidos, na linha do sucesso de HALLOWEEN e SEXTA-FEIRA 13. Isso há mais de 20 anos! Claro que a maioria das situações hoje é conhecida e virou clichê. Por exemplo, lá pelas tantas, algum personagem secundário começa a contar a "assustadora" história da cidade para os jovens, relatando a lenda de Harry Warden, e entram cenas em flashback com uma musiquinha assustadora (um clichê máximo do gênero). E o que dizer do assassino mascarado cuja identidade é desconhecida? E do casal atravessado por uma lança enquanto faz amor? E dos jovens que não ouvem os conselhos dos adultos e se ferram? E do cara que só faz brincadeiras e acaba levando a pior? E das mortes criativas? E do final, escancarado para uma continuação??? Pois é, escolha o seu clichê.
DIA DOS NAMORADOS MACABRO também tenta uma variação na arma utilizada por seu assassino. Em cada filme, os psicopatas costumam ter seu brinquedinho preferido, como faca de cozinha, facão, serra elétrica, furadeira (na série SLUMBER PARTY MASSACRE) e até arma de pregos! Aqui, Harry Warden usa uma pontiaguda picareta, que serve para furar e eviscerar as vítimas.
O filme começa com dois mineiros explorando os escuros túneis de uma mina, cobertos da cabeça aos pés. Então, um deles começa a tirar a roupa... é uma mulher! Pinta aquele clima, a garota fica só de sutiã (tem uma tatuagem de coração num dos seios), tenta tirar a máscara do companheiro, mas ele se recusa. E quando ela baixa a guarda, o outro minerador a atravessa com a picareta pelas costas, fazendo a ponta sair bem no meio da tatuagem, na frente! Um superclose na boca da vítima gritando e entra o título MY BLOODY VALENTINE.
Nos Estados Unidos, o Valentine´s Day é comemorado no Dia de São Valentim, que é 14 de fevereiro (e não em 12 de junho como acontece no Brasil; aqui, o Dia dos Namorados foi "importado" nos anos 40 e encaixado em junho, porque era um mês fraco de vendas para o comércio). No filme, dia 14 cai num sábado, justamente para fazer citação a uma "sexta-feira 13" (o filme original da série foi lançado em 1980, com grande sucesso). Na verdade, a contagem de dias não faz a menor diferença.



Logo ficamos sabendo que a pequena cidadezinha canadense de Valentine Bluff (cujo slogan é "Uma pequena cidade de grande coração") tem como grande evento um famoso baile de Dia dos Namorados, realizado há mais de 100 anos. Entretanto, nas últimas duas décadas, a festa não aconteceu. Por quê? Ah, ninguém conta. Quem vai explicar é o personagem que relata a história em flashback, mais adiante. Mas o prefeito pretende retomar o baile, depois de 20 anos sem realizá-lo. Então todo mundo está eufórico, decorando ruas, casas e o salão onde acontecerá o evento. A cidade é tão pequena que, curiosamente, 90% dos personagens do filme trabalham em uma velha mina!
Estes são todos jovens, como TJ (Paul Kelman), filho do prefeito, que tentou buscar a sorte na cidade grande e se ferrou, voltou para o lugarejo e descobriu que sua namorada, Sarah (Lori Hallier), agora namora seu amigo, Axel (Neil Affleck). E há outros casaizinhos secundários, que só servem para o "body count".
O horror começa quando o prefeito recebe uma caixa de bombons em forma de coração. Ao abrir, louco de vontade de saborear os doces, descobre que o conteúdo é um pouco indigesto: um coração humano ensangüentado (ora, se a caixa é em formato de coração, pelo menos não podem acusar o assassino de propaganda enganosa!). Junto com a caixa, um cartão com versinhos ameaçadores. Mais adiante, uma velha senhora que cuida da decoração da cidade para o Dia dos Namorados também é morta (e encontrada dentro da secadora de roupas, em outro clichê máximo do gênero), fazendo com que o prefeito e o delegado cancelem a festa.



Os jovens ficam revoltados e então o tal sujeito que existe só para contar a história em flashback aparece explicando a lenda de Harry Warden. Segundo o tal cara, 20 anos antes (não perca as contas, é 1961!), toda a cidade se divertia no baile de Dia dos Namorados enquanto um pequeno grupo de trabalhadores continuava na mina. Os dois supervisores da mina saíram para o baile e deixaram o grupo lá embaixo, sem controlar os níveis de gás metano. Resultado: o lugar explodiu, soterrando o grupo. A maioria teve morte instantânea, mas Harry Warden sobreviveu. Foi encontrado semanas depois do acidente, devorando o cadáver de um dos companheiros (uma cena sempre cortada na exibição do filme na TV).
Para o grupo de rapazes e moças, tudo é bobagem. Eles resolvem, então, fazer sua festa em segredo, no refeitório da velha mina. E para lá vão. Mas o maléfico Harry Warden estará os aguardando, com sua picareta suja de sangue, matando os jovens um a um. O roteiro perde algum tempo precioso enfocando o triângulo amoroso formado por TJ, Alex e Sarah - o pior é que a mocinha não se decide por um deles, fazendo com que a dupla passe o filme todo brigando, como o Pato Donald e o Gastão disputam a Margarida, nos quadrinhos Disney.
DIA DOS NAMORADOS MACABRO é um bom filme, descontando os exageros e bobagens típicas dos slasher movies. Há uma cena climática quando uma garota é perseguida pelo assassino e bombardeada com roupas de mineradores, que caem penduradas do teto sobre a sua frente, barrando o caminho. No final, um grupo de jovens desce até os corredores escuros da mina, onde Warden está esperando com sua picareta. Minha cena preferida é aquela em que o grupo precisa subir uma escada enorme e, quando estão quase no fim, uma vítima do assassino é atirada lá de cima, amarrada pelo pescoço, dando um banho de sangue nas moças que estão na escada!
A caracterização do assassino - vestido como mineiro da cabeça aos pés, e com um tubo de oxigênio que o deixa com uma respiração tipo Darth Vader - é criativa. Uma boa sacada é aproveitar o capacete do mineiro, com uma luz em cima, para apavorar o espectador - e as vítimas do filme. Por exemplo, às vezes alguém vira uma esquina e de repente vem aquela luz na cara, deixando a vítima totalmente desorientada e sem ação. Agora, uma dúvida: se o psicopata deixa aquela luz ligada o tempo inteiro, como sempre consegue se esconder na escuridão? Outra dúvida: sendo que a real identidade do assassino é um dos jovens do grupo, como ele consegue trocar de roupa tão depressa para numa hora estar misturado ao seus amigos e na outra estar trajado como mineiro psicopata? Um verdadeiro "The Flash" assassino!
Pois é, acabei entregando o “segredo” do final: Harry Warden não é o assassino (se fosse, qual a finalidade do cara continuar mascarado se todo mundo conhecia sua cara?). A revelação do "verdadeiro" assassino acontece só no final, e é um tanto estranha, pois o fulano agiu normalmente o filme inteiro, e, assim que é desmascarado, começa a se comportar como um débil mental, cantando músicas infantis e gritando feito louco! Também é de se questionar porque o tal cara esperou tanto tempo para concretizar sua vingança (sim, é uma história de vingança), e o porquê de assassinar pessoas que não tinham nada a ver com seu trauma de infância (sim, também tinha que ter um trauma de infância!).



Mas o mais curioso é o final aberto, onde o assassino sobrevive, amaldiçoando a cidade e prometendo voltar para matar mais. Não por acaso, 20 anos depois, em 2001, o diretor George Mihalka apresentou para a Paramount seu projeto para uma seqüência de DIA DOS NAMORADOS MACABRO. Infelizmente, o estúdio alegou que o original era um filme "pouco conhecido" e sua bilheteria irrisória nos anos 80 não justificaria uma seqüência. Pena, porque esta é uma seqüência que eu realmente queria ver. Já imaginaram Harry Warden atacando no século 21, numa época de Internet, realidade virtual, drogas e rebeldia juvenil?
Por falar em Mihalka, este é seu filme mais famoso. Ele fez vários outros, mas nunca com a mesma projeção, perdendo-se depois em produções para a TV. O elenco não teve melhor sorte, mas alguns se deram bem. Por exemplo, Neil Affleck, que interpreta Alex, abandonou o cinema, mas foi diretor de vários episódios das primeiras temporadas do desenho OS SIMPSONS! Outro que se deu bem foi Alf Humphreys, que interpreta Howard (o rapaz enforcado na escada). Depois desse, fez mais 60 filmes, interpretando desde um policial em RAMBO (1982) até o papel de William Drake no recente X-MEN 2. Também apareceu em PREMONIÇÃO 2.
DIA DOS NAMORADOS MACABRO não chega aos pés de outros slasher movies feitos no período. SEXTA-FEIRA 13 e CHAMAS DA MORTE (The Burning), da mesma época, são bem superiores. Entretanto, esta produção canadense fica anos-luz à frente de qualquer bobagem feita recentemente no subgênero "slasher".
Infelizmente, DIA DOS NAMORADOS MACABRO só circula numa versão altamente censurada, que foi lançada em vídeo no Brasil nos anos 80 e em DVD nos EUA recentemente (e também é a mesma exibida na TV brasileira). A Paramount simplesmente se recusa a reeditar o filme com os nove minutos que foram cortados lá em 1981, e que continham sangue e violência em excesso (os cortes foram feitos para que a produção não acabasse com uma classificação X, igual à dos pornôs, pelo excesso de sangreira; na mesma época, SEXTA-FEIRA 13 PARTE 2 também sofreu severos cortes e nunca circulou em edição sem censura).



É uma verdadeira lástima saber que na Ásia, por exemplo, DIA DOS NAMORADOS MACABRO está disponível em versão "uncut", e por aqui não. Algumas cenas ficam completamente sem sentido, tipo o final, onde o assassino corta fora um dos seus braços para conseguir escapar (isso fica apenas sugerido, já que o braço decepado é mostrado beeeeeem de relance!). Outras mortes foram tão reduzidas que ficaram mais sem graça que teatrinho de colégio (veja mais abaixo). Nesse filme, a tesourinha da censura fez muito mais estrago que a picareta de Harry Warden... Será que algum dia veremos DIA DOS NAMORADOS MACABRO em versão integral?
Como curiosidade, existe uma banda de rock chamada MY BLOODY VALENTINE, em homenagem ao filme. Outra curiosidade é que, recentemente, aproveitando a onda "slasher teen" deflagrada por PÂNICO, tentaram fazer uma nova versão do filme (não diria refilmagem porque o roteiro de um não tem nada a ver com o outro). Trata-se de VALENTINE, batizado aqui como O DIA DO TERROR, onde um assassino com máscara de querubim ataca casais no Dia dos Namorados. Com direção do péssimo Jamie Blanks (de LENDA URBANA), o filme é um fiasco completo, um dos piores filmes de horror dos últimos anos. A crítica da bomba está no final deste artigo. Divirta-se!
E cuidado ao comemorar o próximo Dia dos Namorados... Harry Warden pode estar espreitando para acabar com sua festa. Se receber uma caixa de bombons em forma de coração, na dúvida, NÃO ABRA!
FESTIVAL DE CORTES


Segue abaixo, uma relação das cenas que NÃO vimos na versão comercial de DIA DOS NAMORADOS MACABRO, atualmente a única versão existente. Todas as cenas foram retiradas pelo estúdio americano Paramount com a intenção de receber uma certificação mais branda da censura - e conseqüentemente ter um melhor desempenho nas bilheterias. A fonte é o site IMDB (Internet Movie DataBase). Todas estas cenas cortadas perfazem um total de 8 a 9 minutos a mais. O produtor do filme, John Dunning, disse ter todas elas guardadas à espera do lançamento de uma edição especial do filme, mas alegou que a Paramount não tem interesse em fazer isso por ora. Assim, torçam para um dia vermos o filme em versão integral.

(ATENÇÃO: NÃO CONTINUE LENDO SE AINDA NÃO VIU O FILME!)

- O INÍCIO: Quando Harry empurra a garota sobre a picareta cravada na parede, originalmente haveria uma cena mostrando a ponta da picareta atravessando na frente e sangue jorrando sobre o assassino.

- MABEL: O corpo mutilado de Mabel, encontrado dentro de uma máquina secadora de roupa, era mostrado em cena por bem mais tempo. Com a censura, é visto apenas de relance por meio segundo.

- A MORTE DO BÊBADO: Na versão comercial, um bebum vai até o local onde os jovens irão organizar sua festa e monta um manequim vestido de mineiro na porta principal. A intenção era que os jovens levassem o maior cagaço ao abrir a porta. Entretanto, ao testar sua "armadilha", o bêbado se depara não com o boneco, mas sim com o verdadeiro Harry Warden, que o atinge com um golpe de picareta (off-screen) e depois arrasta seu corpo pelo chão com a picareta atravessada na cabeça (isso é mostrado bem de relance). Na versão sem censura, a câmera mostraria que o bêbado levou a picaretada na cabeça, inclusive fazendo um dos seus olhos sair da órbita!

- A MORTE DE DAVE: O pobre Dave ia pegar uma salsicha na panela com água fervendo para fazer um cachorro-quente quando Harry se aproxima por trás e enfia sua cabeça na panela. A cena acaba por aí na versão comercial, fazendo-nos acreditar que ele morreu com a cara cozida, certo? (seu cadáver é mostrado posteriormente). Mas na versão sem cortes, aparecia uma cena em que o assassino puxa a cabeça de Dave para fora da panela, mostrando a pele cozida se soltando do rosto.



- A MORTE DO CHUVEIRO: Harry Warden agarra uma garota chamada Sylvia e segura-a com as duas mãos pela cabeça, aproximando-se de um chuveiro ligado. A cena corta aí na versão comercial. Mais tarde, seu namorado vai procurá-la e um vulto da cabeça atravessada no chuveiro aparece bem de relance no canto da tela, como uma sombra. Na versão sem censura, seria mostrada a cabeça atravessada no chuveiro mais graficamente.

- A MORTE DE HOLLIS: O assassino dispara pregos na testa do rapaz com uma pistola de pregos. O estúdio usou o som dos pregos sendo disparados e aproveitou uma cena de arquivo, mostrando um close da lâmpada no capacete de Harry Warden. Entretanto, originalmente, era para aparecer um close do rosto de Hollis coberto de sangue, cena cortada.

- A MORTE DE HOWARD: Uma das cenas mais legais do filme é aquela em que Howard é atirado da escada com uma corda no pescoço. Na versão comercial, Howard cai, é rapidamente enforcado e então a câmera focaliza seu cadáver caindo no fundo do poço. Quem olhar com atenção verá que o cadáver está decapitado, sem entender o porquê. Acontece que, originalmente, o rapaz não só ficava pendurado pela corda como tinha sua cabeça decepada devido à violência do enforcamento!!! A cena da cabeça sendo separada do restante do corpo foi cortada, estragando a piada de humor negro feita 10 minutos antes, quando um amigo diz à futura vítima que ela "perderia sua cabeça se não estivesse grudada". hahahahaha.



- O FINAL: Logo depois do assassino ser atingido pelo desmoronamento da mina, um grupo de trabalhadores vai até lá e começa a retirar as pedras. Eles então encontram uma mão em meio aos escombros. Tentam puxa-lo para fora, e escutam uma risada. Ao abrir o túnel, vêem o assassino sair correndo pelo túnel escuro, rindo e ameaçando voltar em breve. Quem olhar com atenção, vai perceber que o vulto do assassino parece estar sem um dos braços. Pois foi isso mesmo que aconteceu: cortaram a cena onde ele decepa o próprio braço, preso em meio às pedras, para conseguir escapar!

DATAS MORTÍFERAS


Quem avisa, amigo é: nunca comemore certas datas nos Estados Unidos, ou você pode entrar como alvo da vingança de um assassino demente. Confira alguns feriados e datas comemorativas que já viraram desculpa para o ataque de serial killers no cinema americano:

HALLOWEEN (1978, EUA)
Direção: John Carpenter. Com: Jamie Lee Curtis, Donald Pleasence, Nancy Loomis, P.J. Soles e Charles Cyphers.
Os americanos comemoram no dia 31 de outubro o Halloween, também chamado Dia das Bruxas - a tradição agora está sendo importada para o Brasil, país sem cultura que precisa copiar a dos outros. Foi nesta data, em 1963, que um garotinho chamado Michael Myers decidiu assassinar a irmã adolescente Judith. Mandado para um manicômio, ficou preso por vários anos até chegar à idade adulta, quando escapou para perseguir a irmã Laurie Strode e completar a chacina total da família, sendo obsessivamente perseguido pelo seu psiquiatra, o dr. Loomis. O clássico de Carpenter lançou um milhão de clichês (assassino mascarado imortal; adolescentes perseguidos por maníaco; assassinatos em uma data específica, etc. etc.), mas até hoje este clássico permanece imbatível. Teve sete seqüências (a parte 3 não tem relação com Michael Myers) e manteve sua essência: Michael sempre atacou no Halloween.

SEXTA-FEIRA 13 (Friday the 13th, 1980, EUA)
Direção: Sean S. Cunningham. Com: Adrienne King, Harry Crosby, Betsy Palmer e Kevin Bacon.
Sexta-feira 13, um dia considerado azarado pela maioria das culturas ocidentais, também é a data de aniversário de Jason Voorhees, um menino que morreu afogado nas águas do acampamento Crystal Lake, devido à desatenção dos monitores. Para "comemorar" a data, sua mãe, Pamela, aproveitou uma sexta-feira 13 em 1980 para esquartejar diversos jovens que estavam pensando em reabrir o acampamento. Este filme foi um sucesso de bilheteria e lançou a maior franquia do horror de todos os tempos. Tudo bem que nem é Jason quem mata no primeiro filme, e que nas nove continuações seguintes ele passaria a atacar em qualquer data, mesmo que não fosse sexta-feira 13. Mas o charme desta tralha de franquia persiste até hoje, sobrepujando a ruindade dos realizadores e dos enredos.

NATAL SANGRENTO (Silent Night, Deadly Night, 1984, EUA)
Direção: Charles E. Sellier Jr. Com: Lilyan Chauvan, Gilmer McCormick, Toni Nero e Robert Brian Wilson.
Pois é, os americanos conseguiram transformar até Papai-Noel em assassino... Tudo começa quando um garoto vê sua família ser assassinada por um bandido vestido como Papai-Noel. Aquilo fica gravado na sua cabecinha. Para piorar, no internato para onde ele é mandado, uma velha freira faz com que o garoto associe sexo ao pecado. Assim, ele cresce com todo tipo de trauma e paranóia. Já adulto, vai trabalhar em uma loja de brinquedos e é forçado, pelo patrão, a vestir uma fantasia de Papai-Noel no Natal. Vira um psicopata descontrolado e sai matando meia cidade. Apesar do enredo, o filme é fraco e chatinho, com alguns poucos bons momentos envolvendo a figura de "bonzinho" do Papai-Noel. Teve quatro continuações, sendo que apenas as duas primeiras têm relação com a história do original.

RÉVEILLON MALDITO (New Year´s Evil, 1981, EUA)
Direção: Emmett Alston. Com: Roz Kelly, Kip Niven, Chris Wallace, Grant Cramer e John London.
Em plena noite de Ano Novo (31 de dezembro), em Nova York, uma DJ recebe um telefonema ameaçador de um psicopata, dizendo que a cada momento que o relógio soar em alguma das áreas dos EUA, ele irá matar uma pessoa - por exemplo, uma vítima no horário do Pacífico, outra no horário do Leste, e por aí vai -, deixando a pobre moça como a última vítima daquele réveillon. Uma interessante variação de HALLOWEEN, onde novamente o assassino é mostrado como um tipo de "mal absoluto", semelhante a Michael Myers. Fita difícil de encontrar nas locadoras, mas vale uma olhada.

A NOITE DAS BRINCADEIRAS MORTAIS (April Fool´s Day, 1986, EUA)
Direção: Fred Walton. Com: Deborah Foreman, Griffin O´Neal, Clayton Rohner e Thomas F. Wilson.
O mané que traduziu o título para o Brasil achou que DIA DA MENTIRA ou 1º DE ABRIL não era um bom nome para o filme e mandou a bobagem sobre BRINCADEIRAS MORTAIS. É no Dia da Mentira que uma garota rica convida um grupo de amigos para passar um final de semana numa ilha, onde seus pais têm um casarão. No local, todos viram alvos de um assassino misterioso, que os mata um a um. Trata-se de uma das boas cópias de HALLOWEEN, com personagens carismáticos, mortes criativas e suspense, sem apelar para a história do "assassino imortal". Como 1º de abril é Dia da Mentira, é bom não se surpreender com o final. hehehehehe

A PRAIA DO PESADELO (Nightmare Beach, 1988, EUA)
Direção: Harry Kirkkpatrick (Umberto Lenzi). Com: Nicolas De Toth, Sarah Buxton, Lance Le Gault, Michael Parks e John Saxon.
O diretor italiano Umberto Lenzi (mais conhecido por CANNIBAL FEROX) dirigiu esta pérola nos Estados Unidos e até assinou com pseudônimo, talvez por vergonha da bomba que ficou. Começa mostrando a execução do líder de uma gangue de motoqueiros, numa praia americana, na véspera de Páscoa. Mas um motoqueiro de roupa preta ataca no feriado, matando adolescentes bobalhões, sempre com fogo. Os efeitos especiais são paupérrimos e a identidade do psicopata, revelada no final, não convence ninguém. Sem contar que a relação com a Páscoa é totalmente gratuita!

MOMMY 2: O DIA DAS MÃES (Mommy 2: Mommy´s Day, 1997)
Direção: Max Allan Collins. Com: Patty McCormack, Rachel Lemieux, Paul Petersen e Gary Sandy.
Continuação de MOMMY (feito em 1995 pelo mesmo diretor), sobre mamãe assassina que, aqui, ataca no seu dia especial. Os dois filmes são de baixíssimo orçamento e, até onde eu sei, não foram lançados no Brasil em vídeo ou DVD. Foram reprisados várias vezes no Telecine, mas nunca consegui assistir. A fama da série é péssima nos States.
UM OUTRO DIA DOS NAMORADOS MACABRO


O DIA DO TERROR é um daqueles filmes que, quando sobem os créditos finais, deixam você imaginando como é que tanta gente talentosa se envolve (e financia) uma porcaria tão grande. Pior: como tanta gente gosta e sai em defesa dessa bomba quando a gente fala mal dela. É tão ruim que chega a ser insuportável. A idéia nem é muito original, já que plagia o anterior DIA DOS NAMORADOS MACABRO. Mas perde feio para este, e também para qualquer SEXTA-FEIRA 13 e imitações. Isso porque existe uma certa discrição nas cenas de morte e violência, como acontece na maioria dos filmes de terror de hoje. Pouco ou nenhum sangue aparece, com assassinatos tímidos, cortes rápidos e poucos efeitos especiais. Os machados cravados em corpos e cabeças cortadas não são suficientes para agradar quem cresceu vendo as carnificinas perpretadas por Jason, Michael Myers, Freddy Krueger e Leatherface: são cenas muito mixurucas, como se o diretor tivesse "medo" de chocar o público.
Ao invés de um mineiro assassino, como em DIA DOS NAMORADOS MACABRO, temos aqui um jovem nerd, Jeremy Melton, que é ridicularizado por um grupo de meninas no baile de formatura. Acusado de ter abusado de uma delas, é expulso do colégio e sua vida vira um inferno. Logo a história dá um salto no tempo e mostra as meninas mais velhas. Uma delas é despachada já no começo, em uma cena bem filmada usando um necrotério como cenário. Bem filmada, mas completamente absurda (mais comentários adiante). Em seguida, as sobreviventes começam a receber cartões de dia dos namorados com ameaças (tipo em DIA DOS NAMORADOS MACABRO), além de bombons cheios de vermes e outras gracinhas do gênero. A matança é entrecortada por diversas cenas enfadonhas mostrando o dia-a-dia xarope das meninas. Elas são tão chatas que o espectador torce para que o assassino apareça e mate logo todas.



Existe uma diferença grande entre contar uma história e enrolar o espectador. Aqui o diretor Jamie Blanks (do também péssimo LENDA URBANA) pensou estar contando uma história ao estender o roteiro entre uma morte e outra, mostrando os dramas das meninas, como aquela às voltas com o namorado alcoólatra (o Angel da série de TV), e a gordinha que se sente isolada das amigas gostosonas e consegue um namorado, mas que só quer roubar seu dinheiro. Na verdade, Blanks enrola até não poder mais, sem conseguir que o espectador se interesse por qualquer uma destas sub-tramas paralelas, de tão forçadas e mal-encenadas que são. Assim, o filme não tem surpresas e nem um pingo de ousadia ou criatividade, preferindo reutilizar (muito mal) todos os clichês do gênero, de assassinos mascarados a pessoas burras que entram sozinhas em lugares escuros.
A única criatividade é no visual do assassino, com uma máscara de querubim. Entretanto, fere violentamente a lógica: no final, durante uma festa na casa de uma das garotas, o assassino anda para lá e para cá com tão exuberante vestimenta e ninguém é capaz de perceber sua presença e achar estranho o fato de um mascarado rondar a casa?
Também existe em O DIA DO TERROR uma praga típica da série SEXTA-FEIRA 13, quando o roteirista coloca diversos personagens sem razão de existir na trama, apenas para morrerem. É o caso do tal namorado da gordinha, que só pensa no seu dinheiro. E de uma ex-namorada do mesmo rapaz, que tenta alertar a nova vítima do golpista sobre o perigo que ela corre namorando o sujeito. Ambos vão para a faca, mas não existia razão para existirem (muito menos para morrerem) na trama, que na verdade trata de vingança. Sendo uma vingança que tem seus alvos bem definidos (não, não vou dar os detalhes sobre esta parte da "trama"), não haveria necessidade de matar quem não tivesse nada a ver com ela, certo? Pois na prática não é o que acontece, e o assassino perde seu tempo (e nós o nosso) matando mesmo quem não não tem nada a ver com seus alvos prioritários.
O péssimo roteiro tenta fazer o espectador acreditar, durante todo o filme, que o assassino é mesmo Jeremy Melton, o nerd que foi maltratado no início, pois tanto ele quanto o matador têm uma característica em comum: sangramento nasal em momentos de tensão. Isso provoca certa surpresa quando a identidade do assassino é revelada, no final. Entretanto, por trás da máscara esconde-se uma personagem que de nenhuma forma teria motivo para matar tanta gente, e muito menos condições para mostrar-se tão ameaçador e frio na hora de matar (vejam e confiram). É um furo enorme no roteiro, por isso recuso-me a acreditar na solução apresentada.
Outro furo é que a vingança arquitetada pelo assassino não é tão bem planejada, pois ele mata uma das meninas da sua lista logo no começo, e depois passa o resto do filme ameaçando as demais. Não seria mais lógico ele começar com as ameaças para todas elas antes, ao invés de matar uma logo de cara, provocando até mesmo a intervenção da polícia?
Enfim, não existe nenhuma surpresa na história, e também tem todas aquelas situações forçadas que os filmes de terror insistem em mostrar pensando que o espectador é bobo. No começo, por exemplo, uma futura vítima está pronta para dissecar um cadáver (nu) no necrotério, quando este subitamente começa a respirar. Trata-se do assassino, que tirou a roupa e deitou no lugar do cadáver apenas para dar um susto na menina e na platéia - por que?, eu me pergunto, se era muito mais fácil simplesmente chegar por trás e cortar logo o pescoço dela???? Mas o mais curioso é que na cena seguinte o matador já aparece completamente vestido, com casacão, calças, sapatos e sua máscara de anjinho. Ou seja, vestiu-se em tempo recorde!
Outra cena forçada é aquela em que as meninas vão visitar uma exposição de "arte" onde estão dezenas de pessoas. Uma delas se perde do grupo e de repente os corredores da mostra artística viram labirintos, até que a pobre garota cai nas garras do assassino e é morta a flechadas. Será que em uma mostra de arte com vários convidados e curiosos seria possível criar, em poucos minutos, um labirinto, e ainda andar de um lado para o outro com uma máscara de anjinho e um arco-e-flecha sem ser notado??? Neste caso, o assassino teve mais sorte do que juízo, pois a mocinha presa no seu "labirinto" nem ao menos gritou por ajuda, alertando os outros convidados da mostra de arte. Vê se dá para agüentar. E por fim, tem uma cena onde oassassino prende uma menina na banheira de hidromassagem e, do nada - e do nada MESMO -, tira uma furadeira elétrica, que usa para fazer furos na tampa que impede a vítima de sair da banheira!!! Sem comentários...
O DIA DO TERROR não convence nem com presenças de atores que poderiam estar fazendo coisa bem melhor, como David Boreanaz (da série ANGEL) e a bela Denise Richards (de TROPAS ESTELARES, desperdiçada em papel secundário). Merece um prêmio também o artista que traduziu DIA DOS NAMORADOS para O DIA DO TERROR... Deve ter sido um cara sem namorada, pois para ele o Dia dos Namorados é um terror (essa foi infame, mas o título nacional é bem mais!). Por essas e por outras fica bem difícil de engolir esse filme bem chatinho, que NÃO agrada nem mesmo os fãs de terror adolescente, pois é muito óbvio e banal, um típico PÂNICO da vida. Os roteiristas deviam botar a cabeça para funcionar e bolar historinhas mais consistentes, pois do jeito que estão fazendo qualquer pobre coitado pode ser o assassino. Nota zero.

Felipe M.Guerra


DIA DOS NAMORADOS MACABRO (My Bloody Valentine, Canadá, 1981. 91 minutos)
Direção: George Mihalka
Roteiro: John Beaird
Produção: John Dunning; André Link; Bob Presner
Fotografia: Rodney Gibbons
Música: Paul Zaza
Edição: Rit Wallis; Gérald Vansier
Efeitos Especiais: Thomas R. Burman; Ken Diaz; Tom Hoerber
Elenco: Paul Kelman (Jessie 'T.J.' Hanniger); Lori Hallier (Sarah); Neil Affleck (Axel Palmer); Keith Knight (Hollis); Alf Humphreys (Howard Landers); Cynthia Dale (Patty); Helene Udy (Sylvia); Rob Stein (John); Tom Kovacs (Mike Stavinski); Terry Waterland (Harriet); Carl Marotte (Dave)



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