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George Romero pode ser considerado, no universo cinematográfico, como um dinossauro. Não apenas pela idade, 69 anos completados no último dia 9 de fevereiro, mas porque cineastas como ele estão em extinção. Considerado o pai dos mortos-vivos no cinema, Romero é um nome forte do gênero não apenas por ter dirigido o clássico A Noite dos Mortos-vivos (Night of the Living Dead, 1968), mas por ter acompanhado os zumbis nas décadas seguintes e sempre com bons filmes sobre o tema.
Mas a obra de Romero vai além de mostrar mortos que saem das tumbas para perseguir e se alimentar de seres humanos indefesos. Assim como o filme da década de 1960, as “sequências” O Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), O Dia dos Mortos (Day of the Dead, 1985) e Terra dos Mortos (Land of the Dead, 2005) traziam, além de boas histórias, interessantes críticas sociais que retratavam a realidade das épocas nas quais os filmes foram lançados.
Romero também merece respeito por sempre ter conseguido criar verdadeiras |
obras primas que serviram de inspiração para outros diretores pegarem carona na onda que se tornou popular há 40 anos. Se hoje temos boas produções como Extermínio (28 Days, 2000) ou remakes de qualidade como Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004), é a Romero que devemos agradecer.
É por estes motivos que basta para os filmes de Romero possuírem o nome do diretor no alto do cartaz para que os fãs do gênero decidam conferir o material. Com um atraso de dois anos, um novo capítulo da filmografia dele chega às locadoras de todo o Brasil. Trata-se de Diário dos Mortos (Diary of the Dead, 2007) que, mesmo dividindo opiniões, merece ser conferido por ser uma produção bem acima da média.


A trama acompanha um grupo de estudantes de cinema que está fazendo um filme de terror como projeto de conclusão de curso. Durante as filmagens, os jornais de todo o mundo começam a noticiar que cadáveres simplesmente se levantaram e começaram a atacar os vivos. Apavorados, o grupo decide pegar a estrada para as suas respectivas casas, mas um dos estudantes decide filmar toda a jornada em um formato de documentário.
DIFERENÇAS CULTURAIS
Antes de dissecarmos o filme, é necessário entender que existe uma grande diferença cultural e histórica desde que
A Noite dos Mortos-Vivos foi lançado até os dias de hoje. A verdade é que, mesmo com os bons trabalhos que o diretor assinou nas décadas seguintes, é inegável que filmes com zumbis se tornaram mais do que populares. Passando das famigeradas produções italianas e incluindo obras trashes como
A Volta dos Mortos-Vivos (The Return of the Living Dead, 1985) e produções que abusam do fino humor inglês, no caso de
Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, 2005), fazer um bom filme de zumbis tornou-se algo complicado até pela forma como o tema já foi trabalhado.


Em
Diário dos Mortos, Romero procura injetar sangue novo no universo dos zumbis, mas o resultado final recai no aceitável. Na verdade, se este filme fosse dirigido por qualquer outra pessoa, talvez a crítica final fosse negativa. No caso de estarmos diante de uma produção de Romero, ficamos até constrangidos em falar mal de forma tão aberta e procuramos atenuar as críticas em busca dos resultados que o diretor tentou nos mostrar.
Vamos analisar da seguinte forma. Os conhecedores e fãs de Romero já possuem um carinho e respeito pela obra dele.
Diário dos Mortos acaba sendo apenas mais um filme nota seis do gênero, mas todo o currículo de Romero faz com que a produção pareça ser maior. Mas é bem provável que, para um público fã de remakes onde zumbis correm como se fossem maratonistas,
Diário pode ser visto como uma obra maçante e até chata, o que está longe de ser verdade.

ESTILO O filme possui boas situações, como a introdução, além dos momentos nos quais o grupo está no trailer seguindo viagem. Alguns zumbis são
“mortos” de forma bem criativa e visualmente interessante, como quando um dos estudantes joga ácido no crânio do defunto. Na verdade, talvez o principal problema de
Diário dos Mortos seja o formato que Romero escolheu para contar a sua trama. Utilizando a idéia de documentário, imortalizado com
A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), os estudantes vão gravando e narrando cada um dos acontecimentos.
É interessante observar que aqui estamos diante de um produto que foi editado pelos sobreviventes e que até trilha sonora possui. No entanto, o problema é que o material ficou profissional demais e o que deveria ser a carta da manga de Romero, quase passa despercebido. Tirando algumas cenas nas quais a câmera treme, quando a bateria precisa ser recarregada ou quando os personagens fazem menção às filmagens, é bem possível esquecer que estamos diante de um documentário.

Além de utilizar um equipamento muito profissional, Romero ainda conduz as imagens, e o áudio, de forma profissional. Em uma cena em especial, um dos estudantes foi atacado, está no chão, a beira da morte, mas consegue segurar, sem tremer, a pesada câmera. Tudo bem, nós sabemos que existem equipamentos com redutores de impactos, mas se a proposta era um filme que desse a idéia de realidade, faltou um pouco mais do espírito da
Bruxa de Blair aqui.

Existe um outro elemento que, embora não seja necessariamente uma crítica, merece ser abordado em
Diário dos Mortos. Mesmo não sendo considerados sequências oficiais, os quatro filmes famosos de zumbis que Romero dirigiu no passado possuíam ligações temporais nas suas histórias. Em
A Noite dos Mortos-Vivos, temos um aparente caso isolado no interior dos Estados Unidos. Em
O Despertar dos Mortos, o problema já chegou até as grandes cidades, enquanto em
O Dia dos Mortos, o mundo já está dominado por zumbis, enquanto grupos de sobreviventes vivem em esconderijos. Em
Terra dos Mortos, os humanos já se acostumaram com a presença dos mortos e ambos parecem caminhar para uma co-existência. Infelizmente,
Diário dos Mortos não segue essa linha no tempo e zera os acontecimentos.
MENSAGENS
As obras de Romero já falaram, muitas vezes de forma alegórica, de racismo e da agressividade das pessoas, consumismo, militarismo e até das diferenças sociais. Em
Diário dos Mortos, a crítica do diretor recai sobre a forma como a mídia controla a forma na qual as notícias são produzidas e passadas para a população. É interessante observar que Romero critica o próprio sistema de formação de notícias das grandes corporações e redes de televisão e coloca nas mãos de estudantes e blogueiros o papel de trabalhar com a verdade. Mais um ponto positivo para o nosso dinossauro, que neste aspecto, parece bem mais evoluído do que muita gente nova.

Outra crítica interessante é referente a quando a editora do documentário fala que colocou alguma trilha sonora para assustar as pessoas. É curioso como após essa informação, quem tiver assistindo ao filme vai ficar claramente ligado no trabalho feito
“pela estudante”. Afinal, qual é o objetivo de um filme de terror, se não o de assustar?
Uma questão interessante dos filmes de Romero é que os personagens geralmente fogem do estereótipo de grande parte das produções do gênero. Desde a conclusão de
A Noite dos Mortos-Vivos, é sempre bom reforçar essa boa característica no trabalho do criador dos zumbis no cinema moderno. Em
Diário, também vamos nos deparar com alguns personagens bem interessantes, com destaque para um simpático surdo que, infelizmente, é mal aproveitado.

Mas no saldo final,
Diário dos Mortos é um filme que merece ser conferido. Se não é nenhuma grande obra prima, ao menos serve para satisfazer aos fãs de Romero enquanto ele não termina
...of the Dead. Com previsão de estreia no final de 2009, o filme acompanha um grupo de sobreviventes em uma ilha infestada por zumbis. De acordo com a sinopse divulgada, parece que a trama também gira em torno de uma cura para os mortos-vivos, o que seria algo inédito e que, com certeza, alegraria aos admiradores do nosso velho dinossauro.
CURIOSIDADES:
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George Romero faz, em
Diário dos Mortos, uma participação especial como um policial presente em uma reportagem de TV.
Stephen King empresta sua voz como um locutor de TV, assim como o ator Simon Pegg, de
Todo Mundo Quase Morto. Quentin Tarantino, Wes Craven e Guillermo Del Toro também fazem locutores de TV.
- As filmagens duraram 23 dias.
- O documentário tem o título de
The Death of Death.

-
Tom Savini, maquiador de
O Despertar dos Mortos, diretor do remake de
A Noite dos Mortos-Vivos (1990) e grande amigo de Romero, faz uma participação como um locutor de rádio que adverte sobre abater os zumbis com um tiro na cabeça.
- Uma das estudantes menciona que
“antes, a batalha era de nós contra nós e que agora é de nós contra eles, mas que eles são nós”. A frase é semelhante a da personagem Barbra no remake de
A Noite dos Mortos-Vivos, na qual ela fala
“nós somos eles e eles são nós”.
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