A MORTE E A DONZELA

por Filipe Falcão

Imagine ter sido preso e espancado por ser um militante político durante o período de ditadura na sua juventude. Como o mais profundo dos traumas, essa experiência marcou sua vida, impedindo que, mesmo com o passar de quase duas décadas, os fatos fossem esquecidos. Você vive então nesta agonia sem fim até que um dia, como qualquer outro, seu torturador surge onde você mora como um motorista que ajudou um ente da sua família com problemas no carro. O que você faz então? Partir para uma vingança pessoal? Ou ficar na dúvida do tal sujeito ser realmente o mesmo que anos antes quase tirou sua vida? O enredo pertence ao filme A Morte e a Donzela (Death and the Maiden, 1994), do diretor Roman Polanski, que realiza aqui um filme sem sangue, sustos ou mortes, mas que consegue prender a atenção de quem assiste através de um suspense psicológico adicionado com elementos dramáticos.

Escrito como peça de teatro pelo chileno Ariel Dorfman, durante o ano de 1980, em pleno período de ditadura naquele país, Polanski fez, nesta adaptação para o cinema, um trabalho apoiado em um roteiro seguro e um excelente elenco para contar uma história que aborda os medos e traumas que habitam a mente humana e como as pessoas lidam com eles. Mesmo sem a ousadia sempre marcante dos grandes sucessos do diretor, A Morte e a Donzela pode ser visto como uma interessante opção para os apreciadores de um bom filme.

A trama acontece em um país sul-americano após a queda da ditadura. Conhecemos então Pauline Escobar (a sempre marcante Sigourney Weaver, da série Alien), que na juventude foi militante política tendo sido então presa, torturada e estuprada durante o período de repressão por um carrasco que ela apenas escutava a voz por estar sempre de olhos vendados. É tarde da noite quando o marido de Pauline, Geraldo Escobar (Stuart Wilson, A Época da Inocência, 1993), chega a casa com um sujeito chamado Roberto Miranda (Ben Kingsley, de Gandhi, 1982), que o ajudou a trocar um pneu furado do carro. Após uma conversa agradável, o terceiro integrante da trama deixa a residência do casal Escobar, mas retorna logo em seguida para devolver um pneu esquecido por Geraldo no porta-malas do carro. Vai ser neste momento que Pauline vai reconhecer na voz do visitante como sendo a do seu torturador, levando-a a querer fazer justiça com as próprias mãos e julgando ela própria, naquela noite, o tal homem. Para isso, ela imobiliza o mesmo e começa as acusações em busca de que Roberto confesse tais crimes.

O enredo da trama leva o espectador a testemunhar um thriller dividido entre o suspense e o drama. O primeiro se dá principalmente pela dúvida de Roberto ser ou não o homem que torturou Pauline 15 anos antes e dos métodos utilizados pela mulher para obter a confissão do suposto agressor. A certeza apresentada pela senhora Escobar é muito forte, ao mesmo tempo em que o ex-carrasco, nega com veemência que tenha praticado qualquer ato contra a mesma. Sentimentos como ódio e desejos de vingança são mostrados por Pauline no momento em que ela julga ter encontrado seu agressor dos tempos de ditadura. Weaver faz de forma brilhante uma mulher torturada com o passado e insegura com relação ao que fazer com o seu carrasco. Como se ela buscasse uma absolvição pessoal através do ato de vingança, mostrando um interessante conflito interno, fazendo do fato de ter reencontrado o homem que quase a matou como uma obrigação para um acerto de contas. Por sua vez, Kingsley, também muito seguro na sua interpretação, faz um ex-agressor que em certos momentos provoca pena no telespectador perante os atos de Pauline para com ele.

O filme trabalha com esta ambigüidade nos seus personagens ao ponto de não permitir que seja formada facilmente uma opinião sobre quem age de forma certa ou errada. Como se os fins justificassem os meios e Pauline tivesse o direito de julgar e de vingança, ao mesmo tempo em que as acusações dela são formadas através de lembranças de uma voz perdida mais de 15 anos atrás em suas memórias. Cabe ao telespectador acompanhar a trama e tirar suas conclusões sobre a veracidade da vingança de Pauline ou a inocência de Roberto.

Mundialmente conhecido por clássicos como Repulsa ao Sexo (Repulsion, 1965), O Bebê de Rosemary (Rosemary's baby, 1968) e O Inquilino (Le locataire, 1976), o diretor francês Polansky sempre soube desenvolver histórias que trabalhem o lado psicológico de seus personagens conseguindo através desta proposta obras que provoquem interesse e tensão para o telespectador. A Morte e a Donzela não chega a se igualar aos grandes sucessos do diretor, mas é digno de figurar entre os trabalhos assinados por ele, em especial pelo sufocante clima construído com o desenrolar da trama. O roteiro, assinado por Rafael Yglesias (do recente Água Negra, 2005) colabora para esta história bem conduzida.

Como A Morte e a Donzela é adaptado de uma peça, é natural que o filme possua um aspecto teatral, como um cenário quase que dominante representado através da isolada casa do casal Escobar. Não que isso seja um fator negativo para a produção, uma vez que parte da tensão da ação se dá justamente pelo fato dos personagens estarem, de certa forma, trancados e isolados nesta casa movidos apenas por sentimentos. Tal idéia mostra-se positiva por levar os personagens a conviverem durante as horas em que estão juntos em um ambiente quase claustrofóbico.

Apesar de todos estes ponto positivos: roteiro, história, ambientação, elenco. Foi justamente ao diretor Polansky que faltou um pouco mais de ousadia, marca presente na maioria de seus grandes trabalhos, para que A Morte e a Donzela fosse ainda melhor. Não que o filme seja fraco por isso, porém quando o filme é vendido como "dirigido por Roman Polansky", esperasse um resultado mais ousado. A impressão que fica é que o diretor fez em A Morte e a Donzela um trabalho tradicional, como um feijão com arroz, que agrada, porém, se tivesse tido algum tempero adicionado, poderia ter transformado esta refeição em um banquete.

Além disso, A Morte e a Donzela não é um filme que agrade a todos os públicos. Pelo contrário. Sua ação é lenta e seu suspense voltado para o psicológico apoiado em diálogos e na interpretação, em especial de Weaver e Kingsley. Se você está em busca de sangue, sustos e correria, então fuja deste filme. Mas se você procura uma viagem dramática pelos caminhos da mente e do medo implícito no passado, aproveite então esta produção.

Um outro elemento interessante na trama está ligado ao final e ao real significado do julgamento arbitrário imposto por Pauline a Roberto. Uma vingança que ao final pode ser vista como uma forma de reencontrar uma paz de espírito perdida como o passado. Tal final pode agradar ou não a quem assiste ao filme, porém fica válido por não ser uma conclusão previsível, principalmente pela própria produção fugir deste caminho. A Morte e a Donzela deve ser visto então pelo mérito da sua história, pelo esforço de seu elenco e pela condução dada pelo diretor Polansky, que mesmo não ousando como é de costume, consegue manter em alta o interesse pelas suas obras.

Filipe Falcão


A MORTE E A DONZELA (Death and the Maiden, Estados Unidos/França/Inglaterra, 1994). 103 minutos
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Rafael Yglesias; baseado numa peça de Ariel Dorfman
Produção: Josh Kramer; Thom Mount
Produção Executiva:Sharon Harel; Jane Barclay
Fotografia: Tonino Delli Colli
Música: Wojciech Kilar
Edição: Hervé de Luze
Desenhos de Produção: Pierre Guffroy
Direção de Arte: Claude Moesching
Figurino: Milena Canonero
Elenco: Sigourney Weaver (Paulina Escobar); Ben Kingsley (Dr. Roberto Miranda); Stuart Wilson (Gerardo Escobar); Krystia Mova (esposa do Dr.Miranda); Jonathan Vega (filho do Dr.Miranda); Rodolphe Vega (filho do Dr.Miranda); Gilberto Cortés; Jorge Cruz; Carlos Moreno; Eduardo Valenzuela


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