Hollywood nunca desprezou o mercado internacional, sendo que enormes lucros foram conseguidos dentro deste mercado na época do cinema mudo - a linguagem universal deste tipo de filme agradava a todos os públicos em qualquer língua. Mas, com o início dos filmes sonoros, e a inexistência de dublagem e de legendas, algumas produtoras começaram a produzir obras específicas para o público fora dos Estados Unidos.
A Universal Pictures fazia fortunas no mercado latino americano e sentiu mais do que as outras produtoras a chegada do cinema sonoro e da crise de 1929. Paul Kohner, executivo da produtora (e também estrangeiro, pois nasceu na Tchecoslováquia), sugeriu que fossem filmadas versões em inglês e de língua estrangeira ao mesmo tempo, diminuindo os custos ao se utilizar os mesmos cenários mais de uma vez, além dos salários dos atores estrangeiros normalmente serem menores do que seus pares norte-americanos. O presidente da "Universal Pictures", Carl Laemmle, nomeou Kohner como chefe das produções estrangeiras e o primeiro resultado foi a versão em espanhol de "The Cat and the Canary", lançado em 1930 como "La Voluntad del Muerto", fazendo grande sucesso no México e transformando a atriz principal, Lupita Tovar, numa estrela.


Kohner decidiu que deveria ser feito uma versão de "
Drácula" em espanhol enquanto a versão em inglês era filmada, convocando rapidamente Tovar antes que ela retornasse para o México. Para o resto do elenco, foram contratados Carlos Villarias (ou Villar) para o papel de Drácula, Barry Norton como de Jonathan Harker (ou "Juan"), Eduardo Arozamena como Abrahan Van Helsing e Pablo Alvarez Rubio como Renfield. As filmagens da versão em inglês aconteciam de manhã e à tarde, sobrando parte da tarde e a noite para as filmagens da versão em espanhol.


A versão em espanhol seguiu o roteiro da versão em inglês, mas uma série de mudanças no estilo de filmar foram acrescentadas. Aparentemente o diretor George Melford e sua equipe detestaram a maneira como Tod Browning filmava, com sua câmera estática (com exceções dos momentos em que a câmera era trabalhada por Karl Freund, um dos mestres do expressionismo alemão, que criaria a flutuação das imagens quando Drácula/Lugosi aparece pela primeira vez) e com uma ênfase muito presa ao texto teatral de Hamilton Deane e John L. Balderston do qual se baseava o filme. A versão espanhola apresenta muito mais agilidade, atmosfera e ação, sendo considerada, por muitos críticos e historiadores de cinema, melhor do que a original em inglês.


O filme estreou no México e em Nova Iorque em abril de 1931 e em maio em Los Angeles, sendo um grande sucesso, assim como sua versão em inglês. Mesmo assim, foi um dos últimos filmes de língua espanhola produzidos em Hollywood.
A versão em espanhol era constantemente exibida em países latino-americanos até a década de 50, mas tornou-se esquecida nos Estados Unidos, muito por culpa da própria "Universal Pictures", pois esta não registrou seu "copyright" e não fez cópias adicionais para preservá-lo. Em 1977, o
"American Film Institute" tentou fazer uma cópia de arquivo, mas a única matriz disponível, pertencente à Biblioteca do Congresso, estava em decomposição. O escritor David J. Skal encontrou uma cópia sobrevivente em Cuba em 1989 e conseguiu duplicá-la, apresentando-a aos Estados Unidos no
"Halloween" de 1992, na Universidade da Califórnia em Los Angeles.


Teria sido mesmo este filme superior ao "
Drácula" de Tod Browning? Provavelmente sim, embora muito menos influente: Lugosi tinha mais carisma do que Villar e o Drácula da versão inglesa sobreviveu guardada e protegida pela
"Universal Pictures", inspirando o universo do terror desde 1931, enquanto que o Drácula da versão espanhola desapareceu até 1992, como vimos. Mesmo que não tivesse desaparecido, talvez a língua espanhola tivesse afastado muitos fãs de cinema norte-americanos, que raramente têm paciência para filmes de outras línguas ou por simples preconceito. Talvez afastasse até mesmo muitos latino-americanos e pessoas de línguas não-inglesas, já que é comum acreditar-se que o inglês seja a nova língua mundial - ou do Império norte-americano, mais Império do que nunca como nos demonstram as recentes invasões no Afeganistão e no Iraque.
Existe uma versão em vídeo deste "
Drácula" em espanhol que merece ser visto e analisado mais completamente - alguns trechos deste filme aparecem no documentário em DVD da versão em inglês de
Drácula, já lançado no Brasil. De qualquer forma, este filme sacramentou uma história de amor: Kohner iria se casar com a estrela Lupita Tovar. Terror e amor... estas palavras podem não combinar, mas, no caso de Kohner e Tovar, fizeram uma ótima rima.

Observação: Esses artigos, escritos e pesquisados por Orivaldo Leme Biagi, foram publicados originalmente no fanzine "Juvenatrix", editado por Renato Rosatti.
DRÁCULA (
Dracula - Spanish Version, EUA, 1931). 104 minutos, Universal Pictures
Direção:George Melford
Roteiro:Garrett Fort;
Fotografia: George Robinson
Elenco: Carlos Villarias, Carmen Guerrero; Lupita Tovar; Eduardo Arozamena; Barry Norton; Pablo Alvarez
Texto: Orivaldo Leme Biagi