ARRASTE-ME PARA O INFERNO
(Drag Me To Hell, EUA, 2009)

Direção: Sam Raimi.
Roteiro: Sam Raimi e Ivan Raimi.
Produção: Sam Raimi, Grant Curtis e Robert G. Tapert.
Edição: Bob Murawsk.
Música: Christopher Young.
Elenco: Alison Lohman (Christine Brown), Justin Long (Clay Dalton), Lorna Raver (Sra. Ganush), Dileep Rao (Rham Jas), David Paymer (Jim Jacks), Chelcie Ross (Leonard Dalton), Reggie Lee (Stu Rubin), Molly Cheek (Trudy Dalton) e Bojana Novakovic (Ilenka Ganush).
Distribuição: Inédito em DVD no Brasil.


SINOPSE

Christine Brown é uma ambiciosa agiota com um namorado charmoso. Sua vida é praticamente perfeita, até que chega ao banco a sinistra Sra. Ganush, implorando pela extensão do financiamento de sua casa própria. Christine nega o pedido tentando impressionar seu chefe e conseguir uma promoção. A misteriosa mulher joga então uma maldição mortal em Christine, que tem sua vida transformada num verdadeiro inferno.


Você tem medo do inferno??

Arraste-me Para o Inferno marca o retorno em grande estilo de Sam Raimi as suas raízes. Para os não iniciados no gênero, Raimi foi o cara por trás de um dos mais importantes filmes de horror da década de 80. Com A Morte do Demônio (Evil Dead, EUA, 1981), o jovem cineasta destilava garra e talento criativo, num filme de baixo orçamento que arrebatou uma legião de seguidores. "Fadado" ao sucesso, bastaram alguns anos para que todas as portas e janelas de Hollywood se abrissem e Raimi chegasse ao topo, assumindo a responsabilidade em levar para tela grande o queridinho super herói da Marvel, o Homem-Aranha. E eis que, após dirigir três longas do cabeça de teia, arrecadar fortunas em bilheterias ao redor do mundo, Sam Raimi resolve prestar uma homenagem mais do que merecida ao gênero em qual apostou todas as suas fichas ainda em início de carreira: o horror.

É interessante que dois momentos tão distintos da carreira de um cineasta proporcionem a mesma liberdade, tão necessária para se rodar um bom de terror. Na ocasião de Evil Dead, Raimi pôde abusar dos exageros e das inovações, sem preocupar-se com censura, bilheteria ou com o que os produtores iriam achar, já que seu debute era uma produção praticamente independente. Não é pra menos que A Morte do Demônio tem presença garantida no top 10 da maioria dos aficionados pelo gênero.  Três décadas depois, com o prestígio característico dos maiores diretores de Hollywood e com seu próprio estúdio especializado em filmes de horror (a Ghost House Pictures), o cineasta pode, em Arraste-me Para o Inferno, tomar decisões com a mesma independência que antes lhe garantiu um resultado extremamente singular na história do cinema fantástico.

Em seu novo filme, Sam Raimi resgata a fórmula que tanto agradou os fãs da trilogia Evil Dead: a mistura cuidadosa e inteligente de humor e horror. O roteiro, escrito a quatro mãos, repete a parceria entre o cineasta e o irmão Ted Raimi, como já havia acontecido em Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, EUA, 1992). Na trama, Christine Brown é uma analista de crédito financeiro que se encontra numa verdadeira cilada: seguir seu coração e renovar uma hipoteca imobiliária para a Sra. Ganish, e evitar assim que a pobre velhinha perca sua casa e vá parar no olho da rua; ou negar o novo empréstimo, impressionar o chefe e ocupar uma prometida vaga de assistente da gerência? Christine banca a durona e, numa decisão da qual se arrependerá amargamente, não renova a hipoteca. Aí começam os problemas para Christine. Sra. Ganish não recebe muito bem a notícia e ajoelhada implora pelo empréstimo. Mesmo constrangida, a funcionária do banco mantém-se firme à sua decisão. O problema é que a vovozinha não é assim tão boazinha. Na verdade, Sra. Ganish é uma misteriosa anciã cigana que não leva desaforo pra casa. Ensandecida, a velhota lança uma poderosa maldição, despertando uma entidade maligna que transformará literalmente a vida de Christine num verdadeiro inferno.

Podemos notar alguma semelhança entre o enredo de Arraste-me Para O Inferno e de A Maldição (Thinner, EUA, 1996). Na adaptação da obra de Stephen King, dirigida opor Tom Holland, o gorducho Billy Halleck atropela “acidentalmente” a filha de um chefe cigano. Quando ele é inocentado pela justiça, o velho cigano lança uma maldição que faz Billy definhar até a morte.

O caso é que, intencionalmente ou não, Raimi revisita o mesmo tema de Evil Dead, ou seja, a luta insana de uma pessoa comum contra uma criatura demoníaca praticamente invencível. Enquanto no primeiro o demônio era libertado após a leitura em voz alta de uma passagem do Livro dos Mortos, em Arraste-me para o Inferno é a maldição da cigana que acorda o poderoso demônio Lâmia, cuja especialidade é dragar suas vítimas para o inferno. A originalidade está no fato de que o tinhoso em questão não leva simplesmente a alma das pessoas. Ele as arrasta ainda vivas até as profundezas do inferno.

No elenco, a escolha de atores menos conhecidos do grande público ajuda a legitimar o estilo B da produção. Christine é interpretada pela jovem Alison Lohman, que apesar da pouca idade traz na bagagem papéis em dramas de peso, como em Peixe Grande, de Tim Burton e Os Vigaristas, de Ridley Scott. Sua interpretação, embora alterne extremos, ora exagerada ora inexpressiva, não compromete o resultado final, muito pelo contrário, se encaixa na proposta cômica/desesperada da personagem. Justin Long (mais conhecido por viver um dos irmãos perseguidos no horror Olhos Famintos) interpreta sem maiores problemas Clay Dalton, o cético e apaixonado namorado de Christine. O elenco conta ainda com a participação de outros membros da família Raimi: Ted Raimi (irmão de Sam) vive o medico que atende Christine após o ataque da cigana Ganish; Emma Raimi (filha) interpreta a filha da cigana; Henry e Lorni Raimi (filhos) fazem uma ponta durante o velório da  cigana. Outra figurinha carimbada e folclórica marca presença em Arraste-me Para o Inferno: o Oldsmobile Delta 88, amarelo, ano 73. Sim, a velha caranga, aqui no “papel” do automóvel da cigana, participou de todos os filmes de Sam Raimi. Até mesmo no faroeste Rápida e Mortal (provavelmente escondido ou disfarçado). Ainda em relação ao elenco, os mais ligados na carreira do diretor sentirão falta do canastrão Bruce Campbell (herói de Evil Dead cujas aparições também são freqüentes nos longas dirigidos por Sam). Sua presença, mesmo que pequena, certamente acrescentaria um charme a mais a produção.

Apesar dos tão odiados efeitos em CGI, um dos grandes destaques do filme é a sucessão de cenas nauseantes. Inclua aí vômitos, hemorragias nasais jorrando litros e litros de sangue, vermes, gosmas, moscas, lama entre outras substâncias que possam embrulhar o estômago dos mais fracos. A medonha maquiagem da Sra. Ganish (interpretada por Lana Raver) também merece destaque: a cigana é cega de um olho, sua dentadura e unhas são podres, a pele toda enrugada e ainda por cima a velhota vive escarrando.

Arraste-me Para O Inferno, embora faça de tudo para parecer, não é um filme de baixo orçamento. A produção custou cerca de $30 milhões (um valor razoável para os níveis hollywoodianos) e rendeu mais de $70 milhões em bilheteria pelos cinemas americanos e europeus (sem contar a arrecadação em solo tupiniquim). Recebeu boas críticas de todos os sites especializados e caiu nas graça dos fãs, que aguardam ansiosamente uma possível quarta parte da franquia Evil Dead dirigida por Sam Raimi.

Pra finalizar, um pequeno comentário sobre o desfecho do filme, logicamente contendo SPOILERS, portanto se não viu, pare por aqui. A revelação é óbvia: o final pessimista, onde a mocinha é arrastada para o inferno, ainda que faça de tudo para se livrar da maldição, está anunciado no próprio título do filmo. É engraçado como este final parece até mais moralista e cristão do que pessimista: a heroína se corrompe, por ambição (chega a matar seu ratinho de estimação num ritual para espantar o demônio) e é castigada exemplarmente, como pregam muitos pastores por aí.

 

João Pires Neto


O bom e velho Sam Raimi de volta

Christine Brown (Alison Lohman, de A Lenda de Beowulf, Coisas que Perdemos pelo Caminho, Quem é Morto Sempre Aparece) é uma esforçada bancária que pretende impressionar o chefe para ser promovida no emprego. A motivação não é apenas o salário maior, mas também a imagem que poderá passar para a família de seu namorado, Clay Dalton (interpretado por Justin Long, de Ele Não Está Tão a Fim de Você). Os pais de Clay desaprovam o relacionamento e um dos motivos é justamente a situação financeira da jovem.

Os problemas da ambiciosa personagem surgem quando o novato Stu Rubin (Reggie Lee, de Star Trek, o Filme) ameaça ocupar a vaga. Só que o maior contratempo na vida de Christine aparece de forma inesperada, quando ela se nega a dar um empréstimo para uma idosa. Revoltada, a velha cigana a ataca e lança uma sinistra maldição. Uma série de assombrosas visões passam a atormentar a moça, o que faz ela buscar uma ajuda espiritual. E é uma espécie de guru que lhe explica que em três dias ela será arrastada para o inferno!

Quem pensa que isto significa simplesmente morrer está enganado. O título (traduzido fielmente, uma coisa rara nos dias de hoje) explica bem o que acontecerá com a protagonista: ela será literalmente arrastada para as profundezas da Terra, em um inferno vermelho e cheio de fogo para onde todos os políticos corruptos vão depois da morte. Resta agora Christine tentar encontrar uma forma de se ver livre da urucubaca antes que o demônio Lâmia a leve.

O roteiro lembra (e muito) um outro filme de terror chamado A Maldição, dirigido por Tom Holland. Baseado em uma história de Stephen King, o longa também mostra os apuros que um advogado passa depois de também ser amaldiçoado por um cigano. A grande diferença é que Arraste-me para o inferno tem a direção e roteiro de ninguém mais, ninguém menos que o mestre Sam Raimi. E quem conhece pelo menos um pouco de terror sabe que o diretor é muito mais do que o responsável pelos filmes do herói Homem-Aranha.

Raimi retorna ao gênero que o consagrou depois de uma carreira notável, mas que se afastava da série clássica Evil Dead / A Morte do Demônio / Uma Noite Alucinante. E quem for conferir o longa-metragem vai perceber que o tempo não fez com que o cineasta perdesse a boa forma. Arrasta-me para o inferno é um dos melhores filmes de terror que entrou em cartaz nos cinemas dos últimos tempos. E boa parte do sucesso se deve ao fato de misturar o terror com a comédia escatológica, o que resulta em uma produção divertidíssima.

Certamente quem não está preparado pode considerar o filme um tanto quanto trash, devido às situações exageradas e nojentas. Mas o que importa é que Sam Raimi está de volta e a película cumpre o que promete: muitos sustos e diversão. A trama é bem movimentada, sempre com um clima de ameaça provocado pela trilha sonora aterrorizante e pelo bom uso de sombras. Merece ser visto por ser um verdadeiro presente para qualquer fã de terror!

Michel Toronaga
www.daiblog.com.br



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