Will responde:
"Você estava em desvantagem, você é louco", ao que Lecter responde:
"Não Will, nós dois somos iguais". Pena que
Dragão Vermelho" não tenha aprofundado os problemas psiquiátricos do herói, que se torna bem mais amargurado e interessante em "
Manhunter".
Curioso também é como os filmes mostram o primeiro encontro de Will Graham com o jornalista sensacionalista Freddy Lounds (interpretado por Stephen Lang em 1986 e por Phillip Seymour Hoffman na versão mais recente). Graham tem raiva do jornalista por causa de uma foto tirada quando este se recuperava da facada que levou de Lecter. No livro o encontro é rápido e Will agride o jornalista apenas verbalmente. Em "
Manhunter", que mostra um herói mais amargurado e violento, Lounds apanha feio quando o agente do FBI o agarra, atirando-o sobre um carro estacionado e quebrando o pára-brisa com o impacto. Cena exagerada, que ficou melhor em "
Dragão Vermelho", quando Graham encosta Lounds na parede ameaçando uma surra, mas é impedido por Crawford.


Se em "
Dragão Vermelho" Hannibal Lecter é um personagem de destaque que aparece desde o começo do filme, em "
Manhunter" o assassino Hannibal Lecktor só vai surgir após 20 minutos de fita rolando, quando Graham vai visitá-lo no manicômio. Esqueça a famosa cela de "
O Silêncio dos Inocentes": em "
Manhunter" o doutor está confinado em uma cela normal com grades e suas paredes não estão repletas de desenhos feitos pelo erudito assassino. Detalhe: em nenhum momento durante os 120 minutos de "Manhunter" é feita alguma citação ao canibalismo do dr. Lecter. Sabe-se, apenas, que ele é um perigoso e frio assassino, mas seus gostos culinários peculiares não foram aproveitados pelo roteirista do filme de 1986.
Outra cena significativamente diferente tanto no livro quanto nos dois filmes é o telefonema que o dr. Lecter dá do próprio manicômio para descobrir o endereço de Will Graham, informação transmitida à
"Fada dos Dentes". No livro, o vilão precisa enfiar os dedos pelas malhas da rede de nylon que existe na sua cela para discar, já que não há teclas no aparelho. Em "
Manhunter", o vilão dá uma de McGyver (lembram do seriado "Profissão Perigo"???): ele abre o telefone, usa o papel de alumínio de um chiclete para provocar um curto-circuito no aparelho e assim conseguir uma ligação externa para uma telefonista (o telefone não tem teclas). Ele então diz que não tem os braços e pede para que ela faça a ligação. Descontando o exagero de transformar Hannibal em mestre da eletrônica - e o que um assassino serial está fazendo com chicletes numa prisão de segurança máxima?? -, a solução de "
Manhunter" é mais inteligente do que a de "
Dragão Vermelho", onde Lecter bate no fone do aparelho o número que pretende ligar, um truque tão antigo e primário que chega a ser risível nenhum guarda ou oficial pelo menos suspeitar que o vilão poderia utilizá-lo. Ainda mais considerando toda a segurança que envolve a cela de Lecter.


"
Manhunter" tem uma cena muito interessante que não existe no livro e nem em "
Dragão Vermelho": quando se desloca de avião para uma das cenas de crime, Graham pendura nos fundos do assento à sua frente as fotos das famílias Leads e Jacobi. Em seguida, abre a pasta e examina alguns relatórios, mas logo pega no sono. Ele acorda com o choro assustado da menina sentada ao seu lado, pois a pasta se abriu enquanto o agente dormia, espalhando as horripilantes fotos das vítimas mortas pela "Fada dos Dentes", com espelhos enfiados nos olhos.
Outro detalhe mal aproveitado em "
Dragão Vermelho", mas que está em "
Manhunter", é quando Graham descobre uma impressão digital parcial no olho de uma das vítimas da família Leads. Em "
Dragão Vermelho" a descoberta fica nisso e não se fala mais na tal da impressão digital, um furo enorme do roteiro. Tanto no livro quando em "
Manhunter", Will fica pressionando o laboratório a toda hora pedindo se conseguiram alguma identificação por meio da impressão digital, ação que, no fim, se revela infrutífera, pois a impressão não estava nos arquivos do FBI.


A armadilha feita pelo FBI usando Will Graham como isca para a "Fada dos Dentes", graças a uma matéria difamatória publicada no jornal Tattler pelo jornalista Lounds, também sofreu substanciais mudanças de uma versão para a outra. No livro, Graham recebe uma ligação de um homem misterioso que fala sobre os assassinatos dos Leads e dos Jacobi. A ligação é rastreada e descobre-se que o homem não era a "Fada dos Dentes", mas sim o próprio Lounds, com um modificador de voz, tentando descobrir alguma informação secreta do FBI para as suas reportagens. Para não se encrencar, ele aceita em levar adiante o plano de Graham, publicando uma matéria onde diz que a "Fada dos Dentes" é homossexual. Esta reportagem assinaria o destino do jornalista, que se torna a próxima vítima do assassino.
Em "
Manhunter" Lounds não apronta nada: ele é procurado pelo FBI sem saber que aquilo é tudo uma grande farsa. Lounds acredita estar fazendo uma reportagem real com Graham, e ainda insiste para sair posando ao lado do agente do FBI na foto para a capa do "Tattler". Já em "
Dragão Vermelho", Lounds é preso por usar uma identidade falsa do FBI para tentar conseguir fotos das autópsias das vítimas da "Fada dos Dentes", Encrencado, resolve publicar a matéria falsa para não ser preso.


A estas alturas da história, "
Manhunter" já está nos 60 minutos. É quando acontece a primeira aparição da "Fada dos Dentes", para a tortura de Lounds. Ou seja, o grande vilão da história só aparece depois de uma hora de filme (descontando o início, onde ele nem aparece)! A primeira parte do filme é preenchida com muitas cenas familiares que existem no livro mas foram simplesmente descartadas em "
Dragão Vermelho". Inclui-se aí a conversa de Graham com o filho, explicando seus problemas psiquiátricos. Em "
Dragão Vermelho" não tem lenga-lenga e a "Fada dos Dentes" aparece praticamente desde o começo, quando cola recortes da prisão de Hannibal Lecter em seu enorme diário, e ao longo de algumas cenas, fazendo halterofilismo e chamando pela avó morta - típica coisa de serial killer de filme americano.
A tortura do jornalista é mais violenta em "
Dragão Vermelho", quando o assassino coloca a tenebrosa dentadura que pertenceu à sua avó e arranca os lábios de Lounds, cuspindo-os no chão. Em "
Manhunter", a cena termina quando o assassino começa a "beijar" o jornalista, e então só se escutam gritos abafados. Nos dois casos, e também no livro, Lounds termina seus dias queimado vivo em uma cadeira-de-rodas jogada do furgão do assassino para a frente do prédio do "Tattler". A diferença é que, no livro, Lounds não morre imediatamente: ele ainda recebe a visita de Graham na Unidade de Tratamento Intensivo, onde finalmente morre devido às queimaduras.


Há ainda mais uma cena em "
Manhunter" que não existe na segunda versão cinematográfica e nem no livro. Trata-se de um momento de suspense que acontece logo após a publicação da mentirosa notícia no "Tattler". Will Graham caminha pelas ruas escuras em frente ao prédio onde deixou-se fotografar, esperando ser atacado pela "Fada dos Dentes". Há muitos atiradores e policiais nas redondezas, esperando o mínimo movimento para atacar. Subitamente, a solidão da rua é rompida quando um estranho caminha em direção a Graham. É apenas um pedestre, óbvio, mas que vai comer o pão que o diabo amassou ao ser cercado pelos policiais brandindo armas, tão logo passe próximo do agente.
"
Dragão Vermelho" capricha mais na caracterização do assassino do que "
Manhunter". No filme de 1986 nem é mostrada a enorme tatuagem da cauda de um dragão que o assassino tem nas costas. A tenebrosa dentadura da avó, que a "Fada dos Dentes" usa nos crimes, também é pouco utilizada no primeiro filme (só aparece na cena da tortura de Lounds). E nada do enorme diário onde o assassino escreve seus devaneios. Enquanto no filme e no livro Francis Dolarhyde, o "Fada dos Dentes", vive em um velho asilo dirigido pela falecida avó, um casarão antigo de madeira, em "
Manhunter" ele mora em uma casa normal, que em nada lembra um velho asilo e tem até móveis moderninhos e uma parede inteira decorada com uma imagem do solo lunar!


Claro que também ajuda ter um Ralph Fiennes sarado no papel de assassino de "Dragão Vermelho". Em "Manhunter" Dolarhyde é interpretado pelo patético Tom Noonan, ator totalmente inadequado para o papel, já que é muito magrinho e frágil, lembrando mais um travesti do que um grande vilão. Se em "Dragão Vermelho" a aparição da "Fada dos Dentes" para o aprisionado Lounds é assustadora, em "Manhunter" fica cômica quando esperamos ver um perigoso assassino e aparece um fracote, calvo, com um roupão e uma meia-calça enfiada na cabeça! Não ter dado a caracterização ideal ao vilão principal foi o maior erro do filme de 1986.
Há ainda pequenas diferenças entre os dois filmes que não mudam a história, mas dão um detalhe de humor negro. Em "
Manhunter", o código que Lecter manda publicar no "Tattler" para a "Fada dos Dentes" decifrar é retirado do livro de leis do Estado de Maryland. Em "
Dragão Vermelho", os produtores optaram por um simples livro de receitas, ressaltando o lado canibal de Hannibal.
A relação de Francis Dolarhyde com uma garota cega, Reba McClane (Joan Allen em "
Manhunter" e Emily Watson em "
Dragão Vermelho") é mais aprofundada em "
Dragão Vermelho". Como no livro, o assassino tenta deter o "
Dragão Vermelho" que o ordena matar para poder ficar em paz com a amada. E ele tenta fazê-lo justamente comendo a figura original do "Dragão Vermelho" pintada por William Blake, quando faz um rápido ataque ao museu em Nova York. Nada disso acontece em "
Manhunter". Sua relação com a cega é discreta, embora o roteirista tenha aproveitado a bela cena em que o assassino, já com o coração amolecido, leva a cega ao zoológico para "sentir" um tigre de perto pela primeira vez.


Outro detalhe marcante é a modernização de muitos detalhes do primeiro filme e do livro para "
Dragão Vermelho". Apesar da história se passar bem antes de "
O Silêncio dos Inocentes", no começo dos anos 80, o mundo mostrado em "
Dragão Vermelho" com certeza é o nosso mundo moderno, em uma falha da produção, que deveria ter usado uma ambientação mais anos 80. No livro, por exemplo, a "Fada dos Dentes" escolhia as famílias que iria matar após a revelação de filmes feitos em Super 8 e exibidos com projetor, como no cinema (lembre-se que os videcassetes ainda não eram populares na primeira metade da década de 80). "Manhunter" optou em usar os rolos de filme, mas "
Dragão Vermelho" prefere atualizar para fitas VHS.
Mas a mais gritante diferença entre "
Manhunter" e "
Dragão Vermelho" está no final. Tanto no livro quanto em "Dragão Vermelho", Dolarhyde seqüestra Reba em casa e a leva ao seu casarão, onde espalha gasolina por toda parte, provocando um incêndio. Ele ainda simula sua própria morte com um tiro de espingarda no rosto, usando um outro cadáver para isso. No livro, ele "pega emprestado" o corpo do frentista de um posto de gasolina com quem tinha tido uma discussão momentos antes; em "
Dragão Vermelho" resolveram não complicar: Dolarhyde usa um colega de trabalho de Reba, que abateu a tiros quando foi seqüestrá-la em casa (este assassinato também aparece em "
Manhunter"). Quando o público pensa que o filme está acabando, Dolarhyde reaparece na casa de Graham. No livro, o ataque é um pouco diferente do mostrado em "Dragão Vermelho": Graham está pescando com a família quando a esposa lhe avisa de que Jack Crawford está no telefone. Quando se aproxima da casa, Graham é atingido à traição por Dolarhyde, que salta de um esconderijo e afunda uma faca no rosto do agente do FBI. Este só é salvo da morte pela esposa, que chega na hora com uma arma e estoura a cabeça do assassino. Um pouco menos violenta, esta cena foi aproveitada no final de "Dragão Vermelho". A diferença é que Dolarhyde está no interior da casa do agente tendo seu filho como refém. Graham começa a provocar o assassino falando como a sua avó, até que Dolarhyde, furioso, salta sobre ele e inicia uma luta, encerrada a tiros por Graham e por sua esposa. Pessoalmente, acho desnecessária a cena em que o herói imita a avó do psicopata para atiçá-lo - sem contar que a reação do assassino deveria ser outra, ou seja, justamente matar a criança pela provocação do inimigo. E Graham não leva nenhuma facada no rosto no filme. Uma carta escrita por Hannibal Lecter não é entregue ao herói quando ele está no hospital se recuperando, no final do livro. Ao invés disso, Crawford prefere queimá-la.


Agora esqueça toda esta reviravolta de "simulação da própria morte", incêndio no casarão e outros detalhes: o final de "
Manhunter" é seco e direto, sem enrolação, e devo confessar que acredito ter ficado mais interessante que o do próprio livro - afinal, este negócio de simular a própria morte soa meio ridículo, meio "hollywoodiano" demais, você não acha? "
Manhunter" termina quando, após identificar o assassino, Graham, Crawford e a polícia seguem em duas viaturas para a casa de Dolarhyde. Uma delas se acidenta no caminho e os policiais ficam a pé. Crawford resolve parar a operação e esperar por reforços para entrar na casa, mas Graham fica tomado pela fúria ao ver Dolarhyde por uma janela, tentando matar Reba. Tomado pela fúria e ódio que sente pelo assassino, o agente empunha sua arma, começa a balbuciar "Stop, stop!" (Pare, pare!) e corre em direção à casa! Com uma trilha sonora muito doida, Michael Mann filma Graham correndo em câmera lenta em direção ao assassino, com uma arma repleta de balas explosivas no tambor, e atravessando a vidraça da casa de Dolarhyde como se não houvesse qualquer obstáculo. No procedimento, o agente sofre sérios cortes no rosto provocados por Dolarhyde com um enorme caco de vidro na mão. Ele ainda dá o maior cacete no agente, que cai no chão da cozinha. Ao perceber que está cercado, o assassino fica completamente alucinado: ele pega uma espingarda e sai atirando pelas janelas e portas, abatendo vários policiais, tudo em câmera lenta e com a mesma trilha sonora maluca a todo volume! O vilão então volta para a cozinha para terminar o serviço com Graham. Ao aproximar-se, Dolarhyde é alvejado inúmeras vezes pelo herói, em uma cena que mostra muito bem o descontrole emocional do herói, executando praticamente a sangue frio o vilão. Depois, ainda se aproxima do cadáver sem vida de Dolarhyde e ameaça lhe dar mais um tiro, na cabeça, quando chegam os reforços.
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Texto: Felipe M. Guerra