O DRAGÃO VERMELHO ATACA DUAS VEZES!!

Texto escrito por Felipe M. Guerra



Erros e acertos

A caracterização dos personagens é incompleta nos dois filmes, se compararmos ambos com o livro de Thomas Harris. "Manhunter" capricha na figura do agente especial Will Graham, mostrado como uma pessoa amargurada por traumas ligados à perseguição de serial killers, como no livro, diferente da figura heróica mostrada em "Dragão Vermelho". Mas os personagens de Francis Dolarhyde (principalmente) e Hannibal Lecter são bastante desperdiçados em "Manhunter", recebendo mais atenção em "Dragão Vermelho". Jack Crawford participa mais da ação em "Manhunter", tendo uma atuação pequena na refilmagem. Tudo considerado, a personagem da cega Reba McClane é a melhor explorada nas duas versões cinematográficas, ganhando a mesma intensidade dramática.
Na briga entre os dois diretores, pode-se dizer que Michael Mann ("Manhunter") e Brett Ratner ("Dragão Vermelho") não fazem nada de muito extraordinário, mas tem estilos totalmente diferentes. Mann optou por centralizar o foco do seu filme no personagem de Will Graham, enquanto Ratner deixou Graham em um constrangedor segundo plano para concentrar-se nos vilões, Hannibal Lecter e "Fada dos Dentes". Mann é mais modesto; Ratner usa e abusa de efeitos especiais, até a enorme explosão da casa do assassino, no final. Mas a fotografia de "Dragão Vermelho" é mais sinistra do que a de "Manhunter", principalmente nas cenas que se passam na velha mansão de Francis Dolarhyde. Surpreende ainda mais por ser um filme de suspense do diretor de "A Hora do Rush 1 e 2". Mann deixou de lado o detalhe do casarão onde vivia o assassino, preferindo uma residência "normal", e perdeu alguns pontos no quesito suspense, mas ganhou outros no item "realidade". Ou vocês acham que na vida real um assassino iria mesmo morar em um casarão abandonado e antigo? Nada disso. Um serial killer de verdade pode ser até seu vizinho!



Quanto ao elenco, novamente, os dois filmes empatam porque tem erros e acertos. Anthony Hopkins como Hannibal Lecter? Só aí já acertaram o tom de "Dragão Vermelho". Brian Cox, em "Manhunter", nem por sonho passa um mínimo da presença maléfica do Hannibal de Hopkins, que assusta com um simples olhar. Já o Lecktor de Cox fica encarando Will Graham com uma cara de abobalhado, nunca irônico como o personagem é caracterizado por Hopkins. Ralph Fiennes também fez muito bem o principal vilão do filme, Francis Dolarhyde, diferente do fraco Tom Noonan que fez o mesmo papel em 1986.
"Dragão Vermelho" também se destaca quando faz diversas citações a "O Silêncio dos Inocentes", mesmo sendo uma história cronologicamente anterior ao filme de 1991.
Quando Will Graham chega ao sanatório onde Lecter é mantido aprisionado, ele é recebido pelo próprio dr. Frederick Chilton (Anthony Heald), que também aparece em "O Silêncio dos Inocentes". Nos dois filmes, Chilton faz a mesma coisa: explica aos agentes do FBI (Graham em "Dragão Vermelho, Clarice Starling em "O Silêncio dos Inocentes") sobre os procedimentos de segurança adotados para que Lecter não machuque ninguém. Ah sim, e nos dois filmes, também, o psiquiatra tem suas briguinhas com Lecter. Em "Manhunter", Chilton faz uma pontinha tão minúscula que nem vale citação.



Mas nem tudo são rosas em "Dragão Vermelho": o filme desperdiça alguns bons atores em papéis muito pequenos. Harvey Keitel, como Jack Crawford, pouco aparece; já Phillip Seymour Hoffman, como o jornalista canalha Freddy Lounds, passa uma imagem muito simpática e não convence como canalha, ao contrário de Stephen Lang em "Manhunter". Mas o maior erro de "Dragão Vermelho" é Edward Norton, totalmente perdido como um "veterano" agente do FBI, com aquela cara de quem não tem nem 30 anos. William Petersen deu um show no papel em 1986 e ficou marcado, pelo menos para mim, como o próprio Will Graham enquanto eu lia o livro de Thomas Harris.
"Dragão Vermelho" ganha ainda mais pontos na categoria "fidelidade ao romance original".
O roteirista Ted Tally, responsável pelo roteiro da refilmagem, deve ter lido muitas vezes o livro de Thomas Harris, pois não falta nem um detalhe do livro no filme. Diferente de "Manhunter", que mudou mais do que devia. Tally não deixou de incluir a importante cena em que Francis Dolarhyde come a pintura do "Dragão Vermelho", tentando livrar-se dele, e também o final, totalmente diferente daquele mostrado em "Manhunter". O único erro na adaptação do livro em "Dragão Vermelho" foi ter subtraído as cenas de Will Graham com sua família (presentes em "Manhunter" e principalmente nas páginas do livro) para incluir mais cenas com Hannibal Lecter, que, por sua vez, aparece pouquíssimo no livro. E por falar em erro, "Manhunter" tem um erro amadorístico que foi corrigido em "Dragão Vermelho". Logo no início, o agente Graham visita a casa dos Leads, que foram exterminados pela "Fada dos Dentes". Falando no gravador, Graham explica que o assassino quebra todos os espelhos da casa e coloca cacos nos olhos das vítimas. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas aí o agente vai ao banheiro para lavar o rosto e... surpresa! Os espelhos estão intactos!!!! Na versão 2002, o Will Graham interpretado por Edward Norton encontra os espelhos em cacos, como deveria.



E também em questão de violência a refilmagem do ano 2002 é muito mais explícita. Mesmo não sendo nenhum "Hannibal" da vida, "Dragão Vermelho" é muito mais violento que "Manhunter". As cenas dos crimes das duas famílias, executadas por Dolarhyde, têm o dobro de sangue pelas paredes e na cama. Isso sem contar a horripilante cena em que a "Fada dos Dentes" arranca os lábios de Freddy Lounds com sua dentadura - cena cortada em "Manhunter". Francis Dolarhyde acaba mal nos dois filmes: em "Manhunter" leva tiros de balas explosivas, que espalham jorros de sangue pelas paredes. Mas em "Dragão Vermelho" mostra-se ainda o assassino levando tiros no rosto, cena que eu não via no cinema desde "O Ano do Dragão", de Michael Cimino. Ou seja, há mais sangreira e violência na refilmagem. Mas não é violência gratuita ou apelativa, como em "Hannibal".

Curiosidades sobre "Manhunter"

Se no Brasil a primeira adaptação cinematográfica do romance "Red Dragon" é bem pouco conhecida, nos EUA, principalmente, esta produção tornou-se um "cult movie", ou seja, um verdadeiro clássico para um bando de malucos que idolatra o filme através de páginas completíssimas na Internet. Estas páginas trazem todas as informações sobre novas versões do filme lançadas em DVD ou VHS, sobre as novas produções estreladas pelos atores de "Manhunter", entre outras curiosidades.
É possível ter acesso a raras fotos enviadas para a imprensa em 1986 como divulgação do filme, fotos dos bastidores da filmagem, tratamentos do roteiro e até mesmo seqüências inteiras que foram cortadas na edição final.
Em um destes sites, descobri que "Manhunter" poderia ser um filmaço, muito melhor que "Dragão Vermelho", mas misteriosamente acabou perdendo uma parte da sua essência na sala de edição. Para o leitor ter uma idéia, Michael Mann cortou diálogos inteiros de Will Graham com Hannibal Lecter, com o dr. Chilton e com Jack Crawford, fundamentais para o entendimento da história e para o desenvolvimento da trama. Estas cenas cortadas são detalhadas no site http://website.lineone.net/~manhunter/manhunter.html.



Uma seqüência que fez muita falta era para acontecer após a frustrada armadilha para a "Fada dos Dentes". Nela, Will Graham encontraria sua mulher Molly, secretamente, em um hotel da cidade. Era uma cena romântica onde Molly perguntava ao herói se ele lembrava a primeira vez que se conheceram, conversa que evolui para uma cena de sexo entre o casal. Outro momento importante cortado foi uma segunda visita de Graham à casa da família Leads. Esta seqüência, em particular, mostra porque o agente é diferente dos outros homens do FBI: ele tem a capacidade de pensar como um verdadeiro psicopata.
Na cena, Graham entra na casa dos Leads falando na primeira pessoa, como se fosse a "Fada dos Dentes". Como se estivesse hipnotizado, o agente diz: "Eu entro. Uso o cortador de vidro para cortar um pedaço de vidro e entro. A casa é minha".
Outra cena envolvendo a casa de uma das famílias assassinada pela "Fada dos Dentes" é um tanto quanto cômica, e acredito que foi por isso que acabou cortada. Nela, um corretor de imóveis está mostrando a casa da família Jacobi a um jovem casal. Quando eles estão prontos para comprar o imóvel, surgem diversos carros de polícia chefiados por Will Graham, que queria visitar a cena do crime mais uma vez. Obviamente, o casal desistia da compra, deixando puto o corretor de imóveis.
O mais frustrante de tudo, entretanto, é descobrir que Michael Mann cortou um final alternativo para o filme, muito melhor que o utilizado e superior até mesmo ao do livro e ao da refilmagem feita neste ano. "Manhunter" originalmente termina com Graham, Molly e seu filho à beira do mar, olhando ovos de tartaruga que foram isolados pelo agente para protegê-los dos predadores naturais. Molly pergunta: "Quantos sobreviveram?""A maioria sobreviveu".



Mas no final alternativo, filmado e não utilizado, um carro parava em frente à casa da família Sherman, que estava marcada para morrer pelo "Dragão Vermelho" - seria a próxima família a ser visitada por Francis Dolarhyde. É uma noite chuvosa, e o espectador acredita que o condutor do carro é o próprio serial killer, que milagrosamente teria sobrevivido aos tiros de Graham. Ouve-se o som de batidas na porta e a senhora Sherman vai abrir. Ela fica sem palavras, em choque. É quando seu marido aparece com uma arma na mão e finalmente a câmera mostra quem está na porta: Will Graham, com o rosto coberto de feias cicatrizes feitas por Dolarhyde na luta de ambos. Sherman pergunta o que Graham quer, e esse só consegue balbuciar: "Eu só passei aqui para ver vocês. Isso é tudo". E ele sai, em câmera lenta, enquanto entravam os créditos finais. Para os alucinados de plantão, este final alternativo também poderia significar que o próprio Graham estaria assumindo o comportamento do "Dragão Vermelho", tornando-se psicótico após tanto perseguir e estudar serial killer. Um final provável, ainda que forçado.
Só que os detalhes cortados na edição final não ficam por aqui. Para a minha surpresa, e certamente para a de muita gente que assistiu "Manhunter", todas as cenas com Francis Dolarhyde, interpretado por Tom Noonan, foram filmadas duas vezes: uma com a enorme tatuagem do dragão vermelho nas costas e no peito, como Ralph Fiennes na refilmagem, e outra sem a tatuagem. Esta segunda versão foi a utilizada no filme. Segundo entrevista dada por Noonan no DVD americano de "Manhunter", o diretor Michael Mann acreditava que o detalhe das tatuagens transformaria o personagem de Dolarhyde em uma pessoa totalmente diferente daquela que ele imaginava. Desta forma, o cineasta sacrificou um dos detalhes cruciais do livro de Thomas Harris. Já falei anteriormente da minha decepção quanto à interpretação de Tom Noonan, mas tenho que dar a mão à palmatória: o homem está assustador nas fotos em que aparece caracterizado com uma meia calça na cabeça e as tatuagens no peito e nas costas.
Ficou um vilão de primeira, não o assassino meia-boca da versão final. Misteriosamente, Michael Mann achou que seria melhor mostrar um assassino sem as tatuagens. O próprio espectador perdeu com esta decisão, já que o filme ficou com um vilão aquém do esperado.



Outra curiosidade descoberta nos sites sobre "Manhunter": o filme, originalmente, chamava-se "Dragão Vermelho", como o romance de Thomas Harris. Só que o produtor Dino DeLaurentis (que também bancou a refilmagem) obrigou o diretor a trocar para "Manhunter". O motivo: DeLaurentis tinha colocado muita grana no novo (na época) filme de Michael Cimino, chamado "O Ano do Dragão", e se deu mal, com um fraco resultado nas bilheterias. Por isso, queria ficar longe de qualquer projeto que tivesse "dragão" no título.
Mas o mais engraçado vem agora: o produtor não gostou nem da bilheteria de "Manhunter" e, por isso, recusou-se a comprar os direitos sobre o segundo romance de Thomas Harris, "The Silence of the Lambs".Todos nós sabemos que DeLaurentis se deu muito mal com esta atitude impensada, já que perdeu a chance de produzir um dos filmes mais famosos das últimas décadas, além de um dos grandes vencedores do Oscar de 1991.



Para finalizar: não adianta falar mal de "Manhunter", por ter mudado muito a história original, ou de "Dragão Vermelho", por ter dado mais destaque a Hannibal Lecter do que ao herói Will Graham. Só tem uma forma de conseguir ver aos dois filmes, que é encará-los como duas produções totalmente diferentes "inspiradas" por uma mesma história, mas feitas em épocas diferentes por pessoas muito diferentes, com objetivos também diferentes. Ou você acha que Michael Mann fez "Manhunter" com a idéia de que ele seria um sucesso de bilheteria estrondoso em todo o mundo? Nem pensar! Brett Ratner, por outro lado, tinha esta grande responsabilidade sobre os seus ombros, sendo Hannibal Lecter um personagem popular desde "O Silêncio dos Inocentes".
Minha recomendação: assista aos dois filmes pois ambos têm detalhes que se completam. Não adianta tentar escolher o melhor. "Dragão Vermelho" é mais fiel ao livro de Thomas Harris, mas será que isso faz dele um filme melhor? "Manhunter" muda boa parte da história do livro, tornando algumas cenas mais "realistas", mas será que isso faz dele um filme melhor? Cada um encara esta pergunta como quiser.

Texto: Felipe M. Guerra


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