O EXORCISMO DE EMILY ROSE

por Filipe Falcão

"One, Two, Three, Four, Five, Six."
(Emily Rose, referindo-se aos demônios dentro de seu corpo)

Imagine que a garota possuída pelo demônio no clássico filme O Exorcista (The Exorcist, 1973), Regan MacNeil, não tivesse sobrevivido ao ritual para expulsar o demônio que habitava em seu corpo. Que a mesma falecera por causa do suposto caso de possessão e que após tal episódio, o padre que participou do exorcismo fosse acusado de homicídio culposo e omissão de socorro. Baseado em uma história real, O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism of Emily Rose, 2005) leva o espectador a este julgamento da fé contra a ciência em um filme bem conduzido, que mesmo com uma semelhança natural com a trama de O Exorcista, mostra ter vida própria, fruto de um bom roteiro, direção segura e elenco eficiente, além de possuir interessantes diferenciais dentro de um gênero tão repleto de produtos iguais.
A produção é baseada na história verídica da jovem alemã Anneliese Michel, que morreu na década de 70, aos 18 anos, vítima de um caso de possessão confirmado pela própria Igreja Católica. No filme, sua vida é narrada através da fictícia Emily Rose (Jennifer Carpenter), uma jovem normal para os padrões da época. Vinda de família religiosa, sendo católica praticante, a moça começa a ser vítima de estranhas crises cada vez mais violentas e aparentemente sem explicações. Tais surtos são diagnosticados por médicos como frutos de crises epiléticas levando a garota a receber tratamento com drogas apropriadas, porém, as crises passam a se tornarem cada vez mais freqüentes e violentas.



Sem alternativa, a família de Emily pede ajuda ao sacerdote local, o padre Richard Moore (Tom Wilkinson), que durante um dos surtos da garota começa a desconfiar de que a mesma esteja sofrendo de possessão demoníaca. Logo tal dúvida dará lugar para a terrível certeza fazendo com que a própria Emily solicite o exorcismo, no entanto a garota morre durante o ritual, levando o padre a ser acusado de negligência e assassinato culposo. Para defender o religioso, a paróquia indica a famosa advogada Erin Bruner (Laura Linney), que não demonstra muita confiança na história do seu cliente. No entanto, à medida que o processo transcorre, a antes cética advogada, que não é católica e sim agnóstica, passa a se questionar sobre os eventos inexplicáveis em torno da história

Por outro lado, o advogado de acusação do caso, Ethan Thomas (Campbell Scott) se mune de elementos que negam o suposto ato de possessão, visto como folclore, buscando explicações para a morte da garota em médicos e psiquiatras para demonstrar que Emily era na verdade vítima de crises fortes de psicose, o que justificaria as visões que a assombravam, e de ataques epiléticos, que explicariam o descontrole emocional da mesma.



A ação do filme começa justamente após a morte de Emily e vai sendo desenvolvida durante o julgamento contra o padre Moore, que vai narrando em flash backs os acontecimentos envolvendo a garota e que culminaram no seu falecimento. Esse recurso de narração temporal mostra-se bastante eficaz dentro da trama, embora os fãs das produções genéricas de Pânico (Scream, 1997), com muita ação e sangue jorrando em cada cena, podem achar O Exorcismo de Emily Rose um tanto quanto maçante e até sem nexo, o que obviamente, não deve ser considerado.

Assistir a história de Emily Rose e não fazer comparações com O Exorcista é inevitável, uma vez que a obra de 1973 foi um marco no gênero e nas produções que abordam o tema da possessão demoníaca. A imagem da garotinha inocente com o corpo habitado pelo diabo já faz parte do consciente coletivo e realizar qualquer trabalho cinematográfico nesta área vai levar para comparações naturais. No entanto, a boa notícia está no fato da história de Emily Rose conseguir ter vida independente do clássico dos anos 70, apoiada principalmente em um roteiro seguro e por uma produção bem realizada, sem efeitos especiais mirabolantes e consequentemente falsos.



Claro que O Exorcismo de Emily Rose possui elementos semelhantes ao de outras obras do gênero, como as tradicionais cenas da garota se auto mutilando, vozes duplicadas e falas em aramaico. O diferencial da trama está na forma como a história é narrada, uma vez que o filme utiliza justamente o recurso do júri para colocar o público como um observador ocular dos acontecimentos, mostrando claramente um julgamento entre a fé e a ciência ao serem levantadas questões sobre a existência de Deus e do diabo e da ação de ambos nas vidas das pessoas. Um outro acerto do filme é o de mostrar diferentes flash backs envolvendo Emily baseados em cada uma das possíveis explicações para a sua morte, sob os pontos de vistas da fé e da ciência.

Mas engana-se quem pensa que o filme pega leve no sentido de assustar, embora alguns momentos sejam extremamente previsíveis, como a porta que bate, ou o gato gordo que pula, porém, a produção consegue ir além destes clichês, com algumas seqüências extremamente impressionáveis, em especial as que mostram a auto flagelação da jovem, envolvendo inclusive deslocamento dos ossos de Emily, que chegam a incomodar muito mais do que o giro de 180 graus da cabeça de Regan, de O Exorcista. O filme é repleto de cenas fortes, do ponto de vista visual, porém feitas de forma simples para os atuais padrões das produções do gênero, e por isso, funcionam muito bem. Destacam-se a seqüência no celeiro, a entrada da garota na igreja, ou quando a jovem Emily, tomada por um acesso de fúria, arranha copiosamente a parede do seu quarto com as unhas.



Fruto da dupla de roteiristas Scott Derrickson, que também dirigiu a produção e Paul Harris Boardman, que possuiam de mais importante no currículo os fiascos Hellraiser: Inferno (Hellraiser: Inferno, 2000) e Lenda Urbana 2 (Urban Legends: Final Cut, 2000), tendo em O Exorcismo de Emily Rose uma brusca melhora no material criado pela dupla. A direção de Derrickson se mostra segura ao mostrar uma trama bem conduzida, com momentos fortes e diálogos inteligentes, além de flertar com o drama existente de forma natural na história, sendo mostrado através da própria Emily e sua família, na perda da sua filha mais velha de forma tão trágica.

Além do bom roteiro e da direção segura, o filme também deve ser destacado pelo seu elenco, começando pela jovem Jennifer Carpenter (mais conhecida no Brasil pela sua participação na comédia As Branquelas, 2004). Carpenter consegue passar todo o medo e fúria da sua personagem na medida exata, sem parecer caricata em momento algum. Para o papel da cética advogada Erin, foi escolhida a atriz Laura Linney, (O Show de Truman, 1998), que faz um trabalho convincente dosando medo e drama de acordo com a situação. Coube ao experiente ator Tom Wilkinson (Entre Quatro Paredes, 2004) dar vida a um atormentado padre Moore, um homem que tem na fé seu pilar de sustentação, mas que teme o demônio por reconhecer seu poder e busca acima de qualquer outra coisa, contar o que realmente aconteceu com Emily.



Por todos estes pontos positivos, O Exorcismo de Emily Rose já deve ser considerado como uma agradável opção do gênero e se a produção não chega a ser o clássico que O Exorcista da década de 70 se tornou, pelo menos pode ser visto como uma das boas surpresas do ano e por isso, já valendo o preço do ingresso.

Filipe Falcão


O EXORCISMO DE EMILY ROSE (The Exorcism of Emily Rose , EUA, 2005). Duração: 119 minutos.
Direção: Scott Derrickson
Roteiro: Scott Derrickson; Paul Harris Boardman
Produção: Beau Flynn; Paul Harris Boardman; Gary Lucchesi; Tom Rosenberg; Tripp Vinson
Produção Executiva: Clint Culpepper; Andre Lamal; David McIlvain; Julie Silverman
Música: Christopher Young
Fotografia: Tom Stern
Edição: Jeff Betancourt
Desenho de Produção: David Brisbin
Direção de Arte: Sandi Tanaka
Maquiagem: Gitte Axen; Mary Kim; Jim Knell; Keith VanderLaan
Figurino: Tish Monaghan
Elenco: Laura Linney (Erin Bruner); Tom Wilkinson (Padre Moore); Campbell Scott (Ethan Thomas); Jennifer Carpenter (Emily Rose); Colm Feore (Karl Gunderson); Joshua Close (Jason); Kenneth Welsh (Dr. Mueller); Duncan Fraser (Dr. Cartwright); JR Bourne (Ray); Mary Beth Hurt (Juiz Brewster); Henry Czerny (Dr. Briggs); Shohreh Aghdashloo (Dr. Adani); Steve Archer; Arlene Belcastro; David Berner; David Berner (Dr. Vogel); Julian Christopher; George Gordon; Iris Graham; Taylor Hill

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