ENCURRALADO

Por Renato Rosatti

“Quando as luzes dos faróis de um caminhão tornam-se os olhos de um psicopata”

Quando se pensa em “road movies” com elementos de horror e suspense, o primeiro filme que vem à mente é “Encurralado” (Duel, 71), especialmente produzido para a televisão, dirigido por Steven Spielberg em início de carreira, a partir de um roteiro do especialista Richard Matheson, e estrelado por Dennis Weaver, no papel de um caixeiro viajante atormentado e perseguido por um enorme caminhão conduzido por um psicopata, conforme anuncia muito bem uma das taglines promocionais do filme (reproduzida no início desse texto). “Encurralado” serviu de base para uma série de filmes seguintes explorando o tema de uma máquina assassina sobre rodas como “O Carro Assassino” (The Car, 77), sobre um carro possuído pelo demônio, o episódio “A Benção” (The Benediction) da antologia “Pesadelos Diabólicos” (Nightmares, 83), sobre uma pick-up preta igualmente possuída pelo diabo, e os mais recentes “Perseguição” (Joy Ride, 2001) e “Velozes e Mortais” (Highwaymen, 2003), com Jim Caviezel.



Encurralado” é um verdadeiro “duelo” (daí o nome original) carregado de tensão entre o comerciante em viagem de negócios David Mann (Weaver), e o motorista de um caminhão tanque cujo rosto nunca aparece (interpretado por Carey Loftin), sendo mostradas apenas as suas botas e o braço esquerdo. Mann está dirigindo tranquilamente o seu carro, um Plymouth vermelho, pelas estradas desertas, quentes e poeirentas da California, e nunca imaginaria que uma simples ultrapassagem por um escuro caminhão de transporte de combustível (que estava vazio) iria desencadear uma perigosa série de consequências graves envolvendo sua vida e de terceiros inocentes que cruzassem seu caminho. Pois o motorista do caminhão, uma máquina de poluição do ar soltando muita fumaça através de seu potente motor, sentiu-se inexplicavelmente ofendido e decidiu partir para uma briga na estrada, utilizando seu caminhão como uma arma letal em suas mãos, iniciando um perigoso jogo psicológico macabro com o inicialmente pacato motorista do carro, que apenas queria seguir sua viagem normalmente.
O confronto foi progressivamente aumentando o clima de tensão, com direito a perseguições em alta velocidade, com picos de 150 Km/h, num percurso cheio de curvas evidenciando um sentimento sufocante do comerciante em tentar se livrar da ameaça motorizada de uma máquina assassina guiada por um psicopata que quer matá-lo por causa de um simples atrito na estrada, culminando após uma série de eventos alucinantes num desfecho trágico para o duelo.



O filme é um dos primeiros trabalhos do agora consagrado e famoso cineasta Steven Spielberg, mostrando já no início dos anos 70 o seu incrível talento como diretor, ajudado pela excepcional história de Richard Matheson, enfatizando um tipo de paranóia que pode existir nas estradas e afetar qualquer pessoa. O roteiro é simples e totalmente ambientado numa estrada e arredores, com poucos personagens, mostrando basicamente o duelo entre um carro despretensioso e um caminhão imponente, mas carregado com um clima de tensão, suspense e ação dignos dos maiores trabalhos posteriores de Spielberg realizados com orçamentos milionários.
Steven Spielberg é americano de Cincinnati, Ohio, nascido em 18/12/1946. Entre seus trabalhos no cinema dentro do gênero fantástico podemos citar “Tubarão” (75), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (77), “E.T. – O Extraterrestre” (82), “Poltergeist, o Fenômeno” (82, de forma não creditada, já que oficialmente a direção foi de Tobe Hooper), um episódio da antologia “No Limite da Realidade” (83), “O Parque dos Dinossauros” (93), “O Mundo Perdido” (97), “A.I. – Inteligência Artificial” (2001) e “Minority Report – A Nova Lei” (2002). Entre seus próximos projetos foi anunciada a produção de uma refilmagem do clássico de 1953 “A Guerra dos Mundos”, com previsão de lançamento em 2006.
O escritor Richard Matheson é americano de New Jersey, nascido em 1926. Entre seus livros famosos estão “Eu Sou a Lenda” e “O Incrível Homem Que Encolheu”, que se transformaram nos filmes de sucesso “Mortos Que Matam” (64) e “A Última Esperança Sobre a Terra” (71), no caso do primeiro livro, e o clássico de FC homônimo de 1957 baseado no segundo livro. Entre seus trabalhos consagrados como roteirista estão filmes como “A Queda da Casa de Usher” (60), “O Poço e o Pêndulo” (61), “Muralhas do Pavor” (62), “O Corvo” (63), “Robur, o Conquistador do Mundo” (61), “Farsa Trágica” (64), “As Bodas de Satã” (68), “A Casa da Noite Eterna” e “Drácula”, ambos de 73, sem contar sua participação em várias séries de televisão.



Entre as várias sequências interessantes de “Encurralado”, um dos ápices certamente foi quando após uma perseguição violenta na estrada, o comerciante Mann sai da pista perigosamente em alta velocidade em direção a uma lanchonete, e bate o carro numa cerca de madeira, quebrando parte dela. Por sorte, ele apenas torce levemente o pescoço e decidi então entrar no bar para se refrescar no banheiro. Quando volta, descobre que o caminhão está parado no estacionamento também e a partir daí se inicia um tenso jogo psicológico com Mann imaginando quem poderia ser o motorista psicótico entre as várias pessoas que estavam na lanchonete para almoçarem. Ele fica observando um a um, tentando reconhecer as botas, num suspense crescente. Realmente é complicado você saber que alguém que quer matá-lo está no mesmo ambiente que você e não poder reconhecer quem é o sujeito insano.
O filme todo é enfocado segundo a perspectiva do motorista do carro, que é a vítima desde o início do duelo, mostrando seus pensamentos de indignação, revolta e medo perante uma situação inusitada onde ele se sente encurralado na estrada por um caminhão assassino, e tudo por causa de um pequeno e banal desentendimento numa ultrapassagem despretensiosa.
É interessante notar que assim como no posterior “Um Dia de Fúria” (Falling Down, 93), com Michael Douglas enfrentando uma série de problemas do caos urbano, “Encurralado” também evidencia a incrível somatória de eventos desastrosos num típico dia ruim para o viajante David Mann, pois além de ser perseguido sem motivo por um caminhão, ele ainda teve que enfrentar outras situações desfavoráveis. Primeiro ao tentar ajudar um ônibus com defeito mecânico, empurrando-o com seu carro na esperança de conseguir ligar o motor, e apenas conseguindo como resultado o seu pára-choque enroscado na traseira do ônibus. Depois foi a vez de seu carro apresentar aquecimento no motor por causa do desgaste da mangueira do radiador (alertado por um frentista momentos antes), e perder potência justamente na hora em que ele mais precisava da ação do carro, ao tentar fugir de seu perseguidor na subida de uma grande serra, onde o pesado caminhão perde significativamente o seu rendimento.
O desfecho de toda essa paranóia frenética é, assim como todo o filme, igualmente sensacional, e a sugestão que fica é assistir o filme para saber quem venceu o “duelo”...

“Encurralado” (Duel, 1971) – artigo # 260 – data: 12/06/04 – avaliação: 9 (de 0 a 10)

Renato Rosatti



Por E.R.Corrêa

Richard Matheson é mundialmente conhecido como um dos grandes escritores de ficção científica e horror, tendo escrito clássicos absolutos como Eu Sou a Lenda ("I am Legend", uma aterrorizante história pós-apocalíptica de horror que, inclusive, já foi adaptada duas vezes para as telas) e O Incrível Homem que Encolheu ("The Incredible Shrinking Man", outra incrível história de fantasia e ficção científica que já teve a sua versão cinematográfica num clássico dirigido em 1957 por Jack Arnold), mas sua maior contribuição ao gênero fantástico foi os inúmeros roteiros que escreveu para o cinema e para a TV.
Escritor ardoroso e de incrível imaginação, Matheson não se limitou a um gênero apenas ou a uma única linha de raciocínio, demonstrando rara habilidade de composição, indo da ficção científica ao suspense, da comédia ao terror. Explorou todas as possibilidades na arte de se escrever roteiros, o que não é uma tarefa fácil. Foi um dos principais roteiristas da década de 60, onde trabalhou ao lado de Roger Corman na adaptação de contos clássicos de Edgar Allan Poe para a "American International Pictures".
Fez também marcantes participações em seriados de TV, como nas aclamadas séries de ficção científica Jornada nas Estrelas e Além da Imaginação (ambas as clássicas da década de 60), tendo, inclusive, para esta última, criado uma das histórias mais fantásticas, "Terceiro Planeta do Sol" (Third from the Sun).
Com a sua incrível habilidade de fornecer boas idéias e histórias instigantes, Richard Matheson sempre chamou a atenção dos produtores e diretores. Em 1971, o então desconhecido diretor Steven Spielberg, que até então dirigia apenas minisséries e seriados para a televisão como Galeria do Terror e Columbo, resolveu fazer seu primeiro longa metragem, Encurralado (Duel), adaptação de um conto homônimo de Matheson e apresentado originalmente como parte da série da ABC "Movie of the Week".
O filme já é bom e interessante por si só, mas o fato de ter se inspirado numa história de Matheson o torna alvo de maiores atrativos.



Parece que em fins da década de 60 e começo da de 70 houve uma crescente fobia com relação às máquinas. Como reflexo do "estilo americano de viver", onde os carros, principalmente, eram o grande atrativo da rebeldia adolescente exprimida entre os eternos conflitos de duas grandes potências mundiais, os filmes mostravam um crescente e irreparável pessimismo com relação ao futuro. E, para tirar o corpo fora, nada melhor do que jogar a culpa nas máquinas, prevendo, com grande desconforto, o que poderia se tornar um caos mecanizado. O que é interessante notar é que não foram medidos escrúpulos na criação de máquinas homicidas com vida própria, tornando o que poderia ser uma crítica social séria numa ridícula paranóia urbana.
Isso é exatamente o que não ocorre em Encurralado. Aqui o veículo, cuidadosamente preparado de forma a se tornar assustador, não é o monstro direto, e sim o instrumento usado como (permitam-me o trocadilho) veículo do mal.
O filme é ousado e ágil, numa sufocante história de suspense e ação que se desenvolve num ritmo frenético e assustador, onde um psicopata motorista de caminhão persegue implacavelmente o ator Dennis Weaver durante sua travessia pelas desertas e poeirentas estradas da California. O motorista do caminhão jamais aparece - em alguns rápidos momentos é possível ver apenas o seu vulto e o seu braço esquerdo apoiado na janela da cabine, mas a jamanta faz todo o resto, tomando para si o papel de monstro.
Com a sua aparência velha e carcomida, com as suas rodas gigantes e gastas, com seu pára-brisa escuro e imundo e com o seu ronco seco e estrondoso, o caminhão parece de fato um monstro automotor com vida própria e sede de matar.
O filme inteiro se desenvolve com a inexplicável perseguição, tendo, no decorrer de sua história, excelentes momentos de mistério e suspense, onde consegue transmitir todo o nervosismo do personagem aos telespectadores. O ritmo chega a ser exagerado em alguns momentos, mas Spielberg consegue dosar na medida certa os extremos instantes de pavor.
Weaver tenta, de todas as maneiras, fugir à vista do psicótico caminhoneiro, deixando-o passar à frente e dirigindo à sua traseira a 20 Km/h (!). Mas não adianta - o caminhoneiro está mesmo a fim de manter a sua brincadeira macabra, uma vez sabendo que o desesperado motorista não tem outra alternativa a não ser seguir em frente, já que está a centenas de quilômetros de qualquer cidade. Por fim ele cria coragem e pisa fundo no acelerador, passando à frente do caminhão e levando-o à beira de um penhasco, onde consegue conduzí-lo além da barreira de segurança. Weaver não consegue manter sua alegria ao ver os destroços da terrível máquina assassina quando esta, finalmente, se precipita na profunda garganta do penhasco rochoso. Nem mesmo após a morte, a identidade do diabólico motorista é revelada. É engraçado como esse momento é de grande alívio aos telespectadores, pois o que realmente irritava era o modo como o caminhoneiro agia - ele não queria apenas matar; ele queria brincar, perseguir e levar ao desespero o inocente condutor do carro.
Encurralado é um filme ágil, violento e eficiente; antes de assistí-lo parece não ter maiores atrativos, mas consegue, com uma história simples e direta, fixar-nos na poltrona até o desfecho final. O clima de mistério, amparado por um suspense magistral, é o seu grande trunfo, que, inclusive, foi o vencedor do "Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz", na França, inspirando dezenas de outras produções que tem como foco central da história o horror relacionado a automotores - de forma direta ou indireta - como O Carro Fantasma (1977), Mad Max (1980), Christine, o Carro Assassino (1983) e O Comboio do Terror (1986) - esses dois últimos baseados em livros de Stephen King.
Pode-se concluir daí que Spielberg estreou bem, conseguindo, logo de cara, arrematar um prêmio. Mas era apenas o começo, pois o diretor seguiria fazendo outros grandes sucessos no gênero fantástico, como Tubarão (1975), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), E.T. - O Extraterrestre (1982) e No Limite da Realidade (1983, antologia de episódios com a participação de Spielberg), entre outros. Com esses filmes, arrematar prêmios não seria mais novidade nenhuma.
Hoje, o diretor é um dos mais influentes na moderna indústria cinematográfica hollywoodiana, tendo sido responsável pelas maiores bilheterias dos últimos tempos.
Encurralado pode não ter ficado uma obra-prima, mas, como Stephen King mesmo disse: "com certeza um dentre a meia dúzia de melhores filmes produzidos para a TV".



ENCURRALADO (Duel, Estados Unidos, 1971). Universal, 86 minutos
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Richard Matheson, a partir de sua própria história
Produção: George Eckstein
Fotografia: Jack A. Marta
Música: Billy Goldenberg
Edição: Frank Morriss
Direção de Arte: Robert S. Smith
Elenco: Dennis Weaver (David Mann), Jacqueline Scott (Sra. Mann), Eddie Firestone, Lou Frizzell, Gene Dynarski, Lucille Benson, Tim Herbert, Charles Seel, Shirley O´Hara, Alexander Lockwood, Amy Douglass, Dick Whittington, Carey Loftin, Dale Van Sickel, Shawn Steinman.



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