ESCURIDÃO

por Filipe Falcão

Se você gosta de sair satisfeito de uma sala de cinema após ver um bom filme de mistério, que lhe cause sentimentos como angústia, tensão e medo real, passe longe de Escuridão (The Dark, 2005), que teve estréia nacional nesta última sexta-feira 13 de janeiro. A produção, vinda do Reino Unido, até consegue levantar um interesse por parte do público através do trailer ou de uma sinopse bem resumida, publicada no canto da página de algum jornal, mas após ser conferido, mostra-se apenas como mais uma obra que aposta no medo falso para provocar susto em platéias mais sensíveis dentro de uma história mais confusa do que misteriosa e que como filme, está mais para buraco negro do que uma simples escuridão.
O filme conta o drama de Adelle (Maria Bello, Marcas da Violência, 2005), que viaja ao lado da filha Sarah (Sophie
Stuckey) para o País de Gales na tentativa de fazer as pazes com o ex-marido James (Sean Bean, da trilogia O Senhor dos Anéis, 2001), que mora em uma velha fazenda localizada no alto de um rochedo próximo a praia. Pouco depois da chegada das duas ao lugar, uma tragédia vai abalar a família, quando a jovem Sarah é tragada pelo mar. Nos dias seguintes, o ex-marido James passa a procurar pelo corpo da filha desaparecida na costa marinha, enquanto Adelle começa a ver nos arredores da casa uma estranha garota chamada Ebrill (Abigail Stone), bastante parecida com Sarah.
Adelle escuta então, uma antiga lenda sobre um plano espiritual chamado Escuridão, onde os mortos habitam e podem ser trazidos de volta ao mundo dos vivos por meio de sacrifícios humanos, como uma troca de que para cada morto retorne a vida, é oferecida uma vítima. Com o passar do tempo, Adelle começa a acreditar que Ebrill foi trazida de volta da tal Escuridão, quando moradores do local afirmam que a garota teria desaparecido misteriosamente mais de 50 anos atrás. Para a mãe desesperada, a estranha menina é a chave para localizar sua filha desaparecida.
Baseado no romance de Simon Maginn, a história de Escuridão flerta com o mistério, o terror e até o drama, o que fez com que os então futuros produtores do filme, Paul W.S. Anderson, Jeremy Bolt e Robert Kulzer (o trio responsável pela boa série Resident Evil), pensassem que uma adaptação para as telas seria fácil de
ser feita e agradaria ao público em geral, no entanto, o roteiro assinado por Stephen Massicotte (Possuída 3, O Início, 2004) apresentou uma trama confusa além de ter a história mal contada, com uma clara ausência de um fio narrativo seguro que amarre o enredo como um todo e consiga prender a atenção de quem assista ao filme.

Diálogos fracos também são frutos deste frágil roteiro, que acaba por tornar a história lenta, como se a mesma não fosse ter fim, mesmo o filme tendo uma duração de 93 minutos, o que é considerado um tempo até razoável. O problema é que as situações mostradas durante a projeção parecem ter sido criadas apenas com o intuito de funcionarem dentro de um filme do gênero, mas que mesmo tendo ligação com o sobrenatural, acabam ficando sem sentido como é observado em diversos momentos da trama.
Aliás, o diretor John Fawcett (Possuída, 2000) fez com que o filme fosse claramente produzido dentro do esquema já banalizado e esgotado do chamado susto fácil, onde tal reação vem de efeitos técnicos, podendo ser movimentos de câmera ou de som, onde uma porta batendo pode fazer o mesmo barulho de um forte trovão em uma noite de tempestade. Inclusive, vai ser justamente o quesito som que será o verdadeiro responsável por algumas pessoas pularem das poltronas dos cinemas e depois começarem a rir por terem se assustado com tamanha bobagem. Se você for assistir ao filme em uma sala de projeção com som digital ou tecnologia THX, isso vai ficar ainda mais explicito.
E quando o filme procura dar um ar de morbidez à história, acaba indo buscar inspiração nas produções vindas do oriente, o que também soa estranho dentro da proposta a qual o filme se propõe a seguir.
Como exemplo máximo desta característica temos a estranha garota Ebrill, cujas características mais parecem com as das meninas de longos cabelos assanhados e peles pálidas, tão comuns nas obras do cinema de terror asiático, como a já clássica Sadako, de O Chamado (Ringu, 1998) e que as produções ocidentais tanto gostaram que praticamente copiaram. A própria fazenda localizada no rochedo próximo ao mar também lembra os filmes de terror made in Japan e procura dar um certo clima mórbido à trama, mas a intenção passa desapercebida diante de tantos problemas, que acaba se perdendo.
E se a intenção era fazer uma trama que misturasse terror e mistério com drama, o tiro saiu pela culatra, pois as situações que levariam o filme para tal caminho esbarram, assim como todo o resto, no fraco roteiro que acaba dificultando um envolvimento com o sofrimento dos personagens, o que ocasionou uma interpretação forçada do elenco, em especial de Bello, que deveria levar toda uma carga dramática em função do desaparecimento da filha e a descrença do marido na lenda que poderia trazer a mesma de volta. Apesar de ser uma boa atriz, Bello faz um trabalho forçado, mais voltado para o clichê do que para o drama, enquanto o ator Sean Bean, que já mostrou em várias ocasiões que é um bom profissional, tem em Escuridão uma atuação sem muita expressão ou atrativo.
No meio de toda essa escuridão de filme, fica uma pobre vítima, o público, que aguarda ansiosamente pelo fim da película na esperança de conseguir fugir desta lenda universal de que bons
filmes não são feitos apenas com boa intenção e efeitos sonoros apurados e que para toda boa produção, existe antes de qualquer coisa um roteiro seguro, que servirá para dar sustentação ao filme e criar interesse no público. No caso de Escuridão, faltou justamente um argumento seguro para levar o espectador para um caminho mais elaborado e, certamente, interessante e envolvente. Para o espectador, resta apenas esperar pelo próximo susto previsível enquanto o filme não termina.

Filipe Falcão


ESCURIDÃO (The Dark, Inglaterra, 2005). 93 minutos
Direção: John Fawcett
Roteiro: Stephen Massicotte, baseado num romance de Simon Maginn
Produção: Paul W.S. Anderson; Jeremy Bolt; Robert Kulzer
Fotografia: Christian Sebaldt
Música: Edmund Butt
Edição: Chris Gill
Efeitos Especiais: David Harris; Graham Hills; Carolyn Matini
Efeitos Visuais: Adam Gascoyne; Matthew Bristowe; Melissa Butler Adams
Elenco: Sean Bean (James); Maria Bello (Adelle); Richard Elfyn (Rowan); Maurice Roëves (Dafydd); Abigail Stone (Ebrill); Sophie Stuckey (Sarah)


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