O filme mais assustador de todos os tempos...Em 1973, O Exorcista era o assunto do momento. Os estúdios Hammer já haviam apresentado uma estética mais "realista" em se tratando de filmes de horror e, em 1969, Roman Polanski chocara o público com a obra-prima O Bebê de Rosemary. Mas nenhuma dessas produções (igualmente importantes para a evolução do gênero) conseguiu ser tão popular como o filme de William Friedkin. Ao ser lançado, O Exorcista faturou sessenta milhões de dólares - uma quantia exorbitante para a época. O sucesso estende-se à comercialização de livros ( o autor da trama original, William Peter Blatty, faturou alto publicando duas versões do roteiro) e à realização de duas continuações que nem sequer alcançaram as plantas dos pés da obra original. Mas, afinal, o que havia de tão espetacular em O Exorcista? "Era um filme para os pais que sentiam, com um misto de horror e agonia, estar perdendo seus filhos e que não sabiam o motivo pelo qual isso estava acontecendo.", concluiu o mestre do suspense literário Stephen King, no livro A Dança da Morte. Ao constatar que as pessoas abandonavam os cinemas antes da projeção terminar, escandalizadas com o horror que presenciavam na tela, o ator Jason Miller (que, no filme, interpreta o jovem padre Karras) aventou uma segunda hipótese: para ele, O Exorcista colocava as pessoas frente a frente com seus demônios interiores, uma experiência desagradável que poucos seres humanos conseguem suportar sem se chocar. Todas essas teorias têm seu fundo de verdade. Mas o sucesso do filme também pode ser explicado pelo roteiro inteligente e pela criatividade de seus recursos visuais. Por obra de Blatty, o sobrenatural insinua-se na vida mundana da atriz de cinema Chris MacNer (Ellen Burstyn), mãe da garotinha Reagan (Linda Blair), de forma gradual: a princípio, MacNer não atribui o estranho comportamento da filha a um caso de possessão demoníaca (o filme mostra que até a Igreja Católica, nesse cerebral século vinte, guarda sérias dúvidas sobre a capacidade do diabo para intervir na vida dos mortais).Logo, porém, o demônio que se apoderou da garotinha intensifica seus ataques. Com o tempo, uma completa deterioração física opera-se no corpo da criança, que assume o aspecto de um monstro. O maquiador Dick Smith (...)foi encarregado de criar a horrenda máscara de Reagan. Possuído pelo espírito maligno, o corpo da menina cobre-se de chagas e erupções de pele. Smith também criou um curioso dispositivo mecânico que possibilitou o efeito da rajada de vômito que atinge o Padre Merrin (Max Von Sydow) durante uma seção de exorcismo. Mesmo atenuado pela nojeira explícita que impera nos filmes de horror atuais, o resultado é desconcertante. A odisséia de Reagan foi inspirada num caso real, noticiado pelos jornais norte-americanos na década de quarenta. Quando estudava na Universidade de Georgetown, o escritor William Peter Blatty acompanhou, com grande interesse, as reportagens sobre exorcismos que vinham sendo realizados na cidade de Mt.Rainier (no Estado de Maryland, EUA). De acordo com os artigos, um menino de catorze anos fora possuído pelo demônio. Depois de obter permissão especial da Igreja Católica, um padre tentou expulsar o espírito maligno. Um dos elementos mais pitorescos do caso foi o fato de o rapaz, inspirado ou não pelo demônio, expressar-se em latim (língua que não conhecia) durante as crises. Com bases nesses relatos, Blatty escreveu a novela O Exorcista. Alguns críticos tacharam de "superficial" o modo como o autor construiu os personagens da trama. Até as resenhas mais impiedosas, porém, reconheceram a força dos trechos que descreviam as manifestações do demônio. A idéia de adaptar o argumento para o cinema parecia muito boa, mas o consenso geral era que a obra precisaria ser modificada antes de chegar à tela grande. Uma das passagens do livro (que acabou sendo incluída na versão cinematográfica) mostrava Reagan se masturbando com um crucifixo - uma imagem forte demais, até para os dias atuais. O diretor Friedkin, porém, insistiu para que nenhum desses momentos fosse retirado do argumento (surpreendentemente, O Exorcista acabou sendo liberado sem a temida classificação "X" - utilizada para classificar obras de conteúdo pornográfico ou violento nos EUA). Eduardo Torelli ( revista SciFi News) |