Como é saudável rever aos velhos filmes de horror, de um tempo onde, pelo menos, havia sinceridade e idéias inspiradas naquilo que se realizava; e como é prazeroso ver as peripécias cênicas dos monstros sagrados do terror inglês Christopher Lee e Peter Cushing. Dentre os muitos filmes dessa dupla que estou sempre revendo, dois quase sempre esquecidos, em especial, me agradam muito: Expresso do Horror e Essência da Maldade.


Ao assistir
Expresso do Horror pela primeira vez, confesso que fiquei realmente bastante impressionado - talvez pelo fato de ter sido uma daquelas saudosas seções noturnas de terror que passavam na TV de outrora, e também por eu ter, na época, uma idade facilmente impressionável. Ao revê-lo hoje, muito daquele sentimento de medo e ingenuidade típico da infância se perdeu, mas não o respeito e o fascínio; tudo bem, sabemos que a fita é barata e está longe de servir como um modelo competente do que foi o terror cinematográfico da década de 70, mas passou para a posteridade como mais um ícone do cinema trash de horror carinhosamente denominado como
"cult". E por vários motivos: primeiro pelo seu elenco ilustre, formado por, entre outros,
Peter Cushing,
Christopher Lee e Telly Savalas; segundo pela sua história, uma divertida brincadeira macabra envolvendo forças alienígenas e zumbis; terceiro pelo seu clima, que consegue bons resultados e até mesmo momentos genuínos de claustrofobia e pavor; e quarto pelo fato de ser visivelmente uma produção barata, quase toda ambientada num trem, o desconfortável expresso Trans-siberiano, recriado em estúdio e com tomadas externas de uma maquete que engana razoavelmente... a crianças.


A história se passa em 1906, quando o famoso arqueólogo Alexander Sextus (Lee), de volta de uma expedição a Manchúria, no norte da China, traz consigo um achado arqueológico que julga ser um dos elos perdidos da evolução humana: um fóssil hominídeo de dois milhões de anos, semicongelado numa placa de gelo. Quando embarca no expresso, juntamente com seu achado, dá de cara com o Dr. Wells (Cushing), um antigo rival com quem não se dá muito bem. Curioso com o achado do arqueólogo rival e descontente com sua arrogância e misantropia, o Dr. Wells suborna um funcionário do trem para, na calada da noite, violar o caixote que contém o misterioso fóssil e descobrir seu segredo. Daí pra frente tudo é muito fácil de prever.
Agora à solta no trem, a criatura se revela uma terrível força alienígena de outra galáxia, existindo na Terra desde eras imemoriais sob as mais variadas formas e capaz de matar a uma simples olhada, drenando o cérebro de suas vítimas e roubando-lhes o conhecimento, processo que ela faz através dos olhos. Depois que o chefe de polícia consegue balear o próprio fóssil, o professor Sextus e o Dr. Wells realizam algumas autópsias nas vítimas e descobrem que o ser é uma espécie de parasita, capaz de se apossar do corpo de qualquer hospedeiro: ainda à solta no trem, a criatura pode ser qualquer pessoa.
Perseguições, tiroteios, suspeitas e muita correria preenchem o restante da película, até culminar no momento em que todas as vítimas da criatura voltam sob a forma de escravos zumbis.
Expresso do Horror (Pânico en el Transiberiano ou Panic on the Trans-Siberian Express, lançado nos Estados Unidos como
Horror Express) é de 1972 e foi dirigido por Eugenio Martin, numa co-produção entre Espanha e Inglaterra; Telly Savalas, o famoso detetive careca Kojak da série de TV, faz uma ponta rápida mas incrivelmente bem aproveitada: ele é um capitão cossaco muito pouco dado a brincadeiras, que morre logo, porém. E uma fala marcante de
Peter Cushing deve ser registrada: a certa altura, já por dentro de que a criatura é um parasita e pode ser qualquer pessoa do expresso, o chefe de polícia argumenta, então, que também um dos próprios cientistas poderia ser o monstro, ao que o Dr. Wells (Peter Cushing), indignado, responde:
"Monstros! Nós somos britânicos!".


No ano seguinte foi a vez de
Essência da Maldade (The Creeping Flesh), produção inglesa de Freddie Francis, outro pequeno
"cult" de horror envolvendo a colaboração Lee-Cushing, numa temática bastante parecida e com resultados também bastante pitorescos. Particularmente, considero este ainda mais divertido que o anterior, embora seja inferior em vários aspectos; é, por exemplo, muito mais ingênuo e despretensioso, assim como não consegue, em momento algum, alcançar um verdadeiro clima de pavor, sendo uma história comum de monstro, podendo assustar a inocentes crianças madrugadeiras, e só. Mas alguma coisa nele faz com que se torne mais... digamos
"chamativo". Talvez seja a direção segura de Freddie Francis, um dos mais recorrentes diretores ingleses do período, ou talvez uma maior disposição de ânimo tanto de
Christopher Lee quanto de
Peter Cushing, sem dúvida aqui se divertindo muito mais. Outro fator que também coloco em evidência é o fato de que filmes inteiros realizados num único ambiente, como é o caso, praticamente, de
Expresso do Horror, precisam ser muito competentes para não se tornarem maçantes. (O engraçado é que o
Expresso do Horror não é um filme maçante, embora não seja muito competente).
Dessa vez é Emmanuel Hildern (
Peter Cushing) quem faz a descoberta de vital importância para a compreensão dos segredos da evolução humana: em meados de 1893 ele encontra um antiqüíssimo e completo esqueleto-fóssil da Nova Guiné, em perfeito estado de conservação. De volta à Inglaterra, e com a ajuda de seu amigo Waterlow (George Benson), Emmanuel descobre que o esqueleto, na verdade, é a prova concreta de antigas lendas folclóricas da Nova Guiné, sobre o aparecimento na Terra de antigos seres do mal que foram derrotados e enterrados mas que em três mil anos estarão de volta, quando
"o pai do céu chorar por eles". Ao limpar com água um dos dedos decepados da criatura, o professor vê, estarrecido, brotar carne fresca e saudável no local; ao examinar as células de sangue dessa carne, e misturá-las com seu próprio sangue, ele percebe o total domínio das monstruosas células estranhas, e conclui: a criatura representa o mal absoluto, a própria
"essência da maldade", portanto uma segura fonte de pesquisa para se extirpar de vez o mal sobre a Terra, uma
"doença" que, segundo ele, pode ser curada - mas, em hipótese alguma, o esqueleto deve ser exposto à água, do contrário renascerá e espalhará o mal sobre a civilização. James (
Christopher Lee) é o inescrupuloso médico de um instituto para doentes mentais que, ao contrário do irmão e rival, não está nem um pouco interessado em levantar a bandeira do bem, mas sim, com a publicação de seu novo livro, conseguir o tão almejado prêmio Richter, nem que para isso tenha que recorrer a métodos pouco ortodoxos em suas pesquisas - como torturar os pacientes do instituto e interferir nos trabalhos do irmão. É o que ele faz, roubando o fóssil quando descobre sua importância científica para o mundo; o problema é que ele o faz numa noite de tempestade...
"quando o pai do céu chorar por eles". Completamente regenerada, após acidente na carroça que a transportava, a terrível criatura só quer uma coisa: seu dedo decepado de volta!


O final é brilhante, quando vemos James expondo toda essa história como uma loucura sem nexo imaginada por Emmanuel Hildern (
"ele ainda pensa que é meu irmão!"), um de seus detentos no instituto. Atrás das grades, Emmanuel grita, desesperado, que o mal está solto pelo mundo, e agarra-se às barras com força, deixando visível, para quem quiser acreditar nele, que um de seus dedos não está onde deveria...
Os efeitos da criatura são ingênuos, o roteiro dá reviravoltas desnecessárias envolvendo a esposa e filha loucas do professor, a ambientação é sutil; no entanto, um conto macabro e sensacional em toda sua fantasia fatalista, digna da década de 70 e digna deste dois ícones máximos do terror chamados
Peter Cushing (que descanse em paz) e
Christopher Lee (a lenda mais que viva: a lenda na ativa!).
E.R.Corrêa
|
EXPRESSO DO HORROR (Horror Express, Inglaterra/Espanha, 1973, Duração: 90 minutos)
Direção: Eugenio Martín
Roteiro: Arnaud d'Usseau; Julian Zimet
Produção: Bernard Gordon
Música: John Cacavas
Fotografia: Alejandro Ulloa
Desenho de Produção: Ramiro Gómez
Edição: Robert C. Dearberg
Elenco: Christopher Lee (Professor Alexander Saxton); Peter Cushing (Dr. Wells); Alberto de Mendoza (Padre Pujardov); Silvia Tortosa (Irina Petrovski); Julio Peña (Inspetor Mirov); Georges Rigaud (Conde Petrovski); Ángel del Pozo (Yevtuchenko); Víctor Israel (Luggage Worker); Helga Liné (Natasha); Alice Reinheart (Miss Jones); José Jaspe (Konev); Vicente Roca
|
|
ESSÊNCIA DA MALDADE (The Creeping Flesh, Inglaterra, 1973, Duração: 94 minutos)
Direção: Freddie Francis
Roteiro: Peter Spenceley; Jonathan Rumbold
Produção: Michael P. Redbourn
Música: Paul Ferris
Fotografia: Norman Warwick
Direção de Arte: George Provis
Maquiagem: Roy Ashton
Edição: Oswald Hafenrichter
Elenco: Christopher Lee (James Hildern); Peter Cushing (Emmanuel Hildern); Lorna Heilbron (Penelope Hildern); George Benson (Waterlow); Kenneth J. Warren (Charles Lenny); Duncan Lamont (Inspetor); Harry Locke; Hedger Wallace; Michael Ripper; Catherine Finn; Robert Swann
|