FAHRENHEIT 451

Por E.R.Corrêa

"Queimar era um prazer.
Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.
Punho de cobre na mão, armado desse imenso piton que cuspia o veneno da sua gasolina sobre o mundo, sentia o sangue bater-lhe nas têmporas e as suas mãos tornavam-se as mãos de uma espécie de maestro prodigioso dirigindo todas as sinfonias do fogo e do incêndio, ao ritmo das quais se desmoronavam os farrapos e as ruínas carbonizadas da história."
- Ray Bradbury


Não é a toa que Ray Bradbury é considerado o poeta da ficção científica.
Não haveria de ter mesmo uma designação mais apropriada.
Seus trabalhos, invariavelmente voltados à melancolia poética e irônica, traduzem a desesperação e a neurose contidas no dia-a-dia amargo e solitário das pessoas, e com profundas notas daquilo que se convencionou chamar philosophy fiction.
Amargo num sentido amplo; a aflição de uma humanidade cada vez mais mesquinha e tediosa. Solitário num sentido individual; o fechamento do indivíduo em seu próprio invólucro. Uma postura relativamente parecida com o pessimismo schopenhauriano, embora Bradbury não fosse um pessimista; apesar de "antiquado" e desatualizado no que se refere aos progressos da tecnologia, ele alimentava grandes esperanças quanto ao futuro da humanidade. Mas não fazia questão de ir ao encontro desse futuro.
E é exatamente essa sua visão filosófica das coisas que o torna um dos grandes mestres do gênero - sua temática é nostálgica e pura de fantasia e ficção científica, mas, apesar disso, sua preocupação não está voltada à tecnologia ou à ciência bruta, mas sim à essência do indivíduo como um todo, à sua razão profunda de ser e os seus conflitos com o mundo que o cerca.
É necessária uma grande acuidade de espírito para compreendê-lo realmente, pois os seus escritos alcançaram um significado tão profundo e nostálgico (e às vezes perturbador) que ultrapassa os próprios limites habituais do gênero. E dessa forma ele consegue remodelá-lo, de forma a torná-lo mais poético e mais humano, mas sem jamais cair no tédio ou na repetição.
Com essa preocupação aos instintos mais escondidos da natureza humana, Bradbury escreveu a maioria de seus livros, onde, além de uma prosa genuína carregada de morbidez, apresenta uma fantasia verdadeiramente ilimitada.
Um de seus livros mais representativos é "As crônicas marcianas". Com esse volume se juntam "O país de outubro", "Fahrenheit 451", "As máquinas da alegria" e "Os frutos dourados do sol", formando aquilo que os fãs consideram as mais poéticas obras de fantasia e ficção científica já escritas. E talvez "Fahrenheit 451" (publicado originalmente em 1951) seja o mais ousado deles.



Num futuro e país indeterminados topamos com uma sociedade patética, indistinta, onde a leitura de livros é expressamente proibida, pois são considerados artefatos vãos e contraditórios, que conseguem, quando muito, inspirar inquietação e anormalidade. Quando encontrados, os livros são imediatamente queimados por uma equipe especializada: uma espécie de bombeiros, só que com um propósito totalmente diferente daquele conhecido por nós - eles não evitam incêndios, eles os provocam.
Guy Montag, o personagem central, é um dos soldados-bombeiro, vive oprimido entre a indiferença de uma sociedade ociosa e dominada pela televisão e pelo ostracismo hipnótico, enquanto se cerca de pessoas tais como Milfred, uma esposa fútil e vã, e de Beatty, o capitão bombeiro.
Um dia ele encontra uma jovem, Clarisse, que lhe inspira certa curiosidade com relação ao conteúdo dos livros, e futuramente ele encontra um velho recluso e fanático por leitura, o que lhe aguça ainda mais a curiosidade. E ele não resiste; está farto do tédio e da opressão governamental que existe ao seu redor e se entrega de corpo e alma à leitura daquilo que até então ele vinha queimando. Uma de suas primeiras experiências com as letras se dá através do clássico "As Viagens de Gulliver".
Mas é traído por sua própria esposa e obrigado a matar seu chefe para fugir em direção aos bosques, onde existe uma espécie de sociedade livre e auto-instruída; ou seja, para evitar que percam seus conhecimentos através das chamas, as pessoas dessa sociedade simplesmente decoram o conteúdo dos livros, tornando-se elas mesmas "livros-vivos", que passam o conhecimento de boca em boca através das várias gerações, após o que eles mesmos queimam os livros, para que ninguém descubra.
Montag finalmente adere à sociedade tornando-se, posteriormente, um "livro-vivo".
O cineasta francês François Truffaut foi o primeiro a sentir o impacto e a originalidade dessa história a ponto de levá-la às telas. Mas quase não conseguiu devido ao desinteresse de produtores franceses e americanos. Durante três anos de peregrinação o projeto quase morreu, até que apareceu o produtor norte-americano Lewis M. Allen e o colocou novamente na trilha. Enfim, amparado por um orçamento de um milhão e meio de dólares em produção inglesa, Truffaut pôde concluir o projeto e criar um dos grandes clássicos europeus de ficção científica.
A história segue quase à risca o livro de Bradbury, e apresenta, diga-se de passagem, a mesma atmosfera estranha e melancólica das páginas. Os personagens se distribuem da mesma maneira, e com os mesmos conflitos, mas o livro ressalta bastante o lado tecnológico, que funciona praticamente como motivo condutor. Existe uma infinidade de pontos eletrônicos, micro-aparelhos de comunicação, relógios falantes e indicadores de anormalidade, rádios, TV's e máquinas das mais diversas, por todos os lados. Existe até mesmo a presença de um "cão policial mecânico", uma espécie de robô programado para capturar e detectar possíveis rebeldes leitores - elementos que foram levemente alterados no filme.
A princípio, Truffaut optou pelo estilo clássico do gênero, e o primeiro script se apresentava assim, com elementos predominantemente básicos e habituais, mas o diretor resolveu desviá-lo para uma linguagem mais bradburyana, onde a anormalidade se expressa na fisionomia de cada personagem. Além do mais não existe uma verdadeira atmosfera de ficção científica, como afirmou o próprio diretor, a despeito de seus elementos futuristas e anticonvencionais; o que existe é uma áurea pouco extravagante de irrealidade, onde o breve avanço no tempo e onde o uso de determinados aparelhos se encarregam de sugerir Fahrenheit 451 como um exemplo típico do gênero.
Assim o filme propõe exatamente aquilo que o livro propunha: uma fria visão da sociedade futura com base naquilo que se observa da sociedade presente - mas de uma forma mais sentimental do que política.



Os homens desse futuro são vistos como seres robóticos, artificiais, neutros, instáveis, cada vez mais tendentes à utilização da tecnologia, da TV, da informação dirigida e da propaganda manipulada.
Assim como o Robert Neville de Richard Matheson, que mostra seu drama individual e inverso no mundo apocalíptico de horror em Eu sou a lenda, aqueles que possuem ou pretendem se aprofundar nos livros e na leitura são excluídos como uma aberração, um ser que deve ser extinguido, uma anomalia pré-histórica que se agarra em valores ultrapassados no mundo visual e tecnológico da sociedade contemporânea.
Mas ao mesmo tempo existem aqueles que não se deixam absorver por esse mundo insípido e artificial, e lutam para trazer de volta os valores da cultura e do conhecimento impresso.
Montag (Oskar Werner) e sua amiga Clarisse (Julie Christie, que também interpreta Linda, a esposa do bombeiro) são exemplos desse tipo de pessoa, enquanto o capitão (Cyril Cusak) representa o contrário, o conservador, o fiel seguidor das doutrinas governamentais, o fiel queimador de livros. Morre queimado...
Dessa maneira Truffaut não só conseguiu manipular a idéia e conduzir o filme de forma a torná-lo um de seus melhores trabalhos, como também criar a melhor das adaptações de Bradbury às telas. (Obras de Bradbury já haviam sido adaptadas anteriormente em dois clássicos "B" dos anos 50, O monstro do Mar e Veio do Espaço, ambos de 1953, além dos filmes que seriam produzidos posteriormente, como O Homem Ilustrado, de 1968, e o seriado para televisão As Crônicas Marcianas, de 1979; ainda ligado ao cinema pode lhe ser atribuído, também, a adaptação do clássico Moby Dick, de Melville, feita em parceria com John Huston em 1956).
A admiração confessa de Truffaut pelo insólito hitchcockiano está presente em Fahrenheit 451 de forma praticamente explícita, como afirma a "crítica especializada", e sendo Bernard Hermann o responsável pela trilha sonora desse filme é fácil imaginar porque isso aconteceu.

E.R.Corrêa


FAHRENHEIT 451 (Fahrenheit 451, Inglaterra, 1966) .112 minutos Direção: François Truffaut
Roteiro:Jean-Louis Richard e François Truffaut, baseado em livro de Ray Bradbury
Produção: Lewis M. Allen
Música: Bernard Herrman
Fotografia: Wilkie Cooper
Desenho de Produção: Syd Cain e Tony Walton
Direção de Arte: Syd Cain
Efeitos Especiais: Bowie Films Ltd
Edição: Thom Noble .
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag); Julie Christie (Linda / Clarisse); Cyril Cusack (Capitão); Anton Diffring (Fabian); Anna Palk (Jackie); Ann Bell (Doris); Caroline Hunt (Helen); Jeremy Spenser; Bee Duffell; Alex Scott; Michael Balfour



Artigos