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Desde 1936, quando foi lançado o razoável filme "A Filha de Drácula", a Universal Pictures não lançou mais nenhum filme com seus potenciais monstros. Porém, em 1938, foram re-lançados nos cinemas filmes como "Drácula" e "Frankenstein", ambos de 1931, e novamente obtendo bastante apelo por parte do público. Isso animou os chefões da Universal, os quais resolveram produzir um novo filme de terror protagonizado pelo seu principal monstro da época: daí, em 1939, surgia "O Filho de Frankenstein", trazendo novamente Boris Karloff naquela que seria sua última atuação como a incompreendida criatura e um grande elenco de suporte, incluindo astros como Basil Rathbone (que atuou em outros filmes de terror, sendo um deles o raro “A Torre de Londres”, também de 1939 e novamente com Boris Karloff e o diretor Rowland V. Lee) e Bela Lugosi (o maior Drácula de todos os tempos e um dos mais populares atores de filmes de horror).
O filme começa mostrando o filho do Barão Henry Frankenstein, Wolf (Basil Rathbone), chegando após a morte do pai para assumir a propriedade. |
Ele vem acompanhado de sua mulher Elsa (Josephine Hutchinson) e seu pequeno filho Peter (Donnie Dunagan). Ao chegar ao local, é tratado de forma fria pela população, que associa o nome Frankenstein a assassinatos e ao terrível monstro criado a partir de corpos de defuntos que aterrorizou as pessoas no passado. Logo que chega à mansão, conhece o inspetor de polícia Krogh (Lionel Atwill), que foi para recebê-lo e lhe oferecer cobertura em caso de alguma revolta dos insatisfeitos aldeões. Wolf tentava convencer o inspetor de que seu pai não fora o demônio que todos afirmaram e que as histórias macabras contadas sobre a criatura talvez fossem pura demasia, mas nessa conversa ele descobre que o monstro havia arrancado o braço direito do inspetor na infância, sendo substituído por um postiço, o que o deixa sem argumentos para uma possível defesa. Na manhã seguinte, ele decide ir aos escombros do laboratório de seu pai (explodido no final do filme anterior, “A Noiva de Frankenstein”) e lá encontra o velho ferreiro Ygor (Bela Lugosi), que após ter sobrevivido a um enforcamento (devido a ajudar Henry Frankenstein a roubar corpos de túmulos, embora não apareça no primeiro filme), ficou com uma grande deformação no pescoço, e como estava legalmente morto, a polícia não pode mais puní-lo. Ygor pede para o barão acompanhar-lhe e quando adentram aos escombros do laboratório Wolf acaba por descobrir intacta, porém doente, a horrenda criatura (Boris Karloff). Ygor pede para Wolf reanimá-la, e este aceita, pois assim poderia transformar a criatura em uma boa pessoa e consequentemente limparia o nome de seu pai. Entretanto, com o prosseguimento dos experimentos, Wolf vai vendo que a criatura é realmente um violento monstro sobrenatural, e passa assim a ficar cada vez mais reticente em dar-lhe força novamente. Mesmo assim, ele prossegue e injeta descomunal energia na carcaça desacordada a sua frente, mas a criatura não acorda, e ele se convence de que o coma dela nunca terminará, e encerra suas experiências. Mas no dia seguinte, ele descobre por intermédio de seu próprio filho que a criatura está viva, e quando vai até ela descobre que a mesma não está mentalmente sã e que está sob total influência de Ygor. Quando começam a ocorrer assassinatos nas redondezas do local (Ygor fazia com o que a criatura perpetrasse sua vingança pessoal contra todos os que deram a sentença de enforcamento e ele), as suspeitas quanto a Frankenstein começam a crescer até um ponto insuportável, em que o Inspetor Krogh, que já desconfiava de que algo estivesse errado, descobre uma prova de que alguém ligado a Frankenstein assassinou Benson (Edgar Norton), o mordomo do castelo que estava ajudando Wolf nas experiências e que repentinamente desapareceu (foi morto pelo monstro a mando de Ygor, pois esse temia que Benson iria contar ao inspetor sobre as experiências). Com a permissão de Krogh, que o mantinha preso no castelo, já que uma multidão de aldeões tentava entrar a força na propriedade, Wolf vai ao encalço de Ygor no laboratório. Quando ele chega ao lugar, é surpreendido por Ygor, o qual tenta matá-lo, mas Frankenstein foi mais rápido e desferiu-lhe uma porção de tiros, matando-o (pelo menos é nisso que o roteiro quer que acreditemos, mas como se sabe, inventaram uma desculpa, e Ygor voltou no filme seguinte). Wolf retorna ao castelo e conta o que fez a Krogh, que lhe diz que Benson está morto, e que sabe muito bem que não foi o barão, nem Ygor, mas sim o monstro que o matou. Wolf inutilmente caçoa da insinuação de Krogh até que chega a notícia de que Peter foi levado pelo monstro. Aí apenas o Inspetor Krogh e Wolf poderão dar um fim a criatura e salvar o pequeno Peter, no que culminará em um desfecho espetacular com a destruição do monstro após ser jogado no poço de enxofre que ficava nas ruínas do laboratório, afundando a uma temperatura de mais de 400°C. Após os incidentes, Wolf von Frankenstein e sua família deixam o castelo para os aldeões, e saem do vilarejo de Frankenstein para nunca mais voltar.



Nota-se pelo resumo do filme que o excelente roteiro de Willis Cooper apresenta novos e ricos personagens e um desenvolvimento de história interessante e muito eficaz. Nenhum personagem, a exceção do monstro, retorna dos filmes anteriores, e mesmo assim a história contada é coerente e irá satisfazer quem espera uma continuidade digna dos dois primeiros filmes, “
Frankenstein” (1931) e “
A Noiva de Frankenstein” (1935).
“
O Filho de Frankenstein” havia sido programado originalmente para ser filmado colorido, mas a maquiagem de
Boris Karloff (que apresentava um estranho tom de verde) fez com que voltasem atrás e fizessem o filme P&B. Foi a postura mais acertada que tomaram, pois esse é o filme visualmente mais bonito de toda a era de ouro do terror
Universal, esbanjando classe na fotografia que remete ao expressionismo alemão da década de 20, com muitas sombras e desenhos de cenários incomuns, os quais não teriam nem de longe a mesma beleza em um filme colorido. As cenas que se passam nas ruínas do laboratório original também são simplesmente magníficas, fazendo de “
O Filho de Frankenstein” um filme diferenciado dos outros da série de
Frankenstein da
Universal.
Quanto as atuações, nada há que se comentar da habilidade e brilhantismo do quarteto que protagoniza esse filme:
Basil Rathbone tem uma presença magnética como Wolf von Frankenstein, sendo uma excelente escolha para um papel que era de Peter Lorre, o qual devido a problemas de saúde, saiu do projeto;
Boris Karloff reprisa com a habitual maestria o personagem que o imortalizou;
Bela Lugosi, que vinha numa larga decadência em sua carreira, aqui mostra a sua real versatilidade como ator, no que a crítica considera o seu melhor desempenho (naturalmente, junto com a sua inigualável atuação como o vampiro
Drácula, em 1931), o que é interessante ao constatarmos que Ygor tinha importância bem pequena no início da elaboração do roteiro, e que só ganhou mais vulto pois o diretor Lee se revoltou com o fato da
Universal estar se aproveitando do desespero do ator em querer trabalhar e lhe pagar um salário risível (com o crescimento do personagem de Lugosi, ele poderia ganhar um salário decente, e foi o que aconteceu);
Lionel Atwill atua com extrema competência como o inspetor de polícia Krogh, e depois desse filme receberia novamente outros papéis em diversos filmes de horror da
Universal.



Como
James Whale, que havia dirigido primorosamente os clássicos “
Frankenstein” e “
A Noiva de Frankenstein”, não havia se adaptado ao estilo rígido dos novos chefes da
Universal (já que os Laemmles perderam o controle em 1936), ele estava afastado do estúdio, e Rowland V. Lee, desconhecido diretor, produziu e dirigiu o filme, conduzindo com tranquilidade os desdobramentos da trama (o filme tem 99 min. e é o mais longo de todos da era de ouro do terror
Universal), e surpreendendo quem esperava uma queda de padrão em relação aos filmes anteriores. A bela trilha sonora de Frank Skinner está entre as melhores dos filmes de horror da
Universal; a produção, do próprio Lee, talvez tenha sido a última grande do estúdio no cinema de terror daquela época, já que quase todos os filmes seguintes seriam feitos de forma mais apressada e com menores investimentos, apresentando um rodízio incrível dos mesmos atores nos papéis principais (
Lionel Atwill depois desse, participou de todos os filmes seguintes de
Frankenstein, porém sempre em papéis diferentes); Jack Pierce novamente é o responsável pela caracterização do monstro e faz um trabalho sensacional, que na minha opinião é a melhor maquiagem do monstro depois da insuperável caracterização produzida para o filme de 1931.
Esse filme também marcou a última aparição de
Boris Karloff como o famoso monstro, que agora apresentava figurino diferente, usando um vasto casaco de peles ao invés do clássico traje negro que usou em todos os outros filmes da
Universal, o que faz do monstro de “
O Filho de Frankenstein” uma aparição única e marcante nos anais de
Frankenstein. Karloff decidiu encerrar seu ciclo interpretativo como a criatura nessa película, pois ele viu que todas as possibilidades de desenvolver o personagem haviam se acabado e que o próprio estava se tornando um acessório, sem o vulto e a dramaticidade dos 2 primeiros filmes. A sua análise foi perfeita, já que no seguinte “
O Fantasma de Frankenstein” (1942), onde a interpretação ficou a cargo de
Lon Chaney Jr., o monstro se resume quase que a um assassino bruto e estúpido, com pouquíssima emoção ou sentimento, o que iria se agravar ainda mais nos crossovers, onde seria sempre relegado a coadjuvante, um simples acessório, tal qual Karloff havia previsto. Depois de “
O Filho de Frankenstein”, ele nunca mais reprisou seu papel como o monstro, e nenhum outro ator jamais conseguiu imprimir a emoção e o sofrimento que Karloff descomunalmente imprimiu à criatura nos 3 filmes em que a interpretou.


Por algum motivo que eu realmente não entendo, esse filme não foi o sucesso esperado de bilheteria e crítica na época, sendo raramente citado posteriormente e nunca sendo ligado ao estrondoso sucesso e popularidade dos 2 primeiros filmes de
Frankenstein. Isso não deixa de ser uma injustiça, pois “
O Filho de Frankenstein” é um filme que, da direção ao figurino, merece todos os elogios e, na minha visão, não foi superado por nenhum outro filme de monstros feito posteriormente na década de 40, sendo até hoje um belo filme de terror, o qual merece ser revisto sempre e reverenciado pelos fãs do terror clássico da
Universal, e principalmente, de
Frankenstein!
O filme foi lançado em DVD no Brasil pela
Universal, em edição conjunta com “
O Fantasma de Frankenstein” (1942), e pela finada
Works Editora, no selo Dark Side, novamente em edição conjunta com “
O Fantasma de Frankenstein”, ambos custando em média R$ 20,00.
Os outros filmes produzidos pela
Universal nas décadas de 30 e 40 abordando o
Monstro de Frankenstein foram “
Frankenstein” (1931, com
Boris Karloff como a criatura), “
A Noiva de Frankenstein” (1935, com
Boris Karloff), “
O Fantasma de Frankenstein” (1942, com
Lon Chaney Jr.), “
Frankenstein Encontra o Lobisomem” (1943, com Bela Lugosi), “
A Casa de Frankenstein” (1944, com Glenn Strange) e “
A Casa de Drácula” (1945, com Glenn Strange). Em 1948 foi produzida a comédia “
Abbott e Costello Encontram Frankenstein”, que contava novamente com Glenn Strange no papel da criatura, mas foi um filme avulso, sem qualquer ligação com a série de filmes de horror iniciada em 1931 e finalizada em 1945.

Curiosidades
- O emocionado grito do monstro na cena da
“morte” de Ygor foi depois reaproveitado em “
A Casa de Frankenstein” (1944), quando o personagem interpretado por J. Carrol Naish é jogado pelo próprio monstro de Frankenstein (Glenn Strange) de um telhado. No áudio original, o grito que ouvimos não é de Naish, e sim de
Boris Karloff.
- Durante a produção de “
O Filho de Frankenstein”, houve bastante comemoração devido ao 51º aniversário de
Boris Karloff, o qual recebeu como presente o nascimento de sua única filha, Sara.
- Existe um vídeo raro feito durante as filmagens de “
O Filho de Frankenstein” pela esposa de Karloff onde podemos ver o monstro à cores.
- A trilha sonora de “
O Filho de Frankenstein” foi reutilizada em outros diversos filmes, como
“A Torre de Londres” (1939), “
A Casa de Drácula” (1945), entre outros. Isso era comum naquela época, pois produzir uma nova trilha geraria despesas, então eles reaproveitavam trilhas de outros filmes.
- O interpretação de
Bela Lugosi como Ygor foi tão elogiada e marcante que para o filme seguinte, “
O Fantasma de Frankenstein”, o roteirista deu um jeito para o personagem dele voltar, mesmo tendo levado uma porção de tiros do Dr. Frankenstein e aparentemente morrido no final de “
O Filho de Frankenstein”. E olha que Ygor nem fazia parte do esboço inicial de roteiro para esse filme...
- Consta nos memorandos da
Universal que a escolha inicial para interpretar Wolf von Frankenstein foi Claude Rains (“
O Homem Invisível”, de 1933 e “
O Fantasma de Ópera”, de 1943). Ele não quis o papel por ser um filme de horror (curioso). Posteriormente a
Universal acertou com
Peter Lorre, mas ele teve de deixar a produção por problemas de saúde, e por último com
Basil Rathbone (famoso por interpretar o detetive Sherlock Holmes), que acabou ficando com o papel.
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