Qual o primeiro filme realmente sangrento da historia do cinema?
Alguns apontam o raro e esquecido Banquete de Sangue (Blood Feast, 1963), de Herschel Gordon Lewis, como o marco inicial do splatter-gore, estética cujo objetivo primordial é chocar e nausear o público de forma explícita e direta, com sangue, restos humanos e animais e uma infinidade de outras porcarias em profusão verdadeiramente delirante; outros sugerem como o começo de tudo o brutal e avassalador O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), de Tobe Hooper, talvez porque seja menos ingênuo e mais bem elaborado tanto do ponto vista gráfico quanto conceitual; outros, ainda, imaginam que esse posto bizarro deve pertencer ao não menos violento e arrasador Zumbi, O Despertar dos Mortos (Dawn of Dead, 1979), de George Romero. E a questão, como tudo o mais, vai ainda mais longe do que isso.


Parece ponto de comum acordo, entretanto, que o auge dessa estética agressiva que remodelou a maneira de se contar/mostrar uma história de horror foi a saudosa década de 1980, e isso por dois excelentes motivos: a adaptação e aceitação do público a essa nova modalidade e a revolução dos efeitos especiais. O público resolveu que queria ver sangue e os cineastas concluíram que tinham como proporcionar isso de forma convincente. Assim, a década se iniciou forte, com dois clássicos absolutos do gênero:
O Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982), de John Carpenter, e
A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1982), de Sam Raimi. O primeiro representava, além do horror cru, direto e antiestomacal, a ficção científica, provando que os tempos haviam realmente mudado; e o segundo representava o horror negro, diabólico, entremeado de humor com toques de paródia e autogozação, provando que os tempos não só haviam mudado, mas haviam mudado muito. A década foi sanguinolenta, principalmente na Itália. Uma prévia do que estava por vir, porém.


Em 1992, o diretor neozelandês Peter Jackson resolveu que faria um filme que sintetizaria tudo o que fora visto até então no cinema de horror explícito. E conseguiu.
Não acho que seja possível ir além de
Fome Animal (Braindead) em matéria de extrapolação splatter-gore e escatologia hiper-realista. Eu só não diria que perto dele o badalado
A Morte do Demônio não passa de um esforçado documentário de higiene matinal porque seria cometer uma injustiça feia ao clássico de Sam Raimi - afinal, uma década os separam, além de significativa diferença orçamentária.
Jackson já havia tentado algo semelhante antes, com os filmes
Trash, Náusea Total (Bad Taste, 1987) e
Meet the Feebles (1989, inédito por aqui); o primeiro relatava uma invasão alienígena hostil em busca de carne humana para saciar a fome incontrolável dos tais invasores, e o segundo, uma sátira impiedosa aos filmes de bonecos animados estilo Muppet Show, com escatologia e sexo bem humorados. Ambos os filmes, embora sangrentos e agressivos, no entanto, eram toscos e praticamente experimentais, sem um acabamento definido e com idéias pouco ambiciosas. Com
Braindead (que também é conhecido como
Dead Alive) a coisa foi muito mais ousada e criativa.


Uma das características básicas dos filmes splatter-gore que permearam o período foi o humor; com raras exceções, esse elemento de interesse duvidoso apareceu em quase todos os filmes dos anos 80, principalmente naqueles que tiveram seqüências e franquias determinadas, como é o caso do próprio "
Evil Dead", além de muitos outros que rendem seqüências até agora.
Fome Animal, portanto, é um catado não só do que se viu em termos de dilacerações, desmembramentos, esguichos, decepações, vômitos, perfurações, marretadas, porretadas, escoriações e outras sensíveis formas de se dar fim a um corpo - humano ou animal - mas também uma coletânea de referências bem humoradas a outros filmes de horror, passando por elementos distintos tanto de clássicos como o
Psicose (Psicho, 1960), de
Alfred Hitchcock, e a famosa trilogia de mortos-vivos de Romero, até outros mais recentes como o supracitado
A Morte do Demônio e
Hellraiser, Renascido do Inferno (Hellraiser, 1987), de Clive Barker, só para citar os mais óbvios.


E se isso não bastasse, há uma seqüência em que o herói da trama se vê envolvido numa luta com alguns mortos-vivos num cemitério e resolve a contenda num hilário e muito bem ensaiado duelo de Kung-Fu (!), daqueles, maravilhosos, que eram apresentados nos filmes do lendário Bruce Lee (!!). Claro, num roteiro que é apenas uma desculpa esfarrapada para mostrar sangue e mutilações infinitas, isso não passa de um detalhe. E, por falar em roteiro, a história é pra lá de boba: um rapaz bestalhão (Timothy Balme), totalmente dominado pela mãe neurótica (Elizabeth Moody), arranja uma namorada (Diana Penalver) e marca um passeio com ela pelo zoológico da cidade, sem saber que sua mãe, ciumenta e superprotetora, está em sua cola; acidentalmente a velha é mordida por um macaco-rato escroto de Sumatra e, aos poucos, vai apodrecendo viva, até que é finalmente dada como morta e encarcerada no porão. A velha volta como um zumbi asqueroso e passa a aterrorizar não só a vida do casalzinho, mas de qualquer idiota que cruzar seu caminho, contagiando a todos e criando um verdadeiro exército de zumbis carniceiros. Daí até o final é só carnificina e podreira, em seqüências verdadeiramente memoráveis dentro da filmografia gore, com sangue espirrando pra tudo quanto é lado, num show alucinante de efeitos especiais de primeira qualidade e tinta vermelha em profusão, tudo orquestrado com maestria e agilidade pelas mãos ousadas do diretor. Se exagero pouco é bobagem, em determinada altura o herói da história é persistentemente perseguido por um intestino grosso raivoso e precisa combatê-lo com a única arma disponível no momento: um cortador de gramas! O realismo das seqüências, no entanto, é de impressionar qualquer George Romero e Lucio Fulci da vida...


Além dos fãs, quem reparou nisso foram os figurões de Hollywood, que não perderam tempo e logo pegaram o diretor em seus irresistíveis laços. Dum dia para o outro ele estava trabalhando numa super-produção. Não é de surpreender, pois, que tenha sido o responsável pela bomba completamente sem graça
Os Espíritos (The Frighteners, 1996), já que raramente um diretor habituado a orçamentos reduzidos e improvisações de início de carreira continue de pulso firme em suas primeiras produções mais generosas. No entanto, ao que parece, ele já superou essa fase, e hoje está ganhando rios de dinheiro no cinemão hollywoodiano com os épicos de fantasia baseados nos livros da série "
O Senhor dos Anéis", de J. R. R. Tolkien. Vai se dar bem assim no inferno!
Nota do Editor: O DVD de "Fome Animal" foi lançado por aqui em Maio de 2005 pelo selo "Dark Side", com distribuição nas bancas de jornais, encartado na revista "Cine Monstro" # 3 (um relançamento, pois já havia sido distribuída em Dezembro de 2003).
E.R.Corrêa
|
FOME ANIMAL (Braindead, Nova Zelândia, 1992, 104 minutos). Em vídeo no Brasil pela DarkSide.
Direção: Peter Jackson
Roteiro: Peter Jackson; Stephen Sinclair; Fran Walsh
Produção: Jim Booth
Música: Peter Dasent
Fotografia: Murray Milne
Edição: Jamie Selkirk
Direção de Arte: Ed Mulholand
Desenho de Produção: Kevin Leonard-Jones
Maquiagem: Debra East; Bob McCarron; Susan Davis
Elenco: Timothy Balme (Lionel Cosgrove); Diana Peñalver (Paquita Maria Sanchez); Elizabeth Moody (Mum); Ian Watkin (Tio Les); Brenda Kendall (Enfermeira McTavish); Stuart Devenie (Padre McGruder); Jed Brophy (Void); Stephen Papps (Zumbi McGruder); Murray Keane (Scroat); Glenis Levesiam (Nora Matheson); Lewis Rowe (Mr. Matheson); Elizabeth Mulfaxe (Rita); Harry Sinclair (Roger); Davina Whitehouse (vó da Paquita); Silvio Fumularo (Pai da Paquita); Brian Sergent (Vet)
|
N.E.: Esse artigo foi publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix" # 78 (Setembro de 2003).