AS REPRESENTAÇÕES DO MUNDO CIENTÍFICO DO SÉCULO XIX NAS OBRAS FRANKENSTEIN E DRÁCULA
Por Orivaldo Leme Biagi
Obras literárias representam o seu tempo, mostrando elementos materiais e culturais da época em que foram escritas. Algumas obras podem até ultrapassar o momento e apresentar caminhos que apontem para o futuro, mas sempre apresentam uma relação direta com o momento de sua concepção. Frankenstein, de Mary Shelley, lançado em 1816, e Drácula, de Bram Stocker, lançado em 1897, são obras bastante representativas do século XIX. É importante destacar o século destas obras literárias pois tanto Frankenstein como Drácula tornaram-se personagens famosos apenas no século XX, e não pela literatura, mas sim pelo teatro e pelo cinema.
Entre muitas leituras possíveis destas obras, uma delas é a percepção dos caminhos da ciência do século XIX. As obras são antagônicas em relação ao desenvolvimento científico e às suas conseqüências sociais: a obra de Shelley critica os avanços da ciência, enquanto que a obra de Stocker os glorifica.
 
O começo do século XIX era um momento assustador de se viver, pois a Revolução Francesa iniciada no final do século anterior (1789) mostrava novos e temerosos caminhos políticos ao propor que a Cidadania enfrentasse a Monarquia; e o peso da vida religiosa ainda era forte na vida da maioria da população, fazendo com que o “novo” fosse quase sempre rejeitado e temido. Na obra de Shelley, a criatura tornou-se fonte de remorsos para seu criador (Frankenstein, que é o nome do médico e não da criatura, que não tem nome) pois este não deveria ter ultrapassado certos limites (dando vida à morte), ou seja, não deveria ter desafiado, com a ciência, os destinos do Homem. A obra apresenta elementos modernos (além de mostrar a ciência em evolução, mesmo criticando-a, o livro defende a tese da boa natureza do homem, do filósofo Jean-Jacques Rousseau – o monstro era bom mas o mundo o fez perverso), mas o medo do novo acaba se impondo de um modo geral.
Embora o final do século XIX apresentasse muitas coisas assustadoras (anarquismo, comunismo, sífilis, imigração, etc.), o desenvolvimento científico era melhor aceito e, quando não, incentivado, como acontecia nos Estados Unidos. Na obra de Stocker, encontramos uma certa exaltação à ciência: o místico e sobrenatural Drácula é enfrentado (e vencido) pela ciência, representada pelo doutor Abraham Van Helsing. Drácula utiliza de seus poderes fantásticos para propagar o mal, enquanto que Van Helsing os contrapõe com sabedoria e ciência, como podemos notar na utilização de transfusão de sangue e do hipnotismo.
Em resumo: duas obras, dois momentos do século XIX e duas visões da ciência.
Orivaldo Leme Biagi, Doutor em História pela UNICAMP, Professor das Faculdades Atibaia (FAAT) e Membro da Academia Literária Atibaiense (ALA).
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