"FRANKENSTEIN MEETS THE MAKE-UP" A UNIVERSAL E A CRIATURA DE FRANKENSTEIN
Por E.R.Corrêa
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Em 1931, quando o fantástico maquiador Jack P. Pierce caracterizou a medonha e clássica figura do monstro de Frankenstein na já expressiva face de Boris Karloff, iniciava-se toda uma era na história do cinema fantástico americano, incutindo no imaginário popular, grande parte do folclore que se desenvolveu no século XX. Porém, nesta época, a Universal Films, que inegavelmente foi a projetora do horror dentro do cinema (a despeito das produções expressionistas alemães terem desempenhado um importante papel neste setor), não tinha uma idéia precisa de como se iniciar na arte de se dar sustos. Mas, com o advento dos primeiros filmes mudos de terror (O Corcunda de Notre Dame, 1923 e O Fantasma da Ópera, 1926), toda esta ingenuidade iria se transformar radicalmente. E, a partir da década de 30, com a introdução do cinema sonoro, o horror se transformaria numa grande máquina de fazer dinheiro... e diversão! |
A Universal Pictures começou com o “pé direito”, pois teve, ao seu lado, como ponto de partida, uma excelente e criativa equipe de produção, além dos atores que ainda hoje são idolatrados e venerados como tais. E grande parte desse reconhecimento e dessa idolatria se deve a Jack Pierce, que, nas décadas seguintes, faria dos rostos de Boris Karloff, Bela Lugosi e Lon Chaney Jr. os mais conhecidos e cultuados desta que é uma das mais importantes fases do horror na história do cinema.
Todos os curiosos monstros que desfilaram pela Universal nas décadas de 30 e 40 foram de responsabilidade de Jack Pierce, que criou rostos tão familiares que passariam para a história como eternos criadores de pesadelos, principalmente a criatura de Frankenstein – com suas cicatrizes, suas pálpebras pesadas, sua palidez cadavérica, seus cabelos duros e brilhantes, seus pinos salientes, sua fronte ligeiramente côncava e sua inesquecível cara-quadrada. Esta fórmula deu tão certo que a Universal comprou os direitos sobre a maquiagem de Pierce para poder usá-la à exaustão em todo o decorrer das duas décadas posteriores.  | |
Todos os monstros dessa época gozaram de merecido sucesso popular, mas a criatura de Frankenstein talvez seja a mais conhecida dentro dessa mitologia clássica (que inclui O Fantasma da Ópera, Drácula, A Múmia e O Lobisomem) e que – poderíamos dizer - “virou moda”, sendo constantemente imitada e, consequentemente, reconhecida por qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer hora e em qualquer classe social.
Porém, a versão da criatura elaborada pela Universal, não corresponde nem um pouco com a criatura descrita por Mary Shelley. Mas, em consequência do extremo poder de alcance que o cinema tem frente à literatura, o monstro da Universal ficou tão popular que a versão literária passou para um segundo plano. Inclusive a história original também, já que o filme, baseado numa montagem teatral do livro, escrita por Peggy Webling, pouco tem a ver com a história concebida por Mary Shelley em 1818.
A maquiagem aplicada em Boris Karloff era pesada, densa, de difícil aplicação e remoção, num longo e cansativo processo que levava, no mínimo, quatro horas. Mas, segundo o próprio ator, apesar do cansaço que a tarefa lhe causava, tudo não passava de diversão, encarada com bom humor e grande expectativa ante a uma interpretação mímica. No entanto, antes de entrar em cena, ele tinha de passar por complicadas técnicas: primeiro, o maquiador usava um modelo experimental moldado em gesso, com as mesmas proporções do ator, em seguida (já no próprio ator), com os detalhes corrigidos e os padrões acertados, ele aplicava a maquiagem e os acessórios móveis (como a cobertura achatada do crânio e as pálpebras postiças) juntamente com a tinta e o cabelo. Porém, havia um problema ainda mais sério, pois Jack Pierce tinha de colocar toda essa pesada maquiagem em Karloff sem deixar que ela interferisse e prejudicasse as expressões faciais do ator, já que essas seriam exaustivamente usadas em todo o decorrer do filme. O processo de remoção era igualmente trabalhoso, levando uma hora inteira para descaracterizá-lo.
 
Karloff era alto, forte, ágil e expressivo, possuía um carisma natural inegável, era um cavalheiro, mas, com a face pesada de maquiagem, com os dois grotescos parafusos acoplados ao pescoço, com as cicatrizes grossas e com o achatamento exagerado do crânio, se tornava realmente uma criatura repulsiva de aspecto assustador – hoje em dia nem tanto, pois é visto com certa ingenuidade; mas as épocas são outras, os costumes são outros, e imaginem isso há 6 décadas atrás!
E isso funcionou. O resultado foi inesperado, superando em 12 milhões de dólares a modestíssima produção de 250 mil. Para a época, foi criado um filme realmente assustador, empolgante, prazeiroso de se assistir. Toda a Universal estava satisfeita com os resultados, e Karloff também, que passou a devotar, a partir daí, uma enorme afeição pela criatura, e, como ele mesmo disse: "Assumi a personalidade desta criatura durante a depressão de 1931. As pessoas formavam longas filas nos cinemas, e as bilheterias quebravam recordes. Era evidente que milhões de pessoas em todo o mundo sentiam simpatia pelo monstro. Elas deixavam muito claro em suas cartas que, embora tivessem ficado apavoradas com a minha caracterização, ao mesmo tempo sentiam grande compaixão pelo monstro que eu representei. Fiquei muito feliz, pois era exatamente isso que eu desejava."
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Mas tudo não acabaria aí. O sucesso do primeiro filme foi tão grande que uma sequência seria inevitável. E em 1935 foi lançada a continuação, A Noiva de Frankenstein, um outro grande clássico do horror, tão bom que alguns chegam a considerá-lo superior ao primeiro, a despeito de alguns elementos humorísticos desnecessários.
Novamente Jack Pierce utiliza as mesmas técnicas de maquiagem, embora coloque na criatura uma expressão mais flexível e menos carregada, já que ele, o monstro, fora queimado na destruição do moinho no filme anterior. Mas os trabalhos de preparação são igualmente complicados e cansativos, pois agora existe a necessidade da criação da maquiagem da noiva do monstro, interpretada por Elsa Lanchester (que também apareceu no prólogo do filme como a própria Mary Shelley). À primeira vista, tudo parece muito fácil; mas não é na realidade. Por menos complexa que a maquiagem possa parecer, ela é que dá o “tempero” ao filme; uma maquiagem de má qualidade pode estragar um filme com excelente roteiro. Por isso existe a necessidade de cuidadosa preparação e engenhosa técnica de criação de detalhes. Principalmente com relação ao monstro, pois ele é o grande astro do filme.
A Noiva de Frankenstein também se tornou um grande sucesso; novamente Boris Karloff esteve em grande estilo, conseguindo mais do que nunca explorar a tragédia de um monstro incompreendido e solitário, vagando a esmo à procura de uma companheira. E, para variar, ele não consegue. |
Com estes dois filmes, a Universal colocou todos os objetivos de Mary Shelley por água abaixo, pois a intenção dela era criar uma moral e uma lição em torno do cientista Victor Frankenstein – que deveria ser o foco central da história – e não da criatura, que, inegavelmente, rouba todas as cenas.
E quando tudo parecia acabado, surge, em 1939, O Filho de Frankenstein, dirigido e produzido por Rowland V. Lee, com roteiro original de Willis Cooper e com Boris Karloff novamente interpretando a criatura que lhe dera fama e imortalidade. Apesar de todos os elementos clássicos utilizados pela Universal e pela presença de atores que já eram considerados ícones do horror, este filme não foi compreendido nem pela crítica e nem pelo público, sendo praticamente esquecido e obviamente nunca associado ao êxito dos dois primeiros.
Boris Karloff, em seu terceiro e último papel como a criatura de Frankenstein, apresenta uma maquiagem mais sutil, menos carregada e com mais liberdade de expressão, onde aproveita para diversificar um pouco as suas maneiras interpretativas, sem, contudo, deixar de usar das características que lhe valeram o grande sucesso nos filmes precedentes. Nesta produção, ele contracena com dois outros “monstros” sagrados do horror: Bela Lugosi (cuja fama e o carisma dentro do gênero eram iguais aos de Karloff) e Basil Rathbone (também ingresso do horror). Apesar do pouco sucesso, esse filme encorajaria Rowland V. Lee a produzir e dirigir, neste mesmo ano, um outro clássico esquecido, A Torre de Londres, novamente com Boris Karloff e Basil Rathbone, além de Vincent Price em uma de suas primeiras incursões no gênero.
O Filho de Frankenstein fecharia o ciclo interpretativo de Boris Karloff como a criatura, mas o ator seguiria, ainda, numa prolífica carreira nas 3 décadas posteriores, encarnando vilões e cientistas loucos até que os graves problemas respiratórios que sofria acabassem por culminar em sua morte, em 2 de fevereiro de 1969, aos 81 anos de idade.

“Representei o monstro de Frankenstein no cinema apenas três vezes. Estou contente por tê-lo feito. Mas em meu trabalho vivi muito mais cientistas loucos do que monstros de tres cabeças”. – Boris Karloff
Mas a semente já havia sido plantada, há dez anos atrás, e o “terrível-monstro-de-cara-quadrada” sempre estaria presente no cinema; o incorrigível Jack Pierce continuaria a azucrinar com a sua maneira impressionante de caracterizar o monstro.
Em 1942 surge O Fantasma de Frankenstein, com Lon Chaney Jr. no papel da criatura e, como as feições do monstro eram padrão além de ser uma patente exclusiva da Universal Films, as características quadradas e pálidas utilizadas nos filmes de Karloff novamente foram reproduzidas. No entanto, apesar de atuar com seriedade e competência, Chaney Jr. não se destacou no papel da criatura; seu lugar como ícone do horror nos clássicos da Universal estava já reservado na figura sempre triste e depressiva de Larry Talbot, no filme O Lobisomem, de 1941. Mas o carisma de um ator não se mede pelo personagem, e sim pela competência com que ele desenvolve a história desse personagem, seja ele qual for. É por isso que Lon Chaney Jr. sempre desempenhou com brilhantismo seus papéis, pois era competente. E tinha motivos para sê-lo, pois era filho de ninguém mais, ninguém menos que Lon Chaney, o conhecido “homem-das-mil-e-uma-faces”, cuja carreira no gênero horror fora embalada por clássicos absolutos como os já citados O Corcunda de Notre Dame e O Fantasma da Ópera, além do raríssimo London After Midnight (história que seria refilmada por Tod Browning – que também fora responsável pelo original – em 1935, com Bela Lugosi no papel que pertencera a Chaney) de 1927, que é considerado uma de suas mais impressionantes caracterizações.
Apesar de tudo, O Fantasma de Frankenstein é o último filme em que o personagem aparece sozinho, além de ser o último também a tratá-lo seriamente.  | |
Bela Lugosi, outro ícone absoluto do cinema fantástico, cujo título de melhor Drácula divide com Christopher Lee (este viria a encarnar o Conde da Transilvânia a partir do final da década de 50, numa invejável lista de clássicos), também teve a sua vez na pele do eterno monstro-de-cara-quadrada, no filme Frankenstein Encontra o Lobisomem, de 1943, dirigido por Roy William Niel e com roteiro original de Curt Siodmak (que também escrevera a história e o roteiro de O Lobisomem).  |
Na realidade, Bela Lugosi havia rejeitado este papel exatamente no filme de 1931, pois não queria ver a sua imagem eternamente associada ao horror, já que o sucesso de seu Drácula foi muito além do esperado. Mas agora, vendo-se cercado de “horrores” por todos os lados, não havia motivo para recusar, e, finalmente, depois de 12 anos, interpretava o monstro que dera fama imortal a Boris Karloff.
Nesta produção, Jack Pierce exercita suas habilidades na criação de dois monstros sempre presentes nos filmes da Universal, inclusive a maquiagem do lobisomem era ainda mais complexa e trabalhosa que a da criatura; eram necessárias de Lon Chaney Jr. 6 horas de interminável paciência para caracterizá-lo, enquanto para a criatura metade desse tempo era o suficiente.
Mas, a despeito de sua sempre brilhante atuação, Lugosi sempre será lembrado como o eterno Conde Drácula, personagem que divide, com o monstro de Frankenstein, o status de ícone eterno da cinematografia de horror – talvez os maiores e mais conhecidos personagens da história da literatura fantástica.
Todas as possibilidades e tragédias da criatura de Frankenstein talvez já tivessem sido totalmente exploradas (e muito bem exploradas) ao longo das décadas precedentes, mas a Universal ainda queria espremer as últimas gotas proveitosas desse fascinante personagem. E em 1944 surgiu A Casa de Frankenstein, reunindo um invejável time de astros, como Boris Karloff (desta vez como o cientista), Lon Chaney Jr., John Carradine e Glenn Strange (em seu primeiro papel como o monstro de Frankenstein). |
Aliás, Jack Pierce (que, nesta produção, devido a grande quantidade de monstros, contou com a ajuda do também maquiador Otto Lederer) utilizou muito dos detalhes técnicos da maquiagem usada nos filmes de Karloff, e Strange se enquadrou muito bem neste personagem, lembrando muito a criatura dos filmes de James Whale.
Inclusive um aspecto muito interessante foi enfocado: em 1931, os cartazes de pré-produção que anunciavam o filme Frankenstein e até mesmo os créditos iniciais, não mencionaram o nome do ator que interpretaria o monstro, causando extrema curiosidade ao público; o mesmo ocorreu em A Casa de Frankenstein, que anunciava com toda pompa o nome dos velhos atores conhecidos do público, mas não anunciava o nome de Glenn Strange. Porém, o impacto da descoberta não foi o mesmo, e o ator não teve uma carreira nem de longe comparada a de Boris Karloff.
Este filme teve roteito assinado por Edward T. Lowe, baseado novamente numa história original de Curt Siodmak, mostrando um argumento senão fantástico, no mínimo curioso. Outro aspecto interessante é que, assim como Boris Karloff, Glenn Strange interpretaria o monstro apenas três vezes, sempre com suas características próprias, mas tentando colocar em cena algo “Karloffiano”.   
No ano seguinte, novamente com roteiro de Edward T. Lowe, surgiu o filme House of Dracula, onde Strange interpreta pela Segunda vez o monstro de Frankenstein, com as velhas características de maquiagem; John Carradine aparece em seu segundo papel como o vampiro Barão Latos e Lon Chaney Jr. em seu quarto papel como Lobisomem. No entanto, a exploração desses personagens não acabaria aí; parte dessa equipe voltaria a atacar, embora com aspectos decadentes e de auto-paródia.
Com o declínio das idéias e com a já demasiada exploração de personagens que não atraíam mais o público, a Universal lançou ainda um último filme reunindo os personagens clássicos que fizeram a história do gênero nas décadas de 30 e 40, Abbott & Costello Encontram Frankenstein, de 1948. Nesta comédia, a dupla Bud Abbott e Lou Costello contracenam com os imortais Bela Lugosi (Drácula), Lon Chaney Jr. (Lobisomem) e Glenn Strange (em seu terceiro e último papel como a criatura). Como curiosidade, este filme apresenta uma invisível participação de Vincent Price (um outro ator que viria a se tornar lenda em seu tempo), na última cena, onde ele faz a voz do ”Homem Invisível”.
Jack Pierce não mudou nada na caracterização de Strange com relação aos filmes anteriores, apenas acentuou seu caráter gótico. Mas estava claro que a fórmula não funcionaria mais; com este filme, a Universal dava seu último suspiro na pele desses personagens (pelo menos dentro dessa premissa clássica usual, pois é claro que a produtora continuaria a explorar outros elementos do horror).
Foram duas décadas de extremos pesadelos em preto e branco, e agora o horror deveria se renovar em pesadelos em Technicolor. Ninguém acreditava, mas aí veio a Hammer Films da Inglaterra (que no início contava com os copyrights da própria Universal) e mudou toda uma concepção. Quem quisesse, ainda, ver as mirabulosas criaturas de Jack Pierce, deveria procurar nas reprises, porque agora surgia a Hammer, com toda uma gama de novidades, e com ela um outro competente time de atores e produtores, entre eles o também fantástico maquiador Roy Ashton.
Surgiriam, daí, velhas e conhecidas criaturas, porém com enfoques e caracterizações diferentes – não surgiria mais o velho monstro-de-cara-quadrada.
Na totalidade, a criatura de Frankenstein elaborada pela Universal (a qual foi enfocada neste pequeno ensaio), desfilou nos pesadelos em preto e branco nas décadas de 30 e 40 num total de oito filmes, tendo uma curiosa variação de atores e caracteres, mas sempre com a marca registrada de Jack P. Pierce. É claro que os dois primeiros filmes, cuja a interpretação coube a Boris Karloff, são os melhores e os referenciais diretos, além de serem os mais citados. Mas os outros que o seguiram também tiveram sua importância para a consolidação dessa época e destes personagens Universais, cabendo a eles a mesma função dos primeiros: aterrorizar! ... E divertir.
E.R.Corrêa
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