MOVIE GIMMICKS

por Felipe M.Guerra

Os lendários truques que transformavam uma sessão de cinema numa grande aventura


Imagine que você está no cinema assistindo ao filme de terror espanhol REC. Aquela tensão, aquele clima de pavor, e você lá sentado quietinho, degustando sua pipoca, incomodado com aquelas cenas tão reais... De repente, num daqueles momentos de suspense em que você e o resto da sala de cinema estão literalmente com o coração na mão, eis que as portas da sala se abrem escancaradas e entram uns sujeitos ensangüentados, maquiados de maneira idêntica aos infectados do filme, berrando e correndo feito loucos para dentro da sessão! Não sei você, caro leitor, mas eu ficaria bem perto de ter um infarto! Imagine agora que você está confortável em outra sala de cinema, assistindo SERPENTES A BORDO, e lá pelas tantas começa a sentir algo frio e úmido se arrastando pelo chão e se enroscando no seu calcanhar. Quem não iria pular na mesma hora para cima da poltrona? E se, ao final da sessão de um dos JOGOS MORTAIS, a projeção fosse interrompida minutos antes da conclusão e o público na sala fosse convidado a decidir o destino do personagem principal: sobrevivência ou morte?

Imaginou tudo isso? Então responda: não seria legal estar numa sessão de cinema
como estas três inexistentes, que eu tirei unicamente da minha imaginação? Pois é, provavelmente seria. E já foi: acredite se quiser, mas se hoje nossas salas de cinema estão infestadas de adolescentes chatos que ficam conversando em voz alta e avacalhando, ou então mal-educados que não desligam o celular (e ainda atendem o telefone sem a menor cerimônia no meio do filme), ir ao cinema no passado, entre os anos 50-70, era algo bem mais divertido. Digo mais: ir ao cinema naquela época era uma verdadeira aventura, onde as emoções da tela encontravam eco no que acontecia aos pobres espectadores. Tudo isso graças aos criativos "movie gimmicks".

Meus fiéis seis leitores que me perdoem por usar esta expressão em inglês no título e no texto, mas é que não consegui encontrar uma expressão legal em português para identificar os "movie gimmicks". Explicando por cima, os "gimmicks" são as técnicas mirabolantes inventadas por produtores de filmes destas três referidas décadas para tornar mais atraente uma sessão do cinema - já que, na época, as salas de cinema começavam a perder espaço para a novidade da televisão, e muitos imbecis juravam que esta mídia estava com os dias contados (mas mesmo hoje, depois de VHS, DVD e até troca de filmes pela internet, as salas de cinema continuam existindo).



Acontece que o surgimento e a popularização da TV provocaram uma queda brutal no faturamento dos cinemas a partir dos anos 50. Muita gente pensava que era jogar dinheiro fora pagar para ver um filme que depois podia assistir de graça na TV, uma idéia de jerico que alguns têm até hoje. Para os grandes estúdios não mudou muito; foram os pequenos produtores que sentiram o baque. Felizmente, alguns deles usaram a cabeça e começaram a bolar uma série de artimanhas para incentivar as pessoas (principalmente os jovens) a irem ao cinema. Até porque os tais "gimmicks" não podiam ser reproduzidos na sala da casa e nem através da TV: ir ao cinema era obrigatório para viver as "emoções" destes verdadeiros efeitos especiais ao vivo.

Nós, brasileiros, não tivemos a sorte de conferir as sessões com "movie gimmicks", embora o visionário José Mojica Marins volta-e-meia mandasse seus alunos para simular infartos e possessões demoníacas dentro das salas de cinema durante a exibição de alguns de seus filmes, como EXORCISMO NEGRO e DELÍRIOS DE UM ANORMAL. Mas podemos ter uma idéia de como era emocionante ir ao cinema nos tempos dourados dos "gimmicks" através de dois filmes contemporâneos que mostram a inocência daquela época: o slasher movie POPCORN (1991) e a comédia MATINÊ (1992). Ambos apresentam, de maneira nostálgica e até um tanto exagerada, sessões de cinema recheadas destes truques que envolviam os espectadores na ação, e que vão de choques nas poltronas até um sujeito vestido de monstro irrompendo no meio da sessão! Parece até loucura de roteirista, mas a coisa funcionava assim mesmo.



O pioneiro, e provavelmente criador, dos "movie gimmicks" foi o diretor e produtor norte-americano William Castle (1914-1977), que foi homenageado em MATINÊ (o diretor-produtor interpretado por John Goodman no filme é uma citação a Castle). O sujeito não era bobo em matéria de cinema (entre suas façanhas, foi assistente do diretor Orson Welles em A DAMA DE SHANGAI e produtor do clássico O BEBÊ DE ROSEMARY, de Roman Polanski), mas acabou entrando para a história principalmente pela publicidade exagerada e mirabolante que fazia para os seus filmes, e pelas técnicas curiosas que criava para promovê-los.

Entre 1943 e 1958, Castle dirigiu 40 produções de todos os gêneros, mas só começou a se tornar uma lenda cinematográfica a partir de 1958, com o horror MACABRE, quando passou a investir nos "movies gimmicks" para atrair o público pela curiosidade. Copiando Alfred Hitchcock, Castle gostava de aparecer em carne e osso nos trailers de seus filmes, falando sobre a produção e sobre a trama, e alertando o espectador para o espetáculo de horror e suspense que veria se fosse "corajoso o suficiente" para ir aos cinemas conferir suas películas.

O pior é que a tática funcionava: seus filmes de horror e suspense eram produções classe B comuns, não raras vezes ruinzinhas mesmo, mas a publicidade exagerada e os "gimmicks" mirabolantes tornavam as películas bem mais interessantes do que elas realmente eram!



Lançada a moda, outros produtores passaram a criar seus próprios truques, dando origem a uma série de nomes estrambólicos (Hypnovision, Psychorama, Duo-Vision) para batizar suas técnicas e tentar seduzir o espectador para uma sessão de cinema diferente e muito mais divertida do que as projeções "comuns". Usando artifícios simples, até ingênuos para os dias de hoje, estas sessões eram quase interativas, forçando o público a tomar parte no espetáculo, e não apenas ficar sentado com a bunda na poltrona assistindo a projeção das imagens. E a coisa funcionava tão bem que tinha gente que ia várias vezes aos cinemas para reassistir os mesmos filmes, só por causa das sensações e emoções que os "gimmicks" provocavam na platéia!

Em meio aos anos 70, esse tipo de cinema começou a perder força. As salas se multiplicavam, e custava muito caro, para os produtores, criar "gimmicks" mais elaborados. Além disso, começava a era do VHS e dos drive-ins, e o hábito de ir ao cinema voltou a perder a força. A era dos "movie gimmicks" se encerrou definitivamente com a morte do produtor Castle, o homem que mais investiu neles. E, assim, ir ao cinema passou a ser um pouco menos divertido novamente.

Nestes tempos modernos em que a moda é resgatar o formato 3-D no cinema (só que apenas para meia dúzia de sortudos que vivem nas poucas cidades onde as salas têm a tecnologia para exibir filmes neste formato), é realmente muito triste saber que o único "gimmick" à disposição de todos é o irritante ringtone dos celulares daqueles idiotas que insistem em não desligar o telefone quando vão ao cinema. Como seria divertido ver estes mal-educados sentados bem naquelas antigas poltronas que davam choque nos tempos de William Castle!



A partir de agora, o leitor acompanha uma relação de vários filmes que foram exibidos com "movie gimmicks". Vários deles foram relançados recentemente em DVD, inclusive no Brasil. Mas é claro que vê-los em casa, sem os "efeitos especiais" da sala do cinema e sem o público gritando e "participando" da ação ao seu redor, não tem nem metade da graça das exibições originais. Digo mais: dificilmente alguém vai se divertir vendo A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS ou FORÇA DIABÓLICA hoje, em DVD, tanto quanto se divertiram aqueles jovens sortudos que assistiram a estas produções com seus "movie gimmicks" originais na época do lançamento...

MACABRE (1958)
Foi a primeira produção assinada por William Castle a utilizar "movie gimmicks": o trailer já anunciava que a história era tão assustadora que o espectador teria que fazer seguro de vida ao entrar no cinema. E não era só propaganda: ao chegar na sala para uma sessão de MACABRE, cada espectador ganhava um certificado de seguro de vida da seguradora Lloyd's, de Londres, que pagaria mil dólares à família do portador caso ele morresse de medo durante a sessão! Isso criava um clima tão arrepiante que muita gente desistia de ver o filme, temendo realmente "morrer de medo". Para colaborar com a campanha publicitária, Castle contratou algumas modelos e atrizes de quinta categoria para se vestirem como enfermeiras e ficarem na entrada dos cinemas, medindo a pressão dos espectadores e explicando a eles como era cientificamente possível que alguém morresse de medo! Hoje, os tais certificados promocionais de seguro de vida viraram peça de colecionador. E não há notícia de que alguém tenha realmente morrido durante a exibição de MACABRE, para a sorte do produtor.


TERROR IN THE HAUNTED HOUSE (1958)
Também conhecido como MY WORLD DIES SCREAMING, este filme de Harold Daniels foi a primeira experiência do cinema de horror norte-americano com mensagens subliminares. A técnica foi chamada de "Psychorama": durante diversos momentos da projeção, um flash de milésimo de segundo (que o olho humano mal captava, mas a mente registrava) exibia cenas escabrosas ou mensagens do tipo "Prepare-se para gritar" ou "Grite mais alto!", sempre antecedendo as cenas de horror da película. Entre as imagens exibidas nestes flashes, um rosto demoníaco, uma pessoa com um rato na boca, um crânio com os olhos ensangüentados e uma cabeça de cobra pronta para dar o bote. A coisa tinha certo fundamento científico: o crânio inspirava terror no público, a cobra inspirava ódio, e por aí vai. No ano seguinte, A DATE WITH DEATH também usou este artifício, que então foi abandonado após diversas discussões sobre o polêmico uso de mensagens subliminares na publicidade. Mesmo assim, outros filmes utilizaram moderadamente a técnica a partir de então. No clássico O EXORCISTA (1973), por exemplo, há flashes de um rosto demoníaco em diversos momentos do filme, e muita gente atribui a estas "aparições" o clima de horror do filme. Mais recentemente, o mesmo foi feito em CLUBE DA LUTA (1999), onde aparecem flashes de milésimo de segundo do ator Brad Pitt em diversos momentos do longa, antecipando o excelente "final-surpresa".





A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS(1959)
A campanha que criou para MACABRE funcionou tão bem que William Castle voltou à carga ainda mais criativo em sua produção seguinte, A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS (House on Haunted Hill), estrelada por Vincent Price. Tentando levar o horror das telas literalmente para o interior da sala de cinema, o produtor criou uma técnica chamada "Emergo", que consistia num esqueleto de plástico, feito em material que brilhava no escuro, e preso a fios metálicos suspensos sobre a platéia no cinema. Em determinado momento do filme, um esqueleto saía de uma tina de ácido e atacava a atriz Carol Ohmart; era a deixa para que os funcionários dos cinemas lançassem o tal esqueleto de plástico por detrás da tela, fazendo-o deslizar sobre a cabeça dos espectadores pelos fios metálicos! Muita gente certamente deve ter se engasgado com a pipoca, mas é claro que, dependendo do público na sessão, o "gimmick" virava mais motivo de gargalhadas do que de medo - às vezes tornava-se até alvo para copos de refrigerante e baldes de pipoca vazios. Seja como for, a técnica "Emergo" fez tanto sucesso que transformou A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS num grande sucesso de bilheteria. E mais: diz a lenda que Alfred Hitchcock, espantado com a bilheteria do filme, resolveu fazer sua própria produção de horror de baixo orçamento: um tal de PSICOSE! Já o clássico de Castle foi refilmado em 1999 como A CASA DA COLINA, sem "Emergo" e sem um pingo da criatividade do original.



HORRORS OF THE BLACK MUSEUM (1959)
Os cartazes deste filme dirigido por Arthur Crabtree divulgavam o "gimmick" batizado de "Hypno-Vista". No início da sessão, antes de começar o filme, era apresentado um segmento de 12 minutos com um tal "dr. Emile Franchel", supostamente um psicólogo inglês, que conversava com a platéia sobre o poder da sugestão, da percepção e da hipnose. Ele explicava que o filme que veriam havia sido realizado com a novíssima técnica "Hypno-Vista", que levava o espectador a experimentar na própria pele as sensações vividas pelos personagens na tela. Em outras palavras: se alguém levasse uma facada, o espectador sentiria a dor da facada na própria pele! Para tentar comprovar esta técnica, o "dr. Franchel" usava o poder da sugestão para fazer o público sentir frio (a imagem ficava azulada e o som de uma ventania era escutado) e também para sentir calor (a imagem ganhava tons fortes de laranja e ouvia-se o som de chamas crepitando). E funcionava? Bom, para quem se impressionava com facilidade, provavelmente sim. Mas para 99% da humanidade era pura balela, e o filme não provocava qualquer sensação diferente no público. Como o "gimmick" não funcionou a contento, o prólogo de 12 minutos foi retirado da maior parte das sessões pós-lançamento, para evitar processos judiciais de espectadores que se sentissem enganados. Recentemente, foi incluído como extra no relançamento do filme em DVD.



FORÇA DIABÓLICA (1959)
No mesmo ano de A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS, William Castle atingiu a perfeição dos "movie gimmicks" com FORÇA DIABÓLICA (The Tingler), onde usou a mais bem-sucedida das suas técnicas de imersão da platéia na ação, desta vez batizada de "Percepto". O filme mostra Vincent Price como um médico que descobre que uma misteriosa criatura (o Tingler) vive na espinha das vítimas e as mata de medo. Ela só pode ser destruída pelos gritos de pavor do infectado. No final, uma mulher surda-muda, que não pôde gritar e por isso morreu, é operada para a remoção da tal criatura, mas o monstrinho escapa e ataca uma sala de cinema. Aí começava a malandragem do produtor: nos cinemas em que o filme era exibido, algumas poltronas eram previamente armadas com um mecanismo que dava choques inofensivos no espectador. Assim, no momento do filme em que a criatura atacava o cinema, a projeção na sala de cinema real repentinamente era interrompida, a tela ficava preta e alguns dos espectadores que assistiam tranqüilamente tomavam um choque fraquinho. Aí era um Deus nos acuda: eles pulavam da poltrona berrando de horror, acreditando realmente que o monstro havia saído da tela! Para completar, assim que a projeção era interrompida, uma gravação estimulava a platéia a berrar de medo: "A criatura está solta NESTE cinema! Gritem!!! Gritem por suas vidas!!!", transformando a sessão num grande pandemônio, à medida que os choques se multiplicavam pelas poltronas! Claro que nem todas as salas recebiam o equipamento, apenas as maiores, das capitais.
E esta brincadeira somou 250 mil dólares ao orçamento da película. Também havia uma versão do filme especialmente para drive-ins, esta sem choques nas poltronas: quando a projeção era interrompida, uma gravação orientava o público a berrar, dizendo que a criatura que fugiu estava no banco de trás dos carros estacionados no drive-in!!! FORÇA DIABÓLICA foi lançado em DVD no Brasil. Ao vê-lo, no conforto de seu lar, tente imaginar como era assisti-lo numa sala de cinema, com gente tomando choques e berrando de pavor ao seu redor. Sabe aquela apresentação da Mulher-gorila nos parques de diversões? Pois imagine isto num cinema, e você terá uma idéia do que foram aquelas mágicas sessões de 1959...



13 GHOSTS (1960)
Claro que estou falando do original, e não daquela refilmagem imbecil feita em 1999 pela produtora Dark Castle. Este traz outro dos clássicos "movie gimmicks" de William Castle: a técnica chamada "Illusion-O", que consistia num óculos com lentes especiais (azul e vermelha, semelhante aos óculos 3-D) que permitia "enxergar os fantasmas" do filme. Na trama da película, um cientista inventava óculos para enxergar fantasmas. E o público era convidado a fazer o mesmo na sala de cinema! A coisa funcionava mais ou menos assim: a cena de horror rolava e o espectador podia escolher se enxergava a assombração (olhando por uma das lentes de celofane do "óculos") ou se, caso tivesse medo, fazia o fantasma "desaparecer" (bastava olhar pela outra lente e o dito cujo "sumia" da tela!). É uma técnica tão simples quanto genial, além de divertidíssima. Recentemente, quando o filme foi relançado em DVD nos Estados Unidos, o disco trazia as duas versões: normal e com a técnica "Illusion-O", incluindo uma réplica dos óculos especiais que permitem ver/não ver os fantasmas.
Enfim, aquelas coisas que no Brasil não chegam nunca...



HOMICIDAL (1961)
Mais uma grande jogada de marketing do produtor William Castle: na conclusão do filme, à medida em que a heroína se aproximava da casa do assassino e grande vilão da história, um cronômetro aparecia na tela fazendo a contagem de 45 segundos. Era o chamado "Fright Break": aqueles 45 segundos eram o tempo que os covardes tinham para abandonar a sala do cinema "em segurança", antes que começasse a horripilante cena final! Quem resolvesse sair, precisava abandonar o recinto seguindo por um caminho previamente marcado com uma linha amarela, onde havia, novamente, atrizes vestidas de enfermeiras, oferecendo-se para medir a sua pressão, ao mesmo tempo em que uma gravação reproduzida no interior da sala provocava: "Vejam só que covarde! Lá vai ele chorar no cantinho dos covardes!". O melhor desta tática era que quem assumisse o título de covarde e saísse da sala durante o "Fright Break" era indenizado, recebendo de volta o valor do ingresso ao apresentar na bilheteria o "Coward's Certificate" (Certificado de Covarde), que todos recebiam na entrada do cinema. Claro que a humilhação imposta aos "covardes" fazia parte do plano, pois ninguém iria querer pagar um mico desses ao sair da sessão antes do final apenas para receber o valor do ingresso de volta. Mesmo assim, acredita-se que cerca de 1% dos espectadores de HOMICIDAL assumiu o título de covarde.





MR. SARDONICUS (1961)
Este é outro "gimmick" tão simples quanto brilhante de William Castle, coisa que hoje, em tempos de adolescentes mal-educados fazendo farra no cinema, seria impossível de repetir: o filme contava a história de um assassino cruel (com um tétrico sorriso muito parecido com o do Coringa), cuja origem trágica deixava o espectador sensibilizado, a ponto de quase entender a motivação do psicopata. Por isso, todo espectador recebia, na entrada da sessão, um cartão de papelão que brilhava no escuro e trazia o desenho de uma mão com o polegar para cima. Antes da conclusão da história, a projeção era paralisada e iniciava a "Punishment Poll" (Enquete da Punição): o gerente do cinema ia até a frente da sala e os espectadores eram convidados a votar para escolher o destino de Mr. Sardonicus, sendo que polegar para cima significava um "final feliz" para o vilão, e polegar para baixo a sua morte (estilo Coliseu na Roma Antiga). Para garantir a interatividade, Castle gravou os dois finais - com Sardonicus sendo punido e sendo perdoado. Ironicamente, em nenhuma das sessões de MR. SARDONICUS o público teve piedade pelo vilão, então o "final feliz" alternativo nunca precisou ser exibido!



ZOTZ! (1962)
Nesta mistura de comédia e ficção científica, baseada num livro de Walter Karig, o protagonista encontrava uma moeda que lhe dava poderes mágicos. Para promover a produção, o diretor-produtor William Castle mandou fazer milhares de réplicas da tal moeda dourada, que eram distribuídas para o público na entrada do cinema. Exagerado que só, ele ainda espalhou que algumas destas moedas realmente tinham "poderes mágicos"! Com o tempo, a réplica virou peça de colecionador. E não há evidências de que alguma delas realmente tivesse poderes mágicos, como a do filme.



DEMENTIA 13 (1963)
Este clássico primeiro filme do diretor Francis Ford Coppola, produzido pelo mestre Roger Corman, também teve um criativo "gimmick". Como o produtor alegava que o filme estava muito curto (tinha apenas 75 minutos), resolveu completar o tempo de projeção gravando um prólogo que não tinha nada a ver com o resto do filme. Para isso, inventou o chamado "D-13 Test" como ferramenta de marketing. Esse prólogo foi filmado por outro cineasta cult, Monte Hellman, e cortado de todas as versões posteriores lançadas em VHS e DVD. Mostrava um "psiquiatra" sentado em seu escritório, aplicando um teste psicológico nos espectadores para saber se eles estavam "mentalmente aptos" a ver o filme. Dependendo da quantidade de "sim" e "não" que o espectador respondia, era convidado pelo "psiquiatra" a abandonar a sala antes que a projeção começasse, pois seria "psicologicamente fraco" para agüentar o suspense do filme! Corman também mandou imprimir milhares de formulários com as perguntas, e estes formulários eram aplicados pelos próprios empregados dos cinemas na entrada da sessão. O "D-13 Test" incluía questões estapafúrdias como "Você já foi hospitalizado num manicômio?", "Você tem medo de morrer afogado?" e "Você já pensou em cometer suicídio?". Claro que era tudo balela sem qualquer fundamento "psicológico", mas mesmo assim todos os espectadores eram convidados a responder o formulário.

THE INCREDIBLY STRANGE CREATURES WHO STOPPED LIVING E BECAME MIXED-UP ZOMBIES (1964)
Lembra o exemplo que eu citei no começo do artigo, do que aconteceria se pessoas maquiadas como infectados invadissem uma sessão do filme REC? Pois foi exatamente o que aconteceu durante a exibição desta produção bizarra com título quilométrico, uma mistura de horror e comédia dirigida por Ray Dennis Steckler. O trailer e os cartazes anunciavam que a produção havia sido realizada com novíssimas técnicas chamadas "Bloody-Vision" e "Hallucinogenic Hypnovision" (!!!), que teoricamente teriam o poder de colocar o espectador dentro do filme! Tudo bobagem. O que acontecia era que, em determinado momento da projeção, uma personagem aparecia na tela "hipnotizando" os espectadores, e uma grande espiral em movimento surgia na tela para dar uma impressão real de hipnose. Então, quando o público menos esperava, as portas da sala se abriam num estouro e pessoas contratadas pela produtora entravam correndo e berrando, usando máscaras semelhantes às usadas pelas criaturas do filme! Em algumas sessões, o próprio diretor Steckler fantasiou-se de monstro para conferir ao vivo como funcionava a técnica. Era comum que alguns espectadores abandonassem a sessão correndo, e uma lenda urbana diz que uma mulher idosa sofreu um ataque cardíaco mortal durante a "brincadeira", o que encerrou prematuramente outros investimentos na mesma "técnica". Se o mesmo truque fosse usado em REC, os cinemas teriam que distribuir fraldas para os espectadores na entrada da sessão!

CHAMBER OF HORRORS (1966)
Este filme dirigido por Hy Averback lançou dois famosos "gimmicks" que depois seriam reaproveitados em outras produções: o "Fear Flasher" e a "Horror Horn". Sempre que ia rolar alguma cena de assassinato ou horror, a tela ficava toda vermelha e uma sirene ecoava no interior da sala do cinema, alertando os espectadores mais medrosos para que fechassem os olhos! Entre outros filmes que usaram estes mesmos "gimmicks" está CANNIBAL GIRLS, dirigido por Ivan Reitman em 1973, e cujo pôster anunciava o "Warning Bell", uma campainha disparada antes das cenas de violência. "Quando a campainha tocar, feche os olhos se você se impressiona facilmente", orientava a publicidade da época.



MAD DOCTOR OF BLOOD ISLAND (1968)
Quando os distribuidores norte-americanos obtiveram os direitos de exibição deste divertidíssimo filme B rodado nas Filipinas (dirigido por Eddie Romero, um dos ídolos de Quentin Tarantino), resolveram criar um "movie gimmick" para tornar mais interessante uma produção que, por si só, não tinha grandes qualidades. Foi assim que surgiu a idéia de criar o "Green Blood Oath", frasco contendo uma bebida verde que o espectador ganhava no momento em que comprava o ingresso, e que é uma referência aos experimentos do tal "mad doctor" do filme (que cria um monstro com clorofila no lugar do sangue). No início da projeção, um prólogo filmado nos EUA, que não fazia parte da montagem original, instruía os espectadores a beber a tal fórmula - que, claro, não produzia qualquer efeito, a não ser nos facilmente impressionáveis, que provavelmente devem ter entrado em desespero com a idéia de também se transformarem em monstros de clorofila!



THE CANNIBAL MAN (1972)
O suspense espanhol LA SEMANA DEL ASESINO trazia algumas cenas escabrosas de violência e morte de animais num frigorífico. Por isso, a distribuidora norte-americana resolveu criar um pioneiro "gimmick" em cima deste fato: rebatizou a produção como THE CANNIBAL MAN (embora não exista canibalismo no filme) e distribuiu, na entrada dos cinemas, sacos de vômito personalizados com o título da obra. Este foi, segundo o IMDB, o primeiro filme a utilizar tal campanha publicitária, que com o passar dos anos seria infinitamente copiada pelas distribuidoras dos EUA: sempre que iam exibir alguma produção com cenas mais gráficas de sangue e tortura, reaproveitavam esta idéia de distribuir sacos de vômito para os espectadores, o que por si só já funcionava como uma belíssima propaganda. Clássicos como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA e ZOMBIE, do Fulci, também foram exibidos com este "movie gimmick" nos cinemas norte-americanos; os sacos de vômito das fotos abaixo foram distribuídos nas sessões de MARK OF THE DEVIL e WHEN THE SCREAMING STOPS. Hoje, tornaram-se peça de coleção. Os que não foram usados, obviamente...



WICKED, WICKED (1973)
Em vários filmes do Brian DePalma, do Tarantino e de outros mestres, chega um momento em que a tela se divide em duas partes, cada uma delas mostrando um acontecimento diferente. Agora imagine ver um filme inteiro com esta técnica da tela dividida no meio (a chamada "split-screen"), cada metade exibindo ações simultâneas. Pois assim era WICKED, WICKED, filme dirigido por Richard L. Bare e o único da história do cinema com a técnica batizada de "Duo-Vision". O trailer anunciava com emoção: "A nova técnica cinematográfica que não requer o uso de óculos ou de qualquer outro equipamento além dos seus olhos. O dobro de tensão, o dobro de horror!". A trama é sobre um psicopata mascarado que mata e mutila loiras num hotel. O "gimmick" era o fato de o espectador ser convidado a acompanhar ações simultâneas e os "pensamentos" do protagonista através do "Duo-Vision". Enquanto na metade da esquerda era exibida a ação principal do filme, na segunda metade passavam flashbacks, um outro ponto de vista da ação principal (tipo o ponto de vista da vítima do assassino), ou mesmo premonições do futuro! Quando havia diálogos numa das metades da tela, a outra metade ficava silenciosa.
O sistema "Duo-Vision" teve vida curta: durou apenas este filme! Posteriormente, DePalma, Tarantino e outros diretores usaram a técnica de "split-screen", mas com bastante moderação. Parece que ver o filme inteiro com a tela dividida era muito cansativo, uma tortura para os espectadores do cinema, que ficavam completamente perdidos, sem saber para qual metade olhar. Imagine ver hoje, então, na tela pequena da TV!



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