GOONIES, OS

por Daniel Deschamps

“One-eyed Willy! He was the most famous pirate in his time. My dad told me all about him!”


A década de 80 certamente foi deliciosa, especialmente para quem estava na infância e adolescência e curtia filmes repletos de ação/aventura. Enquanto hoje em dia os estúdios lançam porcarias envolvendo animais falantes como se isso fosse sair algo verdadeiramente interessante, naquela época parecia que os produtores sabiam o que iria fazer sucesso entre a garotada. E eu poderia citar dezenas e dezenas de filmes que ainda são lembrados com muito carinho por aquela geração. Porém, há de se destacar um que sem dúvida foi um dos principais daquele período prolífico.

OS GOONIES geralmente reprisavam na malfadada Sessão da Tarde, que se antigamente ainda passava alguns bons filmes, hoje em dia poderia mudar para Sessão dos Lixos sem o menor problema. Para quem, na época, nem sonhava com a futura invenção dos DVDs e seus, às vezes, maravilhosos extras, o filme era excelente mesmo dublado e com aqueles longos e chatos intervalos.
Só que hoje eu sou um cara mais evoluído e não me conformo com os grosseiros erros que as TVs cometiam ao exibir alguns filmes, mal dublados pelos estúdios contratados para o feito. No caso dos GOONIES eu considero um equívoco como a grande “sacanagem” da emissora e do estúdio de dublagem: o nome do protagonista e um dos nossos heróis, o “Mickey”. Sim, assim era falado em todas as exibições o nome do personagem de Sean Astin (da trilogia “O Senhor dos Anéis”). Ao comprar o meu querido DVD e inseri-lo no meu aparelho pela primeira vez tomei um baita susto: não é que o nome do moleque é MIKEY!!! Ora, será que uma letrinha faz tanta diferença assim??? Quem conhece um pouquinho de inglês sabe que faz muita! A inclusão desse C quer dizer que o personagem de Astin é pronunciado com o I da língua portuguesa, como “Mickey Mouse”. Já a forma correta, Mikey, apelido para Michael, é pronunciada com o I da língua inglesa. Eu gostaria muito de saber de onde eles tiraram isso! Talvez eu esteja sendo muito chato, mas para mim esse foi um pecado gravíssimo, pois assim como muitos que assistiam ao filme pela TV, criei uma grande identidade por um personagem com o nome errado. Agora imaginem só se descobríssemos que o príncipe Adam do He-Man se chama na verdade “Aidan”. Isso seria muito frustrante...



Bem, deixando esse papo de lado, vamos falar do que interessa de verdade. O filme começa com um inspetor de polícia chamando os detentos para o almoço. Um deles, Jake Fratelli (Robert Davi), está pendurado com uma corda no pescoço, sugerindo suicídio. O guarda se aproxima mais e, ao ler um bilhete preso embaixo do pescoço do cara, percebe que foi ele quem entrou numa enrascada, pois o bilhete diz: “Imbecil. Acha que sou burro o bastante para me matar?” É então que o bandido golpeia o inspetor e foge da prisão. Num carro, do lado de fora, uma velha emburrada (Mama Fratelli, Anne Ramsey) e seu filho aguardam pelo fujão – que se revela filho e irmão da dupla. Os policiais tentam impedir a fuga, mas o homem que estava dentro do carro, Francis Fratelli (Joe Pantoliano, de Matrix), atira no asfalto, fazendo um rastro de fogo separar a delegacia do carro – eles já haviam derramado gasolina sobre o solo enquanto Jake punha em prática seu plano de fuga. Inicia-se uma grande perseguição, com os carros cruzando várias ruas da cidade. Paralelamente, vários personagens do filme são apresentados ao telespectador, numa boa sacada do roteiro: Andy (Kerri Green) está ensaiando a coreografia com as demais líderes de torcida e os carros passam numa rua por trás dela; Rosalita (Lupe Ontiveros) está no meio da rua, cheia de sacolas, e quase é atropelada pelos veículos; Bocão (Corey Feldman, de Os Garotos Perdidos) está vendo TV sossegadamente enquanto esses mesmos veículos cruzam à toda velocidade bem diante da janela de sua cozinha; Stef (Martha Plimpton) está perto do píer tirando caranguejos de uma bacia e atrás dela os tiros rolam soltos; Data – ou Dado, como ficou mais conhecido (Jonathan Ke Quan) – está testando uma de suas várias engenhocas – que pra variar dá errado – e é jogado de cabeça num latão de lixo, e a dois metros dali adivinhem o que passa!?; Bolão (Jeff Cohen) se diverte no fliperama ao mesmo tempo em que devora um hot-dog com milk-shake, quando é surpreendido por um alvoroço na rua, o que faz com que ele vá mais do que depressa verificar empolgado: “Uau, uma perseguição policial”, grita o garoto! Essa mesma perseguição termina quando mamãe e filhinhos conseguem fazer com que uma caminhonete tranque a passagem dos tiras.



A cena corta para a residência dos Walsh, palco de vários acontecimentos engraçados e também determinantes. Lá, somos apresentados àquele mesmo Mikey (que usa bombinha de asma) do começo do artigo e seu irmão mais velho Brand (Josh Brolin, de O Homem Sem Sombra), que usa uma roupa de ginástica – que para a época poderia ser comum, mas que hoje em dia garantiria várias gargalhadas caso ele resolvesse ir daquele jeito para alguma academia. Quando o folgado Bocão entra na casa é que nos deparamos com a primeira citação à palavra que entitula o filme, ditas pelo garoto: “É nosso último fim de semana juntos. O último dos Goonies”. É assim que os amigos se auto-denominam. Logo se juntam a eles Dado e Bolão – que é o protagonista de uma das cenas que qualquer um de nós que viu o filme na infância, lembra até hoje. Seguinte: ao derrubar a estátua de um homem nu no chão, quebrando-lhe o pênis, ele e os outros colam o dito-cujo ao contrário, no desespero de esconder o estrago, já que a mãe de Mikey gosta da escultura. A Sra. Walsh (Mary Ellen Trainor) chega à casa junto com Rosalita, que vai ajudar na mudança. Entretanto, a latina não fala uma palavra de inglês e por isso a mãe dos meninos pede auxílio ao Bocão, que parece muito satisfeito por poder traduzir, hehehe.


Na verdade o safado quer é bancar o engraçadinho. Assim que a Sra. Walsh começa com as instruções à Rosalita, Bocão entra em cena: “Calças e camisas na segunda gaveta. Coloque nas caixas de papelão, e não nas malas”. Ao que o cara traduz: “Maconha na gaveta de cima. Cocaína e Speed (???) na segunda. Heroína na última. Separe sempre as drogas”. Hahaha. O moleque é tão maluco que ao ouvir da mãe de Brand que o Sr. Walsh não gosta que entrem no sótão, diz que lá o homem guarda seus objetos de tortura sexual!!! E ainda apavora a pobre mulher, falando que se ela não trabalhar direito, ficará presa lá em cima com as baratas durante duas semanas, sem água e sem comida. Coincidentemente, é o Bocão que põe o resto da tropa na maior aventura do filme, aos instigá-los sobre o que se esconde no tal sótão. Chegando lá encontram um mapa beeem antigo, contendo a localização de um tesouro pertencente a um tal pirata que viveu no séc. XVII, o Willy Caolho (One-Eyed Willy). Mikey ouviu falar desse cara por intermédio de seu pai, e cogita a hipótese de achar o tal tesouro e assim salvar a família e os amigos de deixarem a cidade, já que as casas serão demolidas.


Enquanto Brand está malhando na sala (será que ele não faz outra coisa na vida?) ao som de Good Enough, de Cyndi Lauper (a música que todo mundo associa ao filme), os Goonies confabulam um plano para irem ao encontro do tesouro pirata, prendem o mala com seus próprios trambolhos, e saem com suas bicicletas. Brand tenta ir atrás, mas os meninos esvaziaram os pneus da bicicleta do cara. Resta a ele roubar a bike de uma garotinha, com rodinha e tudo. Para piorar a vida do rapaz, Troy (Steve Antin) apareceu no seu possante conversível junto com Andy (a garota que Brand gosta) e sua amiga Stef. Ridicularizado naquela situação, o cara tem seu braço preso à mão de Troy - que quer curtir uma com a cara de Brand. A alta velocidade do carro faz a bicicleta andar numa potência acima do que é capaz, e Troy solta o braço do mané em cima da curva, tornando impossível ele fazer a mesma. Resultado: Brand se espatifa encosta abaixo! Mikey e os outros descobrem que as pistas do mapa levam diretamente a um restaurante aparentemente abandonado.



As coisas começam a dar errado quando Bolão encontra buracos de bala num furgão na garagem do estabelecimento. Dentro do local eles se deparam com aquela mesma senhora mal-encarada do começo do filme – a matriarca dos Fratelli. A princípio a família pensa que os meninos estão perdidos ali e até oferecem “água” para eles (se bem que aquilo mais parece Conhaque). Ao invés de darem o fora dali, os caras preferem continuar com a missão, e Mikey – com a desculpa de ir ao banheiro – prossegue seguindo as pistas do mapa. No subterrâneo do restaurante alguns barulhos sinistros chamam a sua atenção e ele se depara com um homem desfigurado acorrentado numa cadeira. Esse homem, Sloth (John Matuszak), é o caçula dos Fratelli, e é rejeitado pelo resto da família por causa de sua aparência bizarra.



Brand finalmente chega ao lugar e tira os garotos de lá, para o alívio da Mama Fratelli. Mas isso de nada adianta, pois Mikey e os outros estão dispostos a voltar para lá, na esperança de pôr as mãos nas jóias de Willy Caolho. Andy e Stef também se unem ao resto do esquadrão. Com todo mundo novamente dentro do restaurante, incluindo as garotas, a aventura finalmente começa. Eles ouvem um grunhido vindo lá de baixo, e apenas Mikey sabe do que se trata. Os insistentes garotos descobrem uma passagem abaixo da lareira, é lá que o “líder” dos Goonies crê que Willy esconde o tesouro. Antes de descerem, eles descobrem por acaso um jornal com as fotos dos Fratelli estampada e então sabem finalmente que se meteram numa grande encrenca.


Sean Astin (Mikey Walsh)


A fome do insaciável Bolão aflora quando ele encontra potes e mais potes de sorvetes “Swensen”. O esfomeado se ferra mais uma vez ao descobrir um cadáver entre as guloseimas. Por isso fica pra trás quando os amigos entram pela passagem da lareira, sendo incumbido de chamar a polícia. O pobre coitado é tão azarado que sai para a rua em busca de ajuda e pede carona justamente para os irmãos Fratelli, que o põem no carro e o levam de volta para o restaurante. Enquanto isso, o resto dos Goonies está cada vez mais convencido de que entrou numa enrascada daquelas. Os caras acham o esqueleto de um tal Chester Copperpot, que, em 1935, entrou para procurar o tesouro de Willy Caolho, mas nunca retornou (brrrr). Os Goonies realmente são caras muito legais, pois têm a chance de dar o fora daquele lugar soturno quando descobrem que Troy e dois amigos estão bem acima deles, num “poço dos desejos”. Mas eles não o fazem, porque Mikey (sempre ele) os convence de que aquela poderia ser a última aventura dos Goonies juntos.


Corey Feldman (Clark 'Mouth' Devereaux)


O Bolão – acreditem – fez amizade com o Sloth, (o que uma barra de chocolates não faz...) levando inclusive um beijo do feioso, bem na boca (blerghhh!!!).


Martha Plimpton (Stef Steinbrenner)


Enquanto o gordinho só se dá mal, para Mikey as coisas só melhoram. Na hora em que a turma decide usar túneis como banheiros, Andy chama Brand, que está no toilete masculino, só que ele pede que o caçula vá ver o que a gatinha quer. Naquela escuridão ele é puxado por Andy, que tasca-lhe um beijão. Mikey, que não é bobo nem nada, aproveita a situação. A mocinha comenta com a amiga – que havia visto que era Mikey graças a uma lanterna – que estranhou o fato de Brand usar aparelho e ainda cita um tal buraco onde o namoradinho supostamente estava – tudo isso porque, obviamente, ele havia ficado bem mais baixo que ela. O engraçado é que depois disso ela encontra Brand e fica gesticulando, toda feliz. O cara pensa que ela está doida, hahahaha. Mais tarde ele iria descobrir tudo e desejar matar o irmão.


Jeff Cohen (Lawrence 'Chunk' Cohen)


O filme passa para a parte final, colocando Goonies e Fratellis frente-a-frente, e ainda contando com Sloth, agora totalmente camarada, ao lado dos nossos heróis. Não vou entrar em detalhes sobre como termina essa eletrizante aventura, pois talvez exista alguma pessoa nesse mundo, que não conferiu esse verdadeiro clássico. Então se há esse herege entre nós, que corra atrás dessa preciosidade e não perca tempo com essas bobagens “teen” de hoje em dia. Eu termino esse artigo desconfiando que muitos de vocês, que chegaram até o final do texto, já se roeram de vontade, assim como eu quando pequeno, de ser um Goonie!


Kerri Green (Andy Carmichael)


EXTRAS – AQUILO QUE VOCÊ SÓ VÊ NO DVD (cuidado, possível spoiler).

Para alguém observador talvez uma pergunta tenha ficado sem resposta: no final do filme, quando os repórteres perguntam para os Goonies o que foi mais difícil para eles, alguém diz: o polvo! Mas não há polvo algum durante todo o filme, ora bolas. Apenas nas cenas deletadas vemos que o molusco realmente existe. Ele aparece quando os garotos chegam no navio de Willy Caolho. O polvo agarra Bocão e Stef com seus tentáculos e só é detido com um aparelho de som, posto dentro de sua imensa boca, hahaha. O bicho fica dançando pra lá e pra cá, e finalmente desaparece.


Josh Brolin (Brand Walsh)


Também nos extras há uma parte com o filme comentado com o elenco principal - junto a Richard Donner - nos dias de hoje, narrando os fatos mais inusitados com várias piadas – destaque para o brincalhão Corey Feldman. Muito bom poder ver que todos eles juntos novamente: destaque para a Andy, que ficou a maior gata; e o Bolão, que emagreceu de verdade e está bem diferente do filme.


Josh Brolin (Brand Walsh)


Daniel Deschamps


OS GOONIES (The GOONIES, EUA, 1985). Duração: 114 minutos.
Direção: Richard Donner
Roteiro: Steven Spielberg; Chris Columbus
Produção: Harvey Bernhard; Richard Donner
Produção Executiva: Kathleen Kennedy; Frank Marshall; Steven Spielberg
Fotografia: Nick McLean
Música: Dave Grusin
Edição: Michael Kahn; Steven Spielberg
Desenho de Produção: J. Michael Riva
Direção de Arte: Rick Carter
Figurino: Richard La Motte
Elenco: Sean Astin (Mikey Walsh); Josh Brolin (Brand Walsh); Jeff Cohen (Lawrence 'Chunk' Cohen); Corey Feldman (Clark 'Mouth' Devereaux); Kerri Green (Andy Carmichael); Martha Plimpton (Stef Steinbrenner); Jonathan Ke Quan (Richard 'Data' Wang); John Matuszak (Lotney 'Sloth' Fratelli); Robert Davi (Jake Fratelli); Joe Pantoliano (Francis Fratelli)

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