THE GRAVEDANCERS

por Marcelo Milici

Quando Trash (Linnea Quigley) dançou e fez festa sobre os túmulos de um velho cemitério em Louisville, Kentucky, ela não imaginava que pouco depois seria devorada por um bando de zumbis decrépitos, em “A Volta dos Mortos-Vivos” (1985), de Dan O´Bannon. Sim, dançar em um cemitério pode trazer conseqüências assustadoras para os que se atrevem ao ato. Já alertavam os Druidas e, mais tarde, os satanistas, que qualquer tipo de alegria com música e bebidas num cemitério significaria profanar as covas e zombar daqueles que já foram...
Em “The Gravedancers”, temos um bom aprendizado sobre o tema. Na trama, três amigos resolvem dar um último adeus a um conhecido e acabam exagerando na despedida, trazendo para casa fantasmas violentos e vingativos.
Harris (Dominic Purcell), Kira (Josie Maran) e Sid (Marcus Thomas) acabaram de perder um amigo, vítima de um acidente de carro. Depois do enterro, reúnem-se num barzinho para homenagear o falecido e, lá, decidem fazer uma última visita ao túmulo, mesmo sabendo que, em filmes de terror, um passeio no cemitério, na madrugada, pode trazer sérios e mortais problemas aos ousados.

Envolto numa densa neblina, os amigos bebem e conversam sobre aventuras realizadas em grupo. Sid encontra um estranho envelope próximo à lápide – um importante artefato que já havia aparecido na primeira cena do longa – e resolve abri-lo. Há uma velha carta, com versos musicados que, aparentemente, homenageiam os mortos. Eles, então, começam a dançar e a cantar os versos do envelope, sem saber que estão despertando a ira de três entidades maléficas que residem e descansam no local.



Essa é a premissa do divertido “The Gravedancers”, dirigido por Mike Mendez (O Convento, 2002), a partir de um roteiro co-escrito pelos estreantes Brad Keene e Chris Skinner. Trata-se de uma produção de terror à moda antiga, com fantasmas bizarros, efeitos exagerados e atores talentosos. Não temos atores da escala teen apenas interessados em sexo; aqui, os personagens são adultos, com suas próprias moradias e empregos.

Dominic Purcell (das séries “John Doe” e “Prison Break”) interpreta um Harris ao estilo George Lutz (personagem do filme “Terror em Amityville), sempre preocupado com o bem estar da família, enquanto tenta não acreditar no sobrenatural. Casado com a linda Allison (a talentosa Clare Kramer, que fez a deusa Glory na série “Buffy"), tenta evitar sua ainda existente atração por sua ex, Kira (Josie Maran, que interpretou uma vampira em “Van Helsing”). Essa subtrama envolvendo um triângulo amoroso – talvez até um quarteto, se contar com o interesse de Sid (Marcus Thomas) por Kira – não está no filme apenas para complemento de enredo; possui uma relação direta com o fantasma que invadiu a casa dos McKay e que, em vida, participou de um massacre envolvendo um adultério.



A primeira metade do filme lembra as produções de fantasmas realizadas no passado como o ótimo “A Casa das Almas Perdidas” e suas cenas de puro terror psicológico: portas que rangem e se abrem sozinhas, passos no andar de cima, um barulho inquietante nas paredes, vultos e a sensação incômoda de não estar sozinho. O medo cresce à medida que os fenômenos tornam-se intensos, culminando na primeira aparição ao estilo oriental, como uma alma atormentada que se esconde no escuro, com seus cabelos sobre a face e sua voz estridente.

Acreditando se tratar de uma investida de Kira, Allison e Harris correm para a casa da garota e são surpreendidos com o estado atual da bela, aterrorizada e completamente ferida por uma entidade que a agride fisicamente com mordidas e violação sexual. O terror aumenta numa seqüência que ocorre num dos corredores do hospital para onde Kira foi levada, com a visão apavorante de um vulto fantasmagórico que se ergue de uma maca envolto em um lençol branco.

A partir desse ponto, “The Gravedancers” adquire um tom levemente cômico com a entrada de dois pesquisadores de Parapsicologia que buscam uma prova da existência do sobrenatural. São eles: Vincent (Tchéky Karyo) e sua assistente Culpepper (Megahn Perry), que, em certo momento, diz “A evidência é o Santo Graal da Parapsicologia.”



Na segunda metade, o filme torna-se ainda mais divertido à medida em que os fantasmas passam a encurralar os personagens num único ambiente, com a intenção única de assassiná-los, não importando quem esteja no mesmo local daqueles que profanaram os túmulos. Os parapsicólogos e a esposa de Harris não fizeram parte da dança no cemitério, mas estão juntos com os que fizeram. Assim, estão amaldiçoados do mesmo modo e devem tentar sobreviver aos ataques violentos dos espíritos.

No melhor estilo "Supernatural", o grupo descobre um jeito de acabar de vez com a maldição, porém terão que voltar ao cemitério para encarar seus inimigos - e isso inclui o próprio conceito da Parapsicologia, seguida ao extremo pelos pesquisadores.



Tudo seria em vão se o filme não contasse com a direção impecável de Mike Mendez e a fotografia de David A. Armstrong, cujos trabalhos na franquia “Jogos Mortais” foram corretíssimos. Os efeitos especiais também tornam divertida a experiência de assistir ao filme pela primeira vez, principalmente na última cena, com o exagero ao estilo “Caça-Fantasmas” (e que me fez lembrar da capa do clássico "A Hora do Espanto"), sem deixar qualquer vestígio de artificialidade. Infelizmente, sua qualidade perde um pouco quando os fantasmas passam a aparecer em demasia, deixando de lado o terror psicológico interessante do início.

The Gravedancers” é uma ótima pedida para aqueles que procuram uma diversão descompromissada e também um motivo a mais para evitar farras em cemitérios. Fico imaginando o que aconteceria se os personagens dançassem FUNK sobre as tumbas e os espíritos tivessem bom gosto musical. Provavelmente seria uma carnificina...

Marcelo Milici

THE GRAVEDANCERS (The Gravedancers, EUA, 2006)
Direção: Mike Mendez
Roteiro: Brad Keene e Chris Skinner
Produção: Al Corley, Lawrence Elmer Fuhrmann Jr., Bill McCutchen, Eugene Musso, Bart Rosenblatt
Produção Executiva: Jonathan Dana, Brent Emery, Mark Morgan, Guy Oseary
Fotografia: David A. Armstrong
Desenho de Produção: Carmi Gallo
Figurino: Oakley Stevenson
Maquiagem: Nikki Carbonetta-Aguirre, Rebecca Wachtel, Roland Blancaflor
Música: Joseph Bishara
Efeitos Especiais: Lisa Reynolds, Bob Shelley, Richard E. Perry, Jason Knox, Darin Bouyssou
Efeitos Visuais: Miguel Bautista, Chris Ervin, Lanmana Parys, Antonio Torres
Elenco: Clare Kramer (Allison); Dominic Purcell (Harris McKay); Josie Maran (Kira Hastings); Marcus Thomas (Sid Vance); Martha Holland (Emma); Oakley Stevenson (mulher fantasma); Jim McKeny (doutor); Robert Bartusch (policial); Bob McHone (padre); Lulu Brud (jovem Emma); Lonnie Burchfield; Reid Dalton; Tchéky Karyo (Vincent); Megahn Perry (Culpepper);


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