GREMLINS

por João Pires Neto

Rand Peltzer é um inventor cujas invenções não saem exatamente como planejadas. Na verdade, as coisas na vida de Rand não costumam saírem como planejadas. Em busca de um presente de Natal único para seu filho, Billy, o inventor vai até uma pequena loja em Chinatown. Entre móveis estranhos, bichos empalhados e antiguidades, Rand descobre um pequeno e gracioso animal chamado Mogwai. O dono da loja, um velho chinês, diz que para criar o Mogwai são exigidas muitas responsabilidades e que ele não está à venda por dinheiro nenhum. No entanto, o neto do velhinho acaba vendendo o bichinho por duzentos dólares, dizendo que eles precisam muito do dinheiro. Mas alerta Rand sobre algumas regras que devem ser seguidas: - Não deixe que ele se molhe, Mantenha-o afastado da luz e não importa o quanto ele chore, o quanto ele suplique, NUNCA LHE DÊ COMIDA DEPOIS DA MEIA NOITE.
Billy fica maravilhado com o presente, mas “felizmente” não consegue seguir as regras e, em poucos momentos, a pequena cidade onde vivem acaba infestada por pequenos e devastadores monstrinhos, em plena noite de Natal.

Gremlins” marca a reunião de um talentoso grupo de profissionais. Foi produzido pelo mago dos anos 80 Steven Spielberg (para que não haja dúvida de seu talento na época, Spielberg colecionava sucessos, tanto como produtor, com filmes como “Os Gonnies (1985)”, “De Volta para o Futuro (1985)” e “Poltergeist (1982)”, ou como diretor: “Tubarão (1975)”, “E.T. – O Extraterrestre (1982)” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977)”, entre outros). A direção ficou a cargo de seu amigo Joe Dante, que já tinha em seu currículo “Piranha (1978)” e “Grito de Horror (1981)” e o roteiro sob a responsabilidade de Chris Columbus, que ainda escreveria “Os Gonnies (1985)” e “O Enigma da Pirâmide (1985)” e dirigiria os novos clássicos infantis “Esqueceram de Mim (1990)” e “Uma Babá Quase Perfeita (1993)”. “Gremlins” ainda possuía trilha sonora de Jerry Goldsmith, compositor das trilhas de clássicos como “Planeta dos Macacos (1968)”, “Alien (1979)”, “A Profecia (1976)” e “Poltergeist (1982)”. Com este notável e inspirado conjunto seria impossível “Gremlins” não se tornar um pequeno clássico.



Gremlins” fez muito sucesso, apesar da produção modesta (custou aproximadamente U$ 11 milhões) e do elenco pouco conhecido (o único que ficaria mais conhecido seria o Corey Feldman, de “Conta Comigo (1986)” e “Garotos Perdidos (1987)”, mas que no filme interpreta apenas um coadjuvante). Acabou arrecadando mais de U$ 150 milhões, o que viabilizou a boa seqüência realizada em 1990, chamada no Brasil de “Gremlins 2: A Nova Geração”.

O cenário, a pequena cidade Kingston Falls, foi inspirada na cidade Bedford Falls de “A Felicidade Não se Compra” (1946), de Frank Capra. Porém a ingenuidade dos personagens de Capra é subvertida em figuras como neuróticos de guerra, yuppies, velhas gananciosas, órfãs traumatizadas e miseráveis prestes a perder em suas casas. Esta variedade de personagens e pequenos dramas distanciam “Gremlins” de um filme totalmente infantil. Em uma seqüência de “extremo” humor negro, a personagem Alex explica para Billy por que odeia tanto o Natal: seu pai sumira numa noite de Natal, quando tinha apenas 9 anos. A polícia já o procurava há vários dias, até que em determinada ocasião sua mãe acende a lareira e descobre que algo está errado. A chaminé está entupida. Os bombeiros são chamados e retiram seu pai da chaminé, morto, ainda vestido de papai-noel. Mas apesar destes toques dramáticos, “Gremlins” é pura diversão. As criaturas encapetadas fazem de Kingston Falls um verdadeiro inferno, de Dante (desculpem o trocadilho infame).



São dezenas as citações a outros filmes, como ao clássico “Invasores de Corpos (1956)”, de Don Siegel, que Gizmo assiste assustado na TV ou quando todos os gremlins se reúnem no cinema da cidade para assistirem “Branca de Neve e os Sete Anões”. Ainda no cinema vemos um anuncio de filmes que estavam sendo exibidos, “A Boys Life” e “Watch the Skies”, títulos de trabalho de “E.T. – O Extraterrestre” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” na época em que foram produzidos. Ainda na abertura do filme vemos um outdoor de um programa de rádio chamado “Rockn’ Ricky Rialto”, num layout com cores idênticas as d’ “Os Caçadores da Arca Perdida”. Na seqüência final, dentro da loja de departamentos, Stripe (o líder dos gremlins “maus”) se esconde entre os bichos de pelúcia, entre eles um boneco do “E.T.”. Não se contentando com tantas citações a seus filmes, Spielberg ainda faz uma ponta, assim como o músico Jerry Goldsmith.



Para aqueles que acham que os “Gremlins” não existem, pasmem: eles existem. Pelo menos no folclore norte-americano. Um gremlin seria um ser pequeno, muito feio e muito mau. No imaginário popular cada casa possui o seu gremlin, e o cargo seria hereditário, passando de gremlin pai para gremlin filho. São estes bichinhos que fazem as coisas desaparecerem, derrubam o “pão” com a parte da manteiga para baixo, fazem a gente errar o prego e acertar o dedo com o martelo. Diz ainda a lenda, que os gremlins eram criaturas boas, que ajudavam os humanos a inventar coisas. Entretanto os bichinhos passaram a ter inveja da fama dos humanos, que levavam todo o crédito pelas invenções. A partir daí eles se tornaram realmente maus. Existe até um nome para um gremlin fêmea: fifinella.

Mas os Gremlins de Dante e Spielberg são bichinhos adoráveis, que se multiplicam quando são molhados e se transformam em monstrinhos quando alimentados após a meia-noite. "Gremlins" é na realidade um dos maiores representantes do estilo que predominou na maioria dos filmes de terror da década de 80, que além dos sustos e dos bons efeitos, somava-se aventura e bom-humor. Basta lembrar de “Os Garotos Perdidos (1987)”, “Um Lobisomem Americano em Londres (1981)” e “A Hora do Espanto (1985)”. Resumindo em apenas uma palavra: Imperdível.



Desconstruindo o Natal

Alguns filmes subvertem o espírito natalino. Uns, assim como “Gremlins”, fazem isto com classe, como em “O Estranho Mundo de Jack”, fantástica animação do diretor Tim Burton, “O Grinch”, baseado no famoso livro do Dr. Seuss e estrelado por Jim Carey ou ainda “Os Fantasmas Contra Atacam (1998)”. Outros são mais oportunistas, como “Christmas Evil (1980)”, filme originalíssimo onde um psicopata vestido de Papel Noel mata todo mundo. Temos ainda trashes (no mau sentido) como o dinamarquês “Natal Sangrento" (One Hell of a Christmas, 2002), que teve o nome clonado de outro filme (também ruim) chamado “Natal Sangrento" (Silent Night, Deadly Night, 1984). Esta última pérola ainda rendeu quatro continuações. Temos ainda o clássico “Black Christmas (1974)”, recém refilmado como “Natal do Terror” neste ano de 2006.



João Pires Neto


GREMLINS (Gremlins, EUA, 1984)
Direção: Joe Dante
Roteiro: Chris Columbus.
Produção: Michael Finnell
Fotografia: John Hora
Desenho de Produção: James H. Spencer.
Música: Jerry Goldsmith
Edição: Tina Hirsch
Elenco: Hoyt Axton (Rand Peltzer), Don Steele (Ricky Rialto), Scott Brady (Xerife Frank), Arnie Moore (Alex), Corey Feldman (Pete), Harry Carey Jr. (Sr. Anderson), Zach Galligan (Billy Peltzer), Dick Miller (Murry Futterman), Phoebe Cates (Kate Beringer), Polly Holiday (Ruby Deagle), Susan Burgess (Garota), Keye Luke (Avô), Judge Reinhold (Gerald), John Louie (Garoto chinês), Jerry Goldsmith (Homem ao telefone) e Steven Spielberg.
Distribuição: Em DVD pela Warner Home Vídeo.

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