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Surgido do sonho nostálgico e bizarro de dois dos mais criativos cineastas da atualidade, Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, GRINDHOUSE não é apenas um filme: é uma verdadeira experiência cinematográfica. E, como tal, só funciona quando visto numa sala de cinema. Desistam, portanto, de baixar via torrent para ver na telinha do computador ou de esperar o lançamento em DVD. Determinadas brincadeiras com a linguagem das próprias sessões de cinema, como imagem propositalmente fora de foco, rolos de negativo "faltando" e falhas na imagem e no som só têm sentido quando vistas dentro de uma sala de cinema (como é que a imagem vai sair de foco no computador ou no DVD?), assim como os comerciais anunciando futuros lançamentos e os |
trailers falsos dirigidos por outros criativos cineastas da nova geração, convidados por Tarantino e Rodriguez para participarem da brincadeira.
"Grindhouse", como todo mundo já deve estar careca de saber neste mundo com overdose de informação, é o apelido de algumas salas de cinema dos Estados Unidos especializadas em passar filmes de qualidade duvidosa - pelo menos para os esnobes espectadores fãs de produções classe A. Estes cinemas eram o reduto dos
"exploitation movies" (produções sensacionalistas com muito sexo e violência), dos filmes bagaceiros de kung-fu ou spaghetti western porcamente dublados em inglês, das aventuras baratas com perseguições automobilísticas, dos sangrentos filmes de horror italianos, entre outros. Não eram salas chiques, mas sim pulgueiros em bairros pobres das grandes metrópoles, e que viviam do negócio
"veja dois filmes pelo preço de um". Os primeiros cinemas
grindhouse surgiram na metade dos anos 60, mas foi durante a década de 70 que o negócio se tornou uma febre.


Quentin Tarantino, nerd e fanático por cinema
"alternativo", não perdia estas sessões, onde era possível ver, numa única sessão, um
giallo produzido na Itália seguido de uma produção vagabunda sobre mulheres na prisão rodada nas Filipinas. Antes do programa principal e no intervalo dos dois filmes, era comum a exibição de uma porrada de publicidade (comerciais de lanchonetes, por exemplo) e trailers fuleiros de outras produções, dando tempo para que a galera pudesse esticar as pernas, ir ao banheiro ou comprar pipoca. Como os cinemas
grindhouse eram normalmente vagabundos, assim também era a qualidade técnica dos filmes exibidos: os negativos projetados eram sujos, velhos, gastos, cheios de riscos e falhas; não raras vezes, a direção da sala era obrigada a alertar o público para a falta de cenas inteiras ou até de um rolo inteiro da película, coisa que, diz a lenda, acontecia com freqüência - tinha até projecionistas que gostavam de cortar pedaços de negativos para guardar de lembrança antes de mandar os rolos para outro cinema, conforme mostrado em
PESADELO MORTAL, de John Carpenter.
Os brasileiros nunca tiveram suas
grindhouses, embora o conceito de sessão
"dois em um" tenha chegado a algumas salas de cidades pequenas, que exibiam um filme do Chuck Norris antes e um pornô depois. Também já vi anúncios de velhos jornais dos anos 70 onde salas de cinema de Porto Alegre ofereciam programas duplos, embora o nível fosse outro (eram superproduções hollywoodianas na tela, e não produções bagaceiras). De modo geral, portanto, este formato é praticamente desconhecido no Brasil, ainda mais agora, na chamada "Era dos Multiplex", onde são raras as salas de cinema fora dos shopping-centers. Para quem quiser ter uma idéia da experiência de uma verdadeira
grindhouse antes de ver o filme de Tarantino e Rodriguez, recomendo procurar, no Emule, por
42ND. STREET FOREVER - VOLUME 1, uma coletânea com dezenas de trailers de produções exploitation exibidas em sessões duplas. Um dos comerciais é fantástico: anuncia a exibição dupla de
WOMEN AND BLOODY TERROR e
NIGHT OF BLOODY HORROR (ambos de 1969), duas produções capengas cheias de sangue e mulher pelada, e é seguido de uma suposta matéria de TV onde um repórter entrevista espectadores na sessão onde um homem ficou louco dentro do cinema com o excesso de sexo e violência!!! hahahahaha. A coletânea também permite ver o trailer de
"coisas" como
BOSS NIGGER (em tradução literal,
"Chefe Negão"), western de 1975 estrelado pelo negro Fred Williamson, e que, visto hoje, mais parece uma brincadeira de cinéfilo do que um preview verdadeiro!!!


Mas voltando à história das
grindhouses: em meio aos anos 80, quando o videocassete chegou às casas das famílias americanas e se tornou uma febre, os tais cinemas
"dois em um" perderam a razão de existir. Afinal, agora o cara poderia locar não apenas dois, mas 10 filmes fuleiros e ver no conforto do seu lar, não numa sala vagabunda e desconfortável de cinema. Foi nesta década que as
grindhouses desapareceram do mapa, inclusive as mais famosas, que ficavam na Broadway e em Hollywood Boulevard (em Los Angeles) e no Times Square, em Nova Iorque. Já nos anos 90, tais salas eram apenas uma vaga lembrança. Menos, é claro, para Tarantino.
Foi enquanto rodava seu clássico
KILL BILL - confessadamente inspirado em produções baratas de kung-fu e faroeste que ele assistia nas
grindhouses - que o cineasta teve a idéia inicial: rodar um autêntico filme de pancadaria igual àqueles feitos em Hong-Kong nos anos 70, com falhas no negativo, cenas fora de foco ou estragadas e diálogos em cantonês ridiculamente dublados em inglês. À medida que ia pensando nesta idéia (largamente divulgada na imprensa, inclusive em sites brasileiros sobre cinema), Tarantino percebeu que podia explorá-la de maneira ainda mais nostálgica, recriando a sensação
"dois em um" das velhas
grindhouses. Ao convidar seu amigo de longa data Robert Rodriguez (outro fã de sessões duplas) para gravarem um
"filme" cada um para um único projeto, Tarantino deu origem a esta doideira chamada
GRINDHOUSE.


Inicialmente,
GRINDHOUSE teria pouco mais de duas horas, com os falsos filmes de Tarantino e Rodriguez durando, no máximo, 60 minutos cada. Separando os dois, apareceriam trailers falsos dirigidos pelo próprio Tarantino. Cada vez que se encontravam para discutir o projeto, entretanto, os dois amigos iam expandindo a brincadeira. Os dois
"filmes" logo saltaram de 60 para 120 minutos cada um (!!!), e a dupla convidou cineastas amigos, como o inglês Edgar Wright (
SHAUN OF THE DEAD/TODO MUNDO QUASE MORTO) e o americano Eli Roth (
HOSTEL e
CABANA DO INFERNO) para dirigir os trailers falsos; mais tarde, Rob Zombie, diretor de
A CASA DOS MIL CORPOS e
REJEITADOS PELO DEMÔNIO, ficou sabendo da idéia e resolveu se oferecer para também dirigir um trailer. Para completar, os dois ainda criaram um concurso nacional (nos Estados Unidos) para que cinéfilos e diretores amadores criassem seus próprios trailers falsos de
exploitation movies, além de congestionar a internet com inúmeras informações e pôsteres falsos antes mesmo de começarem a filmar!!! A inventividade da dupla parecia não ter limites...
Mantendo-se dentro do espírito das produções baratas que eram exibidas nas velhas
grindhouses, Rodriguez escreveu um filme de zumbis chamado
PLANET TERROR (
"Planeta Terror"), repleto de sangue e nojeira, e que considera um cruzamento entre
A NOITE DOS MORTOS-VIVOS e
FUGA DE NOVA YORK! Tarantino tentou fazer um slasher movie, mas, num toque pessoal, inventou um assassino que não utiliza facões ou machados, e sim um carro de dublê cinematográfico. Assim nasceu o segundo segmento,
DEATH PROOF (
"À Prova de Morte" é a tradução mais correta, mas no Brasil provavelmente vai virar apenas
"Prova de Morte"). Além de slasher, o episódio também homenageia os filmes com perseguições automobilísticas dos anos 70, como
GONE IN 60 SECONDS (o original de 1974, não o remake péssimo com Nicolas Cage e Angelina Jolie) e
CORRIDA CONTRA O DESTINO (VANISHING POINT, de 1971), ambos citados abertamente no roteiro de Tarantino. Já os trailers falsos fazem homenagens aos slasher movies onde assassinos atacam em datas festivas (
THANKSGIVING, de Eli Roth); às enigmáticas e climáticas produções italianas dos anos 70 (
DON'T, de Edgar Wright); aos filmes
exploitation sobre nazismo (
WEREWOLF WOMEN OF THE S.S., de Rob Zombie), e ainda aos filmes classe Z de ação, repletos de tiroteios, frases de efeitos e sexo (
MACHETE, dirigido pelo próprio Robert Rodriguez).


Cada um dos cineastas (inclusive os convidados para filmar os trailers falsos) teve liberdade total para desenvolver seu projeto. Alguns atores dos dois segmentos principais de
GRINDHOUSE foram
"emprestados" para aparecer também nos trailers, e, tornando o projeto ainda mais divertido, personagens de um dos
"episódios" volta-e-meia aparece no outro. Até o texas ranger Earl McGraw, interpretado por Michael Parks em
UM DRINK NO INFERNO (de Rodriguez) e
KILL BILL (de Tarantino) reaparece em dose dupla, tanto em
PLANET TERROR quanto em
DEATH PROOF! Detalhe: o personagem tinha morrido logo nas primeiras cenas de
UM DRINK NO INFERNO, mas insiste em voltar em quase todas as produções dos dois cineastas!!! hahahaha.
Durante a fase de edição, a dupla teve também a idéia de suprimir cenas inteiras de seus segmentos para poder usar a tela
"missing reel" (quando falta um rolo de filme). Afinal, os trabalhos de ambos estavam com quase duas horas cada, e
GRINDHOUSE ficaria com mais de 4 horas de duração desse jeito! A solução foi sumir com pedaços de cada filme e colocar um falso pedido formal de desculpas da
"gerência do cinema" pelo incômodo!!! hahahaha. O mentor da coisa, obviamente, foi Tarantino, que lembrou de
THE SELL-OUT (1976), produção policial italiana que tinha visto numa
grindhouse com um dos rolos faltando:
"Era muito interessante porque, depois do rolo faltando, você não sabia se o herói tinha transado ou não com uma garota, porque ela dizia que sim e ele dizia que não", lembra Tarantino. E Rodriguez gostou da idéia, justificando:
"O segundo ato dos filmes é geralmente o mais previsível e chato!". Os dois segmentos adotam a tática dos
"rolos faltando", suprimindo cenas inteiras. Mas, aparentemente, estas seqüências de
"missing reels" foram realmente filmadas e devem ser incorporadas como extras nos DVDs.


Aumentando a sensação de
"sessão dos velhos tempos", os produtores também colocaram avisos anunciando os trailers, anunciando a atração principal e trazendo a classificação do filme (
"The following film is RESTRICTED"); o logotipo da Dimension aparece em duas versões
"antiquadas" no começo de cada segmento. Tanto
PLANET TERROR quanto
DEATH PROOF também ganharam
"lobby cards", aquelas velhas fotografias em tamanho ampliado com o nome do filme, que ficavam penduradas na porta dos velhos cinemas - e que eu nem sei se ainda existem, nesta época de multiplex...
O resultado da brincadeira (dois
"filmes" de quase 1h30min mais anúncios e trailers falsos) é uma ambiciosa produção de 53 milhões de dólares, 191 minutos de duração e o elenco dos sonhos de qualquer fã de produções classe B, onde nomes de destaque como Bruce Willis, Nicolas Cage e Kurt Russell aparecem lado a lado com Jeff Fahey, Sybil Danning e Michael Biehn! Escrevi
"ambiciosa produção" porque
GRINDHOUSE é uma brincadeira inspirada, mas unicamente para cinéfilos, e certamente não-recomendada para todos os públicos. Nem todos vão comprar a idéia, tanto que a obra teve uma bilheteria aquém do esperado na sua estréia nos Estados Unidos, no começo de abril. E se por lá, onde surgiu o conceito de cinema
,B>grindhouse, a recepção foi amena, imagine num país como o Brasil, onde não existe esta tradição
"dois em um" e onde uma minoria vai sacar as referências aos
exploitation movies dos anos 70... Pior: espectadores desavisados não vão entender bulhufas em relação aos trailers falsos e certamente vão acreditar que as falhas propositais na projeção são culpa da sala de cinema que está exibindo o filme (hahahaha), o que poderá tornar a exibição de
GRINDHOUSE uma grande dor-de-cabeça para os cinemas brasileiros!

A partir de agora, você acompanha o primeiro e mais completo artigo da internet brasileira analisando esta fantástica obra. Fique primeiro com as análises individuais de
PLANET TERROR e
DEATH PROOF, como se fossem realmente dois filmes independentes, e, depois, acompanhe as resenhas de cada um dos falsos trailers. Se ainda tiver fôlego, não deixe de conferir os comentários finais sobre a possibilidade de
GRINDHOUSE chegar ao Brasil dividido em dois filmes (idéia que já vem sendo recebida com fúria dos fãs) e sobre um futuro
GRINDHOUSE 2, que Rodriguez e Tarantino continuam alimentando mesmo com a recepção fria do original. Prepare-se para a sessão dupla e divirta-se!!!
Muito antes de
GRINDHOUSE começar a ser imaginado, o diretor texano com raízes mexicanas Robert Rodriguez já sonhava em fazer um filme de zumbis. A idéia surgiu durante as gravações de
PROVA FINAL (1998), a mais convencional e comercial das suas obras, com roteiro de Kevin Williamson (reza a lenda que Rodriguez teve as rédeas puxadas pelo estúdio para controlar seus excessos, tanto que depois dessa passou a trabalhar exclusivamente de maneira independente). Numa conversa informal com Elijah Wood e Josh Hartnett (que participaram de
PROVA FINAL antes de se tornarem grandes astros), Rodriguez comentou que tinha saudades das velhas produções de mortos-vivos, já que o gênero então estava, sem trocadilho, morto e enterrado. Ao perceber que tanto Elijah quanto Hartnett também eram grandes fãs de zumbis, o cineasta começou a escrever o roteiro de uma produção do gênero e prometeu papéis para todos os atores de
PROVA FINAL.


Infelizmente, o projeto nunca chegou a se concretizar. Rodriguez até escreveu uma parte do roteiro, mas a experiência ruim de trabalhar com um grande estúdio levou-o a investir nas suas próprias produções independentes, como a trilogia
PEQUENOS ESPIÕES e a aventura
ERA UMA VEZ NO MÉXICO. E eis que, do nada, os filmes de zumbis ressurgem em grande estilo, graças a remakes como
MADRUGADA DOS MORTOS e aos excelentes
EXTERMÍNIO, de Danny Boyle, e
TERRA DOS MORTOS, de George A. Romero.
"Quando a invasão de novos filmes de zumbis começou, pensei: 'Ah não, eu sabia que devia ter feito o MEU filme de zumbis antes'...", lamentou Rodriguez, numa entrevista. Idéia abandonada, ele atirou-se de cabeça nas filmagens do fantástico
SIN CITY, adaptação dos quadrinhos de Frank Miller rodada em 2005, e então viu ressuscitar (sem trocadilho, hehehe) a possibilidade de gravar um filme de zumbis ao ser convidado para participar de
GRINDHOUSE.


O cineasta terminou o roteiro de
PROJECT TERROR antes do colega Tarantino e começou a filmar antes também, em março de 2006. Com o passar do tempo, mudou o título para
PLANET TERROR. E, repetindo o que já havia feito em seus filmes anteriores, escalou um fantástico elenco, repleto de amigos e caras conhecidas. Apesar de contar com astros como Bruce Willis, o diretor preferiu dar os dois papéis principais a quase desconhecidos: Freddy Rodríguez (do seriado
A SETE PALMOS, e que, apesar do sobrenome, não é parente de Robert) e Rose McGowan (gostosíssima, ela em nada lembra a adolescente magrinha que apareceu no primeiro
PÂNICO, dirigido por Wes Craven em 1996). Rodriguez gostou tanto da brincadeira que mal começou a filmar e já começou a fazer cartazes bagaceiros de
PLANET TERROR, que jogava na internet periodicamente. Fazia parte da brincadeira: como o próprio cineasta admitiu, os pôsteres dos filmes exibidos nas
grindhouses eram muito melhores do que os próprios filmes!

PLANET TERROR não é exatamente uma produção de zumbis
"old school". Ao contrário das obras de George A. Romero e Lucio Fulci, por exemplo, os monstros no segmento de Rodriguez não são cadáveres reanimados saídos de algum cemitério, mas sim humanos mutantes contaminados por um gás tóxico (estilo
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS), que atacam e devoram outros humanos, espalhando a contaminação. A base da história e os zumbis anabolizados criados por uma substância química lembram, abertamente, o engraçado trash italiano
NIGHTMARE CITY, dirigido por Umberto Lenzi em 1980. Que ninguém espere, portanto, uma história
"séria" sobre mortos-vivos, até porque Robert Rodriguez não é conhecido exatamente como um cineasta
"sério" - pelo contrário, ele tem um senso de humor bem esquisito e um gosto por cenas tão exageradas e sangrentas que se tornam cômicas, lembrando um Sam Raimi com menos dinheiro.


Os créditos de abertura se desenrolam durante um sexy número de
"go-go dance" (ao contrário do striptease, a dançarina não tira a roupa enquanto dança), na boate do Skip, que fica numa cidadezinha do interior do Texas. Ali, a linda dançarina Cherry Darling (Rose McGowan) rebola e mostra as pernas aos clientes, mas encerra seu número chorando, desiludida com o rumo que sua vida tomou.
"It's go-go, not cry-cry", queixa-se o patrão Skip (Skip Reissig), e Cherry responde com um gesto obsceno e um pedido de demissão. Cherry quer reconstruir sua vida e ser feliz longe da sacanagem. Infelizmente, não é o melhor dia para pedir demissão, já que a cidade logo será assolada por uma horda de zumbis carnívoros!!!
No caminho de volta para casa, por uma estrada escura, a moça quase é atropelada por um comboio de caminhões militares que dirige em alta velocidade, com destino a uma base que fica nas cercanias. Ali, três cobaias do experimento com um misterioso gás verde fugiram de suas gaiolas, o que inicia um conflito entre o cientista responsável pelo projeto, Abby (Naveen Andrews, o Sayid do seriado
LOST) e o militar que quer tomar conta da operação, o tenente Muldoon (Bruce Willis, propositalmente canastrão, em participação de cinco minutos).
"Where's the shit?" (Cadê a merda?), pergunta Muldoon, ameaçando Abby com armas, e este responde com um
"Everywere!" (Por toda parte!), antes de disparar dois balaços que abrem os compartimentos onde o gás tóxico está armazenado, espalhando-o na atmosfera e iniciando a contaminação de toda a cidade...


Paralelamente, Cherry reencontra um caso amoroso do passado, o misterioso
"El Wray" (Freddy Rodríguez), na churrascaria dirigida por J.T. Hague (Jeff Fahey, ator que tem presença garantida em quatro de cada cinco filmes bagaceiros produzidos anualmente). E, enquanto os dois tentam resolver seu dilema amoroso, os
"mortos mutantes" começam a fazer vítimas pela cidade, mordendo cidadãos e espalhando a contaminação. Logo, o hospital fica cheio de pessoas com uma
"misteriosa" infecção que se espalha pelo corpo inteiro, e sobra para o sádico dr. William Block (Josh Brolin, de
O HOMEM SEM SOMBRA) tomar conta da situação. Conhecido pelo apelido de
"Doc Block", e sempre chupando um termômetro no canto da boca, o médico se diverte amputando membros dos doentes que não param de chegar. Mas tem seus próprios problemas: ele descobre que sua esposa, a anestesista Dakota Block (Marley Shelton, de
SIN CITY), está secretamente reatando a relação com sua ex-amante lésbica (!!!), Tammy (Stacy Ferguson, a Fergie, da banda
The Black Eyed Peas!). Por isso, decide matá-la.


Salva pelo gongo (no caso, pela contaminação que se espalha no hospital e por toda a cidade), Dakota consegue escapar do marido homicida, mas tem as duas mãos anestesiadas no processo - e a forma como o roteiro trabalha o fato das mãos da personagem ficarem temporariamente imprestáveis é muito criativa, já que ela não consegue fazer as coisas mais básicas, como abrir a porta do carro e dar a partida no motor! A médica tenta fugir com seu filho pequeno, Tony (Rebel Rodriguez, filho do diretor), enfrentando as hordas de mortos-vivos, recebendo a ajuda de sobreviventes, como Wray e Cherry, e do seu pai, o texas ranger Earl McGraw (Michael Parks, repetindo o personagem que apareceu em
UM DRINK NO INFERNO e
KILL BILL).
Logo, os sobreviventes ficam isolados num único prédio (à la
A NOITE DOS MORTOS-VIVOS), que é a churrascaria de J.T. Armados até os dentes, resolvem lutar contra os mortos-vivos. Mas eis que os militares liderados por Muldoon voltam a entrar na jogada - numa reviravolta que lembra
EXTERMÍNIO -, e se transformam nos verdadeiros vilões da história.

PLANET TERROR é, de longe, a melhor parte de
GRINDHOUSE, e o segmento que melhor aproveita o climão absurdo e exagerado das produções dos anos 70, empilhando sangrentos ataques de zumbis com tiros e explosões. O elenco conta ainda com Michael Biehn (o eterno herói de
O EXTERMINADOR DO FUTURO) interpretando o xerife Hague, que é irmão de J.T.; Carlos Gallardo (ator mexicano que estrelou o divertidíssimo
EL MARIACHI, primeiro filme de Rodriguez) e o maquiador Tom Savini (que participou do elenco de
UM DRINK NO INFERNO) aparecem como policiais. Até mesmo Tarantino tem uma pequena participação, bastante engraçada por sinal, como um soldado estuprador que foi contaminado pelo gás tóxico - e que, em meio à tentativa de estupro de uma das garotas, vê seus bagos se liqüefazendo e diz:
"Acho que vou ter que ser rápido...". hahahahaha!
Calibrado na ação e na violência (incluindo uma extraordinária cena em que um sujeito é despedaçado on-screen pelos zumbis, além, é claro, dos órgãos decepados e cabeças explodidas),
PLANET TERROR conta com idéias inspiradíssimas de Rodriguez. A principal, que vem a ser um dos grandes destaques, é o fato da dançarina Cherry perder uma das suas pernas na metade da película, quando é atacada pelos zumbis. O membro amputado é substituído primeiro por um pedaço de mesa, que se transforma em
"perna-de-pau" improvisada (e provoca gargalhadas quando aparece numa cena de sexo!); depois, Wray adapta uma enorme metralhadora com lançador de foguetes na coxa de Cherry, transformando-a na mais mortal garota do planeta (Uma mulher com metralhadora na perna? O que ela irá fazer quando estiver na TPM??? hahahaha). É um toque completamente absurdo do roteiro, e que só funciona porque se adequa ao exagero visual e humor negro do segmento de Rodriguez. Falando em
"humor negro", eu já mencionei o fato de Abby, o cientista do início da trama, colecionar os testículos arrancados de seus desafetos??? hahahaha. E espere só para ver a forma criativa como Dakota aplica a anestesia nos seus pacientes, e a utilização pouco convencional de um helicóptero como arma para extermínio em massa de zumbis!!! Só estas cenas já valem o filme inteiro...


Deixando um curto espaço de tempo para apresentar seus personagens e dar-lhes algumas características (o médico interpretado por Josh Brolin é um dos melhores), Rodriguez logo se entrega à ação desenfreada, sem tempos-mortos e sem dar tempo para que o espectador possa respirar. No momento em que a infecção se espalha, e os sobreviventes passam a lutar por sua vida,
PLANET TERROR se transforma num festival de correria, tiros e nojeiras diversas. Para curtir, entretanto, o espectador terá que fechar não um olho, mas os dois olhos para a lógica, já que Rodriguez assume o tom de brincadeira absurda e coloca seus personagens para realizar atos impossíveis, inclusive
"voar" (ou, no caso, cair de uma altura considerável sem morrer ou se machucar).
Há ainda algumas piadas que não funcionam, como a participação das
"Crazy Babysitter Twins" (Electra e Elise Avellan), que nada acrescentam à trama e só devem estar no filme porque são cunhadas de Robert Rodriguez. Também há cenas pouco inspiradas (como a morte gratuita de uma criança,
"esquecida" pelo roteiro em questão de minutos). Apesar de começar muito bem,
PLANET TERROR perde um pouco o rumo no final, quando os militares retornam à trama (e Muldoon confessa que matou Osama Bin Laden!!!). Nada que estrague a diversão, mas é inegável que Rodriguez desperdiçou o potencial da história, ao deixar os zumbis em segundo plano - ainda mais para um sujeito que é confessadamente apaixonado por filmes de zumbis!!! Por outro lado, o segmento destila homenagens e citações ao cinema de mortos-vivos, principalmente ao clássico
A NOITE DOS MORTOS-VIVOS.

PLANET TERROR também é muito mais criativo no uso do recurso do
"missing reel" (rolo faltando) do que o segmento de Tarantino: ocorre um
"problema de projeção" durante uma cena de sexo quente entre Wray e Cherry, e então aparece o letreiro informando que há um rolo de filme faltando. Quando o
"próximo rolo" começa a ser projetado, a história deu um salto imenso: a churrascaria onde os sobreviventes estavam abrigados aparece em chamas, Wray explicou aos outros personagens sua verdadeira identidade (que o espectador nunca fica sabendo qual é) e o xerife foi ferido mortalmente no pescoço (e nunca ficamos sabendo de que forma...). E o mais divertido é que o fato do filme não ter estes 15 ou 20 minutos do
"missing reel" torna tudo mais surpreendente e interessante, inclusive porque você realmente fica imaginando o que aconteceu no espaço de tempo desaparecido! hahahahaha
Robert Rodriguez é conhecido por filmar com câmera digital e usar CGI exageradamente, nos efeitos e até nos cenários, normalmente colocando seus atores em frente a uma tela azul de chroma-key para poder compor a maior parte dos efeitos e cenários na pós-produção. Com
PLANET TERROR não foi diferente, e a computação gráfica proporciona alguns verdadeiros milagres, como a perna cortada de Rose McGowan - você realmente ACREDITA que a mocinha está com uma metralhadora no lugar de uma das pernas, de tão bem feito!


Felizmente, apesar de ser viciado em CGI, Rodriguez deixou bastante espaço para os efeitos
"convencionais" da empresa KNB, de Howard Berger e Gregory Nicotero. O resultado é bastante maquiagem com látex e muito pus e sangue escorrendo, como na cena em que um dos infectados estoura várias das suas próprias feridas com a mão e depois esfrega a meleca no rosto de uma pessoa
"normal" para infectá-la; há, também, uma agonizante cena de violência ocular que pode ser uma homenagem à clássica seqüência da
"farpa de madeira no olho" vista em
ZOMBIE, de Lucio Fulci.


Em meio à brincadeira, Rodriguez ainda conseguiu homenagear um verdadeiro filme
grindhouse, quando o personagem interpretado por Tarantino assiste, na TV, ao trailer real de
WOMEN IN CAGES, uma produção bagaceira do gênero
WIP (
"Women in Prison", ou mulheres na prisão) dirigida em 1971 por Gerardo de Leon, com a musa Tarantinesca Pam Grier no elenco. Tão divertido quanto os trailers falsos de
GRINDHOUSE (ou mais, considerando que este é verdadeiro), o preview diz:
"See them in action! See them in love! See them in terror! SOFT FLESH FOR HARD CASH!". hahahahahahaha


E se você achar que a trilha sonora de
PLANET TERROR lembra as composições dos filmes de John Carpenter (compostas pelo próprio Carpenter), principalmente as músicas de
FUGA DE NOVA YORK e
O ENIGMA DE OUTRO MUNDO, saiba que não é mera coincidência: a idéia inicial de Rodriguez era convidar o próprio John Carpenter para fazer a trilha sonora, mas ele recusou com um
"muito obrigado". Sendo assim, Rodriguez e Graeme Revell simplesmente copiaram os acordes típicos de Carpenter na trilha!!!


Para finalizar, uma piada dos bastidores: o espertinho Quentin Tarantino resolveu aparecer também como figurante,
"interpretando" um dos zumbis que atacam a personagem da gostosa Fergie, dos
Black Eyed Peas. Abusado, o velho Taranta aproveitou a situação e tascou uma dentada real no pescoço da loira! Ela caiu na gargalhada e achou tudo normal, mas seu agente pensou seriamente em processar Tarantino por agressão, já que a marca da mordida ficou dias no pescoço da
"vítima"!!! hahahahaha

Longe da crítica social e da seriedade dos longas de George A. Romero,
PLANET TERROR talvez seja o filme de zumbis mais fiel ao espírito exagerado dos anos 80, com suas mortes sangrentas e piadas infames. Neste aspecto, lembra tanto o cinema americano (com
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS e
REANIMATOR) quanto as tralhas italianas, tipo
NIGHTS OF TERROR, de Andrea Bianchi, e
ZOMBIE 3, de
Bruno Mattei. Pode-se dizer que o segmento de Rodriguez é, disparado, um dos melhores filmes de zumbis da nova geração, sem medo de mostrar pessoas despedaçadas e sangue jorrando. Sozinho, já seria uma grande diversão. Mas calma lá que isso é uma sessão dupla, lembra? Então agora chegou a hora de ir ao banheiro, ou comprar pipoca, antes de começar nossa próxima atração:
DEATH PROOF.
- Você já viu algum filme onde o carro bate de forma tão violenta que não existe forma de alguém sair inteiro de dentro dele? Como você acha que eles fazem isso? - questiona Stuntman Mike McKay, o personagem principal de
DEATH PROOF, numa cena-chave da película.

- CGI? - responde a inocente mocinha, fazendo com que o pobre dublê, interpretado por Kurt Russell, chegue a se engasgar!
Este diálogo reflete a insatisfação do próprio Quentin Tarantino, que criou a história para seu segmente de
GRINDHOUSE baseado na paixão que tem pelas velhas produções com perseguições e desastres automobilísticos, tipo
BULLIT, de Peter Yates, ou
OPERAÇÃO FRANÇA, de William Friedkin. Ele odeia o fato de as produções atuais trazerem efeitos e carros criados em computação gráfica, o que facilita bastante o trabalho do diretor e dos dublês, mas por outro lado torna tudo mais artificial e menos emocionante para o público.
"Acho que não teve mais nenhuma boa perseguição automobilística desde que eu comecei a filmar, em 1992. Para mim, a última cena fantástica do gênero foi em O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, e depois PREMONIÇÃO 2 mostrou um magnífico acidente de carros. Entre estes dois filmes, nada de mais. CGI em perseguições é algo que não faz sentido para mim - como é que uma coisa assim pode parecer impressionante?", queixou-se o diretor, numa entrevista.


Todo o conceito de
DEATH PROOF é baseado nos
"carros à prova de morte", construídos pelos dublês dos anos 60, 70 e 80 (quando não existia o conforto e a segurança da computação gráfica) para poderem demolir os veículos contra paredes de tijolos a 100 quilômetros por hora e ainda saírem vivos de dentro da ferragem retorcida. O sistema à prova de morte inclui um cinto-de-segurança especial que prende todo o corpo do motorista ao banco (evitando que ele se espatife contra o pára-brisa no momento da colisão) e uma espécie de
"gaiola" resistente que isola o banco do motorista de todo o restante do veículo (para que não ele seja esmagado pelas ferragens e pelo bloco do motor quando o carro amassa). Sendo assim, o carro só é
"à prova de morte" para o próprio motorista, é claro...
Foi isso que inspirou Tarantino a escrever a história de um psicótico dublê de Hollywood (o
"Stuntman Mike", em bom português
"Dublê Mike") que diverte-se perseguindo belas garotas e matando-as com seu carro
"à prova de morte". Originalmente, o diretor queria Sylvester Stallone na pele do personagem, já que o ator havia interpretado o vilão e piloto de corrida Machine Gun Joe no clássico
ANO 2000 - CORRIDA DA MORTE, produzido por
Roger Corman. Como Stallone estava filmando seu
ROCKY BALBOA na época das gravações de
DEATH PROOF (agosto de 2006), Tarantino foi obrigado a buscar uma segunda opção, o ressuscitado Mickey Rourke. O nome do ator chegou a aparecer em alguns pôsteres de divulgação que circularam pela internet, mas Rourke foi
"dispensado" por simplesmente não aparecer no set no primeiro dia de filmagens! Assim, o papel de Stuntman Mike acabou com a terceira escolha do diretor, Kurt Russell. Compondo um personagem ao mesmo tempo cômico e ameaçador, Russell não podia ter sido escolha melhor - até porque é um grande ator que vinha se queimando em filmes fracos.

DEATH PROOF começa com uma longa seqüência que acompanha uma garota caminhando - o que só comprova a tara do diretor por pés femininos, vista anteriormente em
KILL BILL,
JACKIE BROWN e
PULP FICTION. Depois, Tarantino apresenta três amigas, Arlene (Vanessa Ferlito), Shanna (Jordan Ladd, de
CABANA DO INFERNO) e a disc-jockey
"Jungle Julia" (Sydney Tamiia Poitier, filha do ator Sidney Poitier). Para comemorar o aniversário de Julia, o trio vai até um restaurante mexicano em Austin, no Texas, para tomar margaritas e jogar muita conversa fora com os amigos Dov (o cineasta Eli Roth) e Warren (o próprio Tarantino). Julia confessa a Arlene que anunciou, em seu programa de rádio, que o primeiro homem que chegasse na amiga chamando-a de
"Butterfly" (borboleta) e recitando o trecho de um poema de Robert Frost, ganharia dela uma
"lap dance" (aquela dança típica das prostitutas americanas, que se esfregam sobre um homem sentado numa cadeira).
E eis que chega no local o misterioso Stuntman Mike McKay, vestido como um piloto de corrida e assustando as garotas com a enome cicatriz que tem num dos lados do rosto. Primeiramente, Mike tenta seduzir Arlene, mas percebe que a garota tem medo dele. Num dos diálogos intraduzíveis que brincam com a pronúncia das palavras, típico do Tarantino (lembra de
"your dad is dead" e do
"Zed is dead"???), Mike pergunta à garota:
"Do I frighten you? It's my scar?" (Eu assusto você? É minha cicatriz?). Arlene responde:
"It's your car" (É o seu carro), referindo-se ao bizarro Chevy Nova SS 1971 todo negro dirigido pelo dublê, e que tem o desenho de uma caveira no capô. Mike então chama Arlente de borboleta e recita o poema, ganhando como presente sua
"lap dance". Embora a dança não seja mostrada, já que entra o aviso de
"missing reel" bem na hora só para provocar o espectador, takes desta cena aparecem no trailer do filme; logo, Tarantino realmente filmou tudo!


A noite vai passando e Mike resolve oferecer uma carona para Pam (Rose McGowan novamente, mas agora com os cabelos loiros). No caminho, explica para a garota o que é um
"carro à prova de morte". E também se revela um psicopata, quando começa a dirigir perigosamente para assustar sua vítima.
"Você sabe... O carro é à prova de morte. Mas, para isso, você realmente precisaria estar sentada no meu assento...", diz Mike, que então pisa no freio em alta velocidade e faz com que Pam arrebente a cabeça no pára-brisa do carro. Ainda sedento de sangue, o dublê psicopata pega a estrada, alcança o carro onde estão Arlene, Shanna, Julia e a traficante das moças, Lanna (Monica Staggs, dublê de Daryl Hannah em
KILL BILL), e acelera contra elas na contramão, com os faróis apagados. Na violenta colisão frontal, as garotas são feitas em pedaços e morrem instantaneamente.
Este é o grande e inesquecível momento de
DEATH PROOF. Acredite: perto desta cena, o acidente automobilístico mostrado no começo de
PREMONIÇÃO 2 parece coisa de filme infantil. Tarantino filmou o desastre de quatro ângulos diferentes, usando todos os takes possíveis e imagináveis das moças sendo despedaçadas pela violência do choque entre os dois carros - a motorista é catapultada pelo pára-brisa; outra, que dormia com a perna para fora da janela, tem o membro amputado na altura da coxa, e a roda rasga o rosto de uma das caroneiras no banco de trás! O Detran poderia utilizar a seqüência toda nas aulas de direção defensiva da auto-escola! Apenas Mike sobrevive à batida, saindo com diversos ferimentos graves quando seu carro acaba completamente destruído...


Ele é levado ao hospital e interrogado pela polícia. Como substâncias tóxicas e ilegais foram encontradas no sangue das quatro moças mortas (que passaram a noite se chapando), a polícia resolve liberar Stuntman Mike da acusação de homicídio, sob protestos do texas ranger Earl McGraw (Michael Parks, de novo) e de seu
"son number one" (James Parks, filho de Michael na vida real, e que fez o mesmo papel em
KILL BILL e
UM DRINK NO INFERNO 2). Algum tempo depois, recuperado dos ferimentos e com um novo
"carro à prova de morte" (desta vez um Dodge Charger 1969, mas novamente com a caveira pintada no capô), o vilão começa a perseguir um novo grupo de garotas no Tennessee.
Elas são Lee (Mary Elizabeth Winstead, de
PREMONIÇÃO 3), Abernathy (Rosario Dawson, de
SIN CITY), Kim (Tracie Thoms) e Zoe Bell (dublê de Uma Thurman em
KILL BILL, que aqui interpreta ela mesma!!!), garotas que trabalham como dublês de cinema e estão indo comprar um Dodge Challenger 1970 idêntico ao carro que aparece no clássico
CORRIDA CONTRA O DESTINO. Durante um test-drive, as meninas são perseguidas por Stuntman Mike numa estrada deserta. O problema é que, desta vez, o psicopata encontrou mulheres fortes e determinadas, que transformam caçador em caça!!!


Embora tenha duas cenas realmente fantásticas (o violento acidente e uma longa perseguição de carros SEM CGI),
DEATH PROOF é a parte mais decepcionante de
GRINDHOUSE. Eu confesso que esperava mais de Tarantino, uma verdadeira enciclopédia de filmes
exploitation, ainda mais após seu trabalho arrebatador em
KILL BILL - que é muito, mas muito superior a este
DEATH PROOF. Entretanto, desta vez o cineasta entrega um roteiro preguiçoso e burocrático, lembrando até o seu segmento na comédia sem graça
GRANDE HOTEL. A maior parte do tempo de projeção é utilizada em diálogos, que raras vezes têm alguma utilidade na trama além de destilar a típica cultura pop Tarantinesca. Além disso, o diretor criou uma estrutura narrativa infeliz: apresenta cinco personagens femininas durante um longo tempo (40 minutos) e mata todas sem dó nem piedade, somente para depois apresentar mais quatro garotas (com direito a mais um montão de diálogos) como futuras vítimas do psicopata.


O problema é que como se trata de uma sessão dupla, o espectador já vem de um longa-metragem inteiro (
PLANET TERROR) cheio de personagens, ação constante e um festival de violência; quando começa a parte de Tarantino, o ritmo cai vertiginosamente e há mais um montão de personagens para apresentar ao público. Pode até soar estranho para a maior parte da humanidade: alguns minutos antes você estava vendo uma batalha campal entre militares, sobreviventes e zumbis-mutantes, com sangue a rodo, tiros e explosões, e agora terá pela frente um blá-blá-blá interminável e Tarantinesco, incluindo uma cena tecnicamente irrepreensível, mas muito chata, onde a câmera acompanha quatro garotas conversando durante mais de 10 minutos, sem qualquer corte, enquanto tomam café! Se fosse um filme independente talvez o resultado não iria parecer tão arrastado, mas como metade final de um único projeto com três horas de duração, sim,
DEATH PROOF realmente cansa, e chega a dar sono! Talvez teria sido melhor se
DEATH PROOF viesse ANTES de
PLANET TERROR...
Tarantino ainda comete um erro grotesco: mesmo com toneladas de diálogos, ele não consegue dar características e profundidade aos seus personagens. Se Stuntman Mike é um personagem rico e interessantíssimo, interpretado por um ator brilhante (Russell parece estar se divertindo muito como vilão), o roteiro simplesmente desperdiça sua existência, já que sabemos pouco ou quase nada sobre quem é ele e por que faz o que faz. No que concerne às personagens femininas, o diretor mais uma vez prefere enfocar mulheres fortes, lutadoras e determinadas (o que vem fazendo desde
JACKIE BROWN), mas falha por não conseguir criar figuras realmente interessantes e com quem o espectador possa simpatizar - até esqueci seus nomes durante a história... E confesso que já estou ficando cansado dos
"diálogos de negão" de Tarantino, que enche as frases de expressões
"black" como
"motherfucka",
"black ass" e
"bitch", mesmo quando são duas garotas branquelas que estão conversando!


Felizmente, o diretor consegue se redimir na conclusão do seu segmento, que é quando
DEATH PROOF realmente brilha: o espectador fica na ponta do sofá (ou poltrona, no caso do cinema) acompanhando uma tensa e agonizante perseguição automobilística das boas, como nos velhos tempos, sem computação gráfica e com uma estupenda atuação da dublê Zoe Bell - ela fica pendurada no capô do Dodge em altíssima velocidade, enquanto Stuntman Mike, em seu carrão à prova de morte, tenta derrubá-la. Não tem como não ficar com os olhos grudados na tela, ainda mais quando você sabe que a própria dublê está realmente lutando pela vida no capô do carro, e cada vez mais perto de cair. E a seqüência continua com uma longa perseguição pela estrada, até a fraca conclusão que deixa um gostinho de
"quero mais", sem explicar muita coisa.
O cineasta complementa a brincadeira com as tradicionais
"auto-citações" e homenagens a outros filmes. Entre as principais, cabe destacar:


- Uma personagem é vista bebendo o refrigerante da rede de lanchonetes fictícia
"Acuña Boys" (nome de uma quadrilha citada em
KILL BILL, filme anterior do cineasta)
- O personagem interpretado por Jonathan Loughran dá risadas sinistras idênticas às que o mesmo ator mostrou como o estuprador de
KILL BILL
- A vitrola do bar onde as garotas estão, no início do filme, tem a canção
"Misirlou" (da abertura de
PULP FICTION) entre as mais tocadas.
- O Chevy Nova dirigido pelo vilão é do mesmo modelo que o utilizado por John Travolta e Samuel L. Jackson em
PULP FICTION.


-
CORRIDA CONTRA O DESTINO é citado o tempo inteiro, inclusive no carro dirigido pelas garotas na metade final.
- Outros filmes sobre carros velozes e perseguições pela estrada são lembrados pelas garotas. Ao citar
GONE IN 60 SECONDS, uma das personagens diz:
"O original, não aquela merda com a Angelina Jolie". hehehehe.
- Stuntman Mike tem a cicatriz no olho esquerdo, mesmo olho em que Snake Plissken, também interpretado por Kurt Russell, usava tapa-olho em
FUGA DE NOVA YORK e
FUGA DE LOS ANGELES.
- A velha cabana que aparece ao fundo quando as garotas vão comprar o carro seria a mesma utilizada por Sam Raimi em
EVIL DEAD.


- Uma das garotas chama Stuntman Mike de
"Zatoichi", samurai cego dos quadrinhos orientais que já teve diversas adaptações cinematográficas.
- Mike cita a lanchonete
"Big Kahuna Burger" (inventada por Tarantino em
PULP FICTION).
- Uma cheerleader tem o nome
"Vipers" na blusa, uma referência ao
"Esquadrão das Víboras Mortais" de
KILL BILL.


Tarantino ainda surge com uma inspirada brincadeira típica dos verdadeiros cinemas
grindhouse: o título
"original" do seu filme (que seria
QUENTIN TARANTINO'S THUNDERBOLT) aparece em menos de uma fração de segundo, sendo logo encoberto por um negativo com o título
DEATH PROOF sobreposto. Era um golpe freqüentemente utilizado nas salas de quinta categoria, quando um mesmo filme era relançado (com cenas a mais ou a menos) mudando apenas o título com que ele havia sido exibido antes, e normalmente o nome novo era apenas sobreposto ao anterior - foi o que aconteceu, por exemplo, com
A ILHA DOS HOMENS-PEIXE!!!


Continuando nas suas apaixonadas citações cinematográficas, Tarantino também se apropria de músicas de outros filmes em
DEATH PROOF, como já havia feito em
KILL BILL. A abertura tem
"The Last Race", de Jack Nitzche, chupada da ficção científica
VILLAGE OF THE GIANTS (1965), de Bert I. Gordon. Mais adiante, na cena em que Arlene
"Butterfly" recebe uma mensagem inesperada pelo telefone celular, toca a triste canção
"Sally and Jack", composta por Pino Donaggio para o excelente
UM TIRO NA NOITE, dirigido por Brian DePalma em 1981. Já uma das músicas de tensão é
"Paranoia Prima", da trilha sonora de Ennio Morricone para o giallo
O GATO DAS NOVE CAUDAS (1971), de
Dario Argento. O restante da trilha dá de dez a zero em
PLANET TERROR, mostrando que Tarantino não é apenas viciado em cinema, mas também em música. Vale a pena comprar o CD.


É uma pena que
DEATH PROOF não corresponda às expectativas de quem espera por algo no estilo de
KILL BILL. O mais irônico é que o filme dificilmente seria exibido num verdadeiro cinema
grindhouse, já que não tem ação suficiente e nem sexo (nada de sexo, na verdade) para o tipo de público que freqüentava aquelas sessões duplas. Se tivesse sido produzido por
Roger Corman (que fez vários filmes baratos com perseguições de carros nos anos 70, como
EAT MY DUST e
GRAND THEFT AUTO), ele provavelmente obrigaria Tarantino a cortar os mais de 40 minutos de diálogos, ou pelo menos colocar mais batidas de carros e explosões intercalando estes gigantescos tempos-mortos. Considerando que Tarantino é um especialista no cinema
exploitation em geral, fico pensando porque ele preferiu gastar mais da metade do tempo do seu segmento com conversa fiada ao invés de partir direto para a ação esperada numa produção do gênero...


Neste sentido,
PLANET TERROR é muito mais exagerado, inconseqüente, divertido e
"grindhouse" do que
DEATH PROOF. E este segundo segmento dá uma pequena idéia do quanto seria imbecil colocar Quentin para dirigir um episódio da série
SEXTA-FEIRA 13, boato ridículo que andou circulando na internet há alguns anos... Não que
DEATH PROOF seja ruim, mas com certeza poderia ser bem melhor.

COMING ATTRACTIONS
Para dar ainda mais realismo à experiência cinematográfica de
GRINDHOUSE, Tarantino e Rodriguez pensaram, desde o começo, em rodar falsos trailers que seriam exibidos no intervalo entre os dois segmentos. Inicialmente, o próprio Tarantino faria todos eles. Então, Rodriguez dirigiu o seu próprio,
MACHETE, deixou prontinho e mostrou ao colega. Tarantino amou: pegou uma cópia em DVD e saiu mostrando para amigos, como os cineastas Eli Roth e Edgar Wright. Eles não só adoraram como perguntaram a Tarantino se podiam fazer seus próprios trailers falsos. E foi assim que surgiu a idéia de convidá-los para a função.
No total,
GRINDHOUSE tem quatro trailers de filmes que não existem - cinco no caso do Canadá e de algumas regiões dos EUA, onde também será exibido
HOBO WITH A SHOTGUN, filminho dos canadenses Jaison Eisener, John Davies e Rob Cottenil que venceu o concurso de trailers realizado pelos produtores de
GRINDHOUSE.
Na edição normal do filme,
MACHETE é o primeiro preview, exibido logo no início, antes de
PLANET TERROR. Ao final do segmento de Rodriguez, antes do início de
DEATH PROOF, entram, na ordem,
WEREWOLF WOMEN OF THE S.S., de Rob Zombie;
DON'T, dirigido por Wright, e
THANKSGIVING, de Roth. Saiba mais sobre os quatro
"micro-filmes" abaixo:
"They call him Machete", diz a voz no anúncio do trailer.
"He knows the score. He gets the women. And kills the bad guys!". O mal-encarado, tatuado e ex-criminoso (foi preso por assalto à mão armada!!!) Danny Trejo não tem apenas um dos rostos mais feios do cinema contemporâneo, mas também um grande amigo, o cineasta Robert Rodriguez. Desde que eles trabalharam juntos pela primeira vez, em
A BALADA DO PISTOLEIRO, foi amor à primeira vista, e Trejo agora aparece em todas as obras do cineasta. Ainda em 1993, Rodriguez escreveu o roteiro de
MACHETE, um longa-metragem que teria Trejo no papel-título de um agente secreto mexicano contratado para fazer um serviço sujo nos EUA; só que ele é traído, incriminado e parte para a vingança. Por diferentes motivos, o projeto nunca saiu do papel. Mas Rodriguez não desistiu da idéia.
"Quando eu conheci Danny Trejo, pensei nele como um Van Damme ou Charles Bronson do México, que deveria estrelar sua própria série de filmes", disse o cineasta, numa entrevista. Com a possibilidade de rodar trailers falsos para
GRINDHOUSE, o conceito de
MACHETE voltou a surgir e Rodriguez resolveu lançar o preview para ver como seria a reação do público. Até os produtores de
GRINDHOUSE gostaram, e deram sinal verde para que o cineasta filmasse seu tão sonhado longa-metragem, com previsão de lançá-lo direto em DVD até 2008 (
"They fucked with the wrong mexican!" será a frase no cartaz).

MACHETE, o trailer, lembra uma típica produção
blacksploitation dos anos 70, só que neste caso é
"mexsploitation". O mal-encarado Machete é contratado por um homem de terno (Jeff Fahey,
"emprestado" do elenco de
PLANET TERROR) para assassinar um político, no estilo John Kennedy. Quando vai realizar o trabalho, entretanto, ele é traído por um dos homens do seu contratante, baleado e deixado entre a vida e a morte. Seria muito simples se tivesse morrido, mas Machete sobrevive e pede a ajuda de um velho amigo, agora padre (interpretado por Cheech Marin, da extinta dupla Cheech & Chong), para exterminar todos os traidores. Tito Larriva, da dupla Tito & Tarantula, aparece rapidamente como um dos bandidos chacinados pelo
"herói".


Rodriguez disse que criou o conceito do personagem quando ouviu a história de que o pessoal do FBI e do DEA (o órgão americano de combate às drogas) costumava contratar agentes mexicanos para realizar os trabalhos mais pesados e perigosos. E o cineasta ainda proporciona um momento de felicidade ao eterno figurante e agora astro Trejo, colocando-o numa cena do trailer com duas gatas peladas!!!
MACHETE também inclui uma frase que parece saída da série
RAMBO: quando um bandido desarmado implora ao padre Cheech que tenha piedade, este responde
"Deus tem piedade... Eu NÃO!", antes de explodir a cabeça do criminoso com um tiro de escopeta!!!

Agora é só esperar pelo longa de
MACHETE, que tem todo o espírito de cinema
grindhouse e deve render umas boas gargalhadas... Como curiosidade, Trejo havia interpretado um personagem chamado
"Machete" na trilogia
PEQUENOS ESPIÕES, dirigida por Robert Rodriguez. E uma cena do trailer, onde ele joga facas através do teto solar de uma limusine, é um auto-plágio de uma cena exatamente igual, com o mesmo Danny Trejo, que Rodriguez filmou em
A BALADA DO PISTOLEIRO!
Quando procurou Robert Rodriguez e se ofereceu para filmar um dos trailers falsos de
GRINDHOUSE, na premiação do
Scream Awards, em outubro de 2006, Rob Zombie tinha duas idéias: ou seria o trailer de um
WIP (filmes com mulheres na prisão) ou de um nazisploitation. Fascinado por obras desta segunda categoria, como
ILSA - SHE-WOLF OF THE SS e
LOVE CAMP 7, Zombie optou por uma idéia maluca juntando nazistas e lobisomens, que chega a lembrar as doideiras do brasileiro Ivan Cardoso.
Para transformar a idéia em realidade, ele chamou o amigão Bill Moseley (o Ottis de
A CASA DOS MIL CORPOS e
REJEITADOS PELO DIABO) e a esposa gostosa Sheri Moon Zombie, mais Udo Kier, a musa do cinema classe B oitentista Sybil Danning, Tom Towles e até o astro Nicolas Cage, no improvável papel de Fu-Manchu!!!


Ao contrário de
MACHETE, que passa uma idéia bem aproximada do que seria um filme verdadeiro baseado no trailer, o preview de
WEREWOLF WOMEN... não dá muita idéia sobre a trama do falso filme. Começa com um letreiro, sobre cenas de documentário da Segunda Guerra Mundial, dizendo que finalmente pode ser contada
"a verdade sobre o diabólico plano de Hitler para criar uma raça de super-mulheres". A seguir, vemos cenas de Sybil e Sheri vestindo fetichistas roupas de oficiais nazistas, Tom Towles disparando um revólver, garotas com os peitos de fora, Moseley como cientista louco, e, claro, um bisonho e trash lobisomem, tudo ao som de um trecho da clássica Nona Sinfonia de Beethoven!

A grande atração do trailer, entretanto, é ver Nicolas Cage pagando mico como Fu-Manchu, gritando:
"Esta é a minha Mecca!!!", antes de disparar exageradas risadas insanas!!! hahahahaha. Apesar da idéia curiosa, duvido que
WEREWOLF WOMEN OF THE S.S. realmente tivesse potencial para virar filme, ao contrário de
MACHETE e
DON'T. E vão dizer que eu pego no pé do Rob Zombie, mas seu trailer é, sem sombra de dúvida, o mais fraco e sem graça dos quatro.
Não deixa de ser surpreendente quando um trailer de dois minutos dirigido pelo inglês Edgar Wright (conhecido por aliar humor e horror) é a coisa mais assustadora que se vê em MUITO tempo.
DON'T é um pesadelo indescritível, que o diretor disse ser inspirado no cinema italiano dos anos 70, principalmente em obras de
Dario Argento, como
SUSPIRIA. O trailer nada mais é do que uma seqüência desconexa de acontecimentos violentos, assustadores e bizarros, sem dar qualquer pista sobre a trama - e, por isso mesmo, é apavorante!
O título bizarro - que poderia ser traduzido como
"Não Faça", em português - refere-se a uma série de alertas feitos pelo sinistro narrador do trailer (Will Arnett) enquanto se desenrolam as imagens de pesadelo, como
"If you're thinking in going in to this house... DON'T!", ou
"If you're thinking in opening this door... DON'T!". Paralelamente, enquanto o aviso
"Don't" é repetido infinitas vezes, sucedem-se imagens de crianças com os olhos vazados (lembrando
THE BEYOND, de Fulci), mortes escabrosas (com cabeças cortadas ao meio e olhos arrancados) e closes de bocas cuspindo sangue. O clima é bizarro e genuinamente arrepiante, lembrando realmente uma produção italiana dos bons tempos - e é uma verdadeira pena que seja o trailer falso de um filme que não existe...


Wright revelou, ainda, que o nome
DON'T foi baseado nos títulos genéricos e doidos com que muitas produções européias eram lançadas no mercado americano, citando o exemplo do clássico
THE LIVING DEAD AT MANCHESTER MORGUE (
"Os Mortos-Vivos do Necrotério de Manchester"), do catalão Jorge Grau, que nos EUA foi lançado como
DON'T OPEN THE WINDOW (
"Não Abra a Janela"), e nem ao menos existe uma cena envolvendo janelas na trama!!! hahahaha. O diretor também revelou que o letrero
"Don't" repetido infinitas vezes durante o trailer foi uma idéia inspirada no preview de
TORSO, giallo do italiano Sergio Martino, onde a palavra
"Torso" também era repetida diversas vezes sobre
"freeze frames" de cenas de suspense e assassinato.


Quem tem olho vivo verá atores conhecidos em meio às imagens lisérgicas do preview: Jason Isaacs, de
RESIDENT EVIL e
O ENIGMA DO HORIZONTE, é o homem de barba que se aproxima do portão da mansão, nas primeiras cenas; a dupla de
SHAUN OF THE DEAD, Simon Pegg e Nick Frost, aparece respectivamente como a criatura canibal que ataca os jovens e o gordo demente que devora bonecos de bebês no porão; entre as garotas, estão a cantora Katie Melua e a atriz Emily Booth, do excelente
EVIL ALIENS.

Eu posso até apanhar, mas arrisco dizer que os menos de dois minutos de
DON'T são a parte mais bizarra, criativa e genial das três horas de
GRINDHOUSE. Se os outros segmentos apelam para o humor escancarado, satirizando os exageros das produções baratas exibidas nas salas de
grindhouse,
DON'T trata o gênero com respeito e reverência. Por isso, eu adoraria, mas adoraria mesmo, ver o que um bom diretor italiano poderia fazer usando o clima, o
"argumento" e cenas parecidas com estas filmadas por Edgar Wright - que, com louvor, subiu mais algumas posições no meu ranking de
"Novos diretores cujo trabalho vale a pena acompanhar".
É o último dos trailers falsos, antecipando o início de
DEATH PROOF e marcando, definitivamente, o fim da brincadeira em
GRINDHOUSE. Conhecido pela extrema violência e pelas piadas sexistas em seus filmes anteriores (
CABANA DO INFERNO e
HOSTEL, além de
2001 MANÍACOS, que ele produziu), Eli Roth entrega mais do mesmo: mortes bem sangrentas e gráficas, mulheres peladas e sacanagem a rodo, inclusive um boquete que acaba com o namorado da boqueteira perdendo a cabeça (o sujeito azarado é interpretado pelo próprio Roth, e a mocinha por Jordan Ladd, que apareceu em
CABANA DO INFERNO; ironicamente Roth e Jordan também estão em
DEATH PROOF!!!).
"Thanksgiving" é o nome do feriado americano do Dia de Ação de Graças, data importantíssima para os gringos, que lembram da colonização do território norte-americano por peregrinos (para nós, felizmente, este dia imbecil não significa absolutamente nada). Roth e seu velho amigo Jeff Rendell são fãs dos velhos slasher movies dos anos 80, tipo
HALLOWEEN e
SEXTA-FEIRA 13, e sempre se divertiram com o fato dos assassinos atacarem em datas festivas. Entretanto, alegam eles, nenhum produtor jamais lembrou do Dia de Ação de Graças, adotado por Roth no seu falso trailer.

"Meu amigo Jeff cresceu em Massachusetts, nós éramos grandes fãs de slashers e, todo mês de novembro, esperávamos que alguém lançasse um slasher movie onde o assassino atacasse no Dia de Ação de Graças", relembra Eli. Antes de ele se transformar numa das jovens promessas do cinema de horror, a dupla chegou a bolar toda uma história para o seu slasher de Ação de Graças: seria sobre um garoto que se apaixonou por um peru (!!!), e viu a ave ser executada pelo seu pai para o jantar de Ação de Graças. Resultado: o garoto enlouquece, mata toda a família e vai para um manicômio, de onde foge, quando crescido, para se vingar da cidade no feriado de Ação de Graças. Qualquer semelhança com o
HALLOWEEN original NÃO é mera coincidência!
Quando Roth foi convidado por Tarantino para dirigir um dos falsos trailers de
GRINDHOUSE, ele ligou para Rendell e disse que podiam colocar finalmente as suas idéias em prática.
"E nós nem precisamos filmar tudo, apenas as melhores partes!", comemorou o cineasta. O trailer foi gravado em apenas dois dias na República Tcheca, onde Roth esta rodando
HOSTEL 2. O papel de assassino vestido como peregrino ficou com o próprio amigo do diretor, Jeff Rendell. E o trailer de
THANKSGIVING entrega justamente o que promete: sacanagem e mortes violentas, como a da cheerleader gostosa e pelada (Vendula Kristek) que, brincando numa cama elástica, cai de pernas abertas sobre o punhal deixado lá pelo assassino!!! (Isso realmente deve ter doído). Ironicamente (pelo fato de ser uma brincadeira),
THANKSGIVING traz algumas das melhores cenas de assassinato desde o ressurgimento dos slasher movies com PÂNICO, de Wes Craven.


Porém, ao contrário do que muita gente opinou quando o falso trailer foi exibido, não acho que
THANKSGIVING poderia render um bom filme. Afinal, como o próprio Roth disse, as melhores cenas já estão todas no preview, e o diretor nada mais poderia fazer além de criar uma história fajuta para amarrar as cenas e encher lingüiça entre um assassinato em outro. Logo, melhor ficar só no falso trailer mesmo - e ganha um pirulito quem não rir na cena em que um policial enfia o dedo na poça de sangue de uma vítima, coloca na boca e diz:
"It´s blood...". hahahahahaha.
Olho vivo para enxergar Michael Biehn,
"emprestado" do elenco de
PLANET TERROR, como o xerife aterrorizado com as mortes, e Jay Hernandez, o astro de
HOSTEL, como um rapaz que perde, literalmente, a cabeça!!! E preste atenção na música do trailer: Roth
"roubou" de
CREEPSHOW (1982), de George A. Romero!
...E A PRÓXIMA SESSÃO?
Um crítico americano escreveu, e sua observação foi absolutamente genial, que
GRINDHOUSE é uma homenagem apaixonada à forma mais obsoleta de cultura cinematográfica. Logo, ninguém pode esperar que
PLANET TERROR ou
DEATH PROOF sejam obras geniais, com qualquer outro compromisso que não o de divertir. Tarantino levou a coisa um pouco mais a sério do que Rodriguez, mas os dois segmentos, somando os trailers, são o mais próximo que se pode chegar de uma sessão de cinema
grindhouse dos anos 70 - o próprio Tarantino comentou que só lamenta o fato dos dois segmentos que eles dirigiram serem melhores do que os
"verdadeiros" filmes exibidos nas velhas
grindhouses!!!

Infelizmente,
PLANET TERROR e
DEATH PROOF perdem feio para os verdadeiros
exploitation movies que faziam a felicidade dos fãs das
grindhouses, e que eram feitos dessa forma ingenuamente, não de propósito, como no caso dos segmentos de Rodriguez e Tarantino. Fico pensando como seria divertido assistir uma verdadeira sessão
"dois em um" com filmes bagaceiros numa boa sala de cinema... Por sinal, se
GRINDHOUSE tem um grande mérito, este é o de transformar, por três horas, as luxuosas salas de cinema multiplex dos shopping-centers em vagabundas
grindhouses. hahahahaha
Desde que o projeto foi anunciado, com a idéia
"dois filmes em um", eu imaginei que o grande público não ia entender a brincadeira, ainda mais esta garotada burra e sem cultura que infesta os cinemas de shopping nos dias atuais. Não deu outra: mesmo nos Estados Unidos, berço das
grindhouses, e onde há muito mais cultuadores de filmes exploitation do que no Brasil (pelo menos lá eles têm estas produções em DVD...),
GRINDHOUSE provocou confusão e não foi recebido com tanto entusiasmo quanto esperavam seus realizadores e, principalmente, produtores.

Enquanto escrevo estas linhas, a informação que rola é de que a primeira semana do filme em cartaz lá nos States foi decepcionante, com uma bilheteria de meros 11,5 milhões de dólares, quando o esperado era entre 20 e 30 milhões na abertura. Talvez seja culpa do gênio que resolveu lançar uma obra dessas no feriado de Páscoa, quando as famílias vão ao cinema em busca de produções fofinhas e inofensivas, não de zumbis purulentos e sangrentos acidentes de carro... Mas não se engane:
GRINDHOUSE com certeza está longe de ser um fiasco de bilheteria e com certeza vai se pagar, principalmente quando chegar ao DVD - embora, como eu escrevi no começo, a experiência de ver o filme em casa não seja tão divertida quanto na sala de cinema.
Se grande parte do público não entendeu a brincadeira, a crítica também se dividiu: alguns elogiaram a
"genialidade" de Tarantino e Rodriguez por homenagearem o cinemão insosso, porém divertido, das
grindhouses. Outros não viram a menor graça no festival de nojeira e violência, e jogaram lenha dizendo que
GRINDHOUSE é ainda pior do que as piores produções das velhas sessões duplas, e que os verdadeiros freqüentadores dos cinemas
grindhouse jamais iam curtir o longo e excessivamente dialogado
DEATH PROOF. Uma das melhores críticas diz que
"Tarantino e Rodriguez fizeram cinema com o coração, mas isso não significa que todo mundo vai entender a brincadeira". É exatamente este o ponto: para 90% dos espectadores, infelizmente,
"grindhouse",
"exploitation",
"WIP" e outros termos de cinema bagaceiro não significam absolutamente nada, e estes realmente não vão gostar tanto da
"brincadeira".


A bilheteria reduzida na estréia levou o produtor Harvey Weinstein a se lamentar. Para quem não sabe, ele é um dos caras mais xaropes do mundo do cinema, e também o desgraçado que pega filmes asiáticos e corta de 20 a 30 minutos para lançar no mercado ocidental (foi ele quem mutilou os fantásticos
ONG-BAK e
SHAOLIN SOCCER para exibir nos EUA, e o pior é que são essas cópias fajutas e cortadas que chegam ao Brasil!). Preocupado com os números de
GRINDHOUSE na estréia, o ambicioso Weinstein já estava pensando seriamente em tirar a obra de cartaz lá nos EUA e dividi-la em dois filmes separados e
"normais", colocando de volta todas as cenas retiradas e os
"missing reels", e avacalhando toda a idéia original da sessão
"dois em um".
Pois é assim, separadamente, que os brasileiros deverão ver o trabalho de Tarantino e Rodriguez.
Isso acontece porque o conceito
"grindhouse" não existe fora dos EUA. E, desde o começo, os produtores já tinham a idéia de lançar
GRINDHOUSE num formato diferente em outros países: ao invés de um único programa com três horas de duração, os dois segmentos seriam separados (só não se sabe com certeza como ficaria no caso dos falsos anúncios de publicidade e trailers). Por um lado isso é bom (afinal, veremos os filmes separadamente e com cenas a mais, sem ficar comparando um e outro, como acontece na
"sessão dupla"); por outro lado, é muito ruim (teremos que pagar dois ingressos ao invés de um só, e dividir os filmes acaba justamente com o objetivo de
GRINDHOUSE, que é o de oferecer um programa duplo!!!). Vou dar minha opinião sincera: embora a grande sacada do projeto seja exatamente a sessão dupla, penso que a separação pode beneficiar os dois filmes, já que o segmento de Tarantino, com muito menos ação e sangue que o de Rodriguez, não será apresentado como
"a metade final das três horas", mas sim como produção independente. Só vendo para saber...


Sucesso ou fracasso,
GRINDHOUSE já está gerando frutos. Primeiro, foi um festival
grindhouse que aconteceu nos EUA (e só lá, infelizmente), com sessões duplas de verdadeiros filmes baratos, antecipando o lançamento da obra de Tarantino e Rodriguez. Depois, veio a notícia de que
MACHETE, concebido como um dos trailers falsos, já está em pré-produção para virar longa-metragem
"de verdade", dirigido e roteirizado por Robert Rodriguez e estrelado por Danny Trejo. E o futuro, agora, ninguém sabe como vai ser: os dois cineastas já manifestaram seu interesse em desenvolver um
GRINDHOUSE 2, onde Tarantino finalmente faria seu
"filme bagaceiro de kung-fu falado em mandarim e dublado em inglês". Alguns espectadores também gostariam que a
Parte 2 desse espaço justamente para os projetos apresentados nos trailers falsos do original, como DON'T ou THANKSGIVING.
Realmente, a partir de agora, as possibilidades são inúmeras. E, desde já, deixo aqui uma sugestão para Tarantino e Rodriguez: se
GRINDHOUSE é uma experiência que funciona muito melhor no cinema, que tal lançá-lo em DVD como se estivéssemos assistindo uma fita VHS já muito gasta de alguma locadora fuleira, com o aviso de
"proibido reproduzir cópias" e falhas como
"fita mastigada"? Ainda dentro dessa idéia, a opção
"seleção de cenas" poderia ser desativada do DVD, obrigando o espectador a passar o filme para a frente com a tecla FF, como fazia nos tempos das velhas fitas cassete. Já pensou a doideira?



De uma coisa eu tenho certeza: se
GRINDHOUSE serviu para algo (além de divertir, óbvio), foi para dar o devido valor e reconhecimento a todas as produções vagabundas, mas muito divertidas, que encontravam nas velhas salas de cinema americanas um espaço nobre. Estas produções, não raras vezes, são execradas por cinéfilos arrogantes, ou mesmo classificadas de
"lixo cultural". É engraçado, mas nestes tempos pretensiosos de Lars Von Trier e dramas iranianos sobre crianças que perderam a sandália, ainda acho as produções bagaceiras dos anos 70 e 80 muito mais legais que muito vencedor do Oscar.
Quem sabe agora produções
exploitation,
blacksploitation,
nazisploitation,
nunsploitation,
WIP e outras ganhem edições caprichadas em DVD também no Brasil... Sonhar, afinal, não custa nada. E o sonho de Tarantino e Rodriguez já está aí, transformado em realidade, para todo mundo ver.
Felipe M.Guerra
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GRINDHOUSE (Grindhouse, EUA, 2007)
Direção: Robert Rodriguez (segmento "Planeta Terror); Quentin Tarantino (segmento "Death Proof"); Eli Roth (trailer falso "Thanksgiving"); Edgar Wright (trailer falso "Don´t"); Rob Zombie (trailer falso "Werewolf Women of the S.S.")
Roteiro: Robert Rodriguez (segmento "Planeta Terror); Quentin Tarantino (segmento "Death Proof"); Eli Roth e Jeff Rendell (trailer falso "Thanksgiving")
Produção: Elizabeth Avellan; Robert Rodriguez; Eli Roth (trailer); Gabriel Roth (trailer); Erica Steinberg; Quentin Tarantino
Produção Executiva: Sandra Condito; Shannon McIntosh; Bob Weinstein; Harvey Weinstein
Fotografia: Robert Rodriguez (segmento "Planeta Terror); Quentin Tarantino (segmento "Death Proof"); Milan Chadima (trailer "Thanksgiving"); Phil Parmet (trailer falso "Werewolf Women of the S.S.")
Música: Robert Rodriguez, Carl Thiel e Graeme Revell (segmento "Planeta Terror"); Tyler Bates (trailer falso "Werewolf Women of the S.S."); Nathan Barr (trailer falso "Thanksgiving"); David Arnold (trailer falso "Don´t")
Maquiagem: Jake Garber; Tysuela Hill-Scott; Rob Hinderstein; Grady Holder; Meredith Johns; Darylin Nagy; Gregory Nicotero; Tara Smith; Kevin Wasner
Figurino: Kathleen M. Hagan
Edição: Robert Rodriguez e Ethan Maniquis (segmento "Planeta Terror); George Folsey Jr. (trailer falso "Thanksgiving"); Sally Menke (segmento "Death Proof")
Elenco: Segmento "Planeta Terror": Naveen Andrews (Abby); Electra Isabel Avellan (babá 1); Elise Avellan (babá 2); Michael Biehn (Xerife Hague); Josh Brolin (Dr. William Block); Leroy Castanon; Cecilia Conti (paramédica 1); Stacy Ferguson (Tammy); Carlos Gallardo (Deputado Carlos); Sammy Harte (garota infectada); Doran Ingram (paciente); Nicky Katt (Joe); Greg Kelly; Andrea Lee; Julio Oscar Mechoso (Romy); Hung Nguyen (Dr.Crane); Tommy Nix (paramédico 2); Michael Parks (Earl McGraw); Skip Reissig (Skip); Johnny Reno; Troy Robinson; Freddy Rodríguez (Wray); Rebel Rodriguez (Tony); Jerili Romeo (Ramona); Felix Sabates (Dr.Felix); Tom Savini (Tolo); Bruce Willis (Tenente Muldoon)
Segmento "Death Proof": Melissa Arcaro (Venus Envy); Electra Isabel Avellan (babá 1); Elise Avellan (babá 2); Michael Bacall (Omar); Zoe Bell (Zoe); Rosario Dawson (Abernathy); Omar Doom (Nate); Jamie L. Dunno; Eurlyne Epper; Vanessa Ferlito (Butterfly); Marcy Harriell (Marcy); Shannon Hazlett (dublê de pé de Butterfly); Jordan Ladd (Shanna); Jonathan Loughran (Jasper); Rose McGowan (Cherry); Marta Mendoza (Punky); Tim Murphy (Tim, o bartender); James Parks (Edgar McGraw); Sydney Tamiia Poitier (Julia); Kurt Russell (Dublê Mike); Marley Shelton (Dr. Dakota Block); Monica Staggs (Lanna Frank); Tracie Thoms (Kim); Mary Elizabeth Winstead (Lee)
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