FIM DOS TEMPOS

por João Pires Neto

“Primeiro, vem a desorientação psicológica, depois, uma certa imobilidade física e, por fim, a perda total dos instintos de autopreservação que acabam levando o indivíduo a abdicar de sua própria vida.”

Com M. Night Shyamalan é assim: ou você ama ou você odeia. E não vai ser diferente com “Fim dos tempos”. Na trama, num dia comum, pessoas comuns estão passeando com seus cães ou jogando conversa fora num parque de Nova York. Exatamente às 8 horas e 33 minutos algo acontece. Um vento forte sopra e os galhos das árvores balançam. Uma garota pega seu prendedor de cabelo e perfura o pescoço sem cerimônia. Numa construção próxima, trabalhadores se jogam do alto de um edifício em obras. Policiais apontam armas para suas cabeças e disparam. As pessoas enlouquecem e começam a se matar. Aos milhares. De todas as formas. Enquanto isso, na Filadélfia, o professor de ciências Elliot, interpretado por Mark Wahlberg, provoca seus alunos com uma pergunta:
- Todas as abelhas dos Estados Unidos desapareceram nos últimos dois dias, o que estaria acontecendo? Ouvindo as diferentes respostas, o professor argumenta que a ciência vai produzir alguma razão para constar nos livros, mas no fim será apenas uma teoria. Não seremos capazes de admitir que existam forças em ação, além de nossa compreensão. O diretor da escola interrompe a aula e com os professores reunidos alerta: - Temos aqui um acontecimento!

A princípio as autoridades suspeitam de um ataque bacteriológico terrorista restrito a cidade de Nova York. Mas rapidamente a praga se espalha e alcança a Filadélfia, onde vive o professor Elliot e sua jovem esposa Alma. Em meio à confusão, informações desencontradas e histeria coletiva, eles resolvem abandonar a cidade e buscar abrigo em regiões que não teriam sido atingidas. Ao casal junta-se o amigo e também professor Julian e sua filha, a pequena Jess. Unidos eles tentam escapar de um inimigo invisível e mortal.



Indiano crescido no subúrbio da Filadélfia, o diretor, produtor e roteirista M. Night Shyamalan é um dos poucos cineastas no cinema contemporâneo que ainda conseguem atrair público apenas com seu nome. Entretanto, Shyamalan ainda não repetiu o sucesso comercial de seu primeiro filme, “O Sexto Sentido”. O filme do menino-que-vê-gente-morta bateu recordes de bilheteria, foi indicado a meia dúzia de prêmios da Academia, e acabou abrindo todas as portas de Hollywood para o cineasta. Mas com o passar dos anos, “O Sexto Sentido” acabou se tornando uma espécie de karma para o diretor. A cada lançamento de um novo filme seu, cria-se a expectativa, por parte do público e da crítica, de uma nova obra-prima com uma reviravolta final alucinante. Embora parte desta expectativa por desfechos espetaculares seja culpa do próprio diretor, já que apresentou finais “inteligentes” em pelo menos dois de seus outros filmes: “Corpo Fechado” e “A Vila”. Com “Fim dos Tempos”, ele tenta se livrar de vez deste karma, portanto não há final surpresa! (não se preocupem, o próprio diretor espalhou este SPOILER em diversas entrevistas antes do lançamento do filme em questão).

Eu sempre fui obcecado por três filmes: “Vampiros de Almas” (1956), “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968) e “Os Pássaros” (1963), explica M. Night Shyamalan. Estes três filmes estão constantemente na minha mente.



O próprio cineasta dá a dica: “Fim dos Tempos” é uma grande homenagem aos clássicos citados anteriormente. Assim como o sci-fi “Vampiros de Almas” e o filme de George Romero, o novo longa do diretor indiano é um autêntico e assumido filme B. Ou seja, uma produção com um suposto baixo orçamento (o filme custou “míseros” US$ 57 milhões), atores relativamente desconhecidos e um argumento que mistura cinema catástrofe e ficção científica.

As semelhanças também se encontram na trama: o início do suicídio coletivo em “Fim dos Tempos” acontece sem aviso, assim como surgem inexplicavelmente os zumbis em “A Noite dos Mortos-Vivos” e os pássaros no filme de Hitchcock.

(ATENÇÃO: O parágrafo abaixo apresenta SPOILERS)

O desfecho também é parecido, ou seja, tudo acaba de uma hora para outra, sem ninguém fazer nada. Em “Os Pássaros”, no final os animais deixam de atacar a pequena cidadezinha e pronto, acabou. Os minutos finais também lembram “O Anjo Exterminador”, de Luís Buñuel. No enredo deste clássico mexicano, um fenômeno inexplicado impede que “burgueses” abandonem uma mansão onde acontecia uma festa. Com o passar do tempo, a fome, a sede, e as brigas levam as pessoas à loucura. O fenômeno cessa sem mais nem menos (como em “Os Pássaros” e “Fim dos Tempos”). Mas logo em seguida ocorre novamente em uma igreja, impedindo que os “religiosos” saiam do local. Em “Fim dos Tempos”, depois de cessado o ataque da toxina à costa leste americana, algo similar parece estar se iniciando em Paris.



Tanta referência, homenagem ou influência, no final das contas, torna-se mais uma deficiência do que exatamente uma virtude, colocando em questão a originalidade do roteiro. A própria idéia dos suicídios coletivos já havia sido abordada pelo insano filme japonês “O Pacto” (Suicide Club, 2002).

Shyamalan conta que “Fim dos Tempos” foi seu roteiro mais fácil de escrever. A idéia surgiu enquanto dirigia por uma estrada no interior de New Jersey. O cineasta olhava as árvores e as plantas que balançavam com o soprar do vento quando teve o insight do que poderia ser o início de um pesadelo: e se a natureza reagisse contra o homem, que durante décadas tem submetido o planeta a uma devastadora escalada de degradação? Naquele momento, instantaneamente, pipocou na minha cabeça toda a estrutura da história de “O Fim dos Tempos” e os personagens se apresentaram de forma muito clara. Foi uma sensação muito boa, porque os filmes ficam sempre mais acessíveis quando a estrutura é o fator predominante – contou o diretor.

Mas se existe algo de incômodo no roteiro de Shyamalan são os diálogos. Tão artificiais quanto bizarros. Imagine o mundo acabando e você resolve discutir a relação e inventar uma historinha para provocar ciúmes na parceira, ou pior, se antes de fugir da região ameaçada fizesse uma palestra sobre cachorros-quentes. Não fica claro se a intenção do diretor-roteirista era “autenticar” o clima de filme B, mostrar que seus personagens estão em estado de choque ou apenas inserir um pouco de humor. Num destes diálogos, desconfiado que o responsável pelo pesadelo que estão vivendo são as plantas, o personagem de Wahlberg se confessa para uma espécie de samambaia. Após pedir desculpas e dizer que é amigo da natureza e coisa e tal, o coitado descobre que a planta é de... plástico!



Um posicionamento estranho de Shyamalan no roteiro é não explorar em nenhum momento o ponto de vista religioso da crise. Não questionar uma possível origem divina (ou diabólica) da situação e o fato de mesmo nos momentos mais difíceis, os personagens não darem nem ao menos uma rezadinha, soa de certo modo até inverossímil.

Mas não entrem em pânico, existe um ponto muito positivo em “Fim dos Tempos”. Além de um autêntico filme B, ele é um verdadeiro filme de horror. Não há como não se impressionar com alguém todo arrebentado após se arremessar do alto de um edifício ou se jogar embaixo de um cortador de gramas. Tudo mostrado em detalhes. Tem até morte de criancinhas (exagero, na verdade adolescentes). Numa cena de impacto, vemos diversas pessoas enforcadas em árvores. Pelas ruas, corpos vão se amontoando. Resultado: censura R nos States e 17 anos no Brasil.

Apesar da censura, “Fim dos Tempos” foi a terceira melhor bilheteria de estréia da carreira de Shyamalan. Considerando apenas os cinemas em território americano, ficou atrás de “Sinais” que arrecadou U$ 60 milhões e “A Vila” que faturou U$ 42 milhões. No final de semana em que entrou em cartaz, permaneceu entre os três filmes mais vistos e garantiu uma arrecadação superior a U$ 34 milhões.



A liberdade com que o produtor-diretor-roteirista-ator indiano rodou “Fim dos Tempos” é outro fato que não pode ser desconsiderado. A Fox deu ao cineasta carta branca para criar, filmar e escolher os atores que quisesse. Na direção, Shyamalan mantém o estilo hitchcockiano (enquadramentos, trilha sonora) de “Sinais”. O resultado, apesar da questionável originalidade do roteiro, é um filme autoral e cheio reflexões sobre questões contemporâneas, como o desequilíbrio ecológico, o terrorismo e a família. Existe ainda uma grande metáfora em todo o filme: já não estaríamos cometendo suicídio coletivo quando destruímos gradualmente a natureza?

Outro ponto negativo em “Fim dos tempos” é o fraco elenco, que traz Mark Wahlberg como Elliot, um pacato professor de ciências. Sua atuação é forçada e, se não chega a comprometer, está no mínimo muito aquém do talento mostrado em “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese. Zooey Deschanel, de “Ponte para Terabithia”, interpreta sua esposa. Temos ainda como coadjuvantes o colombiano John Leguizamo (“Terra dos Mortos”) e a atriz-mirim Ashlyn Sanchez.

Só pra variar o título em português demonstra total falta de originalidade e não traduz as intenções do título original. O Acontecimento (a tradução literal de The Heppening) seria mais adequado, sendo que a onda de suicídios é chamada de “acontecimento” várias vezes durante o desenrolar da trama. O slogan americano presente nos banners do filme faz uma interessante alusão aos filmes anteriores do diretor (“O Sexto Sentido” e “Sinais”): “Nós sentimos... / Vimos os sinais... /Agora... está acontecendo.” Já no cartaz nacional, a brincadeira se perde: “Fomos alertados/Não demos atenção. /Agora, não há como escapar.”



Entre mortos e feridos, “Fim dos Tempos” passa longe de ser um filme ruim. É um filme engajado e ambíguo, ao mesmo tempo em que não quer dizer nada é carregado de metáforas. E se não é a nova obra-prima de Shyamalan, pelo menos é o seu trabalho mais violento. Ignorem as críticas. Ignorem este artigo. Assistam o filme e dêem seu veredicto. Depois é só escolher o lado: dos que amam ou dos que odeiam o trabalho de M. Night Shyamalan.

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FIM DOS TEMPOS (The Happening, EUA, 2008).
Direção: M. Night Shyamalan.
Roteiro: M. Night Shyamalan.
Produção: Barry Mendel, Sam Mercer e M. Night Shyamalan.
Fotografia: Tak Fujimoto.
Música: James Newton Howard.
Edição: Conrad Buff IV.

Direção de Arte: Anthony Dunne.
Elenco: Mark Wahlberg (Elliot Moore), Zooey Deschanel (Alma Moore), John Leguizamo (Julian), Ashlyn Sanchez (Jess), Betty Buckley (Sra. Jones), Spencer Breslin (Josh), Jeremy Strong (Recruta Auster), Alan Ruck (Diretor), M. Night Shyamalan (Joey), Robert Lenzi (Jake) Edward James Hyland (Prof. Kendall Wallace) e Stephen Singer (Dr. Ross).




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