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Nos anos 80 a maioria das pessoas saiam de casa para tomar uma cerveja, discutir futebol e pegar um cineminha de vez em quando. Hoje, à parte os figurinos e o estilo de vida, pouca coisa mudou nesse aspecto, isso porque existem coisas e hábitos que não envelhecem jamais. Alguns filmes de terror também não envelhecem enquanto certos sub-gêneros sofram baixas de vez em quando. Isto acontece com o atual mainstream estadunidense e nunca foi segredo para ninguém que acima de tudo há uma perda de identidade do cinema de terror norte-americano quando se trazem diretores e roteiros de outros continentes - o que reflete na qualidade baixa dos últimos e futuros lançamentos.
Estranho constatar que são das produções despretensiosas de diretores iniciantes (CABANA DO INFERNO, JOGOS MORTAIS) ou que tentam resgatar o bom e velho cinema esquecido no passado (GRINDHOUSE, PERSEGUIÇÃO ASSASSINA) que saem os maiores méritos do que os batidos remakes e continuações. |
Pode parecer contraditório colocar desta forma - que a solução para a falta de criatividade é aplicar velhos conceitos - contudo não penso que há nada de errado em se usar velhas fórmulas, porque esta, sim, é a identidade do cinema estadunidense de baixo orçamento; é a mesma boa cerveja vagabunda que tomamos há 20 anos atrás.


O cineasta estreante no gênero Adam Green pareceu determinado a ir contra esta onda de remakes, seqüências e adaptações e decidiu que um velho slasher bem feito era que o público precisava. Retirou as impurezas do sub-gênero e fez uma espécie de homenagem filmada a uma década por muitos renegada. Escreveu e dirigiu o projeto chamado
"Love Rodeo" - na verdade este título era só para desviar a atenção de eventuais curiosos que pudessem aparecer nos sets. De fato o nome do filme é
HATCHET, catastroficamente lançado no Brasil direto em DVD como
TERROR NO PÂNTANO (o que há de errado com esses
"profissionais" que escolhem os títulos nacionais?!), simplesmente o melhor que o cinema estadunidense tem a oferecer em termos de slashers em, digamos, dez anos no mínimo.


Para que este projeto funcionasse, Adam contou com uma trinca de atores que simbolizam a cara dos anos 80 e são os sonhos de qualquer diretor que se habilite em fazer um filme assim: Robert
"Krueger" Englund, Tony
"Candyman" Todd (tudo bem que
CANDYMAN é de 1992, mas dá pra sacar) e Kane
"Jason" Hooder, no maior papel em sua carreira, nos apresentando um novo ícone: o assassino deformado Victor Crowley.


Embora não necessite exatamente de uma descrição do roteiro (esqueceu que é um slasher?) é dele que vem uma parte do contentamento, então vamos lá: na abertura, dois caçadores de crocodilos estão de barco em um pântano da Louisiana caçando crocodilos (dã). São eles Sampson (Englund) e seu filho Ainsley (Joshua Leonard,
A BRUXA DE BLAIR e estará no remake de
PROM NIGHT), eles são típicos estereotipados (como a maioria dos personagens) caipiras do interior e vivem brigando. Ainsley precisa parar para uma mijada e a chuva invade o lugar, o clima é sinistro quando repentinamente uma figura soturna os ataca e os mata.


Dois dias depois, não muito longe dali rola o festival de Mardi Grass (o equivalente ao carnaval gringo) atraindo milhares de jovens bêbados e promíscuos em busca de diversão. Quem não vê muita graça nisso é o ütter-Nerd Ben (Joel Moore, de
COM A BOLA TODA), que ainda está chorando pela perda da namorada Christine. Seus amigos (um deles, o próprio Adam Green fazendo uma ponta) em especial Marcus (Deon Richmond,
PÂNICO 3 e
NÃO É MAIS UM BESTEIROL AMERICANO) tentam animar o rapaz, porém ele está decidido, prefere fazer uma conhecida tour assombrada pelo pântano.


Marcus aceita ir com Ben e vão atrás do Reverendo Zombi (Tony Todd) para levá-los, contudo não conseguem seu intento, pois um acidente o colocou fora dos negócios, e são recomendados a procurar o estabelecimento de Marie Laveau. Só que ao contrário do que o nome sugere, na loja um oriental maluco chamado Shawn (Parry Shen, de
NOVO NO PEDAÇO) é quem comanda os negócios e ele topa fazer a tal turnê mal-assombrada saindo imediatamente.


A dupla entra num micro-ônibus - devidamente nomeado como
"Scare-Bus" - para o pântano que ainda inclui as
"vadias profissionais" Misty (Mercedes McNab, de
A FAMÍLIA ADAMS 2 e dos seriados
Angel e
Buffy) e Jenna (Joleigh Fioreavanti, de
CRIMES EM WONDERLAND), que fazem um filme amador daquele tipo com o
"diretor" Doug Shapiro (Joel Murray, irmão do comediante Bill Murray), o coroa gordinho Jim Permatteo (Richard Riehle, de
COMO ENLOUQUECER SEU CHEFE e sósia do Leôncio do desenho
Pica Pau) e sua esposa Shannan (Patrika Darbo, de
VELOCIDADE MÁXIMA 2 e
A CASA DOS HORRORES) e também a calada Marybeth (Tamara Feldman, de
A ESTRANHA PERFEITA).


Chegando ao pântano o grupo entra em um barco (o
"Scare-Boat") e é onde a excursão verdadeiramente começa, não sem antes serem alertados pelo maluco de plantão Jack Cracker (o técnico em efeitos especiais John Carl Buechler também fazendo uma ponta) sobre um tal de Victor Crowley (Kane Hooder), um mito local.
Após ir a uma área proibida do pântano, Shawn consegue afundar a pequena embarcação. A solução é saltar para um ponto de terra firme localizado no meio do pântano chamado de
"Ilha Kwaj", todavia Jim é mordido na perna por um dos numerosos e famintos crocodilos do lugar e não consegue andar direito.


Tão logo conseguem chegar a
"ilha", Marybeth revela que está atrás de seu pai e irmão desaparecidos (adivinha quem são?) e mostra que estão próximos da verdadeira casa de Victor Crowley. Em um flashback a garota explica que o jovem Victor (Rileah Vanderbilt) nasceu deformado e seu pai (Hooder novamente, agora sem a pesada maquiagem) o mantinha escondido para protegê-lo. Anos depois numa noite de Halloween alguns garotos acidentalmente ateiaram fogo na pequena choupana dos Crowley. O pai tentou desesperadamente entrar, abrindo a porta a machadadas, contudo Victor estava do outro lado da porta e foi golpeado. O garoto é dado como morto e seu pai morre de desgosto após 10 anos de solidão. Não tarda muito e eles descobrirão que Victor Crowley não é uma mera lenda e assim são o restante dos quase 85 minutos de uma injeção de adrenalina como em uma montanha-russa.


A primeira coisa necessária a se dizer é que John Carl Buechler (
RE-ANIMATOR,
DO ALÉM,
SEXTA-FEIRA 13 PARTE 7,
HALLOWEEN 4, entre muitos outros) é um mestre em sua arte e nos provê os efeitos especiais mais sangrentos, violentos e ao mesmo tempo atrativos que podem ser vistos em vídeo em um bocado de tempo, e que, aliado com a habilidade do diretor Green, se tornam o principal atrativo da produção. São cenas que ainda que pudessem ser descritas, perderiam muita graça se o fizesse. O único excesso é uma seqüência em particular envolvendo uma lixadeira, que é bastante forçada e desnecessária, embora não prejudique a diversão no final das contas.


Uma característica nesse aspecto é que poderia ser um erro em mãos menos preparadas fazer com que as mortes mais tecnicamente complicadas ficassem no começo do filme - um caso de
"queimar toda a lenha" prematuramente - porém Adam Green é um cara esperto, tem o filme não mão e faz isso de propósito, unicamente para estabelecer nosso assassino como um FDP cruel e sádico. Uma vez atingido o objetivo, os momentos de suspense ficam valorizados pela ameaça que nos foi apresentada.


A história é rasa, então não espere nada além de diversão adoidada e descerebrada. Contudo outro motivo pelo qual
HATCHET funciona e é diferente em tudo o que vem sendo feito a partir de um roteiro polido com esmero. Apesar de se tratar de terror com pontas de comédia e personagens caricatos - até pelo histórico do elenco - difícil não se identificar com eles fazendo o que realmente faríamos na situação sem saída em que se encontram, pois é fato que eles não têm como ligar para ninguém; não há possibilidade de sair daquele pântano amaldiçoado; o clima é claustrofóbico e desesperador; pouca coisa pode ser feita a não ser correr como loucos e é justamente o que fazem. Não tem como ficar indiferente quando cada um dos personagens é eviscerado (a mãos nuas algumas vezes) por Victor Crowley, culpa também do elenco bem entrosado e profissional.

E a propósito o que é esse Victor Crowley?! Uma monstruosidade bizarra de proporções míticas e que Kane Hooder interpreta (?!) com primor - só quem já fez o principal assassino da tela grande por tanto tempo sabe ser assustador até off-screen, com seus gritos e grunhidos chamando pelo pai. Ah, e já ia me esquecendo, uma produção neste nível não seria completa sem peitos e nudez gratuita e por aqui tem muito disso de ponta a ponta.
Eu gosto muito dos filmes intelectuais e thrillers psicológicos superelaborados, mas ver Kane Hooder de volta a ação desmembrando vitimas incautas satisfaz minha veia cinéfila completamente. Não é um novo clássico, todavia é um filme para
"slasher-maníacos" despretensiosamente fantástico que cumpre o que promete. Aguardemos se o sucesso desta película surte algum efeito no mainstream de Hollywood e fiquemos de olho nos próximos trabalhos de Adam Greem, pois eu particularmente não me importaria nada em esperar por
HATCHET 2...

CURIOSIDADES
- Na cena em que o ator Joel Moore vomita, ele o faz pra valer. O diretor Adam Green não queria que os atores simplesmente cuspindo vômito falso como a maioria dos filmes. Para fazer o primeiro take, foi fornecido para Joel uma mistura de sopa fria de mariscos e suco de laranja para o segundo take;
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TERROR NO PÂNTANO foi a última produção a ser rodada na Louisiana antes da catástrofe do furacão Katrina;


- A camiseta usada por Ben contém o logotipo da loja Newbury Comics, que vende CDs, DVDs e quadrinhos. O diretor Adam Green cresceu em Massachusetts e costumeiramente comprava filmes de terror e figuras de ação desta loja;
- O horrível e deformado jovem Victor Crowley foi interpretado por Rileah Vanderbilt, uma linda e jovem atriz. Quando John Carl Buechler precisou de um modelo para testar as próteses de látex, Rileah se ofereceu como voluntária. Como os moldes já estavam com as formas do rosto da atriz, ela pegou o papel.


- O filme originalmente recebeu classificação de censura NC-17 devido a violência extrema. Depois de meses de apelos e revisões, uma versão cortada passou pela MPAA e recebeu o almejado R. Adam Green ficou furioso com o os cortes que considerou uma decisão frustrante e arbitrária. Aparentemente a versão nacional é a sem cortes.
Para contato com Gabriel Paixão:
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HATCHET - TERROR NO PÂNTANO (Hatchet, EUA, 2006). Duração: 83 minutos.
Direção: Adam Green
Roteiro: Adam Green
Produção: Scott Altomare; Sarah Elbert; Cory Neal
Produção Executiva: Roman Kindrachuk; Andrew Mysko
Desenho de Produção: Bryan McBrien
Direção de Arte: Tim Beckett
Edição: Christopher Roth
Efeitos Especiais: John Carl Buechler
Maquiagem: Rileah Vanderbilt
Música: Andy Garfield
Fotografia: Will Barratt
Elenco: Joel Moore (Ben); Tamara Feldman (Marybeth); Deon Richmond (Marcus); Kane Hodder (Victor Crowley / Sr. Crowley); Mercedes McNab (Misty); Parry Shen (Shawn); Joel Murray (Doug Shapiro); Joleigh Fioreavanti (Jenna); Richard Riehle (Jim Permatteo); Patrika Darbo (Shannan Permatteo); Robert Englund (Sampson); Joshua Leonard (Ainsley); Tony Todd (Rev. Zombie); John Carl Buechler (Jack Cracker); Rileah Vanderbilt (Jovem Victor Crowley)
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