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Pare um pouco e pense com sinceridade: qual o último filme de terror/suspense que você viu e que realmente lhe deixou agoniado, ansioso, assustado, roendo as unhas, sem piscar, suando frio, com o coração batendo forte, enfim, verdadeiramente desesperado acompanhando o sofrimento dos protagonistas??? Talvez você pense, pense, pense e não chegue a um nome tão facilmente. E isso tem explicação: é difícil pensar num filme que realmente passe esta sensação de ansiedade e que tenha sido feito nos últimos anos. Até porque filmes como os intermináveis SEXTA-FEIRA 13 e as novas produções cheias de efeitos especiais digitais acabaram banalizando o susto e o suspense, transformando a maioria das obras do gênero em uma montanha-russa de sustinhos bobos. |
Mas pode parar de pensar agora e abra imediatamente qualquer programa de download de arquivos pela Internet. Entre no sistema de busca e digite:
HAUTE TENSION . Este é o filme de suspense definitivo dos últimos... sei lá, anos. Estou para lembrar de outro filme que me deixou tão inquieto e nervoso quanto esta pérola realizada na França (claro que não podia ser nos Estados Unidos!!!), no ano de 2003, e desde então inédita no Brasil - deve estrear nos cinemas americanos ainda neste ano de 2005, com um minuto de cortes em cenas mais sangrentas e dublado em inglês.
Sabe aquela sensação de pânico quando você está voltando para casa tarde da noite, caminhando por uma rua escura, e percebe que ela está completamente deserta... a não ser pelo sujeito que vem te seguindo a pelo menos três quarteirões e, para piorar, parece estar acelerando o passo em sua direção? Tudo que você quer é caminhar mais rápido, sumir da vista do sujeito, encontrar um lugar seguro para se esconder, enfim, livrar-se desta situação ameaçadora. É a mesma sensação que você terá ao assistir HAUTE TENSION : você não será um simples espectador, mas praticamente fará parte da trama, como se estivesse lá, sentindo a dor e o pânico dos seus personagens.
HAUTE TENSION é banal. O que é realmente eficaz é a construção do suspense e a forma como o diretor/roteirista francês Alexandre Aja apresenta o vilão e nos faz ter medo dele.  | |
Não como um Jason ou Freddy, que se tornam os verdadeiros heróis dos seus respectivos filmes. O vilão aqui é um assassino tão filha da puta e sádico, e o que ele faz com as vítimas é tão grotesco e grosseiro, que nem mesmo um sadomasoquista admirador de Adolf Hitler iria conseguir simpatizar com ele. Tudo isso sem precisar de máscara de pele humana, serra elétrica ou poderes sobrenaturais. O que verdadeiramente assusta é fato que, desde o começo, você sabe que as vítimas não têm a menor chance contra o tal vilão, por mais que fujam e por mais que lutem - ao contrário dos já citados Jason e Freddy, que tomam o maior cacete de qualquer
gatinha boboca e peituda.
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Logo, a historinha é a mesma que já foi vista dezenas, talvez centenas de vezes em outros slasher movies. O que realmente atrai é a forma como ela é narrada aqui, com extrema violência ( HAUTE TENSION talvez seja o filme mais sangrento e chocante entre as produções recentes) e seqüências de suspense que realmente funcionam, mesmo aquelas mais clichê - como a da menina indefesa que se esconde do assassino num banheiro deserto e ele vai se aproximando, abrindo lentamente as portas dos sanitários em busca da sua vítima. Sim, eu sei que você já viu esta mesma cena um milhão de vezes em outros filmes. Mas acredite: aqui você realmente vai roer as unhas! Em tradução literal, HAUTE TENSION tornaria-se "Alta Tensão" (será lançado com o título HIGH TENSION nos Estados Unidos). |
E não se trata de propaganda enganosa: o filme cumpre exatamente o que promete - graças, principalmente, à habilidade do jovem diretor parisiense Aja, que tem apenas 27 anos de idade, apenas um a mais do que este que vos escreve!
O pesadelo começa com Marie (a bonita belga Cécile De France) acordando de um sono intranqüilo, no banco do carro conduzido pela amiga Alex (Maïwenn Le Besco). Elas são colegas de faculdade que estão dirigindo com destino ao interior de uma cidadezinha rural francesa, onde os pais de Alex têm um casarão. O objetivo é passar um final de semana longe da civilização para estudar. Mas, como desconfiamos desde o início, Marie também tem segundas intenções relacionadas à amiga, por quem aparenta ser apaixonada. Enquanto o casal de garotas dirige, o cineasta nos conduz, em um corte rápido, a um furgão velho e enferrujado estacionado nas cercanias de uma plantação de milho. Ouvimos gemidos de um homem sentado no banco do motorista, que parece estar passando por uma prazerosa sessão de sexo oral.  | |
Então, subitamente, o tal homem simplesmente ergue a cabeça decepada de uma mulher e atira para fora da janela do carro. Sim, este é o vilão do filme. E acredite: esta seqüência grosseira de sexo é o mais inocente dos atos do psicopata!!!
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Já é noite quando o carro das meninas chega ao casarão, um daqueles afastados de tudo e todos, onde obter ajuda é impossível no caso de uma situação de emergência - como a que logo irá se estabelecer. A apresentação burocrática dos personagens-vítimas é rápida como convém a este tipo de filme: Alex apresenta Marie aos seus pais, que nem nome têm (Andrei Finti e Oana Pellea), e ao seu irmão menor, um garotinho chamado Tom (Marco Claudiu Pascu). Em seguida, a jovem mostra à colega seu quarto. É tarde da noite e elas resolvem ir dormir. Marie ainda sai da casa para dar uma voltinha e fumar um cigarro do lado de fora, numa escuridão arrepiante. Ela enxerga, no andar de cima, Alex tomando banho de chuveiro e fica completamente excitada. |
Marie então volta para o quarto e se masturba (uma cena mostrada sem vergonha pela câmera do diretor), enquanto vemos um veículo se aproximando lentamente do casarão. Sim, é aquele mesmo furgão enferrujado do psicopata. Neste momento, você já sabe que o pior vem pela frente. Já sabe que quase todas as pessoas na casa vão morrer ou, pelo menos, sofrer bastante. Enfim, pode se acomodar no sofá e preparar-se para uma sessão de sadismo e violência como há um bom tempo o cinema não mostra. Marque no relógio: aos 23 minutos de projeção,
HAUTE TENSION se transforma no mais sádico e angustiante filme de suspense dos últimos anos. Se você é daqueles que se impressiona facilmente, ou está com a namorada inocente do lado, dê um Stop e mude imediatamente para o novo filme do Harry Potter ou para o
13 FANTASMAS!!!


Mas voltando ao roteiro: enquanto o furgão se aproxima, Marie está acabando seu ato solitário. Alguém toca a campainha. O pai de Alex desce para ver quem é. Inocentemente, como a maioria dos habitantes do interior, abre a porta para aquele homem corpulento e desconhecido, vestido como mecânico, com sujeira preta embaixo das unhas. Só que a porta nem bem se abre e o dono da casa é logo atingido com uma navalhada bem no meio do rosto, desferida pelo assassino. Da janela do quarto de hóspedes, no andar superior, Marie observa tudo e percebe o que está acontecendo. E agora, o que fazer? Enquanto ela hesita, o psicopata dá um fim no pai de Alex da maneira mais bizarra possível: após imobilizar a cabeça da vítima no corrimão da escada, ele empurra uma pesada cômoda em direção ao homem, torcendo brutalmente e decepando sua cabeça - uma daquelas cenas que fazem o espectador sentir um arrepio como se a broca do dentista atingisse o nervo do dente.
Quando a esposa da vítima desce as escadas e também encontra o assassino, Marie percebe que terá que agir rápido e com esperteza, se quiser sobreviver. Ao invés de ir acordar Alex e seu irmão, ela pensa apenas na própria sobrevivência. Arruma a colcha sobre a cama onde estava deitada, esconde suas malas e até seca a pia do banheiro, para não deixar qualquer vestígio da sua passagem pelo quarto; logo depois, se esconde embaixo da cama - o lugar preferido por nove em cada dez vítimas de assassinos. Lentamente, com todo o tempo do mundo, o psicopata sobe as escadas para o segundo andar. No sofá, você começa a se contorcer de agonia mais uma vez. Pensa em Alex e seu irmãozinho inocente dormindo, indefesos, sem nem imaginar o perigo que caminha livremente no interior de sua casa. O local agora pertence ao assassino.
Primeiro, ele entra no quarto de hóspedes. Embaixo da cama, Marie tranca a respiração. O homem dá uma rápida olhada no local e percebe que não há ninguém ali. Então sai rumo aos outros cômodos. Do seu esconderijo, Marie escuta os gritos desesperados e abafados da amiga. Ela resolve, então, sair de baixo da cama para pedir ajuda. Corre até o quarto dos pais de Alex, mas, antes que possa encontrar o telefone, escuta passos no corredor. Desesperada, a jovem se esconde no armário. É a mãe de Alex, ferida, que entra e cambaleia na direção da porta do armário, sendo lentamente perseguida pelo assassino e sua navalha. Novamente, o espectador fica naquela agonia: irá a moribunda entregar o esconderijo da garota? Felizmente (?), o psicopata agarra a mulher ferida pelos cabelos antes que ela abra a porta, puxando sua cabeça para trás; em seguida, de forma metódica, abre a garganta da mulher de uma orelha à outra usando a navalha - outro momento realista, que não economiza no sangue. Quando o corpo da mamãe cai em frente ao armário, Marie, desesperada, ainda escuta os grunhidos do assassino e os sons da navalha retalhando a carne da vítima.


A garota novamente tranca a respiração até que o vilão saia do quarto. Então, quando deixa o esconderijo, é agarrada pela mãe de Alex, ainda viva, apesar de retalhada (teve até uma das mãos decepada!). A velha apenas balbucia:
"Por quê?", antes de morrer engasgada no próprio sangue. Desesperada, Marie trata de correr para fora da casa. De lá, vê o assassino colocando Alex, amarrada e amordaçada, na parte de trás do seu furgão. Ele se prepara para deixar a casa. Marie descobre que o fio de telefone foi cortado e não tem como pedir ajuda. O que fazer? Na hora, sem pensar, ela faz a última coisa que qualquer um faria: entra na traseira do furgão junto com Alex, esperando por uma chance para libertar a amiga.
A partir de então,
HAUTE TENSION vira uma viagem sem escalas direto para o inferno - e dedicada a destroçar os nervos do espectador de forma gradual. Se você ainda não se contorceu nenhuma vez durante o tempo de projeção (e olha que estamos só na primeira meia hora!!!), prepare-se para ficar verdadeiramente agoniado com o que vai ver. Abandonando temporariamente a parte sangüinolenta, o diretor Aja passa a se concentrar totalmente no suspense, construindo uma situação simples mas não menos difícil (Marie tentando salvar a amiga das garras do psicopata, que por sua vez não sabe da existência da amiga da garota). Mesmo um iniciante no riscado, Aja cumpre sua obrigação com maestria, quase como um
"Hitchcock hardcore".
Comprova-se o talento do rapaz logo cedo, quando o assassino, após um tempo na estrada, estaciona seu furgão num daqueles postos de gasolina 24 horas. Marie consegue sair do furgão sem que ele veja e corre para a lojinha de conveniência, pedindo para o funcionário telefonar para a polícia. Porém, enquanto o assustado rapaz faz centenas de perguntas para aquela jovem ensangüentada e desesperada que entrou em seu estabelecimento, o assassino aproxima-se do lugar para pagar a conta, novamente deixando o espectador com os pêlos do corpo em pé, imaginando que a qualquer momento o vilão poderá descobrir a existência da moça. Neste caso, o que a indefesa Marie - que de heroína hollywoodiana não tem nada - tem a fazer contra o brutal assassino e sua afiada navalha?


Com a situação do posto de gasolina, o filme passa a se desenvolver de susto em susto, sempre agarrando o espectador pelos cabelos e mantendo-o de olho grudado na tela, sem respirar. Segue-se a tradicional cena do banheiro, que eu já comentei no início do texto, e uma perseguição automobilística pelo bosque. Antes que a noite acabe, muito sangue ainda irá rolar, quando reviravoltas transformam caçador em presa e vice-versa. Infelizmente (sempre tem um
"porém"), este brilhante exercício de suspense termina de forma surpreendente e inesperada, à la M. Night Shyamalan. A diferença é que o tal final é inesperadamente e surpreendentemente ruim: a revelação não se encaixa de forma alguma à trama que acabamos de ver, e o diretor nem se preocupa em explicá-la. Prepare-se para ficar enfurecido e com vontade de chutar a TV! Como curiosidade, toda a história se desenrola em algumas horas de uma mesma noite - na verdade, as coisas acontecem praticamente em tempo-real.
Claro que o final frustrante é pouco, muito pouco, para desqualificar este que já se inscreve entre os meus filmes preferidos. É um suspense que pode usar este rótulo sem a menor vergonha, deixando no chinelo bobagens que tentam (só tentam) ser chocantes, sérias e tensas, como o recente remake de
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA - ironicamente, realizado no mesmo ano de 2003 que
HAUTE TENSION . Acredite: o Leatherface do século 21, o roteirista e o diretor daquele filme têm muito que aprender com
HAUTE TENSION . Aliás, boa parte dos produtores americanos do gênero deveriam imediatamente assistir
HAUTE TENSION para pelo menos copiar algo de decente de seus filmes, antes que o público encha o saco dos remakes de filmes orientais. Todo o filme se desenvolve brutal e descontrolado, sem um pingo de humor para aliviar a tensão que envolve completamente o espectador.




Não precisa ser muito brilhante para perceber que o roteiro desta pérola é raso como um pires. Mesmo que minha narração tenha se alongado um pouquinho (é a emoção!), o enredo pode ser resumido a meia dúzia de palavras:
"garotas vão passar o fim de semana em casa de campo e são atacadas por assassino psicopata". Ou seja: é praticamente a
"fórmula" que permeia todos os slasher movies feitos nos últimos 30 anos. No caso, um assassino misterioso aparece, mata todo mundo e persegue os únicos sobreviventes, que precisam fugir e/ou lutar pela sua vida. A diferença entre
HAUTE TENSION e todos os outros slasher movies feitos neste tempo todo é uma só: TALENTO. O objetivo de um bom filme de horror é, se não assustar, pelo menos deixar o espectador desconfortável. E isso não se faz necessariamente com doses maciças de sangue e tripas, mas também manipulando de forma criativa os sentimentos do espectador.
HAUTE TENSION é a prova de que a
"fórmula" pode ser usada pela milésima vez e ainda assustar. O diretor mata todos os personagens secundários na primeira meia hora e depois se dedica a acompanhar o desespero das duas únicas sobreviventes - mais ou menos como fez Tobe Hooper n'
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA original, de 1974. Não tem meio-termo: ou você ficará incomodado pela profusão de efeitos sangrentos ou, se já é vacinado contra isso, com as situações bem construídas e com o suspense impecável na perseguição assassino/vítima. Alguns críticos até concordam que
HAUTE TENSION é aquele
"sopro de renovação" no gênero que todo fã de horror vem pedindo há décadas. Trata-se de um verdadeiro retorno às produções mais sérias, tensas e sangrentas do final dos anos 70 e começo dos 80, antes dos adolescentes bobalhões, roteiros engraçadinhos e efeitos digitais tomarem conta do cinema de horror.


Claro que ajuda ter, na equipe técnica, o lendário maquiador italiano Gianetto de Rossi, aquele mesmo que aprontou poucas e boas ao lado de Lucio Fulci em filmes como
THE BEYOND e
ZOMBIE. Se trabalhando com uma merreca e com um mínimo de condições, como acontecia no cinema italiano oitentista, o cara já era bom, imagine o que ele não faz agora, que tem à disposição mais grana e os melhores recursos, depois de um avanço significativo na área de efeitos especiais e maquiagem. E, sempre é bom frisar,
HAUTE TENSION não usa qualquer tipo de computação gráfica, só sangue falso e látex, como convém a um bom filme de horror. O resultado é um banho de sangue daqueles, com gargantas cortadas que parecem reais, a incrível cena da decapitação, uma pessoa sendo dilacerada com uma serra elétrica circular e, no momento mais forte do filme, um cara sendo atingido bem no meio do rosto com um bastão cheio de arame farpado enrolado. Brrrrrrr... É preciso ter sangue de barata para não se impressionar com estas cenas. Fico imaginando quais delas serão cortadas no lançamento de
HAUTE TENSION nos cinemas americanos. Talvez um pouco de todas...
E o que também ajuda a transformar
HAUTE TENSION num filme que convence é o empenhado elenco. Cécile, como a frágil heroína Marie, é a encarnação perfeita do que qualquer um de nós faria se estivesse na mesma situação que sua personagem: ela sinceramente não sabe o que fazer. Inicialmente, só pensa em salvar a própria pele, quando o assassino entra na casa; depois, quando as coisas fogem do controle, ela só quer buscar ajuda; até que finalmente fica tão furiosa com a situação que resolve salvar sua amiga seqüestrada usando todos os meios ao seu alcance. Neste ponto, transforma-se numa verdadeira
"guerreira selvagem", perdendo os traços de humanidade e só pensando em devolver os abusos ao vilão na mesma moeda. Maïwenn, como Alex, a grande vítima do psicopata, também tem uma atuação surpreendente, parecendo estar realmente sofrendo com as agressões do vilão. Sua participação inicialmente resume-se a mostrar o desespero que qualquer pessoa na mesma situação mostraria, esvaindo-se em choro e gritos - o que torna irremediavelmente patéticas as atuações de menininhas como Neve Campbell nos filmes da série
PÂNICO, onde a mocinha é perseguida pelo cruel assassino mas sempre mantém um sorrisinho no rosto. Cécile e Maïwenn ainda são muito bonitas, para a alegria do público masculino.




Claro que eu não poderia deixar de citar a grande alma do filme: Philippe Nahon, com 65 anos de idade, interpretando o vilão anônimo, que nos créditos finais é identificado apenas como
"Le Tueur". Olhos atentos irão reconhecer Nahon de outro chocante filme francês recente, o pretensioso
IRREVERSÍVEL, onde ele aparecia na introdução vestindo apenas uma cueca e falando abobrinhas filosóficas. Em
HAUTE TENSION , Nahon interpreta o assassino mais assustador do cinema de horror da nova geração, sem precisar de máscaras ou de um rosto deformado. É isso que os produtores americanos nunca conseguirão engolir: uma pessoa
"normal" como vilão é algo muito mais horripilante do que um monstro qualquer com a cara deformada e uma máscara de pele humana, como o Leatherface recauchutado do remake de
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA. Vestido apenas com um macacão sujo e um bonezinho, e com suas unhas sujas de preto, Nahon é a mais perfeita encarnação da maldade humana. Você não vai encontrar Jason ou Michael Myers numa noite escura, mas com certeza pode cruzar com um escroto como
"Le Tueur", com sua navalha afiada e sem qualquer tipo de sentimento além do sangue-frio. Na verdade, tudo que o vilão quer é exterminar brutalmente e da forma mais sangrenta possível todas as pessoas que cruzam à sua frente. Nunca fala e, quando o faz, é para dizer banalidades, como um perfeito psicopata da vida real. Com certeza, ganha com méritos o troféu de
"vilão mais odioso do cinema recente". Se eu encontrasse o ator Philippe Nahon na rua, não pensaria duas vezes em dar-lhe um belo soco no nariz, só pela sensação de revolta que seu personagem passa em
HAUTE TENSION . E mesmo a reviravolta final frustrante não consegue diminuir este sentimento de revolta...
Também temos que acender uma vela para o diretor Alexandre Aja. Fã de filmes hardcore, como aqueles produzidos na Itália nos bons tempos, e adorador confesso de cineastas como Lucio Fulci e Ruggero Deodato, Aja constrói um clima impecável de tensão e violência, que não poupa nem crianças pequenas. Desta forma, mesmo quando ele entope a tela de clichês (garota escondida embaixo da cama, fio do telefone cortado), nós não nos importamos porque já fomos sugados de maneira irrecuperável para dentro da trama. Este é o grande filme do cineasta, que até então só havia dirigido um curta e um pouco comentado filme de ficção científica,
FURIA, de 1999. O sucesso e os elogios apaixonados a
HAUTE TENSION abriram definitivamente as portas da esperança para o jovem diretor, que já foi
"importado" para os Estados Unidos e colocado no comando do remake de
QUADRILHA DE SÁDICOS, aquele feito por Wes Craven na década de 70. Ninguém mais agüenta falar em remakes, mas, em entrevistas, Aja já se declarou um fã apaixonado do original e garante que não irá arruinar um de seus filmes preferidos. Espera-se apenas que o estúdio não tente se interferir no trabalho do diretor, que se repetir o que mostrou em
HAUTE TENSION poderá fazer bonito reinventando o clássico de Craven.




O mais curioso é que eu li alguns textos sobre o filme na Internet e acabei descobrindo que algumas pessoas alegam que o seu roteiro seria plagiado de
INTENSITY, um livro do autor americano Dean R. Koontz. Com exceção da reviravolta final, estas pessoas juram que
HAUTE TENSION é praticamente uma cópia carbono do texto, inclusive na descrição dos personagens (a heroína de Koontz também teria cabelo curto no livro), nos cenários (casa, posto de gasolina) e mesmo em alguns detalhes - tipo Marie limpando qualquer sinal de que estava dormindo no quarto de hóspedes para que o vilão não soubesse de sua presença ali. Como não li
INTENSITY - e, sinceramente, nunca havia ouvido falar desta obra -, não vou tomar partido nesta discussão. Mas o diretor Aja chegou a admitir que leu, sim, o livro, quando foi confrontado por alguns fãs que cobravam uma explicação para as semelhanças entre filme e texto - até porque Koontz não ganha nem uma mençãozinha que seja nos créditos iniciais ou finais do filme. Esquisito...
Só para encerrar:
HAUTE TENSION , repito, é um dos grandes filmes recentes do gênero. Se você só quiser ver um filme de horror/suspense este ano, cuide para que seja este. Infelizmente, ele não deverá ser lançado por aqui tão cedo - e quando for, certamente será na mesma versão cortada que estreará nos States. Por isso, fica a recomendação: quem tiver a chance, não deixe de baixar o filme da Internet, de preferência a versão que diz
"Uncut French DVD", para não acabar pegando algum arquivo todo cortado. Talvez o filme até consiga manter a tensão e o suspense mesmo sem as cenas mais sangrentas; entretanto, seria um verdadeiro crime apreciar
HAUTE TENSION sem a
"cereja-do-bolo", que são os efeitos de Gianetto de Rossi.
Uma única recomendação: quando for ver o filme, prepare-se para sofrer como raras vezes sofreu vendo um filme do gênero. Este tem a habilidade rara de colocar o espectador dentro da ação, como se também estivesse se escondendo e fugindo do assassino, praticamente sentindo as mesmas coisas que os personagens sentem. Se o seu coração não bater mais forte durante
HAUTE TENSION , talvez esteja na hora de procurar um cardiologista. Ou, talvez, você seja membro atuante de algum grupo de extermínio. Somente assim para não deixar-se envolver por este ótimo suspense, que é alta tensão direto na veia, como promete - e cumpre - o título original. Se depender só de
HAUTE TENSION , os bons tempos do cinema de horror finalmente voltaram!!!
Felipe M.Guerra
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HAUTE TENSION (Haute Tension, França, 2003). 91 minutos
Direção: Alexandre Aja
Roteiro: Alexandre Aja; Grégory Levasseur
Produção: Alexandre Arcady; Robert Benmussa
Música: François Eudes
Fotografia: Maxime Alexandre
Edição: Baxter
Desenho de Produção: Tony Egry
Direção de Arte: Grégory Levasseur
Maquiagem: Giannetto De Rossi
Elenco: Cécile De France (Marie); Maïwenn Le Besco (Alex); Philippe Nahon (Le Tueur); Franck Khalfoun (Jimmy); Andrei Finti (pai de Alex); Oana Pellea (mãe de Alex); Marco Claudiu Pascu (Tom); Jean-Claude de Goros; Bogdan Uritescu; Gabriel Spahiu
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