HELLRAISER: INFERNO

por Filipe Falcão

Quando um filme é lançado e faz muito sucesso, de público e crítica, é comum que seja criado um mito em torno de tal película, que muitas vezes passa a ser tratada como um clássico, e por tal motivo, uma obra que não possa ser mexida. Desta forma, a palavra “seqüência” é capaz de provocar mais medo do que qualquer cena já vista. Analisando de forma geral, as famosas “parte 2” raramente conseguem ser tão boas quanto o original.

Desta forma, a idéia de clássico do original ganha ainda mais força. Certa vez, o produtor David O. Selznick declarou que “não importaria o quão bom meus filmes futuros pudessem ser. Todos seriam comparados e julgados inferiores ao ...E O Vento Levou”, que ele produziu em 1939. Se trouxermos tal afirmação para alguns filmes de terror, podemos fazer uma comparação com certas seqüências que não são necessariamente ruins, mas que, apenas pelo fato de pertencerem à determinada série e de não seguirem a mesma linha narrativa, já são tachados como inferiores. Neste caso, podemos utilizar a expressão “diferentes”.
De todos os possíveis exemplos desta teoria, talvez um dos mais injustiçados e incompreendidos filmes responda pelo nome de Hellraiser: Inferno (Hellraiser: Inferno). Lançado no ano 2000, a película de Scott Derrickson é um bom filme, mas que foi incompreendido por parte dos fãs da série por um único motivo: não ser um clone da produção original.



Clássico indiscutível do gênero, Hellraiser – Renascido do Inferno (Hellraiser, 1987) é uma das maiores referências do cinema de horror da década de 1980. Com o sucesso, Clive Baker carimbou seu nome no hall da fama dos filmes de terror. Uma seqüência foi lançada um ano depois e os elementos do primeiro filme foram expandidos em uma trama que dava continuidade direta aos eventos vistos no anterior. Podemos dizer que Hellraiser 1 e 2 são praticamente uma história única.

Mas se já é difícil para um raio cair duas vezes no mesmo lugar, imaginem três. Os dois filmes seguintes da franquia Hellraiser tentaram seguir o formato já explorado nos episódios anteriores. Desta forma, mesmo sendo tramas que pareçam diferentes, no fundo tínhamos a mesma linha narrativa: personagens enfrentando Pinhead (Doug Bradley), que passou a ser o vilão principal.



Quando um Hellraiser 5 estava sendo produzido, os roteiristas Paul Harris Boardman e Scott Derrickson poderiam ter seguido a mesma linha já vista nos primeiros filmes. No entanto, a dupla decidiu seguir um caminho mais arriscado, que seria o de dar um novo rumo para a série. O resultado foi bastante diferente, quando comparado com os quatro filmes anteriores, e muita gente pode ter se assustado (de forma negativa) com isso. Se pensarmos que os fãs da série estavam acostumados com um tipo de enredo, talvez eles tenham até se perguntado onde estavam os elementos conhecidos do grande público, quando assistiram ao filme pela primeira vez. No entanto, tais características estão presentes no Hellraiser 5... Só estão organizados de uma maneira bem diferente.

MISTÉRIOS

Hellraiser: Inferno nos apresenta ao personagem Joseph Thorne (Graig Sheffer, de Turbulência 2). Ele é um policial corrupto de Los Angeles que mergulha em um mundo de mistérios e mortes quando tenta solucionar o caso de uma criança desaparecida. Tudo parece estar relacionado com um estranho cubo mágico que ele adquiriu.



Ao ler tal sinopse, talvez a maioria das pessoas tenha imaginado que Joseph iria abrir a caixa, ser perseguido pelos cenobitas ou tragado pelas correntes para o inferno. Não exatamente, pois a dupla de roteiristas que assina este quinto exemplar da franquia optou por um caminho oposto a tudo isso, que vai mostrar uma batalha do policial para compreender os mistérios que passam a fazer parte da vida dele, ao mesmo tempo em que tenta salvar a vida da criança.

Estranhas mortes começam a acontecer e Joseph precisa solucionar o mistério para não ser a próxima vida. A solução desta charada e a conclusão da trama são tão fortes quanto o destino de Frank Cotton no original. A diferença é que em Inferno, tudo é mais voltado para o lado psicológico, o que gera resultados bastante aterradores. Vale lembrar aqui a citação da personagem de Catherine Tramell, em Instinto Selvagem 2. Tudo que é interessante, começa na mente.



Não que este Hellraiser 5 seja um filme apenas psicológico, mas vai ser nesse campo que parte da ação será desenvolvida. Acompanhamos Joseph como uma testemunha ocular e com as mesmas informações que ele tem referente ao que está acontecendo. A lógica apresentada pelo roteiro é de jogar o personagem, assim como o telespectador, neste emaranhado de mistérios enquanto o tempo está correndo. No percurso, vamos recolhendo algumas pistas que farão sentido ao final da trama.

CORAGEM

Mudar o foco de uma trama que leva o nome Hellraiser foi algo corajoso. Por que repetir o que estava sendo feito se existia uma outra opção? No entanto, parte dos fãs da série talvez tivesse preferido o velho feijão com arroz. Na verdade, o segredo para gostar de Inferno é esquecer o que foi visto nos filmes anteriores e se deixar levar pela trama.



E se o filme pega leve em violência, quando comparado com o original e a parte 2, temos um ótimo trabalho para quem gosta de produções obscuras e macabras. Os cenários são simples, como casas, corredores e quartos, mas tudo foi criado com um formato fora do real, seja simplesmente pela iluminação ou mesmo pelos objetos de cena. Soluções baratas e práticas.

Além disso, os cenobitas voltam a ser apenas fios condutores e não vilões principais como transformaram Pinhead nos Hellraisers 3 e 4. Aqui, tais seres estão tão macabros quanto no filme original, com destaque para duas fêmeas, que são ao mesmo tempo macabras e sensuais. Não que alguém vá querer ir para a cama com elas, mas os cenobitas sempre utilizaram elementos simbólicos que podem remeter ao sexo. O prazer, a indumentária preta e de couro... Em Inferno, elas chegam a sussurrarem enquanto atormentam Joseph.



No entanto, tais características, que para alguns foram motivo de elogio, não foram tão bem recebidas por outras pessoas. Em Inferno, não temos a mocinha bonitinha que é vítima dos cenobitas feios. O herói aqui é um policial corrupto que trai a esposa, engana os amigos e não liga para os pais idosos. Trabalhar no plano psicológico com seqüências que nem sempre fazem sentido também pode ter prejudicado o interesse de alguns fãs, enquanto a pequena participação dos cenobitas também possa ter deixado a desejar. Um outro detalhe que não pode ser esquecido é o baixo orçamento de Inferno. Diz a lenda que a produção foi tão barata que utilizou resto de material não aproveitado da Hellraiser 4, de quatro anos antes.



No entanto, as soluções encontradas pelo diretor Derrickson foram bem criativas. Aliás, Scott Derrickson e Paul Harris Boardman são dois nomes que, mesmo com um currículo pequeno, merecem respeito. Em 2005, eles fizeram o excelente O Exorcismo de Emily Rose.

Por todos os motivos mencionados acima, não precisa fugir deste filme apenas porque quase todo mundo já falou mal dele. Inferno pode não ser o clássico que o Hellraiser original indiscutivelmente é, mas se trata de uma produção que merece respeito principalmente por não ser um clone do que já havia sido feito antes. No entanto, o formato de Inferno também foi vítima de plágio através dos filmes seguintes da série. Mas isso, já é uma outra história.



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HELLRAISER: INFERNO (Hellraiser: Inferno, EUA, 2000). Duração: 99 minutos.
Direção: Scott Derrickson
Roteiro: Paul Harris Boardman e Scott Derrickson, baseado em personagens criados por Clive Barker
Música: Walter Werzowa
Fotografia: Nathan Hope
Edição: Kirk M. Morri
Desenho de Produção: Deborah Raymond
Direção de Arte: Andrew Max Cahn
Figurino: lia Schklair
Maquiagem:Wendi Lynn Allison; Justin Ditter; Anna Harasimiak; Solina Tabrizi
Elenco: Craig Sheffer (Det. Joseph Thorne); Nicholas Turturro (Det. Tony Nenonen); James Remar (Dr. Paul Gregory); Doug Bradley (Pinhead); Nicholas Sadler (Bernie); Noelle Evans (Melanie Thorne); Lindsay Taylor (Chloe); Matt George (Leon Gaultier); Michael Shamus Wiles (Mr. Parmagi); Sasha Barrese (Daphne Sharp); Kathryn Joosten (Mãe); Jessica Elliot; Carmen Argenziano; Christopher Neiman; Christopher Kriesa

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