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Ao longo de quase duas décadas de existência, a série Hellraiser passou de uma das melhores do gênero terror dos anos 80 para produções sofríveis nos recentes exemplares da saga. Atualmente, a franquia pode ser claramente dividida entre os filmes que tiveram o envolvimento do seu criador, Clive Barker, na produção, o que resultou em bons filmes, e nas obras sem a participação do mesmo, que ocasionaram seqüências fracas e que dificilmente conseguem prender a atenção de alguém. O sétimo filme da saga, Hellraiser: O Retorno dos Mortos (Hellraiser: Deader, 2005), acaba de chegar no mercado nacional no formato VHS e DVD e serve apenas para confirmar que a série está vagando perdida e sem rumo pelo inferno dos filmes fracos, sem criatividades e roteiros fracos.
Quando o primeiro capítulo da saga, Hellraiser: Renascido do Inferno (Hellraiser, 1987) foi lançado, estabeleceu um novo patamar no gênero terror da década de 80. Baseado na série de romances batizada de Livros de Sangue, de autoria do inglês Clive Barker, que também dirigiu a fita, o filme apresentou aos apreciadores do gênero a história de uma misteriosa caixa, em formato de quebra-cabeça que, quando aberta, leva a um universo habitado por |
criaturas sedentas por sofrimento humano, os Cenobitas. O filme fez sucesso internacional pelo seu terror explícito, fortes cenas de mutilação, sadomasoquismo e violência, além de possuir um roteiro bem escrito, direção segura e elenco competente. A obra também serviu para introduzir novos vilões ao gênero, os cenobitas, em especial o misterioso Pinhead (Doug Bradley), cuja face é coberta por pregos, que com o passar das seqüências, foi alçado a principal marca da série.




Com o sucesso do filme de estréia, já no ano seguinte foi produzida uma continuação batizada de
Hellraiser 2: Renascido do Inferno (Hellbound: Hellraiser II, 1988), que fez sucesso de crítica e público por manter os principais elementos do filme original. Desta vez, no cargo de produtor-executivo, Barker concebeu uma história que realmente se encaixava e funcionava como seqüência. No entanto, os filmes realizados após este segundo capítulo não tiveram o mesmo resultado.
Os dois filmes seguintes,
Hellraiser 3, Inferno na Terra (Hellraiser III: Hell on Earth, 1992) e
Hellraiser: Herança Maldita (Hellraiser: Bloodline, 1996), também contaram com a participação de Barker como produtor executivo, porém, já não conseguiram ser tão bons quanto os capítulos 1 e 2. Após o quarto filme, Baker saiu definitivamente da saga . Em várias entrevistas, o autor deixou claro que suas idéias para a franquia haviam acabado.
“A série não me pertence mais. Ela é dos fãs e dos profissionais que trabalham nela agora”, explica Barker. Mal sabia ele o caminho que tais profissionais dariam para sua criação após seu desligamento da saga... Desde então, os filmes que foram produzidos são marcados pela falta de bons roteiros e quase nulos de situações de terror e violência, passando a apostar apenas no susto fácil.
O sétimo filme da franquia,
Hellraiser: O Retorno dos Mortos, enquadra-se perfeitamente nestes padrões que a série adquiriu após a saída de Baker. A nova trama conta a história de uma jornalista britânica, Amy Klein (a limitada Kari Wuhrer, de
Anaconda, 1997), que recebe uma fita de vídeo que mostra os rituais de uma estranha seita, chamada de
Deaders, que de acordo com as imagens, são capazes de trazer os mortos de volta à vida. Convencida de que o material rende uma boa matéria, a repórter segue para o local de origem da fita, a Romênia, em busca de respostas referentes a tal seita e do seu suposto líder, um homem conhecido como Winter (o fraco Paul Rhys,
Chaplin, 1992). Com o desenrolar da trama, Amy vai chegar até a enigmática caixa e a sinistra figura de Pinhead.




Este
Hellraiser número 7 consegue ser de longe o mais fraco filme da série, aliás, desde a saída de Baker da franquia que as produções seguintes passaram a seguir um padrão que deixava de lado os elementos de terror e violência para apostar mais no formato de um thriller com situações de mistérios envolvendo os personagens principais da vez. Assistindo aos
capítulos 5 (Hellraiser: Inferno, 2000),
6 (Hellraiser: Caçador do Inferno, 2002) e este 7, tem-se a impressão de serem na verdade episódios de uma série para televisão sobre o universo
Hellraiser, tamanha a semelhança dos seus formatos, onde os personagens se vêem presos em mistérios aparentemente sem solução ao terem tido contato com a misteriosa caixa. Os próprios
Cenobitas, que são um outro elemento fundamental da série, quase ou nada fazem desde o quarto filme, com exceção de Pinhead, que aparece em duas ou três cenas para falar frases de efeito e dar a moral da história, quase como a caveirinha da série
Contos da Cripta (Tales from the Crypt, 1989). No entanto, o problema maior continua sendo a ausência de bons roteiros e a falta de cuidados com a produção.
Para se ter uma idéia do tamanho do problema neste novo
Hellraiser, o roteiro escrito por Neal Marshall (
13 Fantasmas, 2001) era originalmente um enredo independente e sem possuir nenhuma ligação com a série. Tudo mudou quando a produtora detentora dos direitos da franquia, a Dimension, decidiu fazer uma outra seqüência para a saga e a história desenvolvida por Marshall foi
“adaptada” para que funcionasse como continuação da série. Dá para imaginar que boa coisa não saiu, aliás, o roteiro consegue ser também o mais sem lógica de toda a série, apresentando uma história sem pé nem cabeça e situações que beiram ao ridículo, procurando criar algum mistério na trama, porém, sem nenhum sucesso. Para piorar a história, tentou-se criar um gancho completamente desnecessário com um personagem pouco conhecido do quarto filme, o artesão LaMerchant (feito no
Hellraiser 4 por Bruce Ramsay,
Vivos, 1993). Quem? Esquece, esse personagem não tem importância alguma.




E engana-se quem pensa que a produção foi para a Romênia com a intenção de utilizar um cenário diferente. O país foi o escolhido pelo motivo de ser uma opção mais barata para a produção, que também é bastante fraca. Importante observar que poucos lugares da cidade foram aproveitados e que os cenários internos mais parecem feitos de papelão, em especial o estranho local onde os Deaders se encontram. Os cuidados técnicos, ou a falta deles, também é extremamente visível no filme como nas seqüências em que aparecem as correntes que são a marca da série e que neste episódio são feitas visivelmente de um material plástico, dando inclusive um aspecto muito estranho para as mesmas, que aliás, estão gordas.
Importante lembrar que
Hellraiser: O Retorno dos Mortos foi lançado diretamente em vídeo, ou seja, teve um orçamento bastante modesto para a produção, sendo inclusive gravado em apenas 25 dias por questões financeiras, porém, pouco dinheiro não significa propriamente filmes fracos. Algumas das boas produções do gênero foram realizadas com orçamentos pequenos, porém sendo apoiadas em bons roteiros e direção segura, algo que definitivamente falta neste
Hellraiser. Aliás, o quesito direção é algo que vem preocupando os fãs da série, pois pela segunda vez consecutiva o cargo é ocupado pelo limitado Rick Bota, que foi responsável pelo filme anterior da franquia, o também fraco
Hellraiser: Caçador do Inferno (Hellraiser: Hellseeker, 2002).
Aliás, Bota também é o responsável pelo oitavo,
Hellraiser: O Mundo do Inferno. Em recente entrevista, o diretor falou que o formato deste novo episódio segue os dois trabalhos da série que ele realizou.
“É muito bom fazer estes filmes, pois me divirto bastante”, declarou Bota sobre seu envolvimento na série, mostrando que pelo menos alguém vê na franquia algum tipo de entretenimento. Ou seja, para o futuro os fãs continuam apenas tendo más notícias referentes à série. Na verdade, apenas quem é realmente admirador da mesma deverá alugar
Hellraiser: O Retorno dos Mortos, para que depois de assistir possa se lembrar de como eram bons tais filmes na época em que Clive Barker tinha algum envolvimento nela, diferente de hoje, quando seu nome aparece nos créditos apenas no formato
“Baseado nos personagens criados por Clive Barker”.
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HELLRAISER: O RETORNO DOS MORTOS (Hellraiser: Deader , EUA/Romênia, 2005). Duração: 88 minutos.
Direção: Rick Bota
Roteiro: Tim Day; Neal Marshall Stevens, baseado em personagens criados por Clive Barker
Produção: David S. Greathouse; Ron Schmidt
Música: Lorne Balfe; Henning Lohner
Efeitos Especiais: Ionel Popa
Efeitos Visuais: Chad Goei; Jamison Scott Goei; Sookie Park; Chris Wallace
Maquiagem: Snowy Highfield; Viorel Militaru; Mike J. Regan; Gary J. Tunnicliffe; Claire Jane Vranian
Elenco: Doug Bradley (Pinhead); Kari Wuhrer (Amy Klein); Simon Kunz (Charles Richmond); Paul Rhys (Winter); Georgina Rylance (Marla); Marc Warren (Joey)
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