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O autor Philip K. Dick em vida nunca obteve o merecido reconhecimento por suas obras, diferente de seus colegas escritores de ficção científica como Isaac Asimov e Frank Herbert. Seu trabalho, na época, era lido por um grupo restrito e, conseqüentemente, em termos financeiros, fazia com que ele vivesse de uma maneira mais humilde com sua esposa.
E assim, como infelizmente acontece muitas vezes no decorrer da história, Dick faleceu jovem aos 52 anos, e seu ritmo frenético de escrita (chegando a escrever seis livros por ano) passa a ser admirado apenas em seu post mortem, auxiliado pelas diversas adaptações de seus trabalhos ao cinema, atraindo diretores de renome, entre blockbusters e produções modestas, em uma quantidade sem par no campo da ficção científica. |
No início do mês fevereiro de 2007, quase na comemoração de 25 anos de seu falecimento, chega aos cinemas nacionais uma das adaptações mais fiéis à obra do autor. Com o lançamento recente em DVD, além do deleite visual e narrativo, podemos também acompanhar detalhes da minuciosa e dispendiosa pós-produção deste filme.
O HOMEM DUPLO, baseado no livro "A Scanner Darkly", de 1977, foi bastante comentado na época de seu lançamento muito mais pela tecnologia de animação empregada - que falarei mais adiante - do que pela história em si, o que gerou muitas críticas oscilatórias no seu país de origem, os Estados Unidos. Muitos não compraram a idéia, não entenderam ou não tentaram entender, e o classificaram como "confuso" e "insoso", enquanto outros o chamaram de "cult instantâneo".


De todo modo, é fato que, apesar de ser estrelado por grandes nomes de Hollywood, o diretor e roteirista Richard Linklater (
ESCOLA DE ROCK,
FAST FOOD NATION e indicado para o Oscar de roteiro de
ANTES DO AMANHECER) nunca teve a intenção de fazer um filme para o grande público. Esta forma mais abstrata de contar a história é bem característica do cinema independente, mas apesar dos pesares, mesmo longe de ser um sucesso comercial, o filme conseguiu se pagar nas bilheterias e aumentar o interesse pelas invenções de
Philip K. Dick.
O livro
"A Scanner Darkly" foi uma das poucas obras de Dick que ficaram muito tempo em maturação (levou três anos para ser completada) e foi escrito baseado nas próprias experiências que o autor e seus amigos tiveram com as drogas (aos quais o livro é dedicado, na maioria mortos ou com problemas irreversíveis), representa também a luta contra o mal que estas substancias trazem. E é neste ritmo que o filme trabalha: paranóia, alucinações e diálogos
"viajados", típicos de viciados.


Na história, daqui a sete anos não teremos carros voadores e robôs falantes, a tecnologia está praticamente toda direcionada para as drogas e a espionagem. Tudo o que você faz é filmado e gravado. Nas ruas, a ameaça também se encontra na forma de pílulas vermelhas chamadas de
substância D.
A
substância D, derivada de uma flor, é a droga alucinógena de maior dependência já criada - um dos personagens chega a dizer:
"Ou você é viciado ou nunca tomou” - e mesmo com toda a vigilância disponível, a polícia não conseguiu encontrar e prender os produtores da substância.
Para reverter esta situação, a polícia e a empresa privada de reabilitação
"Novo Caminho" anunciam a ação de um agente infiltrado chamado simplesmente de Fred. O legal é que nem os policiais sabem quem ele é já que na delegacia usa uma roupa que muda a forma de seu rosto e corpo constantemente, além de alterar sua voz. Fred também não tem noção de quem é o seu superior, pois ele usa um traje igual e é conhecido apenas como Hank.


O plano de Fred, cujo nome verdadeiro é Bob Arctor (Keanu Reeves), é comprar grandes quantidades da pílula, com sua fornecedora e namorada Donna Hawthorne (Winona Ryder), e com o passar do tempo levá-las para a fonte da produção.
Bob Arctor vive em uma casa em um pobre subúrbio da Califórnia com seus três amigos também viciados, James Barris (Robert Downey Jr.), Ernie Luckman (Woody Harrelson) e Charles Freck (Rory Cochrane que já havia trabalhado com Linklater em
JOVENS LOUCOS & REBELDES). Barris é um intelectualóide paranóico, Luckman é um cara falador com problemas mentais e Freck foi tão corrompido pela droga que é cheio de tiques nervosos e alucinações freqüentes.
Mas na sua missão Arctor tem um grande problema: está se tornando cada vez mais viciado na
"substância D". O resultado é que sua personalidade está se desvirtuando cada vez mais a ponto de não conseguir mais distinguir entre o papel de usuário e o policial disfarçado. A espiral de sensações vai aos poucos invariavelmente causar danos ao cérebro do homem.


Ao mesmo tempo a crescente paranóia de Barris chega ao extremo dele ir à delegacia acusando Arctor e Donna de fazerem parte de uma organização terrorista, sem saber que o próprio Arctor está a sua frente com sua roupa embaralhadora. Teria fundamento ou é mais uma coisa de viciado? Falar mais é estragar algumas surpresas e entregar sacadas inteligentes do roteiro, então chega. hehehe...
A rotoscopia, forma de animação feita após as filmagens normais em que os atores são
"pintados" quadro a quadro por computador, não se trata de uma técnica exatamente nova: Linklater já havia empregado no anterior
"WALKING LIFE", no entanto torna o visual inebriante e, certas cenas, especialmente as alucinações, bem convincentes que de outra forma não obteriam o mesmo impacto. Além disso, a rotoscopia permite a delineação nos traços físicos dos atores dando um nível de detalhamento excelente, valorizando as interpretações de seus personagens. Só para que tenham uma base da complexidade da tarefa, o filme foi rodado em 23 dias e levou 18 meses de pós-produção, o que atrasou o lançamento da película por bastante tempo.


Claro que o visual é o grande charme da produção e muitos vão assistir apenas por ele, mas o que o espectador não deve deixar a tecnologia empregada ofuscar o que realmente importa: a história.
Produzido por Steven Soderbergh e George Clooney e acompanhado de perto pelas duas filhas de
Philip K. Dick, Richard Linklater se apóia na qualidade do texto e dirige uma obra fiel, o que por si só já é bastante desafiador em se tratando de Dick. Outro ponto importante é que apesar do livro e roteiro se basearem no futuro, a
“ficção” apresentada é menos
“científica” que a convencional, porque pouca diferença existe entre o futuro retratado e o que existe hoje em dia - isto faz com que haja uma correspondência maior do espectador entre o caos do mundo atual e o filme.


Um dos temas centrais da história é a paranóia e o fantástico elenco consegue transmitir perfeitamente este sentimento constante, sendo os destaques: Robert Downey Jr., Woody Harrelson e Rory Cochrane (o melhor do filme na minha opinião). Até o ofuscado Keanu Reeves dignifica seu personagem e a
"rotoscópica" Winona Ryder fica ainda mais linda, hehehe...
O DVD lançado no Brasil possui dois documentários com detalhes sobre as filmagens e bastidores do processo de animação, comentários em áudio dos realizadores (sem legendas) e trailer de cinema - uma boa coleção de extras para o fã que já assistiu nos cinemas - e uma excelente aquisição para admiradores da ficção científica e de
Philip K. Dick.

CURIOSIDADES
- Apesar de filmes muito populares terem sido baseados na obra de
Philip K. Dick,
O HOMEM DUPLO é apenas a segunda adaptação estadunidense de um livro inteiro do autor ao invés de histórias curtas. O primeiro foi
BLADE RUNNER;
- O título original do filme/livro é baseado em um versículo da Bíblia, mais especificamente
I Coríntios 13:12, que diz:
“Porque, agora, nós vemos através de um espelho, obscuramente” (em inglês:
"For now we see through a glass, darkly”);


- Para criar alguns dos visuais da roupa embaralhadora os animadores fizeram rotoscopia de suas próprias feições e do próprio
Philip K. Dick incluindo estes frames na montagem final;
- Antes de Richard Linklater, no início da década de 90, o diretor Terry Gilliam (
MONTY PYTHON EM BUSCA DO CÁLICE SAGRADO,
BRAZIL – O FILME e
OS IRMÃOS GRIMM) tentou fazer sua própria adaptação do livro;


- O roteirista Charlie Kaufman (
BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS) também escreveu sua versão para a história, porém quando o projeto mudou de mãos o script não foi mais considerado;
- As filhas do autor
Philip K. Dick deram ao diretor Linklater uma cópia pessoal da primeira edição do livro quando o filme foi completado;


- David Cronenberg faz uma pequena ponta não creditada, como um dos doutores da clínica de reabilitação
“New Path”.
Gabriel Paixão
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O HOMEM DUPLO (A Scanner Darkly, EUA, 2006). Duração: 100 minutos.
Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater baseado em livro de Philip K. Dick
Produção: Tommy Pallotta; Jonah Smith; Erwin Stoff; Anne Walker-McBay; Palmer West
Produção Executiva: George Clooney; Steven Soderbergh; John Sloss; Jennifer Fox; Ben Cosgrove
Fotografia: Shane F. Kelly
Música: Graham Reynolds
Edição: Sandra Adair
Desenho de Produção: Bruce Curtis
Efeitos Especiais: Steve Krieger; Randy E. Moore; Bob Sabiston; Richard Gordoa
Maquiagem: Darylin Nagy
Elenco: ] Rory Cochrane (Charles Freck); Robert Downey Jr. (James Barris); Keanu Reeves (Bob Arctor); Winona Ryder (Donna Hawthorne); Woody Harrelson (Ernie Luckman); Lisa Marie Newmyer (Connie); Dameon Clarke (Mike); Marco Perella (Donald)
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