PRIMEIROS HOMENS NA LUA, OS

Por E.R.Corrêa

Herbert George Wells (1866-1946) é considerado, ao lado de Jules Verne (1828-1905), um dos pioneiros e mais importantes escritor de ficção científica de todos os tempos. Porém, estes dois magníficos escritores se diferenciam em praticamente todos os aspectos. Jules Verne preferia usar uma narrativa de aventura cientificamente plausível e, sobretudo, instrutiva, fantástica, sem deixar-se envolver muito no contexto social. Wells, no entanto, usava o fundo social como forma de expressão, deixando quase sempre de lado a verossimilhança das especulações científicas, sem, jamais, deixar estas utopias cair no vácuo do inaproveitável.



No entanto, a partir das obras desses escritores, foi dado o impulso inicial a este gênero literário novo, que viria a se solidificar realmente e tornar-se influente em todo o mundo a partir da década de 20, com as primeiras publicações das chamadas "revistas especializadas" (ou magazines).
Wells (que além de romancista prolífico, era historiador notável) publicou uma grande quantidade de livros de ficção científica, e entre os principais destacam-se: A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moureau (1896), O Homem Invisível (1897), A Guerra dos Mundos (1898) e Os Primeiros Homens na Lua (1901). É interessante notar que todas essas obras já foram adaptadas ao cinema, e todas elas tiveram ótimas versões (o que é muito raro na carreira de um escritor, principalmente de ficção científica), não decepcionando a visão fantástica que Wells tinha da literatura ficcional.
Porém, como já disse antes, sua temática literária, apesar de ser utópica e com elementos puros de fantasia e aventura, era marcada também pelo fundo social que continha; sua pretensão, em muitas obras, era usar a ficção científica para tecer um comentário moral sobre as ideologias sociais do Homem e de seu meio. No entanto, paradoxismos a parte, a sua fantástica imaginação criava ambientes e aventuras que faziam suas pretensões serem praticamente esquecidas para dar vazão a total e pura fantasia.



Os Primeiros Homens na Lua parece estar quase que totalmente desvinculado deste propósito social; seu objetivo, creio, é entreter e divertir. Sua primeira adaptação cinematográfica, dirigida por J. V. Leigh, e pertencendo ainda ao cinema mudo, data de 1919. Porém, foi em 1964 que surgiu o pequeno clássico da aventura e ficção científica Os Primeiros Homens na Lua (First Men in the Moon), dirigido por Nathan Juran e produzido pelo genial Charles H. Schneer (responsável por muitas pérolas do cinema fantástico).
Em clima de deliciosa nostalgia, este filme conta a história de três aventureiros desastrados que partem rumo ao nosso inspirador satélite natural. A expedição é comandada pelo professor J. Cavour (Lionel Jeffries), um excêntrico cientista descobridor do "carvourita", uma substância com extremo poder anti-gravitacional, que permitirá aos nossos exploradores partir rumo à Lua. Arnold Bedford (Edward Judd), um fracassado e ambicioso negociante que, na esperança de encontrar riquezas na superfície lunar, já que sua situação financeira na Terra estava péssima, torna-se o relutante assistente do professor. Temos também a companhia de Kate, a decepcionada namorada de Bedford (interpretada pela belíssima Martha Hyer).
Por fim, usando um primitivo veículo espacial e dispondo de roupas espaciais ainda mais improvisadas - trajes submarinos, com direito a escafandro e botas de mergulhador! (lembrem-se que Wells ambientou esta história em 1899, desprezando a temática futurista) - os nossos exploradores chegam à Lua.
As belíssimas e nostálgicas imagens da superfície lunar são impressionantes; àqueles que se deixam viajar por estas paisagens inesquecíveis enquanto temas de fantasia, podem compreender o seu verdadeiro significado. Significado não oculto, mas somente perceptível a certas visões. No entanto, são paisagens simples e pitorescas, já que os recursos visuais na década de 60 eram primitivos e obsoletos - e ainda assim inigualáveis!
Fascinantes também são as criaturas que os exploradores encontram nos subterrâneos da Lua, os selenitas; insetos ultra-organizados vivendo pacificamente durante séculos (talvez uma breve incersão de Wells no lado social, mostrando uma comunidade inteira vivendo unida e pacificamente, sem os degradantes e podres sistemas políticos, ideológicos, sociais e religiosos da Terra).
O grande e inigualável gênio do stop-motion (antigo método de animação cinematográfica que completou, em 1999, 100 anos de existência!) Ray Harryhausen concebeu e deu vida às bizarras e estranhas criaturas lunares, entre elas uma espécie de taturana gigante, que quase almoça Bedford e Cavour, mas que eventualmente virou almoço dos selenitas...
As aventuras ocorridas com os astronautas nos subterrâneos da Lua são antológicas, inclusive o derradeiro momento em que o professor Cavour é interrogado por um selenita superior, uma espécie de chefe da colônia, que deseja saber sobre a cultura e o modo de vida dos terrestres. Este, depois de um prévio e superficial conhecimento (!), preocupado com a possível vinda em massa de humanos com seus característicos e mesquinhos propósitos de dominação e pilhagem, tenta impedir o retorno dos astronautas à Terra, para deixar o segredo da existência da civilização selenita seguro.



Porém, Bedford e Kate conseguem escapar das criaturas e, usando o mesmo recurso anti-gravitacional que os trouxeram à Lua, voltam à Terra, deixando para trás o povo lunar e o professor Cavour, que ficara por vontade própria.
Toda esta estranha aventura é contada muitos anos depois pelo próprio Bedford, agora velho e doente, mas que pode presenciar a nova conquista da Lua, agora por astronautas americanos, russos (?) e ingleses, mostrando ruínas da outrora imponente e organizada civilização lunar, cujo fim fora causado pelo próprio Cavour, que transmitira gripe aos indefesos e frágeis selenitas; justamente ele, que tanto prezava pelo conhecimento e paz com os habitantes da Lua, causara a sua morte.
Este despretencioso filme de ficção científica é, certamente um dos mais nostálgicos também, e seu final melancólico nos faz ficar com pena da fraca e sensível civilização selenita, cujo organismo não apresentava defesa contra o simples vírus da gripe; mostrando que o Homem, mesmo com propósitos bons, acaba causando a destruição. No entanto, sua história é admirável, e a falta de um contexto social, já que se trata de uma obra de Wells, seria impossível. Mas o filme em si, na sua essência mais íntima, não tem outra pretensão a não ser entreter e, principalmente, divertir - o que, sem dúvida nenhuma, faz majestosamente!

E.R.Corrêa


OS PRIMEIROS HOMENS NA LUA (First Men in the Moon, Inglaterra, 1964) Direção: Nathan Juran
Roteiro:Nigel Kneale e Jan Read, a partir de história de HG.Wells
Produção: Charles H. Schneer
Música: Laurie Johnson
Fotografia: Wilkie Cooper
Desenho de Produção: John Blezard
Efeitos Visuais: Ray Harryhausen
Efeitos Especiais: Les Bowie e Kit West
Edição: Maurice Rootes
Elenco: Edward Judd (Arnold Bedford); Martha Hyer (Katherine 'Kate' Callender); Lionel Jeffries (Joseph Cavor); Miles Malleson; Norman Bird (Stuart); Gladys Henson; Hugh McDermott (Richard Challis); Betty McDowall (Margaret Hoy); Paul Carpenter; Erik Chitty



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