A HORA DO ESPANTO

por Bruno C. Martino

"A Hora do Espanto", pelo menos para mim, é um daqueles filmes que quanto mais eu vejo mais divertido fica. E olha que demorei para conseguir assisti-lo, vi sua continuação antes da primeira parte que só consegui ver anos depois num canal local que hoje anda meio morto-vivo, a CNT. Recentemente o DVD do filme (sem extra algum, só o trailer) foi lançado pela Columbia e tive que comprar pois apesar de tudo trazia a saudosa dublagem em mono.
A primeira cena do filme é genial: uma imensa lua e um uivo de lobo já mostram que não vem coisa boa por aí; vemos então um típico bairro suburbano dos Estados Unidos e a câmera em um travelling muito bem executado focaliza a casa de Charley Brewster (William Ragsdale), que no momento está dando uns amassos na namoradinha Amy (Amanda Bearse) -
não parece estar gostando muito já que prefere chamar a atenção do namorado sobre o programa que está passando na TV. Só que Charley mostra ser mais idiota ainda pois a moça fica semi-nua, mas ele prefere ficar investigando com binóculos os novos moradores da casa ao lado. É até compreensível (tá vai, nem tanto mas dê um desconto) já que há dois homens carregando um caixão para dentro da casa! Enquanto isso vários casos de assassinatos são anunciados na TV, e a situação se complica ainda mais quando Charley se dá conta de que uma das pessoas assassinadas estava na casa ao lado um dia antes! Seria uma simples trama de suspense se o tal assassino não fosse um vampiro!
Dando uma de James Stewart em "Janela Indiscreta", Charley passa a vigiar todos os acontecimentos da casa ao lado e de seu dono Jerry Dandrige (Chris Sarandon), que acabara de se mudar juntamente com seu amigo Billy Cole (Jonathan Stark). Em uma noite, percebe que Dandrige tem presas e que está prestes a morder uma moça. Charley fica aterrorizado ainda mais quando se dá conta de que Dandrige o viu! A luta de Charley agora é a de provar que seu vizinho é um vampiro, o que obviamente ninguém acredita! Sua mãe, sua namorada e até seu melhor amigo Ed Thompson, ou "Evil Ed" ("Maldoso" na dublagem e "Diabo" nas legendas das fitas VHS).
Pior ainda ocorre quando Dandrige é convidado à casa do garoto e aproveita a oportunidade para tentar matá-lo, mas Charley consegue se livrar dele espetando um lápis em sua mão. Em um efeito de maquiagem bem realizado, Dandrige arranca o lápis da mão e a movimenta, tudo isso sem cortes o que me faz quebrar a cabeça até hoje para descobrir como realizaram o efeito. Após a tentativa frustrada, o vampiro promete matar Charley na noite seguinte. Sem ninguém a quem recorrer e despertando a ira de Dandrige e Billy Cole, Charley apela para a ajuda de Peter Vincent.
Vincent é um ex-ator inglês de filmes de terror que esquecido, sobrevive de bicos como apresentar o programa "A Hora do Espanto" que sempre transmite filmes de qualidade duvidosa (alguma semelhança com nosso querido Zé-do-Caixão é mera coincidência). O engraçado é que Vincent se gaba por ser "o grande matador de vampiros" ao passo que seu programa exibe trechos de "grandes produções" suas do passado, seqüências muito bem sacadas e filmadas para parecer os antigos filmes da Hammer. Aliás seu nome é em homenagem a dois astros do horror, Peter Cushing e Vincent Price. Claro que ao ser abordado pelo jovem, Vincent não dá a mínima e assim como os outros não acredita no pobre Charley.
Tudo muda quando os amigos de Charley querem impedir que o amigo faça alguma loucura e para isso pagam Vincent e combinam com Dandrige para fazerem um pequeno "teatro" para mostrar que o vizinho não é um vampiro. O problema é que nessa brincadeira Vincent descobre que Dandrige é mesmo um vampiro, o que faz com que os problemas comecem.
Segundo o diretor estreante Tom Holland, o desejo era fazer "The Boy Who Cried Wolf" atualizado para os anos 80. E como ainda gostava de histórias de vampiros resolveu misturar tudo num grande roteiro. Só que nos anos 80, os filmes de vampiros não estavam muito em alta. Em uma cena engraçada, porém trágica, Peter Vincent ao ser despedido do comando do programa de TV, desabafa com Charley: "Sabe porque fui despedido? Por que os jovens de hoje não acreditam mais em vampiros. Só querem saber de assassinos com máscaras de hóckey perseguindo meninas inocentes". A razão disso tudo, Tom Holland explica: "Uma das razões que fez o gênero declinar foi que foram feitos vários filmes de vampiros nos anos 50, mas ninguém conseguiu modernizá-los. Eu estava determinado a respeitar todas as convenções de uma tradicional história de vampiros - caixões, sem reflexos no espelho e todo resto - mas sempre colocá-los num contexto contemporâneo"
E foi respeitando todas as convenções vampíricas que Holland fez um dos filmes mais legais dos anos 80, que ensinou pra toda uma nova geração as regras de como identificar e matar um vampiro. O filme ainda conta com ótimos efeitos especiais e de maquiagem tudo a cargo da "Richard Edlund´s Film Corporation" a mesma de Caça-Fantasmas. A produtora criou extensões para os dedos de Dandrige além de máscaras que deixavam os atores simplesmente assustadores. Uma das melhores seqüências é quando Evil Ed volta a sua forma humana logo após ter se transformado em um lobo e ser derrotado por um Peter Vincent muito sortudo. Isso tudo sem nenhum CGI, somente efeitos de maquiagem intercalados com cortes de câmera. Sobre os efeitos novamente com a palavra o diretor Holland:
"Há momentos no filme onde eu quis deliberadamente sugerir mais do que mostrar alguns poderes sobrenaturais dos vampiros. Algumas seqüências de vôos foram feitas com efeitos óticos, mas outras foram criadas para mostrar o ponto de vista do vampiro sobrevoando locais (...). Uma coisa que eu queria evitar a todo custo era ter os efeitos especiais sobrepondo a atuação"

É, parece que precisamos de mais Tom Hollands. Vendo "A Hora do Espanto" hoje em dia, percebe-se que quase o filme não envelheceu. Tirando a moda horrível dos anos 80 e uma seqüência que se passa em uma discoteca onde uma divertida (porém datada) música do "Devo" é ouvida - fazendo questão de mostrar toda a potência dos sintetizadores da época- quase nada envelheceu. Os efeitos continuam muito bons e por incrível que pareça melhores que muitos filmes atuais. As atuações também são memoráveis, Roddy McDowall está perfeito como um aparentemente arrogante e covarde ex-astro que ao ver que vampiros existem mesmo se acovarda sem contar que sempre faz questão de reviver as glórias do passado comentando os filmes nos quais participou. E não desmerecendo é claro, o trabalho de McDowall, seria até mais interessante se estivessem escolhido mesmo um ator veterano de terror para interpretar si próprio. Já pensaram como seria interessante ter um Peter Cushing no elenco? Na outra ponta temos Chris Sarandon brilhando como o sedutor vampiro Jerry Dandrige, que em alguns momentos chega a ter os trejeitos dos atores da Hammer fazendo assim uma homenagem deliciosa.
Na época o filme custou a bagatela de 9,5 milhões de dólares e rendeu merecidos 25 milhões. Ainda teve o mérito de dar gás aos "filmes de vampiros" nos anos 80 que teve posteriormente "Quando Chega a Escuridão" , "Os Garotos Perdidos" dentre outros filmes legais. No Brasil recebeu o título "A Hora do Espanto" e não "Noite do Espanto" (sua tradução mais correta) devido à moda de filmes com nome "A Hora..." surgida com "A Hora do Pesadelo". A partir daí quando dava pé qualquer filme era distribuído por aqui com o nome "A Hora...". Algo bem parecido com a moda de nos anos 90 colocar "Kickboxer" em qualquer filme de luta e ainda hoje em dia em colocar "Pânico" em tudo que é título de terror. Depois do sucesso do filme, uma nova parte foi dirigida pelo especialista em continuações Tommy Lee Wallace (de Halloween III e Vampiros: Os Mortos) mostrando ser uma seqüência que não supera, mas não faz feio ao filme original.
A mesma versão em DVD lançada aqui foi a lançada nos EUA e em diversos países. Além de nenhum extra, o DVD tem dupla face permitindo assisti-lo em Fullscreen ou Widescreen. E assistindo-o em widescreen pude notar cenas que nunca tinha visto devido à exibição em Fullscreen nas emissoras de Tv e fitas VHS. É impressionante como uma cena é destruída totalmente quando vista em Fullscreen, a de Dandridge atravessando o quarto da mãe de Charley e seu reflexo não sendo mostrado no grande espelho fica completamente sem sentido vendo-a em fullscreen. Quanto ao material especial, é claro que os fãs clamam por uma edição especial com todos os extras possíveis. Por enquanto só mesmo o trailer e a dublagem nacional nos fazem esboçar um pequeno sorriso, mas quem sabe no futuro. Afinal, parafraseando o Evil Ed: "Você é tão legal, Brewster!"

Por onde andam?

AMANDA BEARSE - Após o sucesso de "A Hora do Espanto", a namoradinha casta de Charley Brewster resolveu soltar a franga e assumiu sua homossexualidade. Hoje em dia vive com sua parceira em Los Angeles onde atua como diretora de séries de TV. Chegou a dirigir e escrever episódios de "Married With Children" (Um Amor de Família) e fazer pontas nos mesmos, além de séries cômicas como MAD TV, Dharma & Greg, Nikki, dentre outras.
CHRIS SARANDON - O vampirão Jerry Dandrige tinha sido indicado ao Oscar por ator coadjuvante em "Um Dia de Cão" como o amante de Al Pacino. Depois no gênero terror trabalhou em "A Sentinela dos Malditos". Em 1983 trabalhou no último filme da carreira do mestre Sam Peckinpah, "O Casal Osterman", após o sucesso de "Hora do Espanto" voltou a trabalhar com Tom Holland interpretando um policial atormentado pelo boneco Chucky em "Brinquedo Assassino" de 1988. Ele até já emprestou a voz para Jack Esqueleto na versão original de "O Estranho Mundo de Jack".
De lá pra cá nunca parou de trabalhar seja em TV, Cinema e até videogames. Seu último encontro com vampiros foi no divertido "Bordel de Sangue" como um reverendo.

WILLIAM RAGSDALE - Esse foi um que sumiu bastante, pelo menos para nós brasileiros. Após "A Hora do Espanto", atuou na continuação e depois fez um filme de amor/fantasia/meloso chamado "Manequim - A Magia do Amor", onde um colar transformava as pessoas em manequins. Esse último sempre reprisa na Sessão da Tarde vez ou outra assim como a comédia "Nosso Amigo Frankenstein" onde Ragsdale interpreta um dos jovens que consegue trazer o clássico monstro de volta à vida. Depois só trabalhou em séries e filmes de TV. Ultimamente voltou ao Cinema em "Vovó... Zona 2" que estreou em nossos cinemas.

RODDY McDOWALL - O veterano de mais de 200 produções trabalhava desde 1938 na área e já atuou em diversos filmes, até em um da Lássie! E já foi até vilão no antigo seriado do Batman! Talvez um de seus papéis mais famosos seja o de Cornelius em "Planeta dos Macacos" e suas sequências. Já atuou também no clássico do Cine Trash "Shakma - Fúria Assassina". Ele faleceu em 1998 devido a um câncer de pulmão.

STEPHEN GEOFFREYS - O Evil Ed deu uma virada (sem duplo sentido) totalmente na carreira. Após "A Hora do Espanto", participou de vários episódios de séries de TV como "Além da Imaginação". Chegou até a atuar no debut de Robert Englund na direção em Força Demoníaca (976-EVIL). No começo dos anos noventa assumiu o pseudônimo Sam Ritter e começou a atuar em pornôs gay. Seu último filme foi lançado em 2002.

Bruno C. Martino


A HORA DO ESPANTO (Fright Night, EUA , 1985). 106 minutos
Direção: Tom Holland
Roteiro: Tom Holland
Produção: Herb Jaffe
Desenhos de Produção: John DeCuir Jr
Edição: Kent Beyda
Fotografia: Jan Kiesser
Música: Christopher Ried
Efeitos Visuais: Albert Lanutti, Michael Lantieri, Clay Pinney, Darrel Prichett
Maquiagem: Chris Sarandon (Jerry Dandrige); William Ragsdale (Charley Brewster); Amanda Bearse (Amy Peterson); Roddy McDowall (Peter Vincent); Stephen Geoffreys ("Evil" Ed Thompson); Jonathan Stark (Billy Cole) ; Dorothy Fielding (Judy Brewster)


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