A HORA DO LOBISOMEM

por André Bozzetto Junior

Para tentar salvar a própria pele, um jovem casal de irmãos precisa desesperadamente descobrir a identidade do lobisomem que anda aterrorizando a sua cidade. Essa premissa, que em um primeiro momento pode parecer demasiadamente semelhante ao recente "Amaldiçoados" (Cursed, 2005) do veterano Wes Craven, é na verdade um dos principais elementos do roteiro de "Silver Bullet" (1985), filme que foi lançado no Brasil em VHS (e recentemente em DVD) com o título de "A Hora do Lobisomem", mas que foi exibido à exaustão na televisão pelo canal SBT com o título original de "Bala de Prata".



Essa obra merece especial destaque por ser considerada pelos fãs de filmes das criaturas licantrópicas como sendo um dos integrantes da "trinca de clássicos" produzida sobre o gênero na saudosa década de 1980, e que inclui ainda "Grito de Horror" (The Howling, 1981) de Joe Dante, e o insuperável "Um Lobisomem Americano em Londres" (An American Werewolf in London, 1981) de John Landis. Além disso, "A Hora do Lobisomem" (vou optar por esse título ao longo do artigo) tem a curiosa característica de ter sido roteirizado pelo mestre da literatura de horror, Stephen King, baseado em "The Cycle of Werewolf", livro de sua própria autoria publicado em 1983, e que aqui no Brasil também saiu com o nome de "A Hora do Lobisomem".

O enredo do filme aborda a drástica alteração no cotidiano da outrora pacata cidadezinha de Tarker's Mill, no interior dos EUA, quando na primavera de 1976 uma série de violentos assassinatos passam a se suceder cada vez que a lua cheia surge no céu. Um garoto paralítico chamado Marty Coslaw (Corey Haim, em início de carreira) começa a desconfiar que o responsável pelos crimes seja um lobisomem, o que acaba se confirmando. Mais tarde, quando Marty descobre a identidade do monstro, passa a ser implacavelmente perseguido pelo mesmo, e precisará urgentemente encontrar uma forma de destrui-lo para salvar a própria vida.



É interessante salientar que, embora o filme mantenha a idéia básica do livro intacta, no roteiro cinematográfico King acabou tornando a história mais rica em detalhes, com uma maior diversidade de personagens e pequenas sub-tramas que tornaram o filme mais envolvente, num raro caso em que uma adaptação cinematográfica acaba superando o livro que a inspirou. Como Stephen King escreveu o livro (1983) e o roteiro (1985) entre um curto espaço de tempo, não seria exagero afirmar que ele se valeu da proposta cinematográfica para aperfeiçoar a própria obra.

No meu caso, que sou assumidamente um grande fã desse filme, fica até difícil citar uma ou outra cena de destaque, pois trata-se de um trabalho realmente memorável. De qualquer forma, é impossível não mencionar o primeiro encontro de Marty com o lobisomem, no momento dos fogos de artifício, a macabra cena de sonho, com a igreja repleta de lobisomens, e a passagem em que o xerife surge carregando a pipa ensangüentada, enquanto reza a Ave Maria. Certamente a cena que mais me chocou quando assisti o filme pela primeira vez.

Também merece ser destacada a habilidade do diretor Daniel Attias, que impôs um bom ritmo ao filme, que não perde o pique em nenhum momento, e também a sua "esperteza" em mostrar o lobisomem quase sempre em takes rápidos, cenas sombreadas e closes, fazendo com que tais recursos ajudem a disfarçar a caracterização da criatura, que pode ser considerada apenas mediana. Porém, ainda assim a maquiagem do monstro é mais convincente do que essas coisas feitas por computação gráfica em filmes medonhos como "Anjos da Noite" e seus derivados.



O elenco, por sua vez, conta com nomes que são, ou foram, bastante conhecidos, como Corey Haim, que na década de 1980 protagonizou filmes de sucesso como "Os Garotos Pedidos", "No Limite do Terror" e a comédia "Sem licença para dirigir", e que mais tarde acabou mergulhando no esquecimento, Terry O'Quinn no papel do Xerife, que também protagonizou o bom suspense "O Padrasto" e atualmente tem feito enorme sucesso no papel de Locke na série de televisão "LOST". Temos ainda o amalucado Gary Busey, que tem em sua extensa filmografia obras como "Predador 2", "A Estrada Perdida", "Frost: Retrato de um Vampiro" e a cultuada aventura "Caçadores de Emoção", e Megan Follows, que pode ser vista recentemente na série de televisão "CSI".

O diretor Daniel Attias, por sua vez, nunca mais dirigiu nada de relevante no cinema, mas se tornou um requisitado diretor de TV, tendo em seu currículo episódios das séries "Buffy - A Caça Vampiros", "A Sete Palmos", "A Família Soprano" "OC - Um Estranho no Paraiso", "CSI: Miami" e "LOST", entre vários outros.

Enfim, "A Hora do Lobisomem" é um ótimo filme, obrigatório para qualquer fã de produções sobre as criaturas licantrópicas, e uma boa opção para os apreciadores do gênero terror em geral.

André Bozzetto Junior

A HORA DO LOBISOMEM(Silver Bullet, EUA, 1985) - 95 minutos
Direção: Daniel Attias
Roteiro: Stephen King
Produção: Dino De Laurentiis; Martha Schumacher
Música: Jay Chattaway
Fotografia: Armando Nannuzzi
Desenho de Produção: Giorgio Postiglione
Efeitos Especiais: Jeff Jarvis; Michael McCracken Jr.; Michael McCracken; Matthew W. Mungle; Carlo Rambaldi; Jill Rockow; Michael Stein
Edição: Daniel Loewenthal
Maquiagem: Barbara Page; Jeff Goodwin
Elenco: Gary Busey (Tio Red); Everett McGill (Reverendo Lowe/lobisomem); Corey Haim (Marty Coslaw); Megan Follows (Jane Coslaw); Robin Groves (Nan Coslaw); Leon Russom (Bob Coslaw); Terry O'Quinn (Xerife Joe Haller); Bill Smitrovich (Andy Fairton); Joe Wright (Brady Kincaid); Kent Broadhurst (Herb Kincaid); Heather Simmons (Tammy Sturmfuller); James A. Baffico (Milt Sturmfuller); Rebecca Fleming (Mrs. Sturmfuller); Lawrence Tierney (Owen Knopfler);


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