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Hee-bong e sua família moram e trabalham às margens do rio Han, em Seul. Seu filho mais velho Kang-du, de 40 anos é um tanto imaturo e passa maior parte do tempo dormindo. Sua filha do meio é arqueira do time olímpico coreano, e o mais novo é um advogado desempregado. Mas todos cuidam da garota Hyun-seo, filha de Gang-du, cuja mãe abandonou o lar há muitos anos.
Numa tarde ensolarada, uma criatura mutante emerge do rio Han, atacando as pessoas que estão no parque e levando consigo a jovem Hyeon-seo. Acreditando que sua filha ainda está viva, Kang-du parte junto com sua família em busca da criatura. Mas a tarefa não vai ser assim tão fácil, já que o local está de quarentena e a terrível criatura continua a fazer vítimas.
Hollywood rendeu-se ao cinema asiático já faz algum tempo. Importou atores, diretores e roteiristas. |
Fabricou incontáveis refilmagens (dizem que o público americano não gosta muito de filmes legendados). Mas o que há de novo ou surpreendente nestes filmes vindos do outro lado do mundo???


Primeiro foram os filmes de ação e artes marciais. No começo da década de 90,
“The Killer” (Dip hyut shueng hung, 1989) e
“Fervura Máxima” (Laat sau sen taan, 1992) revolucionavam o gênero
“action”. Os tiroteios coreografados e estilizados do cineasta chinês John Woo influenciariam toda Hollywood e seriam imitados a exaustão nos anos que se seguiram. Poucos anos depois John Woo estava na América dirigindo arrasa-quarteirões estrelados por atores como Tom Cruise (
“Missão Impossível 2”, 2000), Nicolas Cage (
“A Outra Face”, 1997) e John Travolta (
“A Última Ameaça”, 1996). Na mesma época, o super-astro de Hong Kong, Jackie Chan (de
“A Hora do Rush”, 1998), encantava o mundo com seu estilo engraçado de lutar. Logo estaria filmando na terra do Tio Sam, ganhando muito dinheiro, virando história em quadrinhos e desenho animado. Estes são apenas dois exemplos dentre vários possíveis. É só lembrar os sucessos mundiais dos recentes e impressionantes
“O Tigre e o Dragão” (Wo hu cang long, 2000, dirigido por um dos realizadores poderosos de Hollywood, o Taiwanês Ang Lee),
“Herói” (Ying xiong, 2002, do diretor chinês Yimou Zhang estrelado por Jet Li), o belíssimo
“O Clã das Adagas Voadoras” (Shi mian mai fu, 2004, também dirigido por Yimou Zhang) e o tailandês
“Ong Bak” (Ong-bak, 2003). O diretor americano Martin Scorcese (“
Taxi Driver”, 1976) concorreu e ganhou
“Oscar” de melhor filme e diretor de 2007 com
“Os Infiltrados” (The Departed, 2006, EUA), o ótimo remake do thriller chinês
“Conflitos Internos” (Mou gaan dou, 2002).


Foi já no final dos anos 90, com a história de Sadako e a fita de vídeo amaldiçoada, em “
Ring – O Chamado” (Ringu, 1998, Japão), dirigido por Hideo Nakata, que o gênero horror/fantástico oriental começou a invadir a América. O produtor Roy Lee, coreano naturalizado nos Estados Unidos, apresentou Nakata a Dreamworks, que acabou comprando os direitos para a refilmagem de “
Ringu” por 1,2 milhões de dólares. Quatro anos depois, com um orçamento de 40 milhões e direção de Gore Verbinski (“
Piratas do Caribe”), estreava nos Estados Unidos “
O Chamado” (The Ring, 2002). Grande sucesso de público faturou mais de 230 milhões de dólares apenas em solo americano, abrindo as portas para as refilmagens de outras obras de horror asiáticas e para uma seqüência realizada em 2005, nas mãos do próprio Hideo Nakata (“
O Chamado 2”, 2005).


Roy Lee, percebendo a oportunidade que tinha em mãos, fundou em conjunto com Doug Davison, a
Vertigo Entertainment, empresa especializada em intermediar o direito para refilmagens americanas de filmes orientais. Em 2004, Lee negociou a refilmagem do horror japonês de Takashi Shimizu, “
Ju-on”, transformado na versão americana em “
O Grito” (The Grudge, 2004). O remake, produzido por Sam Raimi (de “
A Morte do Demônio”), foi líder das bilheterias americanas e em quatro semanas superou os 100 milhões de dólares (dez vezes o valor de seu orçamento). Uma seqüência chamada “
O Grito 2” foi produzida em 2006, também dirigida por Shimizu. A fórmula certa para o sucesso havia sido descoberta e inevitavelmente vieram outras refilmagens, como “
Água Negra”, refilmagem dirigida pelo brasileiro Walter Salles de outra obra Nakata (“
Dark Water”, 2002) e “
Pulse”, refilmagem do filme japonês
“Kairo”, de 2001. Dezenas de outros remakes já foram anunciados, entre eles: o ótimo horror dos Irmãos Pang, “
The Eye – A Herança” (Gin gwai, 2002), tem seu lançamento programado para 2008, com direção dos franceses David Moreau e Xavier Palud (“
Ils”, 2006, França) e a bela Jessica Alba (
“Sin City – A Cidade do Pecado”, 2005, EUA) como protagonista;
“In-Utero” é o título da refilmagem de “
Visões” (Gin gwai 2, 2004, Hong Kong), previsto para 2007; uma das boas surpresas do cinema tailandês, “
Espíritos – A Morte está ao seu Lado” (Shutter, 2004), tem sua releitura programada para 2008 com direção do realizador japonês Masayuki Ochiai, do ótimo “
Infecção” (Kansen, 2004, Japão) e a desconhecida adaptação para o cinema do game “
Parasite Eve” (Parasaito Ivu, 1997, Japão); rumores que os fantásticos “
Oldboy” (Oldboy, 2002, Coréia do Sul) e
“Batalha Real” (Batoru rowaiaru, 2000, Japão) estão com suas refilmagens em fase de pré-produção, sendo produzidos pela New Line em parceria com Roy Lee. Estão na lista de refilmagens ainda o japonês
“Kaosu” (1999), de Hideo Nakata, o coreano
“Jungdok” (2002), o também coreano “
Medo” (Janghwa, Hongryeon, 2003) e
“One Missed Call” (Chakushin ari, 2003, Japão), do diretor Takashi Miike.


Sem questionar a visão comercial dos grandes estúdios americanos ou a deficiência criativa dos roteiristas ianques, que com poucas ressalvas, não produzem nada de interessante há muito tempo, retornamos à questão inicial: o que há de novo ou surpreendente nestes filmes vindos do outro lado do planeta???
Uma safra de geniais diretores com sólidas carreiras (como Hideo Nakata, Takashi Miike, Park Chan-Wook e Takashi Shimizu), filmes com qualidades irrepreensíveis, tanto técnica quanto criativa, não só do Japão (que sempre teve realizadores de projeção internacional como Akira Kurosawa ou Takeshi Kitano), mas também da China, Coréia ou Tailândia, fazem do mercado de cinema fantástico asiático um dos mais produtivos e criativos da atualidade.
E “
The Host” (Gwoemul) é um legítimo exemplar deste moderno cinema oriental. Produção sul-coreana de 2006, dirigida por Joon-ho Bong, que já tinha em seu currículum o sensacional “
Memórias de um Assassino” (Salinui chueok, 2003, recém lançado em DVD no Brasil pela Europa Filmes), foi sucesso absoluto de bilheteria em seu país de origem, conseguiu ainda agradar tanto público quanto crítica nos festivais em que foi exibido (inclusive no badalado Festival de Cannes).
Com características de blockbuster holywoodiano, “
The Host” teve quase metade do orçamento de 10 milhões de dólares, valor considerado altíssimo para a indústria cinematográfica coreana, destinado aos efeitos especiais, que ficaram a cargo das empresas Weta Digital (responsável pelo “
O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel” e “
King Kong”), Creature Workshop (
“Deu Zebra!”) e da The Orphanage (“
Jeepers Creepers 2” e “
Hellboy”). O resultado deste esforço é compensador, pois a criatura concebida em CGI, se não chega a impressionar pelo realismo, também não compromete em nenhum momento.


O roteiro é inspirado tanto num acontecimento real, onde um funcionário militar norte-americano despejou grandes quantidades de um ácido altamente tóxico no rio Han, em Seul, quanto num conto do célebre escritor
H.P. Lovecraft. A trama possui a característica peculiar de não poder ser encaixada num gênero cinematográfico específico. O roteiro de “
The Host” é assustador, engraçado e intenso, e inteligentemente se desloca entre o horror e a comédia, tendo ainda momentos dramáticos que deixam o expectador atordoado, que acaba sem saber se ri ou se chora.
Mas se fossemos obrigados a definir “
The Host”, a melhor definição usada seria a de
“um filme de monstro”. Um delicioso e politizado filme de monstro. Daqueles filmes da década de 50, que misturavam ficção científica e terror, como “
O Monstro do Mar Revolto” (1955), de Robert Gordon, “
O Mundo em Perigo” (1954), de Gordon Douglas ou
“Godzilla” (1954), de Inoshiro Honda.
O conjunto de ótimos atores que formam o elenco é o mesmo que colaboraram com o diretor Joon-ho Bong em “
Memórias de um Assassino”. Destes destaca-se Song Kang-ho, um dos mais expressivos de sua geração na Coréia, que interpreta o herói Kang-du, um homem de aproximadamente 40 anos, mas que possui uma idade mental bem inferior e passa boa parte de sua vida dormindo. É dele os momentos mais cômicos e também os mais tristes do filme.
Despindo “
The Host” de sua fantasia de
“blockbuster” e o desmembrando em fatias, temos, além do empolgante filme de monstro, um profundo drama familiar e um politizado manifesto anti-América.

Os dramas da família unida pela tragédia e que transformam o personagem bobalhão Kang-du num herói é o que faz de “
The Host” um filme sensível. Já o posicionamento político é implícito no roteiro desde o início (o monstro mutante é efeito de um ato irresponsável de cientistas americanos). Mas a crítica mais direta vem no momento em que os Estados Unidos resolvem intervir na situação, afirmando que a criatura do rio Han é portadora do mortal vírus SARs (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e atacam com uma arma chamada Agente Amarelo, que promete acabar com toda a diversidade biológica da região. Estas e outras alfinetadas tornam o fime ainda mais interessante.
No Brasil, “
The Host” foi exibido inicialmente em mostras especializadas, como a sessão
“Midnight Movies”, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro de 2006. Longe do circuito comercial, resta aguardar o seu lançamento em DVD, aqui no Brasil. Lá na América já estão comentando uma possível refilmagem.
(Nota do autor: para surpresa de todos, um ano após este artigo ser escrito, "The Host" foi exibido nos cinemas brasileiros. Atualmente ele está disponível em DVD pela Imagem Filmes.)
João Pires Neto
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