OS INOCENTES
A Obra-Prima do Terror Psicológico

Orivaldo Leme Biagi
O diretor George Romero explicou que uma das razões para realizar o seu clássico de terror explícito A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968, foi que ele achava que havia falta de emoção nos filmes de terror da sua época, baseados em histórias fracas onde, normalmente, os fantasmas e (eventuais) monstros divertiam-se apenas aparecendo num momento "tenso" e não fazendo coisa alguma além disso. Em outras palavras, sobrava "leveza", pretensões de "inteligência" (que resultavam em grandes chatices) e faltava terror.
Talvez seja uma posição muito exagerada, considerando-se os filmes da produtora inglesa Hammer (que coloriu e erotizou o terror) e os clássicos Psicose e Os Pássaros, do mestre Alfred Hitchcock (embora estes não sejam sempre catalogados dentro do universo do terror). Mesmo assim, de um modo geral, os filmes de terror produzidos no final da década de 50 e de praticamente toda a década de 60 seguiram fielmente a cartilha do produtor da RKO Pictures, Val Lewton, onde a insinuação era mais forte do que o explícito (o brasileiro José Mojica Marins - e seu alter-ego Zé do Caixão - e o norte-americano Herschel Gordon Lewis, que já faziam filmes de terror explícito no início da década de 60, eram ainda grandes desconhecidos do grande público; Roger Corman, o grande produtor de filmes B deste momento, também era ignorado).
 
Mas nem todos os filmes desta fórmula eram fracos ou com pouco terror. Os Inocentes (The Innocents), de 1961, dirigido por Jack Clayton, tornar-se-ía uma honrosa exceção. O filme era baseado no conto A Volta do Parafuso (The Turn of the Screw), do escritor norte-americano Henry James, publicado em 1898. A temática principal desta obra (e da maior parte da produção literária deste autor) era a de mostrar a perda da inocência: a história gira em torno de uma governanta que, destinada a tomar conta de duas crianças num casarão no interior da Inglaterra, começou a desconfiar que fantasmas as estavam corrompendo. No conto nunca temos certeza da existência ou não dos fantasmas (que poderiam ser apenas frutos da imaginação da governanta) mas, no filme, cujo roteiro ficou por conta dos brilhantes William Archibald e Truman Capote (com diálogos e cenas adicionais do não menos brilhante John Mortiner), os fantasmas efetivamente existem.
O diretor (e também produtor) Jack Clayton, até então apenas uma promessa do cinema inglês, trabalhou nos famosos Shepperton Studios da Inglaterra para conseguir os climas soturnos e atmosfera claustrofóbica típica das mansões e castelos ingleses. A escolha não poderia ser melhor, pois estes estúdios permitiram que o diretor conseguisse captar os inúmeros detalhes e climas soturnos de um casarão velho e assombrado. Ao contrário dos cineastas que se utilizaram das técnicas expressionistas, ou seja, sempre enfatizando as diferenças entre o preto e o branco de maneira brusca, com as sombras carregando o mal para conseguir um clima "pesado" (vide os clássicos Drácula e Frankenstein), o diretor Clayton também apresentou estas diferenças, mas com leveza e suavidade. As sombras são suaves, mas carregadas do mal, como uma pena flutuando no ar, mas uma pena escondendo segredos terríveis - a leveza nos engana, pois carrega o peso do terror. Dentro desta atmosfera leve e aterrorizante, o mal se espalha pela casa, para as crianças e para a visão da governanta.
O número de cenas antológicas é enorme: a primeira vez que a governanta vê um dos fantasmas no alto de uma torre e, depois, numa inocente brincadeira de esconde-esconde, quando ela o confronta diretamente dentro da casa; o encontro da caixa de música que evoca um dos fantasmas, música esta ("O Willow Wally", de Paul Dehn) cantarolada pela menina por quase todo o filme; a governanta perdida durante a noite, com uma vela acesa, no corredor dos quartos, entre muitos e aterradores barulhos; e o fantástico confronto final entre a governanta, o menino e o fantasma, produzindo um terror magnífico e um dos finais mais tristes da história do cinema.
 
A escolha do elenco também foi perfeita. Como sempre, a elegância britânica do ator Michael Redgrave serviu muito bem para caracterizar o tio encantador, porém desleixado, das crianças, numa pequena, porém essencial, participação especial. Deborah Kerr está magnífica como a governanta desconfiada da presença dos fantasmas: sua aparência frágil, mas com personalidade cheia de dignidade, faz com que ela sofra muito nos seus confrontos com a presença maligna dentro do casarão. As crianças são lindas e, principalmente, apavorantes, misturando, na medida exata, doses de ingenuidade e de maldade, inocência e perversão, suavidade e selvageria.
O filme foi um grande sucesso de público, virou um clássico do cinema e suscitou uma série de imitações, como o belo A Inocente Face do Terror (The Other, 1972), dirigido por Robert Mulligan, ou mesmo o médio Os que Chegam com a Noite (The Nightcomers, 1972) dirigido por Michael Winner e estrelado por Marlon Brando, mas poucos conseguiram unir leveza e terror da maneira feita por Clayton. Aliás, nem o próprio diretor: na década de 70 ele iria dirigir o retumbante fracasso O Grande Catsby (The Great Catsby, 1974), caracterizado pela mão "pesada" da direção, embora a reconstituição de época tenha sido mais que perfeita. Mas, por sorte dos fãs do mais puro terror, ele estava inspirado quando dirigiu Os Inocentes.
Artigo escrito e pesquisado por Orivaldo Leme Biagi, tendo sido publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix", editado por Renato Rosatti.
Orivaldo Leme Biagi, Doutor em História pela UNICAMP, Professor da FAAT e Membro da Academia Literária Atibaiense (ALA).
|