INTACTO

por Gabriel Paixão

"Você se considera uma pessoa de sorte?”.


E se a sorte fosse uma coisa palpável, um dom que se pode aprimorar, como a escrita e a fala? Ou o conceito de sorte é apenas a cética série de coincidências movidas por uma fé cega? É sobre estes questionamentos que se trata o filme INTACTO, uma produção espanhola de 2001, um intrigante exercício de suspense e tensão que joga o espectador para o centro de um jogo diferente onde o destino é o personagem principal.

Federico (Eusebio Poncela de OLHOS MORTAIS) trabalha em um cassino que fica isolado do mundo, neste cassino as apostas são altas e quando alguma pessoa começa a ganhar mais vezes do que deveria seus serviços são necessários.
Só que o ofício de Frederico não é matar os vencedores ou trapacear para que percam o dinheiro, mas simplesmente tocar nelas. Acontece que Frederico tem um raro dom, ou uma maldição, que consiste em "drenar" a sorte das pessoas.



Hoje o dia de Frederico será diferente: ele vai embora do cassino e se despede do dono, um homem conhecido apenas como "O Judeu" (Max von Sydow de O EXORCISTA e DUNA), o homem com a maior sorte do mundo e cujo rosto apenas Frederico conhece. Antes de sair, "O Judeu" dá um abraço em Frederico sugando assim todo o "poder" do homem.



Sete se passam e conhecemos um ladrão de bancos chamado Tomás Sanz (Leonardo Sbaraglia de UTOPIA). No entanto não foi por causa de "mero" assalto que Tomás ficou famoso, mas por ser o único sobrevivente de um desastre de avião, uma chance em 237 milhões, segundo o filme.



Frederico que por ter seu orgulho ferido está sedento em busca de alguém que é capaz de derrotar Samuel (o verdadeiro nome d'O Judeu) em um jogo de azar que nunca perdeu. Procura por Tomás, que além de ficar tentado pelas propostas de enriquecimento e poder oferecidas por Frederico, também aceita por ser uma forma de escapar da custódia pelo assalto, ficando a policial Sara (Mónica López) responsável pelo caso.



Tomás foge com a ajuda de Frederico e o inicia em um restrito circulo de "apostadores" que acreditam ter muita sorte.



O primeiro jogo consiste apenas em um inseto e quatro pessoas com melaço espalhado nos cabelos; bens de valor são apostados e aquele que o inseto "escolher" é o vencedor. O intuito de Frederico é ver se Tomás realmente tem o dom que Samuel tirou dele. O ladrão, a medida que ganha, começa a ficar cada vez mais convencido de que é um homem afortunado.



Os jogos se seguem cada vez mais perigosos, as apostas maiores, enquanto o desafio contra Samuel se aproxima.

O jogo que Samuel, o judeu, que milagrosamente escapou do holocausto, propõe e nunca perdeu há 30 anos é uma roleta russa com apenas um espaço vazio no tambor. O oponente começa. Tomás aceita e além da vida aposta algo que considera ainda mais precioso: a sorte de sua namorada Ana (Paz Gómez).



Estranho dizer desta forma, trabalhar com o conceito de que um atributo como a sorte pode ser trocada, tirada ou transferida, mas a medida que a trama se desenrola isto acaba ficando perfeitamente plausível. E mesmo que ao final da projeção você não goste do resultado, deve, pelo menos, admirar a tentativa de se fazer algo diferente (note o número de vezes que eu estou usando a expressão "diferente" neste artigo).



Juan Carlos Fresnadillo, responsável pela direção e roteiro (escrito junto com Andrés M. Koppel), desenvolve seus personagens daquele jeito europeu que nem todo o público está acostumado (especialmente os que esperam da produção um novo clipe da MTV), pois apesar de o foco do filme estar na história de Tomás, não há mocinhos ou bandidos - todos eles são movidos por razões mais humanas e verídicas como orgulho e ambição. Na cadeira de diretor, Fresnadillo alterna com sobriedade os momentos dramáticos e tensos, fazendo um contraste da atmosfera limpa e sofisticada na maior parte das locações internas e o suspense impregnado nela (como o cassino de Samuel).



O ritmo imprimido por Fresnadillo é lento na maior parte do tempo e, desta forma, é suficiente para desenvolver uma simpatia com os personagens, mesmo os que deveriam ser os vilões como Samuel e Sara. Resumindo: ele sabe o que quer e faz bem feito.



A produção inteira é incrível. No entanto, existem duas seqüências que eu queria destacar: a primeira ocorre na floresta que quem já assistiu deve ter ficado com o coração na mão; a segunda, é o jogo final, que transparece que a idéia do filme é apenas uma preparação para ele.



Também é preciso entregar parte do sucesso do filme ao inspirado elenco e a Max von Sydow sua principal cabeça. O veterano ator dignifica seu personagem, pontuando sua pessoal história dramática na atmosfera de tensão que é o seu jogo de roleta russa. Não que os outros sejam ruins, mas ficam ofuscados por Sydow.



O filme foi tão aclamado pela critica que, além de ser exibido com sucesso em diversos festivais de cinema e arrebatar vários prêmios, garantiu ao diretor Fresnadillo um passe para a cadeira de diretor do filme Extermínio 2, continuação do igualmente aclamado EXTERMÍNIO. Colocando em poucas palavras, sendo totalmente fora do convencional, INTACTO fez sucesso por suas próprias qualidades e não tem nada de sorte nisso.





Gabriel Paixão


INTACTO (Intacto, Espanha, 2001). Duração: 108 minutos.
Direção: Juan Carlos Fresnadillo
Roteiro: Juan Carlos Fresnadillo; Andrés M. Koppel
Produção: Sebastián Álvarez; Ignacio Salazar-Simpson
Produção Executiva: Fernando Bovaira; Enrique López Lavigne
Fotografia: Xavi Giménez
Música: Lucio Godoy
Edição: Nacho Ruiz Capillas
Desenho de Produção: César Macarrón
Maquiagem: Jorge Hernández
Efeitos Especiais: Pau Costa; Javier Jal; Raúl Romanillos; Félix Bergés
Elenco: Leonardo Sbaraglia (Tomás); Eusebio Poncela (Federico); Mónica López (Sara); Antonio Dechent (Alejandro); Max von Sydow (Samuel); Guillermo Toledo (Horacio); Alber Ponte (marido de Sara); Andrea San Vicente (filha de Sara); Jesús Noguero; Ramón Serrada; Marisa Lull; Luis Mesonero (Gerard); Pedro Beitia; Jaime Losada; Susana Lazaro; Iván Aledo; Paz Gómez (Ana); Marta Gil (Claudia); Pere Eugeni Font; Ramón Esquinas; Chema de Miguel; Cesar Castillo; Flora María Álvaro; José Olmo; Luis de Leon; Francisco Sotelo; Patricia Castro; Paco Churruca; Adria Rauly; Fernando Albizu; Mauricio Bautista; Pablo Portillo; Santiago Martínez

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