INVERNO DE SANGUE EM VENEZA

por Marcelo Carrard

Confesso que minha década preferida do Cinema Fantástico é a década de 70. Nela estão clássicos variados que vão de O Exorcista, passando pelo Massacre da Serra Elétrica, Last House on The Left, Suspiria, Prelúdio Para Matar, Cannibal Holocaust, além de ser uma década onde o Cinema atingiu extremos de representação estética em filmes polêmicos até hoje, como Saló, Os 120 Dias de Sodoma, O Império dos Sentidos e O Ultimo Tango em Paris, só para citar alguns exemplos. Da lista de grandes clássicos da década de 70, existe um filme pouco lembrado e de grande influência até hoje para o Cinema Fantástico: Inverno de Sangue em Veneza, título brasileiro para o original Don’t Look Now, uma produção do diretor britânico Nicolas Roeg, rodada com locações em Veneza e lançada em 1972.

As sequências iniciais do filme são uma aula de construção de suspense e
atmosfera no Cinema, graças a excelente montagem, um de seus pontos altos, ao lado da bela trilha-sonora do italiano Pino Donaggio, um iniciante até então que posteriormente faria uma parceria clássica com o diretor Norte-Americano Brian De Palma em obras-primas do calibre de Carrie, A Estranha, e Dublê de Corpo. Nas tais sequências de abertura vemos a plácida paisagem campestre da Inglaterra, uma menina de casaco vermelho com capuz a brincar perto de um lago enquanto seu pai, interpretado por Donald Sutherland, sutilmente e aos poucos passa a perceber que algo de ruim poderá acontecer, embora seja cético demais para crer em premonições e coisas desse tipo. Numa brilhante composição de montagem vemos a menina cair no lago enquanto se forma um círculo vermelho em uma das fotos analisadas pelo pai da menina, até este regatá-la morta do fundo do lago em um momento de desespero e horror profundos. Temos em seguida um corte seco que nos transporta até a cidade de Veneza, com seus tons escuros e lúgubres acentuados pelo inverno. Descobrimos então quem são os pais da menina que se afogou no lago: o casal John e Laura Baxter. Laura e interpretada pela popular atriz Julie Christie. John, personagem de Sutherland, é um mestre restaurador de pinturas sacras e está na cidade para restaurar as pinturas de uma antiga igreja. O interessante no filme é a sua construção lenta de uma expectativa em algo terrível que poderá acontecer, o suspense é trabalhado de maneira muito particular, sem clichês óbvios. A sequência do acidente na igreja é espetacular.



O elemento sobrenatural é instaurado na trama com a presença de duas irmãs, uma delas é médium e cega, ambas senhoras de idade. A cena em que a médium cega conhece Laura e afirma estar vendo o espírito da menina morta, desencadeia uma série de acontecimentos inusitados que conduzem as personagens por caminhos sombrios pelos labirintos da antiga e misteriosa cidade de Veneza que no inverno ganha contornos de forte acento gótico. O filme tem grandes sequências noturnas. A presença em cena de um ator com o rosto tão expressivo como o de Donald Sutherland traz para o filme uma força maior, praticamente ele aparece em todas as cenas e a marca invisível da culpa e da não-aceitação pela morte da filha, ficam muito evidentes em seus olhos. Sutherland funciona muito bem em filmes de Horror, como no excelente, na minha opinião, Invasores de Corpos, a segunda versão.



A figura espectral da menina com o casaco de capuz vermelho virou um dos ícones do Cinema de Horror dos anos 70, e é explicitamente citada no filme Viagem Maldita de Alexandre Aja. Toda a preparação para a apoteótica sequência onde John irá enfrentar seus demônios durante uma noite derradeira, é muito bem construída pelo roteiro e arquitetonicamente armada pela montagem excelente do filme, que cria uma “Arquitetura do Medo”, uma fusão entre cenários e tensões cromáticas que fariam escola em seguida nos filmes de diretores como Dario Argento. A polêmica sequência de sexo entre as personagens de Sutherland e Cristie, causou problemas com a censura da época, inclusive no Brasil que vivia o auge da Ditadura Militar. Boatos na época afirmavam que ambos realmente haviam transado no set de filmagem, mas nada foi oficialmente confirmado. O interessante dessa sequência é que ela tem um efeito reverso, mostrando o “Durante” primeiro e o “Antes” depois... é meio complicado de explicar, só vendo mesmo. A imagem da médium cega gritando na janela durante a noite, o espectro grotesco revelado, a premonição da morte, o funeral no barco pelos canais de Veneza, são muitos os momentos que fazem desse filme um grande clássico que merece ser revisto. Um momento raro e inspirado da História do Cinema Fantástico em um filme sem cadáveres empilhados a esmo e nem sangue em profusão, não que eu não curta, longe disso, adoro um bom Gore desenfreado, mas Inverno de Sangue em Veneza consegue ser surpreendente sem excessos e sem pirotecnia.

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INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (Don’t Look Now, Inglaterra, 1972).
Direção: Nicolas Roeg
Roteiro: Daphne Du Maurier, Allan Scott e Chris Bryant
Produção: Peter Katz
Produção Executiva: Anthony B. Unger
Edição: Graeme Clifford
Direção de Arte: Giovanni Soccol
Maquiagem: Giancarlo Del Brocco; Maria Luisa Garbini; Barry Richardson
Fotografia: Anthony Richmond; Nicolas Roeg
Música: Pino Donaggio
Elenco: Donald Sutherland (John Baxter), Julie Christie (Laura Baxter), Hylary Mason (Heather), Clelia Matania (Wendy), Massimo Serato (Bispo), Renato Scarpa (Inspetor Longhi); Giorgio Trestini (trabalhador); Leopoldo Trieste (gerente do hotel); David Tree (Anthony Babbage); Ann Rye (Mandy Babbage); Nicholas Salter (Johnny Baxter); Sharon Williams (Christine Baxter); Bruno Cattaneo (detetitve Sabbione); Adelina Poerio



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