ISAAC ASIMOV Entre robôs, impérios galáticos e outros mundos
Por Marcello Simão Branco
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Asimov é seguramente um dos mais populares e influentes nomes da história da ficção científica, ao lado do americano Robert A. Heinlein (1907-1988) e do inglês Arthur C. Clarke, o pai dos satélites de comunicações e co-autor do clássico “2001, Uma Odisséia no Espaço”, ainda vivo aos 83 anos.
Criança precoce e intelectualmente privilegiada, Asimov conhece a ficção científica folheando as pulp magazines, vendidas na loja de doces de seu pai. Já aos 19 anos termina a faculdade de bioquímica e desenvolve uma promissora carreira acadêmica, lecionando a partir de 1949 na Universidade de Boston.
Ao mesmo tempo, porém, o jovem Asimov desperta mais atenção como um dos escritores da chamada “Golden Age” da ficção científica dos Estados Unidos, publicando vários contos de sucesso nas revistas de banca dos anos 1940.
Na verdade, a produção de sua juventude jamais foi superada em termos de criatividade e influência dentro do gênero. Seus melhores contos seriam publicados a partir dos anos 1950 no formato de livros, clássicos absolutos como Eu, Robô (1951) e a Trilogia da Fundação (a partir de 1952). |
Com o primeiro livro, Asimov criou uma maneira particular e engenhosa dos humanos e robôs se relacionarem, destruindo o mítico e tolo "Complexo de Frankeinstein", que mais aborrecia e fomentava preconceitos dentro e fora da ficção científica. Vocês já devem ter visto: criador cria criatura que se volta contra o criador e o domina ou destrói. Asimov muda o panorama, ao escrever as “Três Leis da Robótica”, que estabelecia, em linhas gerais, que os robôs não poderiam prejudicar de nenhuma maneira a vida dos seres humanos, mesmo que com isso sua própria segurança estivesse em risco.
Asimov virou o "pai" do robôs, escrevendo contos e romances emocionantes envolvendo o relacionamento entre homens e máquinas. Mas não só: mesmo outros autores de ficção científica de prestígio seguiram sua estrutura básica e podemos ver um ótimo exemplo de robô tipicamente asimoviano no personagem Data, de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, onde além de seguir as três leis, o personagem ainda tem a estrutura de um cérebro positrônico, outra criação de Asimov.
Mas o judeu russo mais novaiorquino que já existiu forjou também o influente e fascinante império galático humano. Em sua série Fundação, ele conta a história da conquista da galáxia pela humanidade e seus problemas políticos em um futuro de centenas de milhões de anos a frente. Tão distante, que não mais sabemos que nossa origem se situa num pequenino e belo planetinha de uma certa estrela na periferia da Via Láctea.
Afora esta faceta épica, ele introduz outro conceito chave na ficção científica: a psicohistória, ou seja, a capacidade de prever estatisticamente o comportamento social e político de grandes aglomerações humanas. Em Fundação, a psicohistória é utilizada pelo carismático personagem Hari Seldon para prever a futura queda do império galáctico e o retorno da barbárie. Surpreendentemente ou não, a psicohistória tem sido estudada nos meios acadêmicos, como uma escola de interpretação do comportamento racional dos indivíduos em assuntos políticos e econômicos das sociedades contemporâneas. Isso sem esquecer que suas leis da robótica tem servido de inspiração para cientistas que procuram pensar e criar robôs úteis aos seres humanos em nosso mundo real.
Fama
Mesmo influente na ficção científica e na pesquisa científica, Asimov não deitou na fama. Já em meados dos anos 1950 começa a diversificar os temas de suas histórias, publicando contos e romances clássicos sobre viagem no tempo — como Fim da Eternidade (1955) , a melhor história de viagem no tempo já escrita — e na maturidade, escreve o romance O Despertar dos Deuses (1973), sobre a descoberta de universos paralelos ao nosso, seu melhor livro do ponto de vista literário.
Mas quem relaciona o nome de Isaac Asimov primeiramente à ficção científica se esquece que o Bom Doutor — como era carinhosamente apelidado — foi um dos mais importantes divulgadores científicos. A partir dos anos 1960 passa a escrever mais livros sobre ciência do que ficção científica. Em seu currículo encontram-se livros seminais que popularizaram a ciência entre o público em geral, como O Corpo e o Cérebro Humano (1962), O Universo (1966), Civilizações Extraterrenas (1979), entre outros.
E o Bom Doutor não pára aí: em meados dos anos 1970 passa a escrever sobre qualquer assunto que lhe for encomendado. De sua pena, são publicadas obras muito boas em assuntos tão diferentes quanto a Bíblia e William Shakespeare, além de alguns romances policiais e de fantasia. | |
Toda esta versatilidade lhe rende prestígio na forma de prêmios, popularidade e dinheiro. Asimov tem em seu currículo três prêmios Hugo, como melhor romancista e dois prêmios Nebula, os dois mais importantes da ficção científica internacional, além de ter sido agraciado com a honra máxima de Grande Mestre Nebula, em 1987. Isso afora outros prêmios por sua excelência como divulgador científico.
Cinema
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Hollywood não poderia deixar passar em branco este talento. Em 1966 ele escreve o roteiro do clássico Viagem Fantástica (1966), filme que mostra o interior do corpo humano como nunca antes visto no cinema, dirigido por Richard Fleischer. Em 1988 teve sua mais famosa história filmada, O Cair da Noite, infelizmente com um resultado indigno da qualidade de seu texto. Mostrando um mundo alienígena no qual a noite chega apenas a cada mil anos, Asimov faz uma competente parábola sobre misticismo e fatalismo, numa história publicada originalmente quando ele tinha apenas 22 anos.
Mais recentemente o cinema americano voltou a filmar uma história clássica do autor, com O Homem Bicentenário (1999), interpretada de forma magnífica por Robin Williams. Baseada em uma novela premiada de mesmo nome, foi escrita em 1976 inspirada pelo bicentenário da independência dos Estados Unidos. Mas Asimov nos leva ao futuro em um mundo onde um de seus robôs quer porque quer, tornar-se humano, perto de completar seu ducentésimo aniversário.
Mas Hollywood ainda não explorou todo o potencial do autor. Sua série Fundação foi vendida para filmagem nos anos 1960 e não chegou às telas até hoje. Certamente é uma saga épica e ambiciosa, talvez mais do que Duna (1965), de Frank Herbert, mas continua à espera de um produtor ousado e um diretor talentoso, coisa cada vez mais rara, aliás, no cinema americano. |
Nota do editor: Em 06/08/04 estreou no Brasil o thriller de FC “Eu, Robô” (I, Robot), com o astro popular Will Smith numa história de ação futurista baseada em obra literária de Isaac Asimov, um dos maiores escritores de FC de todos os tempos. Para quem aprecia cinema de orçamento milionário, com uma imensa legião de interessantes robôs, e muitas cenas de ação em efeitos especiais bem produzidos, “Eu, Robô” certamente é uma garantia de duas horas de entretenimento, apesar da presença de Will Smith e suas tradicionais piadas dispensáveis e algumas situações inverossímeis e exageradas demais.
Revista
Se Hollywood está devendo, o mesmo não se pode dizer do mercado editorial americano. Percebendo sua inegável popularidade e potencial de mercado, é lançada em 1977, a revista de contos Isaac Asimov´s Science Fiction Magazine (atualmente chamada apenas de Asimov´s Science Fiction). Pela primeira vez um escritor do gênero empresta o seu nome para uma publicação periódica, num lance de raro oportunismo comercial e brilhantismo editorial.
A revista torna-se um sucesso de vendas e de crítica, vencendo dezenas de vezes os mais prestigiosos prêmios da área, revelando autores importantes para a renovação do gênero, tal como Orson Scott Card e David Brin e publicando novamente autores veteranos há muito ausentes como Jack Williamson e L. Sprague de Camp em suas páginas. Quando vivo, Asimov não a editava, apenas escrevia saborosos artigos na forma de editoriais, variando sobre temas tão díspares e interessantes como feminismo, conquista espacial e ecologia, relacionando os assuntos para a ótica da ficção científica.
Publicada com êxito ainda hoje nos Estados Unidos, tem franquias em alguns países da Europa. Já chegou a ser publicada aqui no Brasil, entre 1990 e 1992, a saudosa e importante Isaac Asimov Magazine, que à exemplo da irmã americana, forjou uma nova geração de escritores brasileiros de ficção científica. | |
E por falar nos brasileiros, por aqui Asimov é o escritor preferido. Pesquisas realizadas junto a dezenas de fãs em 1991 e 1998 pelo fanzine Megalon, mostrou que o Bom Doutor é considerado "o melhor escritor" por uma expressiva maioria, além de sua Trilogia da Fundação ser considerada nos dois anos o "melhor romance de ficção científica" já escrito.
Mesmo com toda esta aceitação, Asimov não era considerado um grande escritor por críticos mais exigentes. Sua prosa é escrita numa forma tradicional, seus personagens não são muito densos. Em compensação, Asimov encanta e é influente ainda hoje por outras qualidades: sabia, como poucos, contar uma história, mesclando didatismo científico, clareza de idéias, criatividade e uma boa dose de humanismo e crítica social. Por razões como essas, é que o Bom Doutor escreveu uma das mais belas páginas da história da ficção científica no século XX. Continua um autor influente e de leitura indispensável a todos que gostam de uma "boa e velha história de ficção científica". Como se fosse contada ao redor de uma fogueira na planície inóspita e perturbadora de um planeta distante e gelado como Plutão.
N.E.: Esse artigo foi publicado originalmente no fanzine “Juvenatrix” # 52 (Julho de 2001).
Marcello Simão Branco
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