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Tudo começou com dois homens algemados pelo tornozelo dentro de um banheiro abandonado e um gravador cuja fita continha a seguinte mensagem: "I want to play a game...". Nascia, no ano de 2004, um dos mais perenes e resistentes vilões do moderno cinema de horror, o JIGSAW (Quebra-cabeça) de JOGOS MORTAIS, criado pelos amigos e cineastas-roteiristas de primeira viagem James Wan e Leigh Whannell. Como normalmente acontece no mundo do cinema independente, JOGOS MORTAIS era uma história redondinha, surpreendente, com uma reviravolta final de tirar o chapéu e nenhuma possibilidade de dar margem a continuações. Isso, claro, até fazer um estrondoso sucesso de público e crítica, e dar origem a uma legião de fãs que imploravam pela volta de JIGSAW.
No original, vale destacar, JIGSAW era uma figura quase mítica, meio sobrenatural até. O espectador não vê o "vilão" até o final, nem sabe quais são exatamente as suas motivações. |
Sabe apenas que ele tem em comum com o Dr. Phibes, interpretado por Vincent Price nos anos 70, o gosto por armadilhas elaboradas, exageradas, quase absurdas. Porém, ao contrário de Phibes (que era um cientista doido vingando-se dos médicos que não conseguiram salvar a vida de sua esposa), JIGSAW não é um assassino no sentido literal do termo. A bem da verdade, nem no primeiro filme e nem nas três continuações o personagem mata alguém no real sentido do termo.
O que JIGSAW propõe, e aí está a inteligência do conceito todo, é um "jogo mortal": mais ou menos como o John Doe interpretado por Kevin Spacey no já clássico SEVEN, de David Fincher, JIGSAW coloca pessoas aparentemente comuns em situações-limite, onde serão testadas de maneira violenta, mas com alguma chance (ainda que pequena) de escaparem da morte quase certa. Para escapar, entretanto, precisarão fazer algum sacrifício, geralmente ligado à auto-mutilação. Enfim, você furaria os próprios olhos, cortaria o tornozelo com um serrote ou esfaquearia um completo desconhecido até a morte para sobreviver? Acredito que sim, claro; afinal, o desejo de sobrevivência sempre é mais forte do que a lógica e as leis de uma sociedade civilizada. Porém, ao final, você terá aprendido uma valiosa lição de vida, baseada naquele sacrifício feito - enfim, de uma forma ou outra, passará a valorizar muito mais a sua própria vida quando teve que lutar e sacrificar-se para mantê-la.

JIGSAW, conforme a conclusão de
JOGOS MORTAIS e suas sucessivas continuações nos explicaram, é um doente terminal chamado John Kramer, que em breve terá sua vida ceifada por um tumor maligno no cérebro. Imagine a tristeza de querer imensamente viver quando se está condenado à morte e, ao seu redor, enxergar incontáveis pessoas que não dão o menor sentido ou valor à própria existência, como junkies, pervertidos, policiais corruptos, mentirosos, criminosos... Aí é que está o
"sentido" do trabalho do vilão: punir estas pessoas para que percebam o valor de viver, já que ele tem seus minutos contados. É um personagem muito mais rico do que os Jasons e Freddys, ou não é?
Bem, amiguinhos, este artigo é uma espécie de
"walkthrough", um resumão sobre o que vimos da franquia
JOGOS MORTAIS até agora, escrito principalmente com a finalidade de atualizar os marinheiros de primeira viagem (principalmente depois que percebi quanta gente ficou perdida com as reviravoltas e idas e vindas no tempo de
JOGOS MORTAIS 4). Minha primeira intenção era fazer um dossiê nos moldes dos que fiz para outras séries, mas não iria funcionar porque a franquia ainda está em permanente expansão (a
Parte 5 já foi filmada e a
Parte 6 está em pré-produção); e também porque já existem artigos sobre os quatro filmes, meus sobre os dois primeiros e do Gabriel Paixão sobre os dois últimos. Portanto, ficaremos mesmo no resumão, cujo objetivo principal é dar um sentido à quadrilogia toda como se fosse um único filme com seis horas de duração.



Nem preciso avisar que não tem como fazer isso sem soltar
SPOILERS, não é? Portanto, caso você não tenha visto algum dos filmes, é bom parar de ler AGORA!
Ainda aqui? Então vamos em frente:
JOGOS MORTAIS, o original, é aquele sonho de todo realizador independente tentando
"fazer nome" em Hollywood: custou a mixaria de 1,2 milhão de dólares e faturou mais de 102 milhões nos cinemas do mundo inteiro (fora as vendas de DVDs). Não se perca nas contas: o filme faturou mais de 100 vezes o que custou!!! Apareceu meio do nada e virou febre, com tantos fãs apaixonados quanto detratores (que não engoliram a tal reviravolta final e criticaram a obra só por isso). Quando a
LionsGate colocou suas mãos na pequena produção, percebeu que tinha uma mina de ouro e deu sinal verde para que fosse filmada a primeira seqüência em tempo recorde, para lançamento já no ano seguinte, 2005.
E foi assim que os fãs de horror contemporâneos começaram a se acostumar a ter um
JOGOS MORTAIS por ano, com estréia sempre no
Halloween (pelo menos nos EUA), sempre com armadilhas criativas, cartazes envolvendo alguma mutilação corporal (e que geralmente acabam censurados e alterados) e filmagens feitas às pressas para manter o compromisso anual, mais ou menos como acontecia com as continuações de
SEXTA-FEIRA 13 (produzidas também anualmente pela
Paramount na década de 80).
As cifras só foram aumentando:
JOGOS MORTAIS 2, de 2005, custou 4 milhões e arrecadou 147 milhões de dólares de bilheteria;
JOGOS MORTAIS 3, de 2006, foi filmado com 10 milhões e faturou 164 milhões de dólares nos cinemas; finalmente,
JOGOS MORTAIS 4, lançado em 2007, feito com o mesmo orçamento do terceiro, continua em cartaz em alguns países (por isso ainda não existe um total de bilheteria arrecadada), mas, só nos EUA, faturou 63 milhões nos cinemas. É ou não é uma verdadeira mina de ouro?


Mas o mais incrível de tudo é como os produtores responsáveis pela agora oficialmente interminável franquia têm conseguido manter um surpreendente padrão de qualidade, muito diferente da decadência de outras séries igualmente intermináveis (tipo
HELLRAISER). Este
"padrão de qualidade" é garantido principalmente pela participação direta dos pais da criança (James Wan e Leigh Whannell) no desenvolvimento das seqüências.
Quem é dos anos 80 certamente lembra que tínhamos um novo
SEXTA-FEIRA 13 ou
A HORA DO PESADELO todo ano. Mas eram seqüências bisonhas, o legítimo
"mais do mesmo", onde tudo que os estúdios conseguiam entregar era uma farofa pronta, mais uma rodada de mortes violentas e de efeitos especiais. Recentemente, aconteceu a mesma coisa com a trilogia
PÂNICO: apesar de todo bafafá dos fãs e das intragáveis
"identidades-surpresa" do assassino de cada filme, era puro
"mais do mesmo" com roupagem pop e embalagem moderninha.
Com
JOGOS MORTAIS, felizmente, não é assim. Aliás, é admirável como os caras conseguem escrever roteiros tão complexos e auto-referenciais tendo tão pouco tempo à disposição (lembre-se que mal estréia um filme da série e eles já estão pensando no outro, tendo menos de um ano para fazer tudo, do roteiro às filmagens!). Desde
JOGOS MORTAIS 2, há uma preocupação em manter o espírito de história interligada, resgatando personagens do capítulo anterior (não raras vezes matando-os violentamente, só para mostrar que todo mundo é dispensável) e jogando um pouco mais de luz sobre o próprio vilão,
JIGSAW. Quais são as suas motivações? Por que ele se tornou o que é?


Seria muito cômodo lançar um
JOGOS MORTAIS - O INÍCIO, contando toda a historinha triste do vilão para tentar transformá-lo em herói (como fizeram com
Hannibal Lecter), mas os roteiristas preferem jogar flashes do passado de
JIGSAW aos poucos em cada continuação, de maneira que lentamente descobrimos um pouco mais sobre ele - com a perdão do trocadilho, é como se estivéssemos realmente montando um quebra-cabeça. Foi somente através destes flashbacks lançados a conta-gotas que descobrimos que
JIGSAW era um arquiteto chamado John Kramer, que, após ser diagnosticado como doente terminal, resolveu castigar aqueles que não dão valor à própria existência. Claro, tem muito mais no meio, como as seqüências continuam nos explicando, inclusive um filho perdido (detalhe que eu já achei exagerado, mas vá lá). O que importa é que o personagem
JIGSAW continua em expansão.
Quando surgiram as notícias de
JOGOS MORTAIS 2, eu fui um dos primeiros a chiar. E mordi a língua, pois gostei do filme quando ele foi lançado (e
"desgostei" um pouco ao vê-lo pela segunda vez, pois é um filme que perde pontos na revisão). Mais tarde, quando ficou evidente que as aventuras de
JIGSAW acabariam se transformando numa franquia sem previsão de terminar, voltei a torcer o nariz. Eu não gostei muito de
JOGOS MORTAIS 3, mas neste caso o problema não tem nada a ver com a trama (redondinha e interessante, como sempre), e sim com os protagonistas nada simpáticos e alguns absurdos em relação às mortes. Então surgiu
JOGOS MORTAIS 4 e minha simpatia pela série só aumentou: quem diria que os roteiristas conseguiriam contornar o
"pequeno problema" da morte de
JIGSAW no final da
Parte 3 e ainda assim conceber uma história com novidades?
E este, talvez, seja o grande charme da série: o espectador nunca sabe o que esperar de um novo
JOGOS MORTAIS. Ao contrário das seqüências de
SEXTA-FEIRA 13 e
A HORA DO PESADELO, que eram tão prosaicas quanto ligar os pontos (o vilão ressuscitava, matava todos os figurantes e era novamente destruído, somente para voltar no outro ano), há uma preocupação de que cada um dos
JOGOS MORTAIS traga elementos que não só divirtam os espectadores e fãs da série, mas também tentem surpreendê-los. E o mais incrível é que eles sempre conseguem. Sempre!


Evidente que o nível de surpresa foi ficando mais simples à medida que o espectador já ESPERA ser surpreendido na conclusão. Mas poucas coisas podem ser tão maravilhosamente inesperadas quanto aquele
"cadáver" levantando, vivo, no final do primeiro filme. Os roteiristas tiveram que quebrar a cabeça (sem trocadilho, de novo) nos anos posteriores para conceber reviravoltas tão esdrúxulas quanto inesperadas, e não fizeram feio: seja a revelação de que Amanda é cúmplice de
JIGSAW (na
Parte 2), a morte do vilão condenando a filha do herói à morte (na
Parte 3) ou a revelação de um novo cúmplice do agora falecido
JIGSAW (na
Parte 4), o espectador sempre acaba de olhos esbugalhados, meio revoltado por ter sido
"enganado", mas ao mesmo tempo curioso para saber o que os produtores irão aprontar no próximo filme, no ano que vem.
Minha maior preocupação quando começaram a pipocar as seqüências de
JOGOS MORTAIS era justamente com o rumo que seria dado à história. Peguemos a série
PREMONIÇÃO como exemplo: já está no seu quarto filme, e cada seqüência é praticamente refilmagem da outra (mudando apenas o local onde acontece a
"premonição" e as mortes). Com a série
JOGOS MORTAIS eu pensei que seria semelhante: que teríamos
JIGSAW e uma nova série de armadilhas em cada continuação, e olhe lá. Felizmente, os produtores nunca deixaram a franquia cair neste marasmo. Sim, as armadilhas estão sempre lá (em número progressivamente menor, vale destacar), mas não são elas que movem a narrativa, e sim o teste do vilão com o personagem principal de cada filme e as explicações das pontas soltas deixadas pela seqüência anterior. Quem assiste as seqüências apenas para ver as armadilhas criativas certamente fica boiando.
Veja o caso do mais recente
JOGOS MORTAIS 4: ele cita abertamente personagens de todos os filmes anteriores, inclusive resgatando OS MESMOS atores. Que outra série dos últimos 20 anos você viu com tamanho respeito pela própria cronologia e mitologia?
SEXTA-FEIRA 13 certamente não, e muito menos
HALLOWEEN (onde arcos inteiros de histórias, como o da sobrinha de
Michael Myers ou da maldição druida, são descartados sem o menor pudor nas seqüências). E o que dizer da franquia
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (a original), onde Leatherface tinha uma família diferente a cada filme?
É este cuidado com uma trama cronologicamente verossímil que me faz ver a franquia
JOGOS MORTAIS como a única série fantástica moderna onde os capítulos realmente estão conectados; ou seja, uma continuação realmente CONTINUA a outra. O outro exemplo de franquia tão perfeitamente coesa que consigo lembrar é a quadrilogia
FANTASMA, de Don Coscarelli. Não é pouca coisa...
Os imitadores de
JOGOS MORTAIS não perceberam que era este o verdadeiro charme da série, e por isso deram com os burros n'água. E olha que não faltaram imitadores, depois que
JIGSAW inaugurou um subgênero conhecido ironicamente como
"torture porn" (tortura pornô):
O CATIVEIRO (2007),
ARMADILHAS MORTAIS ("Are You Scared?, 2006) e
LIVE FEED (2006) tentam chupar os elementos bem-sucedidos de
JOGOS MORTAIS, porém sem o mesmo sucesso, dando mais ênfase à violência e às torturas mirabolantes do que ao roteiro.
Como se já não tivesse méritos suficientes, a franquia do
JIGSAW - que os fãs de horror underground e hardcore adoram chutar e taxar pejorativamente de
"terror teen" - tem ainda o mérito de apresentar o exploitation para a geração shopping center. Fale a verdade: você algum dia imaginaria ver um filme como
CANNIBAL HOLOCAUST num cinema multiplex de shopping center, depois de ir lanchar no McDonalds, e com um baldão de pipoca nas mãos? Isso provavelmente jamais iria acontecer, mas está aí a série
JOGOS MORTAIS apresentando, nos luxuosos cinemas de shopping, o melhor do horror exploitation censura 18 anos. Já pensou a coragem que tem o estúdio de investir numa faixa de público tão limitada, ainda mais sabendo que lá nos EUA eles adoram cortar a violência dos filmes justamente para conseguir um PG-13 e faturar dobrado na bilheteria?
E enquanto os undergrounds ficam achincalhando o pobre
JIGSAW, lá está ele marcando presença nos cinemas, levando para a telona cenas escabrosas de cirurgia cerebral, necropsia, mutilações diversas, escalpelamento e outras barbaridades, com um pé ainda na escatologia (as carcaças apodrecidas de porcos sendo trituradas e despejadas sobre uma vítima em
JOGOS MORTAIS 3, por exemplo). Feliz dessa geração teen, que pode crescer vendo filmes extremamente sérios e sangrentos como
JOGOS MORTAIS, ao invés das bobagens do Freddy e do Jason que eu tinha que engolir na minha época de adolescente...
Ainda não está convencido? Ora, meu amigo, então esqueça. Pare de ler este artigo e pare também de se preocupar com
JIGSAW e seus
Jogos Mortais, boicote seus filmes, humilhe os que curtem a série, diga que o quente mesmo é ver cinema italiano dos anos 80 ou filmes turcos de mil-novecentos-e-lá-vai-pedrada. Mas não pense que tão cedo estará livre do mais novo astro da galeria de vilões do cinema de horror contemporâneo. Pois, como uma versão hardcore do
Dr. Phibes,
JIGSAW, mesmo morto e enterrado, ainda tem muito que aprontar.
Por isso, que venham
JOGOS MORTAIS 5,
JOGOS MORTAIS 6 e até onde a série tiver fôlego para ir. A nova geração também merece sua franquia interminável, como a minha teve
SEXTA-FEIRA 13 e
A HORA DO PESADELO. E, em comparação, posso fazer uma confissão? Pois tenho inveja da geração atual, já que
JIGSAW teria muito a ensinar para o Jason e para o Freddy, bem como os diretores e roteiristas de
JOGOS MORTAIS teriam valiosos ensinamentos para os manés que afundaram as franquias destes dois vilões vergonhosamente ultrapassados.
E agora vamos dar uma rápida olhada nos filmes da série:
Jogos Mortais (2004)
Direção: James Wan
Roteiro: James Wan e Leigh Whannell
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O começo de tudo. Misturando CUBO e SEVEN, com toques do giallo italiano (o bonequinho no triciclo e as mãos enluvadas do vilão são referências confessas a PROFONDO ROSSO/PRELÚDIO PARA MATAR, de Dario Argento), o filme foi um sucesso que irritou muita gente pela sua conclusão inesperada.
Dois homens desconhecidos acordam acorrentados pelo tornozelo num banheiro abandonado. Um deles é o dr. Lawrence Gordon (Cary Elwes); o outro é o fotógrafo Adam Faulkner (o próprio roteirista Whannell). No meio dos dois, um cadáver sobre uma poça ensangüentada e um gravador. No gravador, uma mensagem: "Eu quero propor um jogo". É a voz de um serial killer que a polícia procura, chamado JIGSAW (Tobin Bell), conhecido por propor jogos mortais às suas vítimas. No caso da dupla, o jogo é simples: Adam deve lutar para não morrer; e o dr. Gordon deve matar Adam até as seis da tarde (um grande relógio numa das paredes informa o horário durante todo o filme), ou então algo terrível acontecerá à sua família.
Simples e direto. Quase toda a trama se desenrola naquele banheiro abandonado, com os dois desconhecidos (que logo saberemos não ser assim tão desconhecidos) tentando encontrar uma forma de escapar daquela situação sem precisar recorrer ao esquema do vilão. |
Paralelamente, através de flashbacks, descobrimos mais sobre a carreira de
JIGSAW, inclusive que há um detetive da polícia, David Tapp (Danny Glover, único astro a aparecer na série), perseguindo obsessivamente o vilão. No final-surpresa, os dois homens resolvem não fazer o jogo de
JIGSAW. Pelo contrário: desesperado, o dr. Gordon decepa o próprio pé para conseguir fugir e tentar salvar sua família (que, naquele momento, já está salva, mas somente o espectador sabe disso). E Adam descobre, desesperado, que o
"cadáver" caído entre eles este tempo todo era o próprio
JIGSAW, testemunhando ao vivo o jogo dos dois homens.
JOGOS MORTAIS é brilhante justamente pela sua simplicidade: tirando as cenas em flashback e a subtrama envolvendo a caçada do policial Tapp ao vilão, poderia muito bem ser um curta-metragem e se passar inteiramente no tal banheiro (a primeira idéia de Wan e Whannell era que os homens estivessem presos num elevador desativado). É interessante, também, que se saiba tão pouco de um vilão tão complexo, além do fato de ele ter fascinação por jogos, usar um bonequinho macabro num triciclo para assustar suas vítimas e uma máscara de porco quando ataca.


Quanto à reviravolta, por mais que seus detratores reclamem, tem toda a lógica, e os próprios produtores do original fizeram questão de explicá-la melhor em
JOGOS MORTAIS 3, quando vemos
JIGSAW injetando uma substância que provoca relaxamento muscular para suportar as quase duas horas caído no chão se fingindo de morto.
Além disso, neste primeiro filme as armadilhas ainda são simples: tem uma envolvendo fogo, outra envolvendo arame farpado e uma única mais elaborada que envolve a figura de uma junkie chamada Amanda (Shawnee Smith), aprisionada com uma máscara metálica que irá rasgar sua cabeça no meio caso ela não arranque a chave da sua liberdade do peito de um homem desacordado à sua frente. Nas seqüências, os produtores iriam exagerar progressivamente na complexidade e no tamanho das armadilhas, com
JIGSAW construindo artefatos completamente absurdos que ocupam uma sala inteira (principalmente na
Parte 3), o que desafia totalmente a lógica.


É por isso que
JOGOS MORTAIS continua o meu favorito da série: não inventa demais, não exagera demais e nem tem vítimas demais. Será difícil fazer uma lista dos filmes mais bem-sucedidos e influentes desta década sem citá-lo. Quer tentar?
• A reviravolta: O cadáver caído no meio dos dois homens, e que estava ali o filme inteiro, na verdade é o próprio vilão
JIGSAW fingindo-se de morto para poder obsevar melhor o andamento do seu
"jogo mortal".
• Fique de olho: Somente no segundo filme o espectador descobre que Amanda na verdade não é uma vítima, mas sim uma cúmplice de
JIGSAW. Entretanto, em flashbacks mostrados em
JOGOS MORTAIS 3, descobrimos que ela já auxiliava o vilão há muitos anos, e que foi ela quem ajudou-o a criar todo o jogo no banheiro. A existência da cúmplice explica como um doente terminal consegue atacar e desacordar homens saudáveis e mais jovens (é a própria Amanda quem faz isso, e não
JIGSAW).
Jogos Mortais 2 (2005)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Darren Lynn Bousman e Leigh Whannell
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Com o sucesso estrondoso do primeiro filme, era mais do que óbvio que uma seqüência logo apareceria. Mas ninguém podia imaginar que seria tão rápido - menos de um ano após o lançamento do original. Aliás, a LionsGate deu sinal verde para a produção de JOGOS MORTAIS 2 na semana de lançamento de JOGOS MORTAIS nos cinemas, utilizando para isso um roteiro original do diretor Bousman (que aqui estréia na série), chamado "The Desperate", e reescrito por Leigh Whannell para se encaixar na mitologia de JOGOS MORTAIS.
Como é comum em seqüências, esta exagera tudo que havia no original: enquanto antes eram dois homens num banheiro, agora são oito desafortunados presos numa casa abandonada, participando de um jogo mortal estilo Big Brother, onde devem encontrar seringas com antídoto para o veneno que irá matá-los em um curto intervalo de tempo - tais seringas, claro, irão detonar as armadilhas que "testarão" os personagens. Entre os prisioneiros está Amanda (Shawnee Smith), que já havia passado por um dos testes de JIGSAW no filme original. E, também como em CUBO (olha ele aí de novo), os personagens preferem brigar e matar um ao outro do que fazer um trabalho conjunto para tentar escapar daquela situação desesperadora. |
Paralelamente ao
Big Brother mortífero, a polícia e a SWAT invadem o esconderijo de
JIGSAW, que neste filme finalmente ganha tempo de cena e diálogos na pele do ator Tobin Bell (no original, ele aparecia rapidamente na conclusão). O detetive responsável pelas investigações, Eric Matthews (Donnie Wahlberg, irmão do galã Mark Wahlberg), descobre que uma das oito vítimas na casa é seu filho rebelde, Daniel (Erik Knudsen), e fará de tudo para salvar o rapaz, mesmo que para isso tenha que cruzar os limites da lei - e é exatamente isso que
JIGSAW quer, pois o próprio detetive está sendo testado.

A grande armadilha de
JOGOS MORTAIS 2 é aquela em que os próprios produtores se meteram: se
JIGSAW já havia sido apresentado no final do primeiro filme, que surpresa eles podiam trazer na seqüência, já que o público conhecia a identidade do assassino? Pois eles conseguiram pensar numa interessante reviravolta: Amanda revela-se uma cúmplice e seguidora fiel de
JIGSAW, infiltrada entre as vítimas para poder controlar melhor o jogo (como o próprio vilão fez no original). Além disso, há uma segunda reviravolta envolvendo o detetive e o vilão, no final, quando os personagens voltam ao banheiro onde se desenrolou o primeiro filme.
Como a proposta em si não era mais novidade, os produtores resolveram anabolizar as armadilhas (aqui melhor elaboradas) e quintuplicar a violência. A quantidade de sangue e de sadismo foi uma das minhas maiores surpresas quando vi o filme pela primeira vez, especialmente a cena arrepiante em que Amanda é atirada numa piscina repleta de seringas usadas (ai!), e tem que cavocar entre as agulhas. Outro momento de agonia é aquele em que um homem precisa cortar o próprio olho com um bisturi para tirar a chave que irá salvá-lo de um dispositivo mortal. Mas há ainda pescoços cortados, pessoas queimadas vivas, mortes a pauladas e outras mutilações diversas.
Deve-se fechar um olho para a lógica, claro. Afinal, todo o plano de
JIGSAW funciona como um relógio, apesar de termos oito pessoas sendo testadas ao mesmo tempo, o que torna todo o trabalho mais complexo (se um dos prisioneiros da casa tivesse matado o filho do detetive, por exemplo, teria acabado com todo o esquema mirabolante criado pelo vilão). Enfim, parece que tudo funciona bem DEMAIS, considerando as múltiplas variáveis de ter tantos jogadores ao mesmo tempo - e os produtores também perceberam isso, reduzindo o número de
"jogadores" nas seqüências posteriores.


Entretanto,
JOGOS MORTAIS 2 continua uma seqüência digna e surpreendente, principalmente quando o que você espera é um caça-níqueis qualquer feito na corrida para aproveitar o sucesso do original.
• Personagens dos outros filmes que reaparecem: Do primeiro filme retornam a detetive Kerry (Dina Meyer), que já investigava os crimes de
JIGSAW no original, e a ex-junkie Amanda (Shawnee Smith), que no primeiro filme havia sido vítima de um dos
"testes" do psicopata e aqui, conforme descobrimos, transformou-se em sua aprendiz. E no final, que se passa no mesmo banheiro onde acontece a maior parte do filme original, encontramos o cadáver de Adam (Leigh Whannell) e o pé decepado do dr. Lawrence Gordon (Cary Elwes), os dois personagens principais de
JOGOS MORTAIS.
• A reviravolta: Os acontecimentos que os policiais acompanham pela TV no esconderijo de
JIGSAW, mostrando os oito prisioneiros na casa, estão gravados em videotape, e não acontecendo em tempo real, como eles são levados a acreditar no início. Se o detetive Matthews tivesse tido a paciência de esperar lá mesmo, ao invés de levar
JIGSAW até o local onde o
"jogo" estava sendo realizado, descobriria que seu filho estava são e salvo no próprio esconderijo. E Amanda, que todos pensavam ser apenas mais uma vítima de
JIGSAW, revela-se cúmplice do vilão e ajuda a aprisionar o policial na conclusão, já que ele não jogou conforme as regras.

• Fique de olho: O cadáver de Adam pode ser visto no banheiro na conclusão, mas não o do dr. Gordon - o que, para muitos, significa que o médico está vivo e apenas esperando por uma oportunidade para reaparecer de surpresa na franquia.
Jogos Mortais 3 (2006)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Leigh Whannell
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Pessoalmente, acho JOGOS MORTAIS 3 o mais fraco da série. Não que seja ruim, claro, mas é tão exagerado que não me convenceu. E isso que o roteiro de Leigh Whannell, o criador da franquia, garante fidelidade total aos anteriores e ainda tenta colocar alguns pingos nos "I"s, principalmente no tocante à relação entre JIGSAW e sua cúmplice Amanda.
Este terceiro filme começa onde o segundo terminou: preso e deixado para apodrecer no mesmo banheiro que Adam (do primeiro filme), o detetive Matthews (Donnie Wahlberg) quebra o pé para conseguir libertar-se da corrente em seu tornozelo, ao invés de decepá-lo, como fez o dr. Gordon no original. Logo em seguida, a detetive Kerry, que investigava os crimes de JIGSAW nos dois filmes anteriores, é morta por uma das armadilhas do vilão.
Descobrimos que JIGSAW está num novo esconderijo, vivendo com Amanda, e que sua saúde está ainda mais debilitada pelo tumor cerebral. Por isso, uma médica chamada Lynn (Bahar Soomekh) é seqüestrada e levada até o esconderijo, recebendo um colar com explosivos que irão detonar caso os batimentos cardíacos de JIGSAW cessem. Mantê-lo vivo, portanto, é o jogo mortal da médica.
Paralelamente, um homem chamado Jeff (Angus Macfadyen) acorda num imenso armazém e descobre que é ele o jogador do momento. |
Tendo perdido seu filho pequeno num trágico acidente de trânsito, ele terá a oportunidade de ou salvar ou deixar morrer nas armadilhas de
JIGSAW todas as pessoas envolvidas no episódio (a testemunha que mentiu sobre o acidente, o juiz que inocentou o motorista que atropelou o garoto, e até o próprio responsável pela morte do seu filho). Finalmente, em flashbacks, descobrimos mais sobre o passado de
JIGSAW.
Na conclusão, a reviravolta coincidentemente também é tripla: descobrimos que Jeff e Lynn são casados, que Amanda também está sendo testada por
JIGSAW (e falha no teste) e que a outra filha de Jeff e Lynn, a pequena Corbett (Niamh Wilson), foi presa pelo vilão. Como Jeff falha em seu teste (supostamente, ele deveria aprender a perdoar; mas não aprende, e mata
JIGSAW com uma serra circular), condena a filha e a esposa à morte, pois o vilão era o único que sabia onde a menina estava, e ao morrer ele detona o colar de explosivos no pescoço de Lynn.


É uma conclusão perfeita para uma trilogia bem amarrada (todos os heróis e vilões morrem no final, impedindo a realização de novas seqüências), com direito a um belo choque final (a idéia de que a criança vá morrer de fome no lugar onde está aprisionada). Mas, claro, os produtores não pensavam em terminar a série tão cedo, por isso jogaram vários detalhes que só serão explicados nos próximos filmes: uma carta endereçada a Amanda (cujo conteúdo não é revelado, mas deixa a moça furiosa), uma fita que
JIGSAW cobre com cera de vela pouco antes de morrer, entre outras pistas.
Apesar da conclusão ser extraordinária e corajosa (ninguém mais agüenta assassinos imortais no cinema de horror),
JOGOS MORTAIS 3 tem dois grandes problemas, na minha análise. O primeiro é que o casal de protagonistas, Lynn e Jeff, falha no quesito
"simpatia", e são protagonistas com quem o espectador não se envolve nem se importa. O nível de violência é semelhante ao de
JOGOS MORTAIS 2, com direito a uma longa e gratuita cena de cirurgia cerebral que deve ter provocado vômito na garotada que foi ao cinema. Mas aqui não há cenas arrepiantes, apenas muito sangue esguichando.
E é justamente no exagero que reside o segundo grande problema do filme: por mais bem organizado e genial que
JIGSAW seja, todas as suas armadilhas funcionam como um relógio suíço (repare que o Jeff sempre entra nas salas e dispara alguma coisa que dá início à armadilha, e nunca nenhum mecanismo trava ou funciona errado, é tudo sincronizado e certinho). Imaginem o tamanho que precisaria ter o armazém onde Jeff está para comportar aquela seqüência de armadilhas, já que cada uma ocupa um espaço imenso, geralmente uma sala inteira. Isso sem contar todos os mecanismos necessários, mobilizando uma estrutura enorme que nunca chama a atenção da polícia.
JIGSAW até consegue dezenas de carcaças podres de porcos só para fazer uma armadilha escatológica (fico imaginando o tempo e trabalhão para pendurar aqueles porcos e montar tudo para que o mecanismo desse certo)! Além disso, se nos dois filmes anteriores
JIGSAW tinha o controle total da situação, aqui não tem - se Jeff tivesse se recusado a seguir em frente, tentado um caminho alternativo ou morrido no meio do teste, por exemplo, todo o plano de
JIGSAW iria por água abaixo.


Enfim: exagero tem limite, e esse
JOGOS MORTAIS 3 é o cúmulo neste quesito. Já a direção de Bousman é irritante, com cortes rápidos e takes acelerados nas cenas de morte, filmadas todas do mesmo jeito (com a câmera rodeando a vítima e closes na cara de dor dela). Méritos para o final, mas é uma amostra de que a série poderia estar perdendo o fôlego.
• Personagens dos outros filmes que reaparecem: Em cenas de flashback, vemos a preparação do célebre episódio do banheiro mostrado em
JOGOS MORTAIS, inclusive com os desmaiados Adam e dr. Gordon atirados no chão. Shawnee Smith retorna como Amanda, a seguidora de
JIGSAW, assim como Dina Meyer como a detetive Kerry (aqui também tornando-se vítima de uma das armadilhas do psicopata), Lyriq Bent como o sargento Riggs, da SWAT (vindo de
JOGOS MORTAIS 2), e Donnie Wahlberg como o detetive Eric Matthews (também de
JOGOS MORTAIS 2), quando é explicado o que aconteceu com o personagem após a conclusão do segundo filme - neste momento, também aparece o cadáver de Xavier (Franky G), morto no final do filme anterior. Um coadjuvante que reaparece é o soldado da SWAT Joe (Vincent Rother), também de
JOGOS MORTAIS 2.
• A reviravolta: O espectador descobre que Lynn e Jeff são marido e mulher. E, quando Jeff se vinga, matando
JIGSAW, assina a sentença de morte da esposa e também da sua filha pequena, Corbett (Niamh Wilson), cujo paradeiro apenas o falecido vilão conhecia.
• Fique de olho: Antes de morrer,
JIGSAW aparece pingando cera numa fita cassete (seu conteúdo só será descoberto em
JOGOS MORTAIS 4); já o conteúdo da carta que Amanda encontra em seus aposentos, e que a deixa furiosa com
JIGSAW, continua um mistério (que provavelmente será explicado em
JOGOS MORTAIS 5, pois no quarto filme descobrimos que foi o detetive Hoffman quem escreveu a carta).
Jogos Mortais 4 (2007)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Patrick Melton e Marcus Dunstan
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Como é que os produtores poderiam continuar a série após o final de JOGOS MORTAIS 3? Esta deve ter sido a principal dúvida de todos os fãs da franquia, e foi exatamente o que eu pensei quando começaram a pipocar as primeiras informações sobre o filme. Por um momento, pensei que seria justamente um JIGSAW - O INÍCIO, mostrando o passado do vilão. Felizmente, os produtores conseguiram dar um novo rumo à franquia e ainda mantê-la interessante mesmo SEM JIGSAW (resta saber por quanto tempo isso vai funcionar). É a primeira seqüência da série sem a participação direta de Leigh Whannell, o co-roteirista do primeiro JOGOS MORTAIS. No seu lugar entrou a dupla Patrick Melton e Marcus Dunstan, autores do roteiro do divertido FEAST - BANQUETE DO INFERNO.
JOGOS MORTAIS 4 começa com uma surpreendentemente gráfica e realista cena da autópsia de JIGSAW - sim, o vilão está realmente morto, não era um boneco no final da Parte 3. Didaticamente, para quem nunca viu uma autópsia, a câmera mostra o crânio do cadáver sendo serrado para a retirada do cérebro, o corte no tórax para exame dos órgãos e a abertura do estômago para verificar a última refeição do falecido.É então que os legistas se surpreendem ao encontrar uma fita cassete envolta em cera de vela (lembra do final de JOGOS MORTAIS 3?). Único sobrevivente dos homens da lei que investigam o caso JIGSAW, o detetive Hoffman (Costas Mandylor, que entrou na franquia na Parte 3) é chamado e, ao tocar a fita, ouve a seguinte mensagem: |
"Não pense que você não será testado só porque eu estou morto. Os jogos apenas começaram!".
Em seguida, vemos a SWAT chegando à cena do crime da detetive Kerry (morta em
JOGOS MORTAIS 3). O sargento Riggs (Lyriq Bent), que era amigão da moça desde a
Parte 2, fica furioso ao saber que ela também se tornou vítima de
JIGSAW. E, ao chegar em casa, é ele próprio aprisionado pelo vilão. Ele acorda horas mais tarde no próprio apartamento, que foi
"redecorado" para dar início aos novos jogos mortais. O teste de Riggs é simples: ele basicamente precisa fazer o papel de
JIGSAW por algumas horas, aplicando as armadilhas a um grupo de
"pecadores" (entre eles, um estuprador e um pai que agredia a filha pequena). Somente assim, seguindo as pistas deixadas pelo vilão, ele conseguirá chegar ao local onde estão não apenas o aprisionado Hoffman, mas também o detetive Matthews (Donnie Wahblerg, de volta à série após as
Partes 2 e
3). No caminho, poderá enfrentar o que parece ser um novo cúmplice de
JIGSAW, Art Grant (Justin Louis).


Paralelamente a tudo isso, entram em cena dois novos investigadores e candidatos a vítimas, os agentes do FBI Strahm (Scott Patterson) e Perez (Athena Karkanis), que acreditam que a chave para o mistério possa estar em Jill (Betsy Russell), a ex-esposa de John Kramer (nome civil de
JIGSAW). Novos flashbacks explicam ao espectador como ele começou sua carreira criminosa e quem foi sua primeira vítima. Explicam também a origem do boneco do triciclo e até da máscara de porco. E, ainda, mostram que diversos personagens mortos nas
Partes 2 e
3 eram velhos conhecidos de
JIGSAW, pacientes da clínica para recuperação de dependentes químicos administrada por sua esposa.
Como não poderia deixar de ser no quarto filme de uma série, algumas coisas já se tornaram repetitivas (as mensagens no gravador, as armadilhas complexas, a própria necessidade de ter uma reviravolta surpreendente no final e até a colagem de cenas que funciona como um
"resuminho" do filme na conclusão). Outras coisas não me convenceram, principalmente a aparição da nova dupla de investigadores, os agentes do FBI. Um dos piores momentos é aquele em que o agente Strahm tenta se passar por durão no interrogatório da ex-mulher de
JIGSAW. O fato de o ator ser péssimo só torna a cena inteira mais constrangedora, principalmente quando ele atira fotografias sobre a mesa ou soca as paredes numa raiva mais do que exagerada.
Entretanto, confesso que gostei muito mais desta quarta parte do que do segundo e do terceiro filmes. De certa forma,
JOGOS MORTAIS 4 abandona um pouco do exagero destas duas continuações e volta às origens: as armadilhas continuam elaboradas, mas são mecanismos mais simples, como os mostrados no original, dependendo apenas de processos mecânicos, como engrenagens e correias (aqui não há dispositivos ocupando uma sala inteira, como os vistos em
JOGOS MORTAIS 3).


A primeira das armadilhas é a melhor de todas: dois homens estão acorrentados a uma engrenagem que gira, enrolando a corrente de ambos. Eles precisam soltar os cadeados que têm presos ao pescoço antes que a corrente enrole totalmente e sufoque os dois. O problema é que a chave está presa ao pescoço de um deles, que tem os olhos costurados, e quem vê é o segundo homem, que tem a boca costurada e não pode alertá-lo para o fato. É óbvio que acabarão tendo que lutar até a morte, pois aquele que não enxerga pensa que o outro quer feri-lo, quando na verdade ele só quer pegar a chave para libertar a ambos! É o tipo de dispositivo e de situação simples que funcionam muito melhor do que aqueles equipamentos absurdos da
Parte 3 (tipo o
"liquidificador de porcos"). Outra boa sacada é o detetive Matthews aparecer com uma forca no pescoço e equilibrado sobre um bloco de gelo que vai derretendo aos poucos (citação a uma cena do clássico exploitation
ILSA - SHE WOLF OF THE SS).
Além disso, um diálogo entre os agentes do FBI tenta explicar como
JIGSAW consegue montar tais artefatos complicados: quando eles vão até a cena de um dos crimes, num quarto de hotel, Strahm diz que provavelmente as partes do mecanismo foram levadas até o local em diversas malas e então montadas sem que ninguém percebesse. Uma explicação rápida para os chatos de plantão, que adoram encarar tudo como furo de roteiro. hahahaha.
As armadilhas também provocam danos arrepiantes às vítimas neste quarto filme, seja enroscando o cabelo longo de uma garota até arrancar lentamente seu couro cabeludo ou mostrando um homem que precisa auto-mutilar-se, jogando o rosto contra uma grade de facas afiadas para poder se libertar de um mecanismo (as duas cenas me arrepiaram no mesmo nível da piscina de seringas de
JOGOS MORTAIS 2, e muito mais que qualquer uma das torturas fajutas de
JOGOS MORTAIS 3). A própria direção de Bousman está mais contida do que na insuportável
Parte 3, sem abusar dos seus tiques videoclipeiros e com belos cortes mostrando a passagem de uma cena para a outra.


Além disso, confesso que as duas reviravoltas finais me pegaram de jeito. Quando alguém comenta que
JIGSAW provavelmente tinha um segundo cúmplice além de Amanda, acreditei que se tratasse do tal Art. Afinal, nos outros filmes, o vilão também contou com uma
"ajudinha" de outras pessoas, como o enfermeiro Zep Hindle em
JOGOS MORTAIS e o marginal Obi (Tim Burd) em
JOGOS MORTAIS 2, já que sozinho um moribundo como ele jamais conseguiria fazer tudo o que faz. Mas a revelação de que Hoffman, aparentemente um prisioneiro, vem a ser o próprio cúmplice realmente é inesperada - embora lembre Amanda em
JOGOS MORTAIS 2. E faz todo sentido o vilão ter um cúmplice na polícia, o que explica como ele consegue informações tão detalhadas sobre os meliantes que prende e tortura.
Entretanto, a maior e melhor reviravolta do filme é o fato de os acontecimentos que o espectador acompanha estarem ocorrendo AO MESMO TEMPO dos fatos mostrados em
JOGOS MORTAIS 3! Inclusive, no final, o agente Strahm invade o esconderijo de
JIGSAW justamente no momento em que Jeff está cortando o pescoço do vilão - e o pobre Jeff ainda acaba baleado pelo agente do FBI, comprovando que é mesmo um sujeito de muito azar. Logo, o início do filme (com a autópsia de
JIGSAW e o encontro da fita) é justamente O FINAL de
JOGOS MORTAIS 4, e por isso o jogo mortal do detetive Hoffman ainda está por vir, provavelmente na
Parte 5.
É incrível quando uma série, já em seu quarto filme, consegue manter o mesmo nível de originalidade e surpresas que marcou o espectador desde o original. É o caso deste
JOGOS MORTAIS 4: quando você espera um
"mais do mesmo" ou um caça-níqueis, eis que os produtores entregam mais um filme completamente diferente, e ainda deixando elementos suficientemente interessantes para que todo mundo aguarde por
JOGOS MORTAIS 5. Pelos comentários que li no orkut e em fóruns, muitos espectadores ficaram perdidos com as explicações e reviravoltas deste quarto filme. Mas, como eu espero que o leitor tenha percebido após acompanhar este extenso artigo, tudo faz sentido e tudo está logicamente interligado, e é justamente aí que reside o grande charme desta franquia.

• Personagens dos outros filmes que reaparecem: Do primeiro filme é citado o dr. Lawrence Gordon, numa cena de flashback em que vemos
JIGSAW entrando em seu consultório. O cadáver da detetive Kerry (morta em
JOGOS MORTAIS 3) aparece coberto de ratos, e o sargento Riggs (que apareceu nas
partes 2 e
3) agora é o protagonista. Donnie Wahlberg retorna como o detetive Eric Matthews, de
JOGOS MORTAIS 2, que muitos pensavam ter sido morto por Amanda no terceiro filme. Em cenas de flashback da origem de
JIGSAW, vemos vários personagens mortos em
JOGOS MORTAIS 2: Addison (Emmanuelle Vaugier) é mostrada como uma prostituta que aborda
JIGSAW antes de ele se transformar em psicopata; Gus (Tony Nappo, morto com um tiro no olho no segundo filme) e Michael (Noam Jenkins, morto no início do segundo filme) são pacientes da clínica para recuperação de drogados da esposa de
JIGSAW. Na clínica também vemos Troy (J. LaRose, aquele que arranca as correntes da própria carne em
JOGOS MORTAIS 3), Paul (Mike Butters, de
JOGOS MORTAIS) e o homem morto por Amanda (Oren Koules) em
JOGOS MORTAIS. Do terceiro filme, retornam o detetive Hoffman (Costas Mandylor), a ex-esposa de
JIGSAW, Jill (Betsy Russell), a soldado da SWAT Pete (Kelly Jones) e Jeff (Angus Macfadyen), o protagonista de
JOGOS MORTAIS 3. Quando o cadáver de
JIGSAW é encontrado, também aparecem os cadáveres de Lynn (Bahar Soomekh) e Amanda (Shawnee Smith), ambas mortas no final do terceiro filme.
• A reviravolta: O espectador descobre que os acontecimentos mostrados em
JOGOS MORTAIS 4 acontecem paralelamente àqueles que aconteciam em
JOGOS MORTAIS 3, e no final os personagens dos dois filmes acabam se cruzando. O detetive Hoffman revela-se o novo cúmplice de
JIGSAW.
• Fique de olho: Nas cenas em que aparece a clínica de recuperação de drogados da ex-esposa de
JIGSAW, é possível ver vários personagens que morreram nos três filmes anteriores, mostrando que há uma incrível conexão entre todas as histórias. O filme termina deixando em aberto o teste pelo qual Hoffman passará para assumir definitivamente o manto de
JIGSAW.
Jogos Mortais 5 (2008)
Direção: David Hackl
Roteiro: Patrick Melton e Marcus Dunstan
Falta muito para o
Halloween e ainda é difícil prever o que os produtores estão armando para
JOGOS MORTAIS 5, considerando o rumo que a série tomou no quarto filme. Uma certeza: não termina aqui, pois
JOGOS MORTAIS 6 já está agendado. Um novo diretor, David Hackl (que foi diretor de segunda unidade nas
partes 3 e
4), substitui Darren Lynn Bousman, que filmou as
partes 2,
3 e
4, o que pode representar um sopro de renovação na franquia (principalmente para quem enjoou da edição
"videoclipe" de Bousman). O roteiro será dos mesmos Marcus Dunstan e Patrick Melton que escreveram
JOGOS MORTAIS 4, uma evidência de que eles estão pensando na trama como um todo e saberão desenvolver as pontas soltas deixadas no último filme.
Já foi confirmada a presença de Tobin Bell como
JIGSAW, obviamente em flashbacks, então podemos esperar por mais novidades sobre o passado do vilão (quem sabe não darão um jeito de ligar a ex-esposa Jill, das
Partes 3 e
4, ao trabalho do psicopata?). Costas Mandylor retorna como o detetive Hoffman, e nem poderia ser diferente, considerando o final da
Parte 4. Outro que volta é Scott Patterson, que estreou na série no quarto filme como o agente do FBI Strahm. Provavelmente será explicado o que aconteceu com ele após ter encontrado o cadáver de
JIGSAW e ser trancado no esconderijo do vilão por Hoffman (no final de
JOGOS MORTAIS 4). Já se sabe, pela entrevista do diretor Hackl ao site
Bloody Disgusting, que o agente Strahm enfrentará a mais brutal das armadilhas do filme, então é bastante provável que o personagem não escape vivo para voltar no sexto filme...
Há uma série de dúvidas por responder que deverão estar no roteiro de
JOGOS MORTAIS 5. Uma delas é o conteúdo da carta que enfurece Amanda no final da
Parte 3. Todos pensavam que era uma carta de
JIGSAW, mas, no final do quarto filme, é revelado que foi Hoffman quem a escreveu. Além disso, no começo de
JOGOS MORTAIS 4 (que, cronologicamente, é o final do filme), Hoffman escuta a última gravação de
JIGSAW, e o vilão diz:
"Se está ouvindo isso, você foi o único que sobrou. Mas não pense que não será testado". Logo, o próximo jogo de
JIGSAW provavelmente envolverá o seu próprio ajudante (se Amanda teve que se sacrificar duas vezes para provar sua lealdade ao mestre, imagine o que está reservado para o pobre detetive...).
Uma outra questão é o destino de Corbett (Niamh Wilson), a filhinha de Jeff em
JOGOS MORTAIS 3. No final daquele filme, Jeff descobre que a menina foi seqüestrada e que era parte de um novo jogo de
JIGSAW, mas Jeff acabou matando o vilão antes de ele explicar qual era o jogo. Para mim, pessoalmente, seria muito mais chocante se Corbett tivesse morrido abandonada, já que a morte de
JIGSAW impede que a menina seja resgatada (e o próprio Jeff foi morto por Strahm no final da
Parte 4 antes de poder avisar os homens da lei sobre o seqüestro da sua filha). Porém, em um momento de
JOGOS MORTAIS 4, vemos Hoffman segurando um ursinho de pelúcia muito semelhante ao que Corbett tinha em seu quarto em
JOGOS MORTAIS 3, o que pode ser uma evidência de que o destino da criança será explicado no quinto filme e estaria ligado ao policial.
Inclusive foi filmada uma cena para
JOGOS MORTAIS 4 mostrando Hoffman no depósito onde a menina estava aprisionada (sabendo sua localização porque foi justamente ele que prendeu a criança ali, como cúmplice de
JIGSAW); a idéia era mostrar o detetive duas-caras libertando Corbett e se transformando em
"herói". Esta cena originalmente apareceria no final da
Parte 4, mas os produtores resolveram cortá-la para incluir na
Parte 5.
E mais: lembra que em
JOGOS MORTAIS 4, quando vemos um ainda iniciante
JIGSAW desenhando suas primeiras armadilhas, ele aparece trabalhando no que parece ser um enorme caixão feito de vidro? Pois é: esta armadilha nunca é usada no filme, mas há uma foto em alguns sites mostrando um figurante seminu preso na tal caixa e com uma expressão de horror no rosto. Será que veremos o dispositivo sendo colocado em prática em
JOGOS MORTAIS 5?

Também é possível sonhar com o retorno do dr. Lawrence Gordon, interpretado por Cary Elwes no primeiro filme. As seqüências nunca explicaram o que aconteceu ao médico após serrar o próprio pé e sair se arrastando em busca de ajuda, embora o mais provável é que ele esteja morto. Sabe-se, porém, que o personagem só não retornou nas três seqüências porque o ator Cary Elwes moveu um processo contra a
LionsGate, afirmando que não havia recebido seu cachê integral pelo trabalho em
JOGOS MORTAIS. Como a negociação entre ator e produtora foi encerrada em 2007, é possível que, com muito amor e carinho, ele seja convencido a retornar nesta ou na próxima seqüência. Afinal, ninguém nunca sabe o que se pode esperar no universo de
JOGOS MORTAIS...
Uma coisa é certa, e falo sem medo de ser injusto: a série
JOGOS MORTAIS é uma das melhores coisas do gênero vindas de um grande estúdio nos tempos atuais. E, como tal, deve ser valorizada e comemorada. E não se esqueça: sempre é bom valorizar a própria vida antes de receber uma visitinha de
JIGSAW ou de um de seus inúmeros cúmplices!
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