JIGSAW: O HOMEM POR TRÁS DOS JOGOS MORTAIS

(Ou "Porque John Kramer é o melhor vilão do cinema de horror moderno")


Tudo começou com dois homens algemados pelo tornozelo dentro de um banheiro abandonado e um gravador cuja fita continha a seguinte mensagem: "I want to play a game...". Nascia, no ano de 2004, um dos mais perenes e resistentes vilões do moderno cinema de horror, o JIGSAW (palavra em inglês para "quebra-cabeça") de JOGOS MORTAIS. O primeiro filme era uma pequena pérola de baixo orçamento produzida pelos amigos e diretores-roteiristas de primeira viagem James Wan e Leigh Whannell. Como normalmente acontece no mundo do cinema independente, JOGOS MORTAIS era uma história única e redondinha, surpreendente, com uma reviravolta final de tirar o chapéu e nenhuma possibilidade de dar margem a continuações. Isso, claro, até que o filme fez um estrondoso sucesso de público e crítica, dando origem a uma legião de fãs que imploravam pela volta de JIGSAW. E a Lionsgate, que recebeu o primeiro filme de braços abertos, não se fez de rogada, iniciando uma série atualmente interminável que consegue gerar uma sequência por ano, mais ou menos como acontecia com as franquias "Sexta-feira 13" e "A Hora do Pesadelo" nos áureos tempos.
No filme original, vale destacar, JIGSAW era uma figura quase mítica, meio sobrenatural até, de quem todos os personagens falavam o tempo todo. Entretanto, o espectador não via o "vilão" até a cena final, e ficava sem saber quais eram exatamente as suas motivações. A única coisa que ficava bem clara no primeiro JOGOS MORTAIS era o fato de Jigsaw ser uma espécie de Dr. Phibes do século 21. Phibes, para quem não sabe, foi um antológico personagem interpretado por Vincent Price em dois filmes produzidos nos anos 70. Pois JIGSAW e o Dr. Phibes têm em comum o gosto por armadilhas elaboradas, exageradas, quase absurdas na maior parte do tempo. Mas enquanto Phibes era um cientista doido que matava os médicos que não conseguiram salvar a vida de sua esposa, JIGSAW não é um assassino no sentido literal do termo. A bem da verdade, nem no primeiro filme e nem nas cinco continuações (até agora) o personagem aparece realmente MATANDO alguém.



O que JIGSAW propõe, e aí está a inteligência do conceito todo desde o filme original, é um "jogo mortal" com as suas vítimas: mais ou menos como o John Doe interpretado por Kevin Spacey no já clássico SEVEN, de David Fincher, JIGSAW coloca pessoas aparentemente comuns em situações-limite, onde elas serão testadas de maneira violenta, mas com alguma chance (ainda que pequena) de escaparem da morte quase certa. Para conseguir escapar, entretanto, elas precisarão fazer algum sacrifício, geralmente ligado à auto-mutilação.

A pergunta que fica: você furaria os próprios olhos, serraria o próprio pé ou esfaquearia um completo desconhecido para salvar a sua vida? Bem, não sei como eu mesmo agiria num "jogo mortal", mas acredito que o desejo de sobrevivência sempre é mais forte do que a lógica e do que as leis de uma sociedade civilizada. Além disso, os "jogos mortais" de JIGSAW têm como objetivo "ensinar uma lição de vida" às suas vítimas, castigando-as pelos erros cometidos e forçando-as a valorizar muito mais a sua própria vida - e você também não iria valorizar a sua se tivesse que decepar o próprio braço para não morrer de maneira terrível?



JIGSAW, conforme a conclusão de JOGOS MORTAIS e suas sucessivas continuações nos explicaram, era um doente terminal chamado John Kramer (interpretado pelo até então desconhecido Tobin Bell, o único ator a participar dos 6 filmes da série). Bem-sucedido e bem-casado, o arquiteto de sucesso aguardava a chegada do primeiro filho, mas descobriu que iria morrer em breve devido a um tumor maligno no cérebro. Imagine agora a tristeza de querer imensamente viver estando irremediavelmente condenado à morte. E, ao mesmo tempo, enxergar ao seu redor incontáveis pessoas que não dão o menor sentido ou valor à própria existência, como viciados em drogas, pervertidos, policiais corruptos, criminosos...

Aí é que está o "sentido" do trabalho do vilão: punir estas pessoas para que elas percebam o valor de viver. É ou não é um personagem muito mais rico do que os Jasons e Freddys?

Bem, amiguinhos, este artigo é uma espécie de "walkthrough", um resumão sobre o que vimos da franquia JOGOS MORTAIS até agora, escrito principalmente com a finalidade de atualizar os marinheiros de primeira viagem (principalmente depois que percebi quanta gente ficou perdida com as reviravoltas e idas e vindas no tempo dos três últimos JOGOS MORTAIS, Partes 4 a 6).



Minha primeira intenção era fazer um dossiê nos moldes dos que fiz para outras cinesséries, mas não iria funcionar porque a franquia ainda está em permanente expansão (a Parte 6 acabou de chegar aos cinemas e era para ser a última, mas uma Parte 7 já está em pré-produção, e será em 3D!). E também porque já existem artigos sobre os seis filmes aqui na Boca do Inferno - dois meus, sobre os dois primeiros, e outros quatro do Gabriel Paixão, cobrindo a franquia daí em diante.

Assim, preferi ficar no resumão, cujo objetivo principal é dar um sentido à série toda, analisando-a como se fosse um único filme com quase 12 horas de duração. Bem, infelizmente não tem como fazer isso sem soltar SPOILERS. Portanto, caso você não tenha visto algum dos filmes, é bom parar de ler AGORA!

Ainda aqui? Então vamos em frente:

JOGOS MORTAIS, o original, é aquele sonho de todo realizador independente tentando "fazer nome" em Hollywood: custou a mixaria de 1,2 milhão de dólares e faturou mais de 102 milhões nos cinemas do mundo inteiro (fora as vendas de DVDs). Não se perca nas contas: o filme faturou mais de 100 vezes o que custou!!! Apareceu meio do nada e virou febre, com tantos fãs apaixonados quanto detratores (que não engoliram a tal reviravolta final e criticaram a obra só por isso). Quando a Lionsgate colocou suas mãos na pequena produção, percebeu que aquilo era uma mina de ouro e deu sinal verde para que fosse filmada a primeira sequência em tempo recorde, para lançamento já no ano seguinte, 2005.

E foi assim que os fãs de horror da nova geração começaram a se acostumar a ter um JOGOS MORTAIS por ano, com estreia sempre no Halloween (pelo menos nos EUA), e filmes que sempre trazem novas armadilhas criativas, além de cartazes envolvendo alguma mutilação corporal (que geralmente acabam censurados e alterados) e filmagens feitas às pressas para manter o compromisso anual. Surpreendentemente, apesar de os filmes estarem sendo produzidos na corrida, a qualidade tem se mantido constante. Eu adoraria dizer que JOGOS MORTAIS é um caça-níqueis, mas não é: os filmes costumam trazer surpresas e histórias razoavelmente diferentes dos anteriores, ao contrário, por exemplo, das já citadas séries "Sexta-feira 13" e "A Hora do Pesadelo", cujas sequências eram sempre iguais.
E as cifras só foram aumentando: JOGOS MORTAIS 2, de 2005, custou 4 milhões e arrecadou 147 milhões de dólares de bilheteria; JOGOS MORTAIS 3, de 2006, foi filmado com 10 milhões e faturou 164 milhões de dólares nos cinemas; JOGOS MORTAIS 4, lançado em 2007, feito com o mesmo orçamento do terceiro, rendeu 139 milhões de dólares no mundo inteiro; e JOGOS MORTAIS 5, de 2008, novamente custou a média de 10 milhões e, embora não existam dados precisos da bilheteria mundial, faturou 57 milhões só nos cinemas americanos. Só o novo JOGOS MORTAIS 6 que começou mal das pernas, com uma bilheteria fraquinha na semana de abertura (perdendo para um "estreante", o terror independente ATIVIDADE PARANORMAL), o que pode ser um sinal de que a franquia já cansou. Seja como for, analise estes números todos. É ou não é uma verdadeira mina de ouro?

Mas o mais incrível em relação à série JOGOS MORTAIS é como os produtores responsáveis pela interminável franquia têm conseguido manter um surpreendente padrão de qualidade, muito diferente da decadência de outras séries igualmente intermináveis (tipo "Hellraiser" ou "A Colheita Maldita"). Este "padrão de qualidade" é garantido principalmente pela participação direta dos pais da criança (James Wan e Leigh Whannell) no desenvolvimento das sequências, seja como roteiristas, seja como produtores-executivos.

Quem é dos anos 80 certamente lembra que cada novo "Sexta-feira 13" ou "A Hora do Pesadelo" eram sequências bisonhas, o legítimo "mais do mesmo", onde tudo que os estúdios conseguiam entregar era aquela farofa pronta, mais uma rodada de mortes violentas e de efeitos especiais, mas sem mexer muito na "fórmula". Recentemente, aconteceu a mesma coisa com a trilogia "Pânico" (apesar de todo bafafá dos fãs e das intragáveis "identidades-surpresa" do assassino de cada filme, era puro "mais do mesmo" com roupagem pop e embalagem moderninha) e com a série "Premonição" (onde muda o acidente envolvendo os personagens no início e mais nada).

Com JOGOS MORTAIS não é assim. Aliás, é admirável como os caras conseguem escrever roteiros tão complexos e autorreferenciais tendo tão pouco tempo à disposição (lembre-se que mal estreia
um filme da série e eles já estão pensando no outro, tendo menos de um ano para fazer tudo, do roteiro às filmagens!). Desde JOGOS MORTAIS 2, há uma preocupação em manter o espírito de história interligada, resgatando personagens do capítulo anterior (não raras vezes matando-os violentamente, só para mostrar que todo mundo é dispensável) e jogando um pouco mais de luz sobre o próprio vilão, JIGSAW. Quais são as suas motivações? Por que ele se tornou o que é?

Seria muito cômodo lançar algo tipo "Jogos Mortais - O Início", contando toda a historinha triste do vilão para tentar transformá-lo em herói (como fizeram recentemente com Hannibal Lecter, Leatherface e até Michael Myers). Mas os roteiristas de JOGOS MORTAIS preferem jogar flashes do passado de JIGSAW aos poucos em cada continuação, de maneira que lentamente descobrimos um pouco mais sobre ele - com a perdão do trocadilho, é como se estivéssemos realmente montando um quebra-cabeça.

Foi somente através destes flashbacks lançados a conta-gotas nos últimos filmes que descobrimos mais sobre o passado de JIGSAW, inclusive o fato de sua esposa ter perdido o filho graças à agressão de um marginal (detalhe que eu achei exagerado, mas vá lá, depois que inventaram que o Hannibal Lecter teve que comer, literalmente, a própria irmã quando jovem...). O que importa, entretanto, é que o personagem JIGSAW continua em expansão.

Eu até confesso que não gostei muito de JOGOS MORTAIS 3, por causa dos protagonistas nada simpáticos e de alguns absurdos em relação às mortes. Mas então surgiu JOGOS MORTAIS 4 e minha simpatia pela série só aumentou: quem diria que os roteiristas conseguiriam contornar o "pequeno problema" da morte de JIGSAW no final da Parte 3 e ainda assim conceber uma história com novidades? Já as novas partes 5 e 6 são um tanto irregulares, mas ainda assim conseguem manter a atenção do espectador. E isso é incrível quando lembramos que JIGSAW morreu e por isso não participa ativamente de nenhuma das três últimas sequências (somente através dos flashbacks), nem "voltou do túmulo" como outros vilões de franquias do horror.

E este, talvez, seja o grande charme da série: o espectador nunca sabe o que esperar de um novo JOGOS MORTAIS - além, é claro, da violência explícita e das "mortes criativas".
Enquanto outras sequências de franquias de sucesso são tão prosaicas quanto ligar os pontos (o vilão ressuscita, mata todos os figurantes e é novamente destruído no final, somente para voltar no ano que vem), há uma preocupação de que cada episódio dos JOGOS MORTAIS traga elementos que não só divirtam os espectadores e fãs da série (a violência exagerada, as armadilhas criativas...), mas também tentem surpreendê-los. E o mais incrível é que eles sempre conseguem. Ou quase sempre!

Evidente que o nível de surpresa foi ficando mais simples à medida que o espectador já ESPERA ser surpreendido na conclusão. Mas poucas coisas podem ser tão maravilhosamente inesperadas quanto aquele "cadáver" levantando, vivo, no final do primeiro filme. Os roteiristas tiveram que quebrar a cabeça (sem trocadilho, de novo) nos anos posteriores para conceber reviravoltas tão esdrúxulas quanto inesperadas, e o espectador normalmente acaba de olhos esbugalhados, meio revoltado por ter sido "enganado", mas ao mesmo tempo curioso para saber o que os produtores irão aprontar no próximo filme, no ano que vem.

Mas é claro que o fato de as histórias estarem bastante interligadas acaba confundindo os espectadores desatentos, e mais ainda os marinheiros de primeira viagem. Veja o caso de JOGOS MORTAIS 4: ele cita abertamente personagens de todos os filmes anteriores, inclusive resgatando OS MESMOS atores. Que outra série dos últimos 20 anos você viu com tamanho respeito pela própria cronologia e mitologia? "Sexta-feira 13" certamente não, e muito menos "Halloween" (que teve arcos inteiros de histórias, como o da sobrinha de Michael Myers ou o da maldição druida, descartados sem o menor pudor nas sequências). E o que dizer da franquia "O Massacre da Serra Elétrica" (a original), em que Leatherface tinha uma família diferente a cada filme?

É este cuidado com uma trama cronologicamente verossímil que me faz ver a franquia JOGOS MORTAIS como a única série fantástica moderna onde os capítulos realmente estão conectados; ou seja, uma continuação realmente CONTINUA a outra. O outro exemplo de franquia tão perfeitamente coesa que consigo lembrar é a quadrilogia "Fantasma", de Don Coscarelli. Não é pouca coisa...

Como se já não tivesse méritos suficientes, a franquia do JIGSAW - que os fãs de horror underground e hardcore adoram chutar e taxar pejorativamente de "terror teen" - tem ainda o mérito de apresentar o exploitation para a geração shopping center. Fale a verdade: você algum dia imaginaria ver um filme como CANNIBAL HOLOCAUST num cinema multiplex de shopping center, depois de sair do McDonalds, e com um baldão de pipoca nas mãos? Isso provavelmente jamais iria acontecer, mas está aí a série JOGOS MORTAIS apresentando, nos luxuosos cinemas de shopping, o
melhor do horror exploitation censura 18 anos - só falta um pouco de mulher pelada, mas ninguém é perfeito.Já pensou a coragem que tem o estúdio de investir numa faixa de público tão limitada, ainda mais sabendo que lá nos EUA eles adoram cortar a violência dos filmes justamente para conseguir um PG-13 e faturar dobrado na bilheteria?

E enquanto os undergrounds ficam achincalhando o pobre JIGSAW, lá está ele marcando presença nos cinemas, levando para a telona cenas escabrosas de cirurgia cerebral, necropsia, mutilações diversas, escalpelamento, membros decepados, fraturas expostas e outras barbaridades, com um pé ainda na escatologia (as carcaças apodrecidas de porcos sendo trituradas e despejadas sobre uma vítima em JOGOS MORTAIS 3, por exemplo). Feliz dessa geração teen, que pode crescer vendo filmes extremamente sérios e sangrentos como JOGOS MORTAIS, ao invés das bobagens do Freddy e do Jason que eu tinha que engolir na minha época de adolescente...

Ainda não está convencido? Ora, meu amigo, então esqueça. Pare de ler este artigo e pare também de se preocupar com JIGSAW e seus Jogos Mortais, boicote seus filmes, humilhe os que curtem a série, diga que o quente mesmo é ver cinema italiano dos anos 80 ou filmes turcos de mil-novecentos-e-lá-vai-pedrada. Até porque quem não gostou dos primeiros dificilmente irá gostar desses últimos, que não passam de flashbacks dos três primeiros filmes. Porém não pense que tão cedo estará livre do mais novo astro da galeria de vilões do cinema de horror contemporâneo, provavelmente o mais importante dos vilões do horror moderno. Pois, como uma versão hardcore do Dr. Phibes, JIGSAW, mesmo morto e enterrado, ainda tem muito que aprontar.

Por isso, que venham mais JOGOS MORTAIS até onde a série tiver fôlego para ir (embora esta sexta parte já comece a demonstrar sinais de cansaço). A nova geração, creio eu, também merece sua franquia interminável, como a minha teve "Sexta-feira 13" e "A Hora do Pesadelo". E posso fazer uma confissão? Pois tenho inveja da geração atual, já que JIGSAW teria muito a ensinar para o Jason e para o Freddy, bem como os diretores e roteiristas de JOGOS MORTAIS teriam valiosos ensinamentos para os manés que afundaram as franquias destes dois vilões vergonhosamente ultrapassados.
E agora, finalmente, vamos dar uma rápida olhada nos filmes da série. E se você ficar perdido nas idas e vindas dos roteiros de cada episódio, não deixe de conferir a nossa completíssima "linha do tempo de JOGOS MORTAIS" clicando aqui.

Jogos Mortais (2004)
Direção: James Wan
Roteiro: James Wan e Leigh Whannell

O começo de tudo. Misturando CUBO e SEVEN, com toques do giallo italiano (o bonequinho no triciclo e as mãos enluvadas do vilão são referências confessas a PROFONDO ROSSO/PRELÚDIO PARA MATAR, de Dario Argento), o filme foi um sucesso que irritou muita gente pela sua conclusão inesperada.

Dois homens desconhecidos acordam acorrentados pelo tornozelo num banheiro abandonado. Um deles é o dr. Lawrence Gordon (Cary Elwes); o outro é o fotógrafo Adam Faulkner (o próprio roteirista Whannell). No meio dos dois, um cadáver sobre uma poça ensangüentada e um gravador. No gravador, uma mensagem: "Eu quero propor um jogo". É a voz de um serial killer que a polícia procura, chamado JIGSAW (Tobin Bell), conhecido por propor jogos mortais às suas vítimas. No caso da dupla, o jogo é simples: Adam deve lutar para não morrer; e o dr. Gordon deve matar Adam até as seis da tarde (um grande relógio numa das paredes informa o horário durante todo o filme), ou então algo terrível acontecerá à sua família.

Simples e direto. Quase toda a trama se desenrola naquele banheiro abandonado, com os dois desconhecidos (que logo saberemos não ser assim tão desconhecidos) tentando encontrar uma forma de escapar daquela situação sem precisar recorrer ao esquema do vilão.
Paralelamente, através de flashbacks, descobrimos mais sobre a carreira de JIGSAW, inclusive que há um detetive da polícia, David Tapp (Danny Glover, único astro a aparecer na série), perseguindo obsessivamente o vilão. No final-surpresa, os dois homens resolvem não fazer o jogo de JIGSAW. Pelo contrário: desesperado, o dr. Gordon decepa o próprio pé para conseguir fugir e tentar salvar sua família (que, naquele momento, já está salva, mas somente o espectador sabe disso). E Adam descobre, desesperado, que o "cadáver" caído entre eles este tempo todo era o próprio JIGSAW, testemunhando ao vivo o jogo dos dois homens.

JOGOS MORTAIS é brilhante justamente pela sua simplicidade: tirando as cenas em flashback e a subtrama envolvendo a caçada do policial Tapp ao vilão, poderia muito bem ser um curta-metragem e se passar inteiramente no tal banheiro (a primeira idéia de Wan e Whannell era que os homens estivessem presos num elevador desativado). É interessante, também, que se saiba tão pouco de um vilão tão complexo, além do fato de ele ter fascinação por jogos, usar um bonequinho macabro num triciclo para assustar suas vítimas e uma máscara de porco quando ataca (nas sequências descobriríamos que a máscara de porco na verdade era usada por comparsas do vilão, Amanda e Hoffman, e não pelo próprio).



Quanto à reviravolta, por mais que seus detratores reclamem, tem toda a lógica, e os próprios produtores do original fizeram questão de explicá-la melhor em JOGOS MORTAIS 3, quando vemos JIGSAW injetando uma substância que provoca relaxamento muscular para suportar as quase duas horas caído no chão se fingindo de morto.

Além disso, neste primeiro filme as armadilhas ainda são simples e "possíveis": tem uma envolvendo fogo, outra envolvendo arame farpado e uma única mais elaborada que envolve a figura de uma junkie chamada Amanda (Shawnee Smith), aprisionada com uma máscara metálica que irá rasgar sua cabeça no meio caso ela não arranque a chave da sua liberdade do peito de um homem desacordado à sua frente.



Nas sequências, os produtores iriam exagerar progressivamente na complexidade e no tamanho das armadilhas, com JIGSAW construindo artefatos completamente absurdos que ocupam uma sala inteira (principalmente nas Partes 3 e 5), o que desafia totalmente a lógica.

É por isso que JOGOS MORTAIS continua o meu favorito da série: não inventa demais, não exagera demais e nem tem vítimas demais. Será difícil fazer uma lista dos filmes mais bem-sucedidos e influentes desta década sem citá-lo. Quer tentar?

• Qual é o Jogo Mortal: O dr. Gordon e Adam estão presos pelo tornozelo no banheiro. O jogo do médico é matar Adam até as seis da tarde, ou sua família será assassinada por Zep (Michael Emerson), que segue as ordens de JIGSAW. Já Adam tem a simples missão de tentar sobreviver no mesmo espaço de tempo. O detalhe irônico é que a chave que libertaria Adam da corrente estava dentro da banheira em que ele acordou. JIGSAW sabia o suficiente sobre sua vítima para prever que ele não procuraria ali dentro - e, acidentalmente, a dita cuja se foi ralo abaixo no momento em que Adam acordou, condenando-a a ficar preso no banheiro.

• A reviravolta: O cadáver caído no meio dos dois homens, e que estava ali o filme inteiro, na verdade é o próprio vilão JIGSAW, fingindo-se de morto para poder obsevar melhor o andamento do seu "jogo mortal".

• Fique de olho: Somente no segundo filme o espectador descobre que Amanda na verdade não é uma vítima, mas sim uma cúmplice de JIGSAW. Entretanto, em flashbacks mostrados em JOGOS MORTAIS 3, descobrimos que ela já auxiliava o vilão desde que sobreviveu ao seu teste, e que foi ela quem ajudou a montar todo o jogo no banheiro. A existência da cúmplice explica como um doente terminal consegue atacar e desacordar homens saudáveis e mais jovens (é a própria Amanda quem faz isso, e não JIGSAW). Nas próximas continuações a partir da Parte 4, seria revelado um segundo cúmplice, Hoffman. Veremos o que mais vão inventar a partir de JOGOS MORTAIS 7... hehehehe.

Jogos Mortais 2 (2005)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Darren Lynn Bousman e Leigh Whannell

Com o sucesso estrondoso do primeiro filme, era mais do que óbvio que uma seqüência logo apareceria. Mas ninguém podia imaginar que seria tão rápido - menos de um ano após o lançamento do original. Aliás, a Lionsgate deu sinal verde para a produção de JOGOS MORTAIS 2 na própria semana de lançamento de JOGOS MORTAIS nos cinemas, utilizando para isso um roteiro original do diretor Bousman (que aqui estreia na série), chamado "The Desperate", e reescrito por Leigh Whannell para se encaixar na mitologia de JOGOS MORTAIS.

Como é comum em sequências, esta exagera tudo aquilo que havia feito sucesso no original: enquanto antes eram dois homens num banheiro, agora são oito desafortunados presos numa casa abandonada, participando de um jogo mortal estilo Big Brother, onde devem encontrar seringas com antídoto para o veneno que irá matá-los em um curto intervalo de tempo - tais seringas, claro, irão detonar as armadilhas que "testarão" os personagens.

Entre os prisioneiros está Amanda (Shawnee Smith), que já havia passado por um dos testes de JIGSAW no filme original. Como no filme CUBO (olha ele aí citado de novo), os personagens preferem brigar e matar uns ao outros do que fazer um trabalho conjunto, que seria a única forma de escaparem daquela situação desesperadora.
Paralelamente ao Big Brother mortífero, a polícia e a SWAT invadem o esconderijo de JIGSAW, que neste filme finalmente ganha tempo de cena e diálogos na pele do ator Tobin Bell (no original, ele só aparecia rapidamente na conclusão). O detetive responsável pelas investigações, Eric Matthews (Donnie Wahlberg, irmão do galã Mark Wahlberg), descobre que uma das oito vítimas na casa é seu filho rebelde, Daniel (Erik Knudsen), e fará de tudo para salvar o rapaz, mesmo que para isso tenha que cruzar os limites da lei - e é exatamente isso que JIGSAW quer, pois o próprio detetive está sendo testado.

A grande armadilha de JOGOS MORTAIS 2 é aquela em que os próprios produtores se meteram: se JIGSAW já havia sido apresentado no final do primeiro filme, que surpresa eles podiam trazer na sequência, já que o público conhecia a identidade do assassino? Pois eles conseguiram pensar numa interessante reviravolta: Amanda revela-se uma cúmplice e seguidora fiel de JIGSAW, infiltrada entre as vítimas para poder controlar melhor o jogo (como o próprio vilão fez no original). Além disso, há uma segunda reviravolta envolvendo o detetive e o vilão, no final, quando os personagens voltam ao banheiro onde se desenrolou a história do primeiro filme.



Como a proposta em si não era mais novidade, os produtores resolveram anabolizar as armadilhas (aqui mais elaboradas) e quintuplicar a violência. A quantidade de sangue e de sadismo foi uma das minhas maiores surpresas quando vi o filme pela primeira vez, especialmente a cena arrepiante em que Amanda é atirada numa piscina repleta de seringas usadas (ai!). Outro momento de agonia é aquele em que um homem precisa cortar o próprio olho com um bisturi para tirar a chave que irá salvá-lo de um dispositivo mortal. Mas há ainda pescoços cortados, pessoas queimadas vivas, mortes a pauladas e outras mutilações diversas.

Deve-se fechar um olho para a lógica, claro. Afinal, todo o plano de JIGSAW funciona como um relógio, apesar de termos oito pessoas sendo testadas ao mesmo tempo, o que torna todo o trabalho mais complexo (se um dos prisioneiros da casa tivesse matado o filho do detetive, por exemplo, teria acabado com todo o esquema mirabolante criado pelo vilão). Enfim, parece que tudo funciona bem DEMAIS, considerando as múltiplas variáveis de ter tantos jogadores ao mesmo tempo - e os produtores também perceberam isso, reduzindo o número de "jogadores" nas sequências posteriores.

Entretanto, JOGOS MORTAIS 2 continua uma sequência digna e surpreendente, principalmente quando o que você espera é um caça-níqueis qualquer feito na corrida para aproveitar o sucesso do original.



• Personagens dos outros filmes que reaparecem: Do primeiro filme retornam a detetive Kerry (Dina Meyer), que já investigava os crimes de JIGSAW no original, e a ex-viciada Amanda (Shawnee Smith), que no primeiro filme havia sido vítima de um dos "testes" do psicopata e aqui, conforme descobrimos, transformou-se em sua aprendiz. E no final, que se passa no mesmo banheiro onde acontece a maior parte do filme original, encontramos o cadáver de Adam (Leigh Whannell) e o pé decepado do dr. Lawrence Gordon (Cary Elwes), os dois personagens principais de JOGOS MORTAIS.

• Qual é o Jogo Mortal: Desta vez são dois jogos, um envolvendo o pessoal na casa e outro envolvendo o policial Eric Matthews - que no passado condenou injustamente a cúmplice de JIGSAW, Amanda, à prisão. Na casa, seis dos 8 prisioneiros têm "pecados" pelos quais estavam pagando (como tráfico de drogas ou prostituição, embora em JOGOS MORTAIS 4 seja revelado que algumas das vítimas também estariam relacionadas com o passado de JIGSAW). Os outros dois são Amanda, que depois descobrimos ser comparsa do vilão, e Daniel, o filho do detetive Matthews, que só está ali como parte do "jogo maior", que testa o próprio policial. Tudo o que o detetive precisava fazer era passar duas horas conversando com JIGSAW em seu esconderijo, e, quando o timer chegasse ao fim, descobriria que seu filho estava a salvo.



• A reviravolta: Os acontecimentos que os policiais acompanham pela TV no esconderijo de JIGSAW, mostrando os oito prisioneiros na casa, estão gravados em videotape, e não acontecendo em tempo real, como eles são levados a acreditar no início. Se o detetive Matthews tivesse tido a paciência de esperar lá mesmo, ao invés de levar JIGSAW até o local onde o "jogo" estava sendo realizado, descobriria que seu filho estava são e salvo no próprio esconderijo. E Amanda, que todos pensavam ser apenas mais uma vítima de JIGSAW, revela-se cúmplice do vilão e ajuda a aprisionar o policial na conclusão, já que ele não jogou conforme as regras.

• Fique de olho: O cadáver de Adam pode ser visto no banheiro na conclusão, mas não o do dr. Gordon - o que, para muitos, significa que o médico está vivo e apenas esperando por uma oportunidade para reaparecer de surpresa na franquia.

Jogos Mortais 3 (2006)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Leigh Whannell

Eu costumava achar JOGOS MORTAIS 3 o mais fraco da série. Claro, isso foi antes de sair a Parte 5, que acabou ficando com o título. O problema deste terceiro filme é que ele é tão exagerado e absurdo que não convence, ainda mais numa série que tenta primar pelo "realismo".

E isso que o roteiro de Leigh Whannell, o criador da franquia, garante fidelidade total aos dois anteriores, e ainda tenta colocar alguns pingos nos "I"s - principalmente no tocante à relação entre JIGSAW e sua cúmplice Amanda, revelada na segunda parte.

Este terceiro filme começa onde o segundo terminou: preso e deixado para apodrecer no mesmo banheiro que Adam (do primeiro filme), o detetive Matthews (Donnie Wahlberg) quebra o pé para conseguir libertar-se da corrente em seu tornozelo - ao invés de decepá-lo, como fez o dr. Gordon no original. Logo em seguida, a detetive Kerry (Dina Meyer), que investigava os crimes de JIGSAW nos dois filmes anteriores, é morta em uma das armadilhas do vilão.

Descobrimos que JIGSAW está num novo esconderijo, vivendo com Amanda, e que sua saúde está ainda mais debilitada pelo tumor cerebral. Por isso, uma médica chamada Lynn (Bahar Soomekh) é seqüestrada e levada até o esconderijo, recebendo um colar com explosivos que irão detonar caso os batimentos cardíacos de JIGSAW cessem. Mantê-lo vivo, portanto, é o jogo mortal da médica.
Paralelamente, um homem chamado Jeff (Angus Macfadyen) acorda num imenso armazém e descobre que ele também é o jogador do momento. Tendo perdido seu filho pequeno num trágico acidente de trânsito, Jeff terá a oportunidade de salvar ou deixar morrer nas armadilhas de JIGSAW todas as pessoas envolvidas no episódio (a testemunha que mentiu sobre o acidente, o juiz que inocentou o motorista que atropelou o garoto, e até o próprio responsável pela morte do seu filho). Finalmente, em flashbacks, descobrimos mais sobre o passado de JIGSAW.

Na conclusão, a reviravolta é tripla, talvez para acompanhar o número no título do filme: descobrimos que Jeff e Lynn são casados, que Amanda também está sendo testada por JIGSAW (e falha no teste), e que a outra filha de Jeff e Lynn, a pequena Corbett (Niamh Wilson), foi presa pelo vilão. Como Jeff falha em seu teste (supostamente, ele deveria aprender a perdoar; mas não aprende, e mata JIGSAW com uma serra circular), condena a filha e a esposa à morte, pois o vilão era o único que sabia onde a menina estava. A morte de JIGSAW também acaba detonando o colar de explosivos no pescoço de Lynn.



Enfim, esta seria uma conclusão perfeita para uma trilogia bem amarrada (todos os heróis e vilões morrem no final, impedindo a realização de novas sequências), com direito a um belo choque final (a ideia de que a criança vá morrer de fome no lugar onde está aprisionada, algo que foi "contornado" nas sequências posteriores, que mostram a menina sendo salva). Mas, claro, os produtores não pensavam em terminar a série tão cedo, por isso jogaram vários detalhes que só serão explicados nos próximos filmes: uma carta endereçada a Amanda (cujo conteúdo não é revelado, mas deixa a moça furiosa), uma fita que JIGSAW cobre com cera de vela pouco antes de morrer, entre outras pistas.

Apesar da conclusão ser extraordinária e corajosa (será que alguém ainda agüenta assassinos imortais no cinema de horror?), JOGOS MORTAIS 3 tem dois grandes problemas, na minha análise. O primeiro é que o casal de protagonistas, Lynn e Jeff, falha no quesito "simpatia", e são protagonistas com quem o espectador não se envolve nem se importa. O segundo é que, por mais bem organizado e genial que JIGSAW seja, todas as suas armadilhas funcionam como um relógio suíço (repare que o Jeff sempre entra nas salas e dispara alguma coisa que dá início à armadilha, e nunca nenhum mecanismo trava ou funciona errado, é tudo sincronizado e certinho), o que é simplesmente absurdo.



Além disso, esqueçam um pouco que é tudo um filme e tentem imaginar só o tamanho que precisaria ter o armazém onde Jeff está, para ter espaço suficiente para comportar aquela seqüência de armadilhas (já que cada uma ocupa um espaço imenso, geralmente uma sala inteira). Isso sem contar todos os mecanismos necessários, mobilizando uma estrutura enorme que milagrosamente nunca chama a atenção da polícia. JIGSAW até consegue dezenas de carcaças podres de porcos só para fazer uma armadilha escatológica (fico imaginando o tempo e trabalhão para pendurar aqueles porcos e montar tudo para que o mecanismo desse certo)!

Além disso, se nos dois filmes anteriores JIGSAW tinha o controle total da situação, aqui não tem: se Jeff tivesse se recusado a seguir em frente, tentado um caminho alternativo ou morrido no meio do teste, por exemplo, todo o "plano final" de JIGSAW iria por água abaixo.

Enfim: exagero tem limite, e esse JOGOS MORTAIS 3 é o cúmulo neste quesito. Já a direção de Bousman é simplesmente irritante, com cortes rápidos e takes acelerados nas cenas de morte, filmadas todas do mesmo jeito (com a câmera rodeando a vítima e closes na cara de dor dela, algo que seria copiado em todas as sequências a partir de então).

Já o nível de violência é semelhante ao de JOGOS MORTAIS 2, com direito a uma longa e gratuita cena de cirurgia cerebral que deve ter provocado vômito na garotada que foi ao cinema. Fora isso, não há cenas arrepiantes, apenas muito sangue esguichando.

Méritos para o final, mas JOGOS MORTAIS 3 é uma amostra de que a série poderia estar perdendo o fôlego.

• Personagens dos outros filmes que reaparecem: Em cenas de flashback, vemos a preparação do célebre episódio do banheiro mostrado em JOGOS MORTAIS, inclusive com os desmaiados Adam e dr. Gordon atirados no chão. Shawnee Smith retorna como Amanda, a seguidora de JIGSAW, assim como Dina Meyer como a detetive Kerry (aqui também tornando-se vítima de uma das armadilhas do psicopata), Lyriq Bent como o tenente Rigg, da SWAT (vindo de JOGOS MORTAIS 2), e Donnie Wahlberg como o detetive Eric Matthews (também de JOGOS MORTAIS 2), quando é explicado o que aconteceu com o personagem após a conclusão do segundo filme - neste momento, também aparece o cadáver de Xavier (Franky G), morto no final do filme anterior. Um coadjuvante que reaparece é o soldado da SWAT Joe (Vincent Rother), também de JOGOS MORTAIS 2.

• Qual é o Jogo Mortal: Desta vez são três jogos ao mesmo tempo. O principal é com Jeff, que deve atravessar uma grande seqüência de armadilhas e, no caminho, optar por salvar ou punir as pessoas envolvidas no acidente que matou seu filho. O plano de JIGSAW era ensinar Jeff a perdoar, só que não dá certo e o coitado acaba provocando a morte da própria esposa, Lynn, médica que participa do segundo jogo - ela devia manter JIGSAW vivo para que um colar com explosivos preso ao seu pescoço não fosse detonado. Quando o vingativo Jeff mata JIGSAW, mata a esposa por tabela. Finalmente, a própria Amanda está sendo testada pelo seu mentor, que queria saber se podia confiar nela para herdar seu "trabalho" - mas percebe que não quando a moça se revela apenas mais uma assassina.

• A reviravolta: O espectador descobre que Lynn e Jeff são marido e mulher. E, quando Jeff se vinga, matando JIGSAW, assina a sentença de morte da esposa e também da sua filha pequena, Corbett (Niamh Wilson), cujo paradeiro apenas o falecido vilão conhecia.

• Fique de olho: Antes de morrer, JIGSAW aparece pingando cera numa fita cassete (seu conteúdo só será descoberto em JOGOS MORTAIS 4); já o conteúdo da carta que Amanda encontra em seus aposentos, e que a deixa furiosa com JIGSAW, continua um mistério revelado apenas em JOGOS MORTAIS 6.

Jogos Mortais 4 (2007)
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Patrick Melton e Marcus Dunstan

Como é que os produtores poderiam continuar a série após o final de JOGOS MORTAIS 3? Esta deve ter sido a principal dúvida de todos os fãs da franquia, e foi exatamente o que eu pensei quando começaram a pipocar as primeiras informações sobre o filme. Por um momento, pensei que seria justamente um "Jigsaw - O Início", mostrando o passado do vilão. Felizmente, os produtores conseguiram dar um novo rumo à franquia e ainda mantê-la interessante mesmo SEM JIGSAW (resta saber por quanto tempo isso vai funcionar).

Esta é a primeira sequência da série sem a participação direta de Leigh Whannell, o co-roteirista do primeiro JOGOS MORTAIS. No seu lugar entrou a dupla Patrick Melton e Marcus Dunstan, autores do roteiro do divertido FEAST - BANQUETE DO INFERNO.

JOGOS MORTAIS 4 começa com uma surpreendentemente gráfica e realista cena da autópsia de JIGSAW - sim, o vilão está realmente morto, não era um boneco no final da Parte 3, como eu cheguei a pensar. Didaticamente, para quem nunca viu uma autópsia, a câmera mostra o crânio do cadáver sendo serrado para a retirada do cérebro, o corte no tórax para exame dos órgãos e a abertura do estômago para verificar a última refeição do falecido.

É então que os legistas se surpreendem ao encontrar uma fita cassete envolta em cera de vela (lembra do final de JOGOS MORTAIS 3?). Único sobrevivente dos homens da lei que investigam o caso JIGSAW, o detetive Hoffman (Costas Mandylor, que entrou na franquia na Parte 3) é chamado e, ao tocar a fita, ouve
a seguinte mensagem: "Não pense que você não será testado só porque eu estou morto. Os jogos apenas começaram!".

Em seguida, vemos a SWAT chegando à cena do crime da detetive Kerry (morta em JOGOS MORTAIS 3). O tenente Rigg (Lyriq Bent), que era amigão da moça desde a Parte 2, fica furioso ao saber que ela também se tornou vítima de JIGSAW. E, ao chegar em casa, é ele próprio aprisionado. Riggs acorda horas mais tarde no próprio apartamento, que foi "redecorado" para dar início aos novos jogos mortais.

O teste de Rigg é simples: ele basicamente precisa fazer o papel de JIGSAW por algumas horas, aplicando as armadilhas a um grupo de "pecadores" (entre eles, um estuprador e um pai que agredia a filha pequena). Somente assim, seguindo as pistas deixadas pelo vilão, ele conseguirá chegar ao local onde estão não apenas o aprisionado Hoffman, mas também o detetive Matthews (Donnie Wahblerg, de volta à série após as Partes 2 e 3). No caminho, enfrenta o que parece ser um novo cúmplice de JIGSAW, Art Grant (Justin Louis).



Paralelamente a tudo isso, entram em cena dois novos investigadores e candidatos a vítimas, os agentes do FBI Strahm (Scott Patterson) e Perez (Athena Karkanis), que acreditam que a chave para o mistério possa estar em Jill (Betsy Russell), a ex-esposa de John Kramer (nome civil de JIGSAW). Novos flashbacks explicam ao espectador como ele começou sua carreira criminosa e quem foi sua primeira vítima. Explicam também a origem do boneco do triciclo e até da máscara de porco. E, ainda, mostram que diversos personagens mortos nas Partes 2 e 3 eram velhos conhecidos de JIGSAW, pacientes da clínica para recuperação de dependentes químicos administrada por sua esposa.

Como não poderia deixar de ser no quarto filme de uma série, algumas coisas já se tornaram repetitivas (as mensagens no gravador, as armadilhas complexas, a própria necessidade de ter uma reviravolta surpreendente no final, e até a colagem de cenas que funciona como um "resuminho" do filme na conclusão). Outras coisas não me convenceram, principalmente a aparição da nova dupla de investigadores, os agentes do FBI. Um dos piores momentos é aquele em que o agente Strahm tenta se passar por durão no interrogatório da ex-mulher de JIGSAW. O fato de o ator Scott Patterson ser péssimo só torna a cena inteira mais constrangedora, principalmente quando ele atira fotografias sobre a mesa ou soca as paredes numa raiva mais do que exagerada.



Entretanto, confesso que gostei muito mais desta quarta parte do que do segundo e do terceiro filmes. De certa forma, JOGOS MORTAIS 4 abandona um pouco do exagero destas duas continuações e volta às origens: as armadilhas continuam elaboradas, mas são mecanismos mais simples, como os mostrados no original, dependendo apenas de processos mecânicos descomplicados, como engrenagens e correias (aqui não há dispositivos ocupando uma sala inteira, como os vistos em JOGOS MORTAIS 3). Por isso, para mim, este é o melhor da série depois do primeiro.

A melhor armadilha até surpreende pela simplicidade: dois homens estão acorrentados a uma engrenagem que gira, enrolando a corrente de ambos. Eles precisam soltar os cadeados que têm presos ao pescoço antes que a corrente enrole totalmente e sufoque os dois. O problema é que a chave está presa ao pescoço de um deles, que tem os olhos costurados, e quem vê é o segundo homem, que tem a boca costurada e não pode alertá-lo para o fato. É óbvio que acabarão tendo que lutar até a morte, pois aquele que não enxerga pensa que o outro quer feri-lo, quando na verdade ele só quer pegar a chave para libertar a ambos! É o tipo de dispositivo e de situação simples que funcionam muito melhor do que aqueles equipamentos absurdos da Parte 3 (tipo o "liquidificador de porcos").

Outra boa sacada é o detetive Matthews aparecer com uma forca no pescoço e equilibrado sobre um bloco de gelo que vai derretendo aos poucos (citação a uma cena do clássico exploitation ILSA - SHE WOLF OF THE SS).



Além disso, um diálogo entre os agentes do FBI tenta explicar como JIGSAW consegue montar tais artefatos complicados: quando eles vão até a cena de um dos crimes, num quarto de hotel, Strahm diz que provavelmente as partes do mecanismo foram levadas até o local em diversas malas e então montadas sem que ninguém percebesse. Uma explicação rápida para os chatos de plantão, que adoram encarar tudo como furo de roteiro.

As armadilhas também provocam danos arrepiantes às vítimas neste quarto filme, seja enroscando o cabelo longo de uma garota até arrancar lentamente seu couro cabeludo ou mostrando um homem que precisa jogar o rosto contra uma grade de facas afiadas para poder se libertar de um mecanismo mortal (as duas cenas me arrepiaram no mesmo nível da piscina de seringas de JOGOS MORTAIS 2, e muito mais que qualquer uma das torturas fajutas de JOGOS MORTAIS 3).

Além disso, confesso que as duas reviravoltas finais me pegaram de jeito. Quando alguém comenta que JIGSAW provavelmente tinha um segundo cúmplice além de Amanda, acreditei que se tratasse do tal Art. Afinal, nos outros filmes, o vilão também contou com uma "ajudinha" de outras pessoas, como o enfermeiro Zep Hindle (Michael Emerson) em JOGOS MORTAIS e o marginal Obi (Tim Burd) em JOGOS MORTAIS 2, já que sozinho um moribundo como ele jamais conseguiria fazer tudo o que faz.

Mas a revelação de que Hoffman, aparentemente um prisioneiro, vem a ser o próprio cúmplice realmente é inesperada - embora lembre o que aconteceu com Amanda em JOGOS MORTAIS 2. E faz todo sentido o vilão ter um cúmplice na polícia, o que explica como ele consegue informações tão detalhadas sobre os meliantes que prende e tortura.



Entretanto, a maior e melhor reviravolta do filme é o fato de os acontecimentos que o espectador acompanha estarem ocorrendo AO MESMO TEMPO dos fatos mostrados em JOGOS MORTAIS 3! Inclusive, no final, o agente Strahm invade o esconderijo de JIGSAW justamente no momento em que Jeff está cortando o pescoço do vilão - e o pobre Jeff ainda acaba baleado pelo agente do FBI, comprovando que é mesmo um sujeito de muito azar. Logo, o início do filme (com a autópsia de JIGSAW e o encontro da fita) é justamente O FINAL de JOGOS MORTAIS 4, e por isso o jogo mortal do detetive Hoffman ainda está por vir (o que só acontece na Parte 6!!!). Simplesmente perfeito!

É incrível quando uma série, já em seu quarto filme, consegue manter o mesmo nível de originalidade e surpresas que marcou o espectador desde o original. É o caso deste JOGOS MORTAIS 4: quando você espera um "mais do mesmo" ou um caça-níqueis, eis que os produtores entregam um filme completamente diferente, e ainda deixando elementos suficientemente interessantes para que todo mundo aguarde por JOGOS MORTAIS 5.

• Personagens dos outros filmes que reaparecem: Do primeiro filme é citado o dr. Lawrence Gordon, numa cena de flashback em que vemos JIGSAW entrando em seu consultório. O cadáver da detetive Kerry (morta em JOGOS MORTAIS 3) aparece coberto de ratos, e o tenente Rigg (que apareceu nas partes 2 e 3) agora é o protagonista. Donnie Wahlberg retorna como o detetive Eric Matthews, de JOGOS MORTAIS 2, que muitos pensavam ter sido morto por Amanda no terceiro filme. Em cenas de flashback da origem de JIGSAW, vemos vários personagens mortos em JOGOS MORTAIS 2: Addison (Emmanuelle Vaugier) é mostrada como uma prostituta que aborda JIGSAW antes de ele se transformar em psicopata; Gus (Tony Nappo, morto com um tiro no olho no segundo filme) e Michael (Noam Jenkins, morto no início do segundo filme) são pacientes da clínica para recuperação de drogados da esposa de JIGSAW. Na clínica também vemos Troy (J. LaRose, aquele que arranca as correntes da própria carne em JOGOS MORTAIS 3), Paul (Mike Butters, de JOGOS MORTAIS) e o homem morto por Amanda (Oren Koules) em JOGOS MORTAIS. Do terceiro filme, retornam o detetive Hoffman (Costas Mandylor), a ex-esposa de JIGSAW, Jill (Betsy Russell), a soldado da SWAT Pete (Kelly Jones), e Jeff (Angus Macfadyen), o protagonista de JOGOS MORTAIS 3. Quando o cadáver de JIGSAW é encontrado, também aparecem os cadáveres de Lynn (Bahar Soomekh) e Amanda (Shawnee Smith), ambas mortas no final do terceiro filme.

• Qual é o Jogo Mortal: JIGSAW queria que o tenente Rigg vencesse seu orgulho de "sempre querer ser o herói". Sem que ele saiba, os policiais Matthews e Hoffman são mantidos presos numa sala por Art, que tem a orientação de não deixar Rigg entrar ali antes que se encerrem os 90 minutos do jogo. Depois de cumprir vários testes pelo caminho, Rigg acaba invadindo a sala quando falta apenas um segundo para o prazo encerrar, provocando a morte de Matthews. Também mata Art, que tem no bolso um gravador onde JIGSAW explica que Rigg falhou no teste por não resistir à sua obsessão de salvar as pessoas sem averiguar antes a real situação.

• A reviravolta: O espectador descobre que os acontecimentos mostrados em JOGOS MORTAIS 4 acontecem paralelamente àqueles que aconteciam em JOGOS MORTAIS 3, e no final os personagens dos dois filmes acabam se cruzando. O detetive Hoffman também se revela o novo cúmplice de JIGSAW.

• Fique de olho: Nas cenas em que aparece a clínica de recuperação de drogados da ex-esposa de JIGSAW, é possível ver vários personagens que morreram nos três filmes anteriores, mostrando que há uma incrível conexão entre todas as histórias. O filme termina deixando em aberto o teste pelo qual Hoffman passará para assumir definitivamente o manto de JIGSAW.

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Felipe M.Guerra



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