MIGHTY JOE YOUNG

Por E.R.Corrêa

Desde que foi lançado em 1933, o grande clássico de aventura King Kong vem despertando a imaginação e o fascínio de milhares de pessoas em todo o mundo. A dupla responsável pelo feito foi Ernest B. Schoedsack e Merian C. Cooper, que não imaginavam de princípio estarem em frente de uma das fábulas mais fantásticas de toda a história do cinema. Entretanto, um terceiro nome deve inquestionavelmente ser associado a estes: Willis O'Brien, o responsável pelos efeitos especiais.
Esses três nomes em especial se tornaram muito conhecidos na época, e, somados ao de Edgar Wallace, o responsável pelo argumento, que já era um conhecidíssimo autor de romances de suspense e mistério na linha tradicional de Arthur Conan Doyle, fizeram história. Inclusive um outro trabalho de Wallace seria levado às telas alguns anos depois, The dark eyes of London, de 1940, também conhecido como The human Monster, uma excelente produção B que trás Bela Lugosi no papel do vilão. Porém, mesmo King Kong, cuja idéia havia desenvolvido em parceria com Cooper, Wallace não pôde ver adaptado às telas, já que morreria um ano antes, em 1932.
Num misto de aventura pré-histórica, fantasia, horror, ficção científica e romance, King Kong nos transporta para uma dimensão "além daquelas conhecidas pelo Homem" e nos informa, logo de título, que estamos frente a algo colossal, estupendo, ilimitado - algo que descortina um universo inteiramente novo e nos faz perceber que encaramos uma coisa cujo limite é o sucesso.
E o que o sucesso inspira na indústria cinematográfica? Refilmagem? Não necessariamente... A idéia em si já é o suficiente, quando é boa, é claro!
King Kong, por exemplo, foi muito além daquilo que era esperado e alcançou um estrondoso sucesso logo de cara, não dificultando muito a idéia de uma continuação. Tanto que no mesmo ano surgiu O filho de King Kong (The son of Kong), novamente sob a direção inspirada de Schoedsack e com a participação de Robert Armstrong no elenco. Este filme, que mais se valeu do sucesso do anterior para se firmar, além de contar mais com o humor do que com a força inspiradora do tema, novamente colocou uma miniatura de gorila para embevecer as platéias. E, graças aos magníficos efeitos de "Stop Motion" do mestre Willis O'Brien, conseguiu. Mas, como não acrescentou nada de novo além das rotineiras aventuras por lugares exóticos, o filme não agradou totalmente. E seria realmente difícil, pois o público ainda estava acalmando o impacto causado pelo primeiro - tanto pela história ousada e criativa quanto pelos efeitos especiais inovadores e "assustadoramente reais".



Um jovem talentoso e promissor pôde acompanhar tudo isso de perto e tirar proveito desse novo filão. Seu nome? Ray Harryhausen.
Na época em que King Kong foi lançado, Harryhausen tinha apenas treze anos, mas já se encantava com os resultados dos efeitos obtidos por O'Brien, tanto desse filme quanto do antecessor O mundo perdido (The lost world, 1925), que apresentava um festival de criaturas pré-históricas num platô amazônico. A partir daí, ele se voltaria totalmente ao tema e se dedicaria acaloradamente e definitivamente aos efeitos especiais e à produção de filmes de aventura. E quem diria que treze anos depois, em 1946, o já "veterano" O'Brien e o "iniciante" Harryhausen se juntariam para a produção de um filme?
Apesar de tudo, Mighty Joe Young só pôde ser lançado em 1949, e O'Brien quase não pôde ser associado a ele em termos de animação, já que foi Ray Harryhausen o grande responsável pela quase totalidade das sequências, que combinavam técnicas novas e velhas trucagens desenvolvidas pelo seu mestre, como o "Rear Projection" e o "Matte Painting" (cenários pintados em vidro).
Para essa variação do mito de King Kong, foi criado um pequeno gorila que já anunciava que o Stop Motion fôra levado às últimas consequências. Com o invejável orçamento de uma super-produção e com o amparo necessário de seu mestre, Harryhausen não teve muita dificuldade em desenvolver o ritmo da produção e criar cenas memoráveis que entraram para o rol das mais fantásticas da "história da nostalgia". Ganhou, inclusive, o Oscar de efeitos especiais criado naquele mesmo ano pela Academia, o que lhe valeu enorme reputação, garantindo seu espaço nas muitas produções de aventura que seriam comuns nessa época.
Apesar de tudo, Mighty Joe Young não varia muito no tema, já que o astro principal, o "jovem poderoso Joe", um gorila que não pode ser chamado de gigante, mas sim de fora do comum, não desempenha outro papel a não ser àquele da criatura inocente e vítima do Homem malvado. Ainda assim, porém, existem contra-pontos que o diferencia de King Kong, como a sua relação com a "bela" (pois é claro que existe uma bela; é presença obrigatória nessa temática...), que nesse filme foi interpretada pela fofíssima Terry Moore. Aqui, a relação entre bela e fera não é tão acentuada quanto em King Kong e outros do ramo, já que se apresenta de forma direta e espontânea, ou seja, com o consentimento da heroína, e não como fazia o gigantesco Kong, que a tomava como seu domínio sem maiores problemas. Uma outra característica é que o poderoso Joe apresenta, no decorrer do filme, o típico papel do herói, com direito a salvamento em incêndio e resgate da mocinha. Kong, por outro lado, pode ser considerado como o anti-herói, aquele personagem aterador, apavorante, insensível, a verdadeira fera, mas que consegue, ainda assim, inspirar piedade e comiseração.
Poderiam ser traçados outros paralelos interessantes, mas isso não é necessário aqui, e sim a verdadeira essência que esses filmes conseguem despertar: a diversão e o entretenimento.
Dirigido por Ernest B. Schoedsack, com efeitos especiais de Willis O'Brien e Ray Harryhausen, em produção do próprio O'Brien, Mighty Joe Young conta a história de um gorila descomunal que vive tranquilamente na África com a sua "dona" Jill Young (Terry Moore), até que uma equipe de exploradores, encabeçada pelo empresário Max O'Hara (Robert Armstrong) o descobre. Encorajada pelo empresário, Jill Young resolve levar o gorila Joe para o cintilar ofuscante das luzes de Hollywood.
O'Hara tem uma espécie de "nightclub" africano, onde faz performances exóticas com animais selvagens, danças de tribos indígenas e toda espécie de atrativos não convencionais, onde pretende, naturalmente, exibir o grande e poderoso Joe. No princípio, os espetáculos são realmente interessantes e exóticos, com Joe sendo tomado a todo momento com os flashes agressivos dos curiosos, mas quando a novidade de sua presença acaba, vira objeto de humilhação e zombaria. Passado um tempo, o macaco começa a sentir saudades das hospitaleiras florestas africanas e resolve se rebelar: fugindo da cela onde era mantido encarcerado, Joe promove uma verdadeira destruição pelo teatro, causando a libertação de animais furiosos e promovendo um pandemônio de histeria entre os arrogantes frequentadores do clube.
Com medo de que o gorila escape do local e promova perseguição aos habitantes da cidade, a polícia resolve matá-lo a todo custo, já que estava realmente fora de controle. Mas a jovem Jill Young e o empresário Max O'Hara conseguem fugir do teatro levando a criatura. A polícia vai atrás deles numa empolgante e acalorada cena de perseguição, até que os alcança num orfanato que estava pegando fogo. E adivinhem quem é o herói que salva as criancinhas?!



Com isso Joe consegue dobrar as autoridades e seguir, sob os cuidados de Jill e O'Hara, de volta ao seu velho e acolhedor lar africano.
O filme surpreende pela ação e pelo ritmo vertiginoso que consegue manter - como a cena em que Joe disputa forças com um grupo de homens brucutus (vencendo-os, naturalmente...), ou a batalha com um grupo de perigosos e selvagens leões, ou ainda a cena do orfanato em chamas, em que, transformado no arquetípico herói, consegue arrancar a furiosa indignação da platéia ante a idéia de matá-lo.
Os efeitos, como eram de se esperar, foram muito bons, mas havia, ainda, muita deficiência no que se refere a algumas técnicas mais detalhadas. Em algumas cenas, por exemplo, é possível perceber o deslocamento das imagens e a falta de harmonia entre a película original e a sobreposição dos movimentos da miniatura. Ainda assim, porém, nota-se uma evidente evolução de algumas sequências com relação à KING KONG, pois já havia, evidentemente, uma certa sofisticação em determinadas e ousadas cenas de ação - como o impressionante salvamento das criancinhas no orfanato, onde foram construídos modelos humanos com um realismo surpreendente, ou ainda a cena de combate com os leões, onde, igualmente, foram construídas miniaturas que interagiam magistralmente com cenas reais. Um trabalho fantástico levando-se em consideração a época em que foi feito.
Harryhausen estreou muito bem no cinema profissional, ainda que grande parte do sucesso desse filme seja atribuído a Willis O'Brien, mas o poderoso Joe, com a sua postura benévola e inocente de herói, não simbolizaria tanto o seu trabalho quanto o polvo gigantesco de O monstro do mar revolto, ou os alienígenas mal intencionados de Terra contra os discos voadores, ou ainda o mais furioso de todos, o "Redhosauro" de O monstro do mar - criaturas, excepcionalmente conhecidas como os verdadeiros arquétipos dos monstros enfurecidos do horror e da ficção científica. A inocência acabaria aí, com essa enxurrada de clássicos "B".
Em 1989, Mighty Joe Young ganhou uma versão colorida e inteiramente restaurada. Escusado é dizer que perdeu totalmente o charme e a beleza singela, pois o que conseguiu realmente foi transmitir uma incômoda impressão de desenho animado, não fazendo jus à obra original em preto e branco. E em 1999, os Estúdios Walt Disney lançaram uma (re?)filmagem com o mesmo nome do clássico de O'Brien e Harryhausen, já com as trucagens hiper realistas da computação gráfica. Virou uma comédia tola para crianças e qualquer tentativa de compará-lo ao primeiro seria um crime. Foi lançado no Brasil com o título de O Poderoso Joe.
Vale mais ficar com a nostalgia do original, e se deliciar com os inocentes e despretenciosos efeitos do Stop-Motion dos mestres da animação cinematográfica.

Nota do autor: Por falta de uma designação mais apropriada, já que esse filme não foi lançado no Brasil, preferi me utilizar do seu nome original para intitular esse artigo.

E.R.Corrêa


MIGHTY JOE YOUNG (Mighty Joe Young , Estados Unidos, 1949). Duração: 94 minutos
Direção: Ernest B. Schoedsack
Roteiro: Ruth Rose, baseado num argumento de Merian C. Cooper
Produção: Merian C. Cooper
Produção Executiva: John Ford
Fotografia: J. Roy Hunt
Música: Roy Webb
Edição: Ted Cheesman
Efeitos Especiais: Ray Harryhausen
Desenho de Produção: James Basevi
Elenco: : Terry Moore (Jill Young); Ben Johnson (Gregg); Robert Armstrong (Max O'Hara); Frank McHugh (Windy); Douglas Fowley (Jones); Denis Green (Crawford); Paul Guilfoyle (Smith); Nestor Paiva (Brown); Regis Toomey (John Young); Lora Lee Michel (Jill Young, mais jovem); James Flavin (Schultz); Iris Adrian; Mary Gordon; Ian Batchelor; Primo Carnera; Cliff Clark; Joyce Compton; Frank Conroy; Ellen Corby; James Craven



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