KLAATU BARADA NIKTU!

Por E.R.Corrêa

Não me perguntem o que significam exatamente estas três palavras. Talvez seja alguma coisa como: “Klaatu ordena que pare”, “Klaatu retira a ordem” ou um outro código secreto qualquer envolvendo o nome do alienígena que veio à Terra em nome da Federação dos Planetas para pôr um término definitivo nos conflitos bélicos humanos. A verdade é que parecem palavras latinas clássicas – e talvez sejam (afinal, Klaatu aprendeu perfeitamente a linguagem terrestre – pelo menos a inglesa – através da sondagem e espionagem intergaláctica), mas isso não importa nem um pouco. Todo fã de Ficção Científica que se preza como tal sabe onde e como estas palavras foram usadas e que delas resultou simplesmente a salvação de toda a humanidade. Caso não tivessem sido utilizadas corretamente e na hora certa, o imponente Gort teria...
Bem, é claro que estou falando do clássico absoluto “O Dia Em Que a Terra Parou” (The Day the Earth Stood Still, 1951), de Robert Wise, um filme de ficção científica que, em qualquer dessas listas de melhor disso ou daquilo que se costuma preparar, irá figurar certamente entre os cinco primeiros do gênero, dividindo espaço com, provavelmente, “Planeta Proibido” (1956), “O Planeta dos Macacos” (1968), “2001: Uma Odisséia no Espaço” (1968) e “Blade Runner, O Caçador de Andróides” (1982). E com justiça, é certo.



Iniciando a verdadeira era das invasões alienígenas no cinema, no melhor estilo “O Homem do Planeta X”, feito no mesmo ano, e com a espetacular trilha sonora do mestre Bernard Hermann (um de seus primeiros trabalhos para a FC), “O Dia Em Que a Terra Parou” se destaca, sobretudo, pela forma elegante e discreta com que cutuca a Guerra Fria, não deixando transparecer aquela paranóia solidificada que embalaria filmes como “O Monstro do Ártico” (1951) e “Vampiros de Almas” (1956).
Klaatu (Michael Rennie), o alienígena humanóide que viajou duzentas e cinquenta milhões de milhas através do espaço, acompanhado de seu mega guarda-costas Gort, fugindo da mesmice, vem à Terra para tentar impedir o avanço cada vez mais rápido das armas nucleares – armas que, uma vez utilizadas em larga escala, irão alterar o equilíbrio do Universo e pôr em risco as demais civilizações -, mas não é bem recebido e tudo acaba fugindo ao seu controle. Atacado e perseguido implacavelmente, ele percebe que tratando diretamente com as autoridades nada conseguirá; por isso se infiltra discretamente entre a população e, com a inocência e humildade desta, em oposição à belicosidade dos líderes, elabora seus planos de ataque (não literalmente...)
Com a ajuda inconsciente do garoto Bobby (Billy Gray) e de sua mãe Helen (Patricia Neal) e apresentando-se como o Sr. Carpenter numa pensão alugada, Klaatu consegue entrar em contato com o eminente cientista Dr. Benhardt (Sam Jaffe), a quem solicita um encontro entre os principais cientistas da Terra, representantes de várias nações, para pôr tudo em pratos limpos. E, para mostrar que não está brincando, paralisa toda a energia terrestre durante meia hora – ele só deixa em funcionamento coisas absolutamente essenciais, como hospitais, aviões em vôo, ambulâncias, etc. Exceto isso, a Terra pára. Daí o título. Enquanto espera pelo desenrolar dos acontecimentos, inspirando o “american way of life”de uma nação xenofóbica e paranóica até a medula dos ossos, Klaatu acaba sendo morto por um policial. O poderoso Gort, porém, o ressuscita, e no final, é claro, ele dá o seu recado, para voltar ao desconhecido, quase tão misteriosamente como chegou.
O Dia Em Que a Terra Parou” é geralmente considerado como um dos poucos exemplares sérios e convincentes da ficção científica dos anos de 1950, a despeito do fato de trabalhar em cima de um tema que se tornaria o clichê recorrente da época, tanto no cinema quanto na literatura: o alerta sobre os perigos da proliferação das armas nucleares.
Entretanto, é interessante ressaltar que a história original da qual foi extraída a idéia para o roteiro não especulava em cima dessa questão chave. A história em questão era “Adeus ao Mestre” (Farewell to the Master), de Harry Bates, publicada em 1940 na revista “Astounding Science Fiction” (da qual Bates foi seu primeiro editor, nos tempos em que esta ainda se chamava “Astounding Stories of Super Science”) e sua idéia central estava focalizada não na possível iminência de uma proliferação descuidada de armas atômicas, mas no eterno conflito “criador versus criatura”.
Nesse conto, Klaatu e seu imponente robô Gnut, visitantes de uma galáxia desconhecida, vêem à Terra misteriosamente, mas antes que possam revelar seus objetivos Klaatu é morto a tiros por um fanático religioso. A partir de então, Gnut, como no filme, mantém-se firme e aparentemente indestrutível ao lado da nave (que – pasmem! – não chegou à Terra do modo convencional, voando, mas materializando-se próximo ao Capitólio, numa espécie bastante ousada de teletransporte).
À noite, porém, às escondidas, Gnut realiza experiências diversas para tentar trazer de volta à vida seu mestre Klaatu, que ganhara um mausoléu extremamente sofisticado em sua memória, mas não muito seguro, evidentemente... Entretanto, um fotógrafo bisbilhoteiro, também às escondidas, acompanha todo o processo. Através das primeiras gravações de voz que Klaatu fizera na Terra, antes de morrer, Gnut consegue, enfim, depois de muitas experiências, ressuscitá-lo.
Porém, como a qualidade das gravações era precária, o alienígena não poderá viver por muito tempo. Mas tempo o suficiente para revelar a nós e ao fotógrafo bisbilhoteiro que ele, afinal de contas, não era o grande mestre, o criador. Diz Gnut, na última sentença: “O criador sou eu”. O conto, como percebemos, é muito mais sofisticado que o filme, inclusive do ponto de vista científico. Nele existe toda uma atmosfera futurista, com direito a táxis voadores, empregados-autômatos, viagens espaciais, colônias planetárias, teletransporte, etc; elementos que, embora não fossem novidade nenhuma na imaginação dos escritores, traziam grandes problemas para uma tentativa de adaptação ao cinema da década de 1950, mesmo às custas de um grande estúdio e um bom orçamento. Por isso, o filme se desvencilhou da idéia central mas manteve intacto seus elementos principais, jogando-a, compensadoramente e com grande êxito, para um tema mais objetivo e mais próximo da realidade que cercava o mundo num período não muito inteligente da história humana, diga-se de passagem. E como tal ele se estabeleceu na história do gênero, sendo, até hoje, um de seus referenciais diretos.
Vez ou outra é reprisado em versão original preta e branca ou colorizada artificialmente por computador nas madrugadas da TV. Não pode, em hipótese alguma, deixar de ser gravado e reverenciado.
Sinta só o peso da intensidade alcançada pelo filme na voz de Klaatu: “Minha missão não é resolver seus mesquinhos problemas de política internacional. Não falarei com nenhuma nação ou grupo de nações; não pretendo trazer minha contribuição aos seus ciúmes e suspeitas infantis”.

E.R.Corrêa


O DIA EM QUE A TERRA PAROU (The Day the Earth Stood Still , EUA, 1951, 92 minutos
Direção: Robert Wise
Roteiro: Edmund H. North, baseado num conto de Harry Bates
Produção: Julian Blaustein
Música: Bernard Herrmann
Fotografia: Leo Tover
Edição: William Reynolds
Direção de Arte: Addison Hehr e Lyle R. Wheeler
Desenho de Produção: Perkins Bailey e Travilla
Efeitos Especiais: Fred Sersen, L.B. Abbott, Ray Kellogg e Emil Kosa
Elenco: Michael Rennie (Klaatu/Carpenter); Patricia Neal (Helen Benson); Hugh Marlowe (Tom Stevens); Sam Jaffe (Prof. Jacob Barnhardt); Billy Gray (Bobby Benson); Frances Bavier (Mrs. Barley); Lock Martin (Gort); Holly Bane; Marshall Bradford; John Brown; John Burton; John Close



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