Hospital Psiquiátrico de Maryland
Caso X-00248621
Dr. Herbert West - Médico Residente
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Há aproximadamente um mês atrás deu entrada no setor de emergência do hospital um jovem rapaz aparentemente em estado de choque, muito trêmulo, balbuciando palavras desconexas e mantendo aferrado (creio que esta seja a expressão correta) junto ao peito um DVD de capa verde e brilhante. Não pude identificá-lo a princípio pois o paciente o segurava com força tamanha que apenas depois de sedado consegui ver do que se tratava.
Pelos documentos que o rapaz carregava descobri que seu nome é Gabriel Paixão, e o tal DVD (sujo pelo suor dos braços do paciente) era um tal de KOMODO VS. COBRA. Pelo que li no encarte, trata-se de um filme criado no ano de 2005, dirigido por um senhor chamado Jim Wynorski (SUBZERO, GHOULIES 4, A VINGANÇA DAS GARGULAS) e que se trata de dois monstros gigantes em uma ilha remota. |
Após três dias de coma profundo e alguns espasmos convulsivos no período, o paciente aparentou melhora e mesmo atendendo a estímulos e respondendo as minhas perguntas. Não parecia muito consciente do que se passava no mundo exterior.


De acordo com seu primeiro relato, Gabriel afirmou que foi a uma locadora próxima e estava disposto a assistir alguma coisa fora do
mainstream, um lançamento mais underground. O paciente afirma que foi seduzido pela bela loira atendente do recinto que recomendou este filme. Então, totalmente embevecido e querendo causar boa impressão, assim o levou.
Apliquei uma técnica de regressão hipnótica, já que o horror que o paciente passou criou um bloqueio mental e ele se recusava a dizer o que naquele filme causara tanto estrago físico e mental; o resultado foi surpreendente. Abaixo está um resumo dos relatos na palavra do paciente, tomei a liberdade de corrigir os erros de concordância dado o seu estado de catatonia:


"Então Doutor, a história começa com três cientistas, dois homens e uma mulher, correndo de um dragão de komodo gigante no meio de uma floresta. A coisa aparece logo de cara, já que um deles não chega a falar uma palavra e morre devorado pelo lagarto, enquanto a dupla restante continua a correr. Logo descobrimos que são pai e filha, mas não há tempo para sentimentalismos, pois ao fugir do komodo próximo a uma cachoeira, uma cobra gigante sai do lago e come o pai da garota.
Corta para um quartel general do exercito, em que os comandantes estão preocupados por não receberem mais notícias sobre o experimento secreto que está sendo conduzido em uma ilha chamada Isla Damas e resolvem mandar uma equipe tática para verificar o ocorrido. Desnecessário dizer que a equipe será devorada como os cientistas na cena anterior.


Mas antes disto, somos efetivamente apresentados ao cast principal: Jerry Ryan (Ryan McTavish) e sua namorada ex-participante de reality show (ou seja fracassada), Carrie Evans (Renee Talbert), são ambientalistas e procuram pelo capitão Michael Stoddard (Michael Paré que está queimando o resto do seu filme trabalhando com Uwe Boll em
BLOODRAINE,
POSTAL e
SEED) para levá-los a isolada Isla Damas para desmascararem a
'Experiência Secreta' do exército. E então após um gordo adiantamento, no dia seguinte Stoddard recebe o casal e sua equipe composta pelos irmãos ambientalistas Ted Marks (Ted Monte) e Darla (a peituda Glori-Anne Gilbert, estrela de vários thrillers eróticos sobre vampiros) junto com a repórter sensacionalista Sandra Crescent (Jerri Manthey) e seu câmera Dirk Preston (Rene Rivera).


O tempo passa e a equipe finalmente chega ao local, onde monstros feitos em computador destroem humanos, mas não deixam marcas de pegadas, mas eles ainda não sabem disto, hehehe... O que acontece é que após um bom tempo de exploração, o tal
'Projeto Carnívoro' se revela apenas alguns pés de milho gigantes e uma casa que deveria ser o laboratório dos cientistas, só que não tarda muito para que a sobrevivente do primeiro ataque apareça e os monstros gigantes em seguida para atazanar a turma.
A garota é Susan Richardson (Michelle Borth), que junto com seu pai, Wiliam Richardson, (Jay Richardson) criou genes mutantes capazes de criar seres vivos gigantes e que aplicaram com sucesso em plantas. Só que o exército se interessou e com a promessa de investimento nas pesquisas, fez com que Wiliam testasse em duas cobaias, uma cobra e um dragão de komodo, obviamente. Agora, com que propósito criar predadores gigantes e venenosos? Não pergunte para mim, hahaha... (Neste momento o paciente gargalha histericamente, uma injeção de tranqüilizante foi aplicada).


Então agora o pessoal da ilha tem que se preocupar não só em sobreviver aos bichos anabolizados, mas precisam correr contra o tempo já que o exercito pretende explodir todo o experimento, sem deixar pedra sobre pedra.
A direção até que é bem conduzida, lembrando aqueles filmes de monstros gigantes de muito tempo atrás, porém é preciso dizer que as concessões que Jim Wynorski precisa fazer para se adaptar com os elementos feitos em computador deixa a experiência não menos do que bisonha.
Os atores são em sua maioria iniciantes e fracos, especialmente o mocinho Ryan McTavish que é muito amador; um erro gravíssimo se ainda levarmos em conta que os envolvidos no projeto pensam que estão fazendo um novo
KING KONG... A única exceção é o ator Michael Paré, que por ter um pouco mais de experiência, faz um capitão canastrão, exagerado e cheio de frases prontas, muito adequado para a produção.


Mas aí vem a queda e o que merece ser realmente comentado: O roteiro é muito mal escrito e cheio de diálogos que não acrescentam nada a trama com um monte de espaços em
"branco" em que nada acontece. A pobreza da história fica mais evidente com o tal
"versus", pois não há motivo algum para um dragão de Komodo e uma cobra gigante se pegarem nesta ilha. As idas e vindas no tempo não ajudam e chegam a parecer uma mistura de
"Survivor" e
"Lost", mas com monstros e figuras dramáticas porcamente desenvolvidas. Entretanto o pior são as atitudes das personagens em meio uma situação de perigo: parecem pessoas com Q.I. de lesma que merecem morrer a cada cagada que fazem.


Meu Deus, e o que dizer dos (d)efeitos especiais... É CGI sem-vergonha pra tudo quanto é lado: além dos monstros, tem também as plantações de milho gigante, os helicópteros e até a explosão das balas são feitas em computador. A interação dos elementos virtuais com os atores reais é péssima de tão pobre. Eu, sinceramente, não me importaria tanto com monstros de cinco metros que não conseguem derrubar árvores e não deixam pegadas no chão, até porque após alguns litros de álcool no sangue pode até ficar engraçado, mas chega um ponto que fica ridículo.
Os erros de continuidade são extremamente absurdos e abusivos. Só para dar um exemplo, o capitão não troca o pente de balas uma única vez durante o filme inteiro mesmo depois do qüinquagésimo tiro - cansei de contar. Também tem um homem que fica com a perna presa em uma cancela e a lagartixa gigante o devora, só que eu não disse que esta cancela tem meio metro de altura...
Eu não esperava um
JURASSIC PARK mesmo, mas ainda assim foi demais para a minha cabeça... (neste momento o paciente chora copiosamente, precisando ser removido para UTI novamente)”.


Na data de hoje estou dando alta para o paciente, visto que se desequilíbrio emocional está atenuado e sua capacidade de segurar a saliva dentro da boca está retornando. Durante as próximas semanas recomendei ao paciente distância de filmes como este e algumas sessões de eletrochoque cerebral para reabilitar os 25% de sua massa encefálica que foram inutilizados na área de lógica e raciocínio.


Além disto estou enviando comunicação para o Ministério da Saúde solicitando que filmes como este tenham tarjas de advertência para evitar situações semelhantes. A todos que por ventura tenham contato com este relatório, recomenda-se distância de
KOMODO VS. COBRA a não ser que estejam prevenidos dos efeitos colaterais. Espero que outro monstro Vs. monstro não aconteça ou teremos riscos de suicídios em massa.
Nota do Editor: Uma semana após a emissão do relatório, a locadora em questão foi incendiada por vândalos que a polícia não conseguiu identificar. Não há suspeitos para o atentado. Devido a constantes ameaças anônimas, a atendente da locadora e sua família entraram para o programa de proteção a testemunhas, mudando de nome e de estado.

Gabriel Paixão
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KOMODO VS. COBRA (Komodo vs. Cobra / KVC: Komodo vs. Cobra, EUA, 2005). Duração: 94 minutos.
Direção: Jim Wynorski
Roteiro: Bill Munroe; Jim Wynorski
Produção: Paul Hertzberg
Produção Executiva: Daniel Gilboy; Michael Paré
Fotografia: Andrea V. Rossotto
Música: Chuck Cirino
Edição: Randy Carter
Maquiagem: Robert Constant
Efeitos Especiais: Danail Hadzhiyski; Stefan Tchakarov; Scott Coulter
Elenco: Michael Paré (Michael A. Stoddard); Michelle Borth (Dr. Susan Richardson); Ryan McTavish (Jerry Ryan); Renee Talbert (Carrie Evans); Jerri Manthey (Sandra Crescent); Ted Monte (Ted Marks); Glori-Anne Gilbert (Darla Marks); Rene Rivera (Dirk Preston); Jay Richardson (Dr. William Richardson); Rod McCary (General Bradley); Roark Critchlow (Major Garber); Paul Logan (Major Frank); Damian T. Raven (Weeks); Chris Neville (Lerner); Delpano Wills (Marsden); Paul Green (Monroe); Jordon Krain (Dr. Rhodes); Dan Golden (Dr. Michaels)
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