LADY TERMINATOR

Por Felipe M.Guerra

Esqueça Schwarzenegger e divirta-se com uma exterminadora gostosa e peladona

A cena é bem conhecida: o vilão indestrutível, em busca de seu alvo feminino no interior de uma delegacia de polícia, invade o local com carro e tudo, arrebentando a recepção do prédio. Depois, anda pelos corredores resistindo às centenas de tiros dos policiais, respondendo com rajadas certeiras de metralhadora, matando qualquer coisa que se mova em seu caminho e caminhando direto até a sala onde sua futura vítima está trancafiada. Os policiais nada podem fazer contra aquela criatura em forma humana, pois ela é imune às balas; mas a moça conta com um aliado, um rapaz corajoso que se coloca como única barreira entre ela e o "exterminador".
Você já viu este filme antes, certo? É THE TERMINATOR, ou O EXTERMINADOR DO FUTURO, o primeiro sucesso de um jovem diretor americano chamado James Cameron, feito com um orçamento mixuruca em 1984 e com Arnold Schwarzenegger e Linda Hamilton no elenco. Mas e se eu dissesse que não é este o filme de que estou falando? Sim, a cena é exatamente a mesma, como eu descrevi, mas a mocinha em perigo não é Sarah Connor (a personagem de Linda), e sim uma cantora pop chamada Erica; o rapaz que tenta ajudá-la não é Kyle Reese (personagem de Michael Biehn em THE TERMINATOR), nem veio do futuro, é apenas um policial comum chamado Max McNeil; e não é um exterminador, mas sim UMA exterminadora! Troque a ambientação nos Estados Unidos pela Indonésia, mas todo o resto continua o mesmo - inclusive o orçamento mixuruca. Pronto: assim é LADY TERMINATOR, um daqueles filmes tão ruins, bizarros e esquisitos que já se torna obrigatório para fãs de trash e podreiras cinematográficas. Além de ser, claro, uma chance rara de ver uma produção feita na Indonésia!



LADY TERMINATOR está naquele panteão de produções feitas na cola de sucessos do cinema americano, mas tão ruins que não dá para levar a sério - mesmo que seus idealizadores o tivessem realizado com este propósito. Está no mesmo nível de DUNIAYI KURTARAN ADAM ou SEYTAN (as "versões" feitas na Turquia, sem autorização, de GUERRA NAS ESTRELAS e O EXORCISTA), ou ainda dos filmes do italiano Bruno Mattei, que não raras vezes copiam cenas inteiras dos filmes em que se "inspiram" - como ROBOWAR, que plagia ao mesmo tempo O PREDADOR e O EXTERMINADOR DO FUTURO. Sim, são filmes que parecerão horríveis e insuportáveis para as ditas pessoas normais, são filmes que nos fazem lembrar da injustiça de terem eleito PLAN 9 FROM OUTER SPACE, de Ed Wood, como o pior de todos os tempos. Mas, para quem curte, também são filmes divertidíssimos. E por mais imbecil, retardado e cara-de-pau que LADY TERMINATOR seja, confesso que não consegui parar de dar risada nem por um minuto...

A produção foi filmada em 1988 na Indonésia, quando a indústria de cinema naquele país ainda estava bastante atuante. Sim, eu sei que é esquisito falar em "cinema na Indonésia", porque pouco sabemos, infelizmente, sobre os filmes que eles fazem por lá. Nem é novidade nossa falta de conhecimento de boa parte do cinema mundial, já que as distribuidoras brasileiras insistem em só nos trazer produções americanas ou títulos mais conhecidos vindos da Europa e do Oriente. Neste universo, não há espaço para filmes, digamos, "alternativos". É só lembrar que a Índia é o país do mundo que mais faz filmes por ano - dá um banho até em Hollywood. Bem... Quantos filmes indianos você já viu este ano? Infelizmente, nosso mercado continua muito fechado a tudo que possa parecer diferente ou "comercialmente inviável" (ou seja, tudo que não tenha Brad Pitt ou Tom Cruise no elenco). Mas em outros tempos, antes dos multiplex e dos cinemas de shopping-center, LADY TERMINATOR e muitas outras porcarias deste calibre certamente encontrariam seu espaço naquelas salas de cinema vagabundas, que exibiam filmes de Chuck Norris seguidos de um pornô norueguês... O mundo mudou para pior!



Mas voltemos ao cinema da Indonésia. Nos anos 40, o pessoal de lá tinha uma produção bastante respeitável, mesmo que seus filmes fossem imitações do que funcionava no cinema americano. Havia, por exemplo, as aventuras de SRIGALA HITAM ("O Chacal Negro"), que era uma cópia do Zorro, e ALANG ALANG, uma cópia indonésia do Tarzan, mostrando um sujeito que vivia nas selvas da Sumatra. Na mesma época, começaram a surgir os filmes de horror, que eram versões mais pobres de sucessos da Universal, como TENGKORAK HIDUP ("O Morto-Vivo"), que era cópia de DRÁCULA, e KEDOK KETAWA ("A Máscara que Ri"), uma versão de O FANTASMA DA ÓPERA. A partir dos anos 70, produtoras menores passaram a infestar o mercado do país com aventuras baratas de artes marciais. Havia um "boom" do gênero no mundo inteiro, quando os filmes feitos em Hong-Kong (de Bruce Lee, principalmente) começaram a fazer sucesso nos Estados Unidos. Também nesta década, a produção de terror intensificou-se, adaptando sucessos do Ocidente para o público do Oriente. Cineastas indonésios lançaram imitações de O EXORCISTA (chamada KEMASUKAN SETAN, ou "O Diabo Nela"), das aventuras de Freddy Krueger (SATAN'S BED, ou "A Cama do Diabo", inclusive com um assassino que usa navalhas nos dedos), de casa mal-assombrada (GONDORUWO - THE HAUNTED HOUSE), entre outros.



Assim, é compreensível que LADY TERMINATOR seja uma "versão" de O EXTERMINADOR DO FUTURO. Ao invés de copiar na íntegra, como fazia Bruno Mattei na Itália, os produtores resolveram simplesmente adaptar a história para as lendas do país. É por isso que, ao invés de um cyborg, temos como vilã uma garota possuída por uma deusa lendária da Indonésia. No original, o filme se chama PEMBALASAN RATU PANTAI SELATAN (tente falar isso rápido e sem gaguejar). O diretor, um tal H. Tjut Djalil, decidiu usar um pseudônimo mais americanizado, então assinou "Jalil Jackson" (hahahaha). O roteirista Karr Kruinowz e os astros do filme são todos de primeira e última viagem - nunca mais deram as caras em outro filme, na Indonésia ou onde quer que seja. Mais "genial" do que o próprio filme, só o intraduzível trocadilho na frase do cartaz: "She mates... Then she terminates" (Ela encontra, depois ela extermina). hahahahaha.

No roteiro do tal "Karr Kruinowz", a história começa no passado, e não no futuro, como acontecia no clássico de James Cameron - onde um cyborg indestrutível era despachado para o passado para matar aquela que seria a mãe do líder da resistência humana futura. LADY TERMINATOR inicia no final do século 19. Ao longo de alguns takes que mostram ondas no mar, um narrador fala rapidamente sobre a lenda da Rainha dos Mares do Sul, uma criatura mística que realmente faz parte do folclore indonésio (e já apareceu em outras produções feitas no paós, como NYI BLORONG, ou "A Rainha Serpente"). Ela vive em um castelo sobre as águas e alimenta-se de órgãos reprodutores masculinos (!!!), atraindo jovens garanhões ao seu castelo para, no auge da transa, arrancar o bilau dos infelizes! Mas não pense que a coisa parte para a putaria explícita. Muito pelo contrário: o filme é bem casto, a tal Rainha nem mesmo aparece pelada, apenas "montando" no sujeito. Nem o pênis arrancado é mostrado on-screen: apenas vemos um montão de sangue esguichando da barriga do cara enquanto ele se contorce de dor, e então "imaginamos" todo o resto. Sacou? Aliás, graças a Deus que a tal Rainha não aparece pelada, pois a atriz que a interpreta é um jaburu do pior calibre!



É então que entra em cena um tipo ocidental, loiro e vestido como capitão de navio - que seria o centésimo amante da moça. Ele dá um "chega pra cá minha nega" na temida Rainha e desmancha a monstra na cama. O machão, também, não é bobo nem nada - ele sabe da fama de devoradora de pênis da moça. Então, no meio da cópula, coloca a mão entre as pernas da Rainha e de lá tira uma enorme serpente (!!!), aparentemente a responsável pelas castrações anteriores. Num passe de mágica, jamais explicado pelo roteiro, o cara transforma a cobra numa adaga mágica!!! Estou até agora pensando no que o roteirista tomou para escrever cenas como esta - LSD ou algo mais forte? Ao perceber que sua amada cobrinha (hahaha) foi arrancada de seu ventre, e que ela foi enganada pelo estrangeiro, a Rainha dos Mares do Sul fica puta: "Eu amaldiçoo você e todos os seus descendentes! Eu voltarei para me vingar da sua família no futuro!!!". Sentiu o drama? No caso, não se sabe o que é mais medonho: a cara de fúria da Rainha ou o suvaco cabeludo da atriz que a interpreta!!! hahahahah

Bem, se no filme de James Cameron o exterminador ia do futuro ao passado em busca da vítima, aqui a exterminadora faz o trajeto inverso! Criativo, isso... A história salta um século para o futuro, até os bregas anos 80. Tania Wilson (a lindinha Barbara Anne Constable, que injustamente só fez este filme, quase o tempo todo pelada) é uma antropóloga americana que está na Indonésia pesquisando justamente sobre a lenda da Rainha dos Mares do Sul, para defender sua tese de mestrado. Ela paga ao capitão de um barco para levá-la até o ponto do oceano onde, de acordo com a lenda, estaria situado o castelo da Rainha. Então, algo esquisito acontece: Tania mergulha e desaparece, vendo a si própria amarrada, de biquíni e com as pernas abertas, naquela mesma cama onde a Rainha devorava seus amantes no começo do filme. Uma serpente vem vindo por baixo do lençol e, numa cena vulgarmente risível, "entra" na antropóloga justamente por aquele local que você está pensando - mas é uma coisa bem casta, já que o biquíni da moça permanece no lugar. É algo que rivaliza, em nojeira, com o famoso "estupro por galhos" de EVIL DEAD. Ao mesmo tempo, uma onda gigantesca some com o barco e seus ocupantes - espere só até ver o barquinho em miniatura sendo destruído, que coisa bonita... hahahaha



Anoitece e Tania sai do mar completamente pelada (eba!). Mas não é mais aquela antropóloga envergonhada, e sim a Lady Terminator do título. Aparentemente, Tania foi possuída pelo espírito (e pela cobra!!!) da Rainha dos Mares do Sul, e voltou à terra para cobrar sua vingança contra aquele que a enganou 100 anos antes. Não que isso faça muito sentido, porém... Logo, Lady Terminator encontra dois marginais na beira da praia e dá cabo deles, transando com ambos e decepando seus perus, na repetição do mesmo efeito de sangue esguichando da barriga mostrado anteriormente. Aparentemente, a moçoila tira sua "energia" do ataque sexual, é mole? E repare no "efeito Ed Wood": Tania sai completamente pelada do mar e, na cena seguinte, já veste uma tanguinha para esconder a perseguida! Tsc, tsc, tsc... Depois de dar cabo dos dois marginais e lhes roubar a roupa de couro para esconder a nudez (como acontecia também em THE TERMINATOR), a Lady Terminator vai até um hotel - onde, sabe-se lá porque, os seguranças usam metralhadoras Uzi!!! Então ela mata um dos guardas e lhe rouba a metralhadora. Pronto. Agora a moça está apta a começar sua vingança...

O alvo da exterminadora é Erica (outro jacuzinho, chamado Claudia Angelique Rademaker), cantora pop que é a nova sensação da Indonésia e, naquela noite, vai fazer um show num inferninho da cidade. A julgar pelo jeito que a garota canta aquele tecnopop oitentista, até eu fiquei com vontade de exterminá-la, então achei plenamente justificáveis os objetivos de Lady Terminator. Mas a verdade é que Erica é descendente do tal cara que roubou a cobra (hehehe) da Rainha dos Mares do Sul, 100 anos antes. Erica está no shopping com uma amiga quando a exterminadora aparece, num figurino que é o fetiche do fetiche: calça e jaqueta de couro preto, botas de couro e só um tomara-que-caia cobrindo o seios - além, claro, de uma sexy metralhadora Uzi a tiracolo... A vilã deixa Erica ir embora e vai até o banheiro dar cabo da sua amiga - e de mais uns figurantes que circulavam por ali, todos abatidos com sangrentos balaços de metralhadora, filmados em detalhes gráficos.



Logo conhecemos o nosso herói. Não, ele não veio do futuro, como o Kyle Resse de THE TERMINATOR. É apenas um policial americano que trabalha nas Filipinas, chamado Max McNeil (o horrendo Christopher J. Hart), que tem um mal-explicado trauma envolvendo sua ex-namorada. Max e seu parceiro Jack (Joseph P. McGlynn) são aqueles tiras inseparáveis e engraçadinhos. A dupla é chamada para investigar o caso dos três homens encontrados mortos e castrados (os dois da praia e o segurança do hotel). "Deve ter sido um pequeno animal", deduz, brilhantemente, um dos detetives, sobre o fato do pênis dos cadáveres ter sido arrancado. Naquela noite, Erica está fazendo seu show numa boate (não, não é o Technoir do THE TERMINATOR), aparentemente sem ter tomado conhecimento da morte da amiga no shopping. Max também está lá, à paisana, aparentemente porque curte um pop-rock mela-cueca. É então que surge a tétrica Lady Terminator. Uma coisa que me chama a atenção é o fato da moça andar e agir como se fosse um robô (imitando Schwarzenegger no filme de James Cameron), apesar de ser apenas uma pessoa normal possuída por uma divindade dos mares. Estranho não?

A robótica Lady Terminator se aproxima do palco, saca sua Uzi e atira em tudo e todos - menos em Erica, claro. O sangrento tiroteio que se segue na boate é praticamente um remake da mesma cena em THE TERMINATOR, inclusive repetindo os takes onde a vilã é atingida por tiros e cai como se estivesse morta, mas então mexe os dedos da mão e lentamente se levanta (no restante do filme, apesar de tomar todo tipo de tiro, ela nunca mais cai como se estivesse morta, então me pergunto qual é o objetivo desta cena...); também é repetida a seqüência em que a vilã atira em alguns figurantes e eles caem sobre Sarah Conn... opa, Erica, impedindo-a de fugir correndo. O tiroteio evolui para uma perseguição automobilística (como em THE TERMINATOR), onde Max, um reles policial, puxa uma metralhadora M-16 (!!!) do banco de trás de seu carro e passa chumbo na exterminadora, sem nunca conseguir pará-la!!!



Resumindo a ópera: após uma praticamente interminável perseguição, Max e Erica conseguem deixar a perseguidora para trás e vão até o único lugar onde imaginam estar seguros, a delegacia de polícia (claro!). Mas ninguém imagina que a Lady Terminator vai aparecer por lá e chacinar todo mundo. Ela entra no prédio com carro e tudo e sai passando fogo na galera, já que sua metralhadora, misteriosamente, jamais fica descarregada - só quando ela tem que atirar nos heróis!!! Esta cena, ainda que chupada vergonhosamente do clássico THE TERMINATOR (inclusive nos ângulos de câmera e nos takes da vilã andando por corredores, chutando portas e atirando), é o ponto alto de LADY TERMINATOR e talvez uma das cenas com maior número de tiros e mortes da história do cinema - pau a pau com o final de FERVURA MÁXIMA, filme da fase áurea do chinês John Woo. E o diretor "Jalil" (hahaha) não poupa em violência, fazendo questão de mostrar os buracos de balas explodindo no corpo das vítimas. Um dos momentos mais sangrentos é aquele em que a vilã pega um cara já baleado, mas ainda vivo, e pede: "Onde está Erica?". Diante da recusa do policial em responder, Lady Terminator joga o cara no chão e dispara uns 50 tiros à queima-roupa no coitado, fazendo jorrar um rio de sangue - e, para completar, ainda sai chutando o cadáver mais morto impossível!!! Agora imagina encarar a Lady Terminator com TPM, se em estado normal ela já é nervosinha assim!!!!

Outro detalhe interessante desta cena (além do fato de delegacias de polícia na Indonésia aparentemente possuírem fuzis M-16 como se fosse uma coisa normal) é que os policiais continuam atirando na Lady Terminator, mesmo percebendo que as balas não fazem qualquer efeito na moça! Sério, ela deve levar um milhão de balaços sem nem ao menos se alterar, mas os caras continuam atirando, atirando e atirando, e dá vontade de chutar a TV e gritar: "Porra, parem com isso que não adianta, caramba!!!". O desfecho do massacre na delegacia é hilariante: aparece um velho sábio (claro), amigo de Erica, e encara a vilã. Ele toma uns tiros de metralhadora, mas não morre (!!!). Então pega uma jóia que Erica levava no pescoço, transforma numa luzinha verde-brilhante (!!!) e atira aquilo no olho da Lady Terminator, cegando-a - pena que não tinha duas jóias, porque aí pelo menos deixava ela permanentemente sem enxergar! A resposta da vilã é ainda mais bizarra: já que não adiantou atirar no peito, ela dispara uma rajada de metralhadora certeira no saco do velho sábio (caramba!!!). E não é que dessa vez o velhinho morre?????? HAHAHAHAHAHAHA.



Com a morte do velho sábio, Erica e Max escapam novamente - é só o que podem fazer -, e vão parar numa florestinha básica, onde rola a transa costumeira. O diretor "Jalil" (hahaha) apela pra caramba: quando o casal se abraça romanticamente, por exemplo, a câmera vai pro lado e filma uma fogueira crepitando (bah, o maior clichê de cenas românticas da história do cinema). Então vemos umas roupas voando e a câmera, sabe-se lá com que intuito que não seja a conotação erótica, filma um enorme tronco de árvore, da raiz até a copa - e use sua imaginação para julgar o que o diretor quis representar com isso!!! hahahaha. Enquanto Erica e Max se divertem, Lady Terminator está ocupada realizando a "cena da operação", que também está em THE TERMINATOR: usando um bisturi, ela arranca o olho atingido pelo raio do velho sábio (a cena é grosseira e realista), dá uma lavadinha na torneira e coloca o olho de volta!!! hahahaha. Imagine você fazer isso toda vez que entra um cisco no olho! Depois ela ainda decepa o pênis de mais um figurante otário e parece finalmente refeita para continuar a caçada implacável.



Nesse meio tempo, Max está se preparando para enfrentar Lady Terminator com unhas e dentes. Ele chamou uns amigos dos tempos da guerra, e os caras aparentemente guardaram várias lembrancinhas da época do conflito, como metralhadoras, bazucas, helicópteros armados com mísseis e até um tanque!!! hahahaha. Então a vilã reaparece e os caras dê-lhe passar chumbo nela (MAS NÃO ADIANTA NADA ATIRAR!!!), e continuam atirando, atirando e atirando, até que finalmente conseguem explodir a vilã com um míssil! É aquela festa e comemoração, mas eis que a moçoila reaparece! Não transformada num esqueleto metálico, como aconteceu com Schwarzenegger no final do THE TERMINATOR original, mas sim como um ridículo zumbi com cara carbonizada, e visivelmente interpretado por algum dublê masculino (repare no jeito que "a coisa" anda!!! hahahaha). Pior: o tal zumbi dispara raio laser pelos olhos e mata 99% dos heróis, numa cena absurdamente cômica - se ela podia disparar lasers pelos olhos, por que não fez isso no restante do filme, ao invés de brincar com metralhadoras??? Até a derradeira conclusão, que mostra Erica e Max obrigados a sair no braço com Lady Terminator, mais umas 30 pessoas morrem, de maneira que fica praticamente impossível contabilizar a contagem de cadáveres desta película!!!



LADY TERMINATOR é um filme muito, mas muito ruim - e por isso mesmo divertidíssimo. Esses caras da Indonésia não têm a menor vergonha na cara: além de chupar THE TERMINATOR na cara-dura, eles parecem não se preocupar com nada que não seja as cenas de ação e violência, já que as interpretações são risíveis, os efeitos fraquíssimos e a história um lixo completo. Isso sem contar a profusão de erros de continuidade, da mulher pelada aparecer vestida na cena seguinte até a vilã, que tomou uns 500 mil tiros na delegacia, depois aparecer pelada com apenas meia dúzia de buracos de bala no corpo (hahahaha). Deve ter poder de regeneração, tipo o Wolverine. E a interpretação "robótica" da gostosinha Barbara Anne (a vilã), permanentemente com cara de malvada e os peitos de fora, é algo que deveria entrar para os anais da história cinematográfica mundial - e você que pensava que o Schwarzenegger atuava mal, né?

A produção estreou em Jacarta (a capital da Indonésia) em julho de 1989, foi um sucesso de público e levantou polêmica (devido ao conteúdo erótico e às semelhanças com o filme americano). Depois de nove dias de exibição e um público de 105 mil espectadores (!!!), LADY TERMINATOR foi retirado de cartaz à força para evitar "problemas legais". A proibição de exibir a obra enfureceu o diretor, que acreditava que o boicote tinha razões políticas, acusando os distribuidores de filmes estrangeiros de conspirarem para que a exibição de LADY TERMINATOR fosse vetada. Dizia ele que os distribuidores tinham medo de que uma produção feita na própria Indonésia estivesse desbancando filmes estrangeiros muito mais importantes!!! Mas não adiantou choramingar, porque o filme não voltou aos cinemas; pelo menos, conseguiu uma vida longa em vídeo e, agora, em DVD.



Por pior que seja, pelo menos não se pode acusar LADY TERMINATOR de ser chato. Muito pelo contrário! Após os primeiros 20 minutos, o filme não pára. É a vilã sair da água que a matança começa e não termina antes de fechar 1h20min. Tem mais rajadas de metralhadora e mortos caindo do que COMANDO PARA MATAR, RAMBO e FALCÃO NEGRO EM PERIGO juntos!!! E tudo é tão mal-feito e/ou esquisito, com raios azulados falsos, gelo seco e efeitos de fundo de quintal, que você simplesmente não consegue parar de assistir até chegar ao final, mesmo que esteja odiando tudo aquilo. Vamos recapitular: uma Rainha sobrenatural que se alimenta dos pênis de seus amantes, e tem uma cobra na vagina (!!!); um cara que agarra a cobra e transforma o bicho num punhal mágico (!!!); uma antropóloga que é possuída pela cobra e vira uma exterminadora robótica e indestrutível (!!!); um velho sábio que não morre ao levar tiros nos órgãos vitais, mas cai na horinha ao levar uma rajada de M-16 no saco (!!!)... Caramba! LADY TERMINATOR, definitivamente, deve ser um dos filmes mais bizarros da história!!!

Claro, não é para todos os públicos. Se você não tem senso de humor, não vê graça no mal-feito e no ridículo, enfim, prefere aquele cinema mais convencional, bem feito, com efeitos especiais biliardários e histórias mais interessantes, passe longe de LADY TERMINATOR. Afinal, você certamente morrerá de ódio de diálogos como aquele em que o capitão do navio chama Tania de senhorita e escuta a resposta: "Não sou senhorita, sou uma antropóloga" (hahahahaha). Você também não vai suportar as atuações canastríssimas de todo o elenco, nem a ridícula presença de um clone magrela do Rambo - sério, uma mané de mullets (aquele cabelo comprido ridículo dos anos 80), faixinha amarrada na testa, cartucheiras cruzadas no peito e uma metranca na mão!!!!



Chamada originalmente de A VINGANÇA DA RAINHA DOS MARES DO SUL na Indonésia e rebatizada NASTY HUNTER ("Caçadora Cruel") em alguns países, LADY TERMINATOR tem algumas cenas filmadas exclusivamente para o mercado ocidental. O garanhão loiro que arranca a cobra da Rainha dos Mares do Sul (hahahaha, eu rio só de lembrar disso) no início do filme, por exemplo, só aparece na cópia ocidental, pois no filme lançado na Indonésia o personagem é interpretado por um asiático vestido com uma túnica rosa (!!!). A possessão de Tania acontece por uma cobra entrando na vagina apenas na versão lançada na América (no original, a cobra entra pelo umbigo). Por fim, Lady Terminator só sai pelada do mar na versão ocidental, pois o filme visto na Indonésia é mais casto, mostrando a moça de biquíni o tempo inteiro. Pela primeira vez na vida, fico contente de não assistir a versão original de um filme!!! hahahahahaha. Estas cenas podem todas ser vistas num DVD do tipo "edição especial" lançado nos Estados Unidos pelo selo Mondo Macabro - sim, porque no Primeiro Mundo até as maiores bombas ganham edição especial. No Brasil, quem quiser ver vai ter que correr atrás de uma fita lançada há muitos anos (sim, LADY TERMINATOR saiu no Brasil!!!), com o título nacional A CAÇADORA DE ALMAS. O título é ridículo, mas a outra opção, A DEVORADORA DE PINTOS, ia ficar muito esquisita. hahahaha.



LADY TERMINATOR pode ser ruim de doer, mas não se pode negar que é muito, mas muito engraçado. Cachaça na cabeça, amigos na sala, diversão garantida! E a Lady Terminator é muito, mas muito gostosa. Precisa o que mais? Dê um tempo nas superproduções hollywoodianas, esqueça que hoje se faz efeitos especiais por computador e dê uma chance para esta produção bagaceira feita na Indonésia. Com o devido clima de bom humor, não tem como não se divertir!

E a indústria de cinema da Indonésia hoje está se reerguendo, após vários anos de inatividade. O mais recente bom exemplo vindo de lá chama-se JELANGKUNG (em inglês, THE UNINVITED), produção de 2001 que custou menos de 30 mil dólares e foi filmada com câmera digital. No estilo A BRUXA DE BLAIR, conta a história de jovens que investigam a aparição de fantasmas numa floresta escura, perto de uma pequena vila de pescadores. Parece bobagem, mas várias críticas de sites americanos dizem que o filme é genuinamente assustador. De fato, foi um sucesso instantâneo na Indonésia, sendo exibido nos cinemas e fazendo uma bilheteria maior que O SENHOR DOS ANÉIS!!!



Bem, os indonésios conseguiram... Mas e o cinema de horror brasileiro, quando será que vai retornar das cinzas?

* PS: Muitas informações sobre o cinema indonésio usadas neste artigo foram retiradas do livro MONDO MACABRO, de Pete Tombs, que infelizmente só pode ser adquirido lá fora. Recomendo como leitura de cabeceira para todos os fãs do cinema bizarro e obscuro feito nos mais longínquos países do planeta.



COISAS QUE VOCÊ VAI APRENDER VENDO "LADY TERMINATOR"


- Cobras são as maiores inimigas do homem.
- Deusas malvadas têm o suvaco peludo.
- Você morre na hora se o seu pênis for arrancado durante o sexo.
- Sim, antropologistas podem ser gostosas.
- Sim, antropologistas acreditam em lendas populares e mergulham atrás de castelos supostamente imaginários.
- Sim, você pode simular um maremoto filmando um barquinho de brinquedo sendo atingido por uma onda de tamanho normal.
- Ser possuído por uma Rainha dos Mares do Sul faz você caminhar, olhar e agir como um cyborg - e ainda lhe dá imunidade a tiros.
- Quando centenas de policiais atiram numa mulher que usa uma jaqueta de couro e um tomara-que-caia, nenhum tiro atinge o peito da moça, apenas as laterais da jaqueta.
- Delegacias de polícia contam com metralhadoras M-16 como armamento comum.



- Um policial à paisana pode levar sua própria M-16 no banco de trás do seu carro. Carregada.
- Se tiros não fazem qualquer mal a uma criatura indestrutível, continue atirando.
- Se tiros pelo corpo não derrubarem um velho oriental sábio, mire seu saco.
- Mesmo sendo moda nos anos 80, o cabelo estilo mullet era e ainda é ridículo.
- Tendo os amigos certos, você pode conseguir facilmente tanques, helicópteros e bazucas quando necessário.
- O olho humano é redondo e branco igual a uma bola de pingue-pongue. E, quando arrancado para fora do crânio, pode ser recolocado e funcionará perfeitamente, mesmo que não esteja mais ligado pelos nervos.



- Se você for possuído por uma Rainha dos Mares do Sul e pegar fogo, poderá soltar raio laser pelos olhos!
- Um helicóptero que explode no ar continua no ar, em chamas (principalmente se for um helicóptero de brinquedo pendurado por um fio, como no filme).



OUTROS FILMES BIZARROS DA INDONÉSIA


Você sabia que a Indonésia tinha uma indústria de cinema riquíssima, que lançava vários filmes de todos os gêneros (e orçamentos) por ano? Assim como era a Turquia, e assim como é até hoje a Índia (o país que mais faz filmes no mundo). Agora pense: quantos filmes indonésios, turcos e indianos você já viu na vida? Provavelmente, o número não deve encher duas mãos! É triste, mas é verdade: nosso mercado nacional não se importa muito com produções, digamos, alternativas, vindas destes países mais desconhecidos para a nossa cultura ocidental. Mas que eles existem, existem. Se você leu este artigo e achou LADY TERMINATOR bizarro, saiba que existe mais, muito mais na Indonésia. São obras difíceis de encontrar até mesmo em programas de download de filmes, mas pelo menos assim você sabe que elas existem. Confira cinco exemplos do cinema bizarro feito na Indonésia:

o PRIMITIF (Primitives, 1978)
Direção: Sisworo Gautama Putra
"Capturados pelos selvagens devoradores de carne humana!", dizia, em letras garrafais, o cartaz de PRIMITIF, a contribuição indonésia para o popular subgênero italiano de filmes sangrentos sobre canibalismo (ironicamente, saiu antes de CANNIBAL HOLOCAUST e CANNIBAL FEROX, dois títulos conhecidos feitos na Itália). Embora o filme tenha sido rodado na própria Indonésia, a história se passa na África (!!!), onde um grupo de estudantes de antropologia está fazendo uma pesquisa. No início, os créditos avisam: "Esta é uma história real". Até parece... Como selva é selva, os personagens tomam o caminho errado e batem de frente com uma tribo canibal, começando a maratona de torturas e matanças. O elenco é encabeçado por Barry Prima, que, na década de 80, se tornaria o maior astro de cinema da Indonésia. Mas se os filmes italianos sobre canibalismo já eram pobres em matéria de produção, imagine esse, feito com ainda menos recursos... Mesmo assim, está carregado de cenas bastante sangrentas e nojentas, exibidas através de efeitos bagaceiros. Clique aqui para ler a crítica sobre PRIMITIF na Boca do Inferno.

o SPECIAL SILENCERS (idem, 1979)
Direção: Arizal
Mais uma prova de que os roteiristas e diretores de filmes da Indonésia tomavam doses cavalares de LSD antes de iniciar um projeto: SPECIAL SILENCERS é uma lenda viva no universo trash, uma mistura grotesca de ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO com filmes de kung-fu. Barry Prima (olha o astro aí de novo) é Hendra, um forasteiro da cidade grande que vai parar numa pequena vila assombrada por mortes misteriosas. Ali, monges ingerem uma misteriosa pílula vermelha para meditação. Se você não for um monge treinado, entretanto, a pílula cresce como uma árvore no seu estômago e um monstrinho parecido com um dragão em papel machê sai pela barriga, numa explosão de tripas e sangue. Paralelamente às explosões estomacais chupadas de ALIEN, mocinhos e bandidos passam o tempo inteiro lutando kung-fu. Os efeitos especiais são o suprassumo do bagaceiro: corpos falsérrimos, feitos de madeira e espuma, são "encaixados" sobre a cabeça verdadeira dos atores para simular os monstrinhos saindo da barriga da galera!!!

o PENGABDI SETAN (Satan's Slaves, 1982)
Direção: Sisworo Gautama Putra
As informações sobre o ano de lançamento deste filme variam de 1980, 1982 a 1987, conforme a fonte. Mas sabe-se que é uma versão pirata de FANTASMA, feito em 1979 pelo americano Don Coscarelli. Também é considerado um dos melhores e mais assustadores filmes de horror vindos da Indonésia. A trama é sobre um agente funerário (versão indonésia do Tall Man de FANTASMA) que traz os mortos recentes de um cemitério de volta à vida, para aterrorizarem seus familiares. A história enfoca o pânico de uma garota que perdeu o namorado num acidente de moto e passa a ser assombrada pelo falecido, que volta com a cabeça rachada (do acidente) e enormes presas vampirescas. SATAN'S SLAVES acabou relacionado em várias listas de filmes de zumbis do período, graças à boa maquiagem dos mortos-vivos - inclusive com carne apodrecida e a meleca saindo dos ferimentos no corpo dos zumbis. Do mesmo diretor de PRIMITIF.

o VÍTIMAS DA GUERRA (Kamp Tawanan Wanita/War Victims, 1983)
Direção: Jopi Burnama
Ao lado de LADY TERMINATOR, um raro exemplo de filme da Indonésia que acabou lançado no Brasil, com o nome VÍTIMAS DA GUERRA (mas dificílimo de encontrar nas locadoras). Trata-se de um exploitation movie do tipo "mulheres na prisão", com um fundo militar e crítico, pois tenta enfocar a Segunda Guerra Mundial sob a perspectiva dos prisioneiros da Indonésia - que teriam sido torturados e mortos pelo exército japonês. Os japas, claro, são mostrados como bastardos sádicos, que passam o filme todo torturando as pobres moças ou alisando eroticamente o cano de seus revólveres. Até que as prisioneiras cansam dos abusos e resolvem fugir do campo. Menos lesbianismo e nudez (freqüentes neste tipo de filme), e mais sadismo e violência. A história inclusive começa com a heroína, uma guerrilheira chamada Armilia, que está grávida, sendo colocada para cavalgar uma mula ao redor do campo - e, conseqüentemente, abortando o filho ainda não-nascido. Para quem gosta do gênero, uma interessante perspectiva, pouquíssimo explorada, sobre a Segunda Guerra.

o SI BUTA IAWAN JAKA SEMBUNG (The Warrior and the Blind Swordsman, 1983)
Direção: Worod Suma
Você não leu errado: este é um filme sobre um espadachim cego chamado Si Buta. Uma bruxa, Maki, se apaixona por ele, mas Si Buta não quer saber - mesmo com a diaba oferecendo-lhe a vida eterna por uma noite de sexo. Revoltada por ter tomado um fora, Maki conjura as forças do mal e se alia a um grupo de amazonas (todas de biquíni de couro) para lutar contra Si Buta. Só que o herói pode ser cego, mas não burro, então pede ajuda para "O Guerreiro", Jaka Sembung (interpretado por, de novo, Barry Prima). No clima malucão dos filmes da Indonésia, essa é uma aventura de artes marciais, explorando um gênero que estava no auge do sucesso no mundo inteiro naquela época. É, na verdade, uma seqüência (de um filme chamado apenas THE WARRIOR), e mistura sexo, violência explícita e delírios inexplicáveis, como uma cabeça decepada de gente que se transforma numa cabeça de cabra (!!!). Seguido por uma terceira e última aventura, chamada THE WARRIOR AND THE NINJA.

Felipe M.Guerra

LADY TERMINATOR(Pembalasan ratu pantai selatan, Indonésia, 1988). 82 minutos.
Direção: H. Tjut Djalil
Roteiro: Karr Kruinowz
Produção: Raam Soraya
Música: Ricky Brothers
Desenho de Produção: J. Yansen
Elenco: Barbara Anne Constable (Tania Wilson/Lady Terminator); Christopher J. Hart (Max McNeil); Claudia Angelique Rademaker (Erica); Joseph P. McGlynn; Adam Stardust; Ikang Fawzi




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