LARANJA MECÂNICA

por Jorge Ghiorzi

"Uma Fábula Sempre Atual”.

Rodado em Londres no ano de 1970 e lançado mundialmente no ano seguinte, “Laranja Mecânica” virou alvo da censura na época e foi proibido no Brasil. Por quase toda a década de 70 os brasileiros só ouviam falar daquele polêmico filme realizado por Stanley Kubrick após a ópera-prima “2001 – Uma Odisséia no Espaço”. Durante anos a única referência ao filme era sua inovadora trilha sonora que misturava experiências eletrônicas do compositor Walter Carlos (antes de virar Wendy Carlos) com as composições de Beethoven. O filme só foi liberado para exibição no Brasil em 1978 em cópias onde foram incluídas “bolinhas pretas” sobre as genitálias dos corpos nus. A anacrônica censura da época achava mais importante esconder a nudez do que expor as platéias à violência exacerbada que o filme mostrava de maneira até então nunca vista em uma produção mainstrean.
Hoje as “bolinhas pretas” não passam de curiosidade e mico histórico ao qual os brasileiros foram submetidos. No entanto, o mesmo não se pode dizer da violência urbana que “Laranja Mecânica” retrata e que de certa forma antecipava para o futuro. A recente revolta dos jovens nos subúrbios de Paris é apenas mais um episódio que confirma o quanto o livro de Anthony Burgess e o filme de Stanley Kubrick estavam à frente de seu tempo.
Laranja Mecânica” expõe duas formas distintas de violência, cada qual com suas origens e conseqüências. Existe a violência do indivíduo, ancestral e intrínseca no ser humano quando não reprimida pela convivência social, e existe a violência do Estado, institucionalizada, amparada pela Lei e justificada pela manutenção do status quo e controle do coletivo. O filme de Kubrick trata destas duas formas dedicando a cada uma delas metade do filme.

Na primeira parte conhecemos o jovem Alex (Malcolm McDowell) o anti-herói que conduzirá a ação. Numa sociedade de futuro incerto as leis já não fazem muito efeito e a desagregação social parece chegar a seu limite. É nesse ambiente que Alex leva uma vida despreocupada onde seus únicos prazeres são encher a cara de “moloko”, uma espécie de leite aditivado com drogas, fazer arruaças com os amigos e ouvir músicas de Beethoven, a quem chama de “Ludwig Van”.

A segunda parte inicia quando Alex é detido pela polícia e conduzido para uma instituição penal. Com a perspectiva de ganhar a liberdade, Alex se submete voluntariamente a um tratamento experimental que promete reabilitar delinquêntes eliminando seu instinto natural para a violência. Ministrado por psicólogos a serviço do Estado, o tratamento consiste em expor o criminoso a sessões contínuas de cenas chocantes de violência explícita ao som da 9ª Sinfonia de Beethoven! Depois desta lavagem cerebral o pobre Alex é transformado numa pessoa totalmente indefesa que reage com náuseas e ânsia de vômito a qualquer manifestação de violência. Vira uma “laranja mecânica”, um ser orgânico que age mecanicamente. Redimido, Alex retorna para a sociedade e vive como um paria renegado pela própria família, vingado por vítimas do passado e humilhado por seus antigos companheiros de delinqüência.
A possibilidade do livre arbítrio é um ponto de discussão que Kubrick expõe com clareza em “Laranja Mecânica”. No processo de controle da criminalidade o Sistema impõe uma solução que transforma o indivíduo num ser robotizado, um sujeito sem a opção da escolha. E no dizer do religioso que acompanha Alex na prisão “se o homem não pode escolher, deixa de ser um homem”. Condicionado e sem opções de comportamento só resta a Alex o papel de inocente útil, manipulado por interesses políticos que o transformam em exemplo bem sucedido de reabilitação.

Repleto de ironia e sarcasmo, a adaptação de Stanley Kubrick do livro de Anthony Burgess é fiel. A essência da obra original está em diálogos quase literais e na utilização de neologismos como “vidiar” (ver), “entra-e-sai” (sexo), “guliver” (cabeça) e “horrorshow” (espetacular) que denunciam a origem literária. Mas Kubrick, um mestre com pleno domínio sobre as técnicas e segredos de filmagem, fez uso de inúmeros recursos para valorizar o rico material que tinha nas mãos. Sua reconhecida habilidade em utilizar músicas clássicas nas trilhas sonoras foi mais uma vez exercida com talento em “Laranja Mecânica”. O mesmo se pode dizer de seu talento em criar seqüências climáticas, seja pelo uso da câmera de mão, seja pela cenografia elaborada, repleta de referências artísticas e pictóricas. Em todos seus trabalhos o realizador sempre deixou bem claro que reconhece o poder da imagem e seus significados, e a manipula com maestria.
Todos os elementos cinematográficos de “Laranja Mecânica” parecem hipnóticos e exagerados. Figurinos, cenografia, interpretações, música, tudo parece transmitir uma explosão sensorial de cores, sons e ritmos, como se a visão do mundo fosse resultado de algumas doses de “moloko”. Nada mais correto se levarmos em conta que o “humilde narrador” da história é o próprio Alex, presente em 100% das cenas. É através de seus olhos e de sua percepção que somos introduzidos naquela realidade distorcida. O cinismo e a hipocrisia denunciam a personalidade egoísta do narrador que constrói o mundo de acordo com suas convicções e conveniências. Quando Alex percebe que se transformou em “objeto” cobiçado por facções políticas rivais assume sem escrúpulos o discurso dos poderosos. O povo quer ouvir mentiras com aparência de verdades, então Alex declara em alto e bom som: “Sim, estou curado”. Acredite quem quiser.

Se no início do filme Alex era o algoz da sociedade, adepto da ultraviolência inconseqüente, ao final se apresenta como uma vítima do Sistema, apenas mais uma peça da engrenagem da máquina de moer pessoas. Seu refúgio de sanidade ficava num cantinho intocado de sua mente, capaz de fantasiar e imaginar uma sessão de sexo selvagem cercado por uma platéia que o aplaude ao mesmo tempo em que é bajulado pela imprensa e políticos em seu leito hospitalar. Alex aprendeu o jogo da mídia que se apodera da imagem e transforma a fantasia em realidade e a realidade em fantasia.
É bastante comum a constatação de que a adaptação cinematográfica de livros sempre deixa a desejar. Normalmente o livro é sempre melhor. Definitivamente este não é o caso de “Laranja Mecânica”. O original de Anthony Burgess já era uma obra respeitável, no entanto, nas mãos de Stanley Kubrick (que fazia seu primeiro roteiro solo) o material ganhou uma dimensão superior. Seu talento em sustentar visualmente uma narrativa está todo lá, em cada cena, em cada seqüência. Em “Laranja Mecânica”, o filme, Kubrick foi além de “Laranja Mecânica”, o livro. Ampliou o universo de Burgess e concebeu uma fábula provocante, assustadora e visionária que mantém sua força insuperável até hoje.


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Por Marcos T. R. Almeida

"Loucura é achar que podemos viver num mundo sem violência" - Stanley Kubrick

Laranja Mecânica foi mais uma destas geniais obras literárias que acabaram definitivamente assegurando imortalidade nas telas do cinema, e foi o grande Anthony Burgess o escritor do homônimo livro que mais tarde ganhou forte popularidade ao ser projetado como filme pelo diretor de cinema Stanley Kubrick, que morreu no dia 7 de março de 1999. Mas sua morte como a morte de todo aquele que cria e trabalha com arte seja esta qual for, não canta a sua miserável vitória porque foi a arte quem foi a vencedora! E aqui se fez valer aquela frase do poeta Augusto dos Anjos, Oh! Morte, contra a arte, em vão teu ódio exercês!, ou aquela outra do sábio Leonardo da Vinci, Tudo morre no homem, menos na sua arte...

Stanley Kubrick morreu, mas seus trabalhos como diretor de cinema, sua visão criadora e dinâmica ultrapassou sua própria essência, e esta brilha cada vez mais e daqui para frente com maior intensidade rumo ao infinito.
E as novas gerações irão futuramente deparar-se com alguns de seus filmes e exclamar: "Genial! Magnífico! Impressionante de se ver!"

Laranja Mecânica é hoje muito mais que uma obra literária graças à Stanley Kubrick, mas Laranja Mecânica é também muito mais que um filme, é um cult graças aos punks e skinheads dos anos 70, que transformaram quase todas aquelas imagens de ultra violência em realidade...
O filme foi lançado em 1971, mas logo após seu lançamento, foi expressamente proibido devido não só às impressionantes cenas de ultra violência e estupro, mas também pela forte ideologia política que o mesmo continha, e nesta época era classificado como um "filme de forte influência para alguns jovens", e isto era muito perigoso... E realmente foi!

Imediatamente os primeiros grupos de jovens que conseguiram assistir ao filme passaram a espelhar-se naquelas cenas e transportá-las para a vida real, que em nenhum momento era menos real que o filme!
Os subúrbios de Londres, repletos de skinheads e punks, tomaram o filme como culto sagrado. E aquela espécie de "moda" bootboy com elegância podia ser vista em muitos pontos onde eles encontravam-se. Os skinheads podiam então serem vistos trajando roupas brancas e botas pretas e o chapéu-coco, pondo em prática o "Horror Show" em alguns locais lembrando porém que neste caso se trata de uma ramificação do skinhead no estilo "droogs" do filme e não o movimento como um todo. Diria que algumas gangues skins eram mais familiares a este tipo de atitude que as outras, coisas dos anos 70...

Mas se o filme Laranja Mecânica foi proibido, como foi que aqueles jovens foram tão fortemente influenciados pela obra? Acontece que foram tiradas cópias piratas desta obra, ainda que de péssima qualidade e estas eram então muito bem apreciadas. Mas se analisarmos hoje este filme, veremos que aquelas atitudes daqueles "droogs" das cenas, são normais em comparação com as chacinas e os crimes que todos os dias banham o subúrbio com mar de sangue, e aqui trata-se de realidade do dia-a-dia de todos nós. É ver a vida...

A estrela principal do filme foi muito bem escolhida, e o talento para "papel de mal e perverso" foi dado ao ator Malcolm McDowell, aquele que nasceu para reencarnar das cinzas do grandioso império romano. O grande imperador Calígula das telas do cinema. Isto mesmo: Calígula! O mesmo ator! Porém, em Laranja Mecânica, Malcolm McDowell faz o papel de um líder "droog" de nome Alex The Large.
Seu visual "droog" consiste numa maquiagem no rosto, roupas brancas, blusa e calças, coturnos de cor preta, bengala estilete, chapéu côco, estilo Charles Chaplin. Alto e bem encorpado, ele é bom de briga e chegado em estuprar mulheres. Mas esta figura possui um lado nobre, vejam os senhores, ele gosta de música clássica! Em especial o grande Luduvig Van Beethoven, que aliás é a trilha sonora do filme inteiro. E sobre o ritmo de sinfonias clássicas rolam as principais cenas do filme. Os seus companheiros também possuem o mesmo visual agressivo e tem quase as mesmas atitudes, costumam beber copos de leite misturados com alguma coisa numa cantiva exótica, onde as mesas e cadeiras tem formato de mulheres nuas.



Não vou ficar descrevendo todas as excelentes cenas do filme ou contar o filme todo. Mas em poucas palavras, Alex mata uma mulher, vai preso, e lá na cadeia ele opta por um novo tratamento psicológico contra o impulso da violência em todas as suas faces. Ele é então levado a um sanatório especial onde é obrigado a ver vários filmes de ultra violência, sobre o efeito de uma droga que é nele injetada. Seus olhos ficam adaptados a um bizarro aparelho que os prende e os mantém abertos, mesmo contra a vontade. Então ele, após todos os exames, passa a se regenerar e sentir náuseas e vômitos seguidos de dor, toda vez que voltar a praticar ou sequer pensar em praticar atos de violência e estupro.

O filme é extenso, cerca de 138 minutos de duração, e é inútil descrever seus detalhes de modo que encheria linhas sobre linhas e não conseguiria atingir completamente os detalhes e a grandeza da obra, é necessário ver! Assistir o filme para perceber o universo estranho de beleza e emoção seguido de um "certo terror", sim porque não dá um "certo terror" ver uma cena de violência explícita?

O filme Laranja Mecânica é muito bem conceituado no mundo underground e a influência passou para a música, que espelhando na filosofia e no visual do filme, criou um ritmo excelente de se ouvir!

Surgiram bandas, a maioria de skinheads, com nomes como Blitz, The Oppressed, The Warriors, Last Resort, entre outras. Mas a mais popular, cultuada inclusive pelos punks, foi a banda The Adictis, que radicalmente se vestem como os "droogs" do filme.

Claramente podemos ver como a obra de Anthony Burgess criou mais vigor e poder através do prisma cinematográfico de Stanley Kubrick e daí passou para as ruas, encarnou nas gangues dos anos 70, influenciou bandas de punk rock e skinheads, etc...

Existe ainda o lado "político ideológico" do filme, mas prefiro falar do lado mais rueiro pois este está muito mais perto de nós que o outro.

Muito bem, vamos assistir Laranja Mecânica que a gente ganha muito mais vendo uma imagem de cinema do que só ouvindo falar nela...


Delinqüência, Violência e Controle Social
um Clássico de Stanley Kubrick


Por Orivaldo Leme Biagi

Grupos de jovens delinqüentes que roubam, brigam, estupram... e, depois de apanhados e reabilitados, sofrem violência da mesma sociedade que os reabilitou! Estamos falando da década de 50? Da geração Punk? Da geração do Rap ou do Funk carioca? Do ano de 2050? De todas as gerações? Estamos falando do filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), clássico do polêmico diretor Stanley Kubrick.

O escritor britânico Anthony Burgess escreveu o livro Laranja Mecânica no começo da década de 60 como uma referência a um hipotético futuro cheio de violência, tanto por parte dos criminosos (representados pelas gangues juvenis) quanto da sociedade. O personagem principal é o jovem Alex, líder de um bando de delinqüentes que agride um pobre mendigo, briga com outro grupo de delinqüentes, invade uma casa afastada e, além de roubá-la, agride violentamente seu dono, um escritor, e estupra sua esposa – uma costumeira noite de ação deste bando. O detalhe interessante é que Alex gosta de ser um delinqüente – ele não precisa do crime para viver, morando num lar confortável junto de seus pais. Ele, inclusive, gosta apaixonadamente de música, em particular a do compositor Ludwig van Beethoven.



Quando seu bando resolve mudar de caminhos (procurando uma maior organização para vender os produtos dos roubos e furtos), Alex sente que sua liderança está ameaçada (ele quer que tudo continue como está, ou seja, diversão sem responsabilidade), reconquistando-a através da violência – ele ataca seu bando e retoma sua liderança, ou acredita nisto. Seguindo o plano do grupo antes de seu ataque ao mesmo, Alex invade uma casa para assaltá-la, mata a moradora e é traído pelo bando (uma garrafa é quebrada na sua cabeça na saída da casa). Alex é preso, agredido na delegacia e, depois, condenado a 14 anos de prisão por homicídio. A organização rigorosa da cadeia (seu número de identificação é 6655321 e ele tem de decorá-lo) não muda o jovem Alex, que continua desejando violência intimamente, apesar de ajudar o trabalho religioso da penitenciária.

Alex consegue entrar num tratamento médico revolucionário para combater a criminalidade e conquistar rapidamente sua liberdade. O tratamento consiste em injetar uma droga no paciente para que ele sinta-se mal perante situações de violência e sexo – imagens violentas e sexuais são mostradas a Alex, que tem seu corpo preso, além de ser colocado garras nos seus olhos, para que estes mantenham-se abertos e ele tenha de assistir aos filmes. O tratamento dá resultado: Alex começa a se sentir mal perante as cenas de violência e sexo, inclusive quando escuta sua música predileta, a Nona Sinfonia de Beethoven. “Curado”, Alex é libertado, dando início a uma nova fase de horror na sua vida.

Seus pais o rejeitam, preferindo ficar com o rapaz que alugou seu quarto. O mendigo agredido o reconhece e, junto com outros mendigos, o agridem violentamente. Dois guardas interrompem o espancamento e, para desespero de Alex, estes eram de seu ex-bando, que o levam para uma área deserta e o espancam. Todas as suas tentativas de reação foram anuladas pelo tratamento que sofreu, pois ele fica indefeso perante situações de violência.

Machucado, perdido e na chuva, Alex vai até uma casa pedir ajuda, a mesma casa do escritor que ele espancou (tendo ficado aleijado por causa da agressão) e da mulher que estuprou – descobrindo que, por causa do estupro, a mesma morreu de desgosto. Logo reconhecido pelo escritor, ele é dopado e trancado num quarto ao som da Nona Sinfonia de Beethoven. Alex, sentindo-se muito mal, tenta o suicídio pulando da janela. Mas ele sobrevive.

O “fracasso” da sua “cura” ameaça o governo eleitoralmente. Assim, Alex recebe um tratamento de primeira no hospital, sendo retirado do seu cérebro aquilo que restringia seus atos – e ele volta a ter prazer com violência e sexo. Alex receberia um emprego com ótimo salário, desde que colaborasse com o governo – o que ele faz com prazer. O livro termina com Alex em dúvida sobre seus desejos de violência e liberdade, após encontrar seu ex-colega de bando casado e responsável. A idade chegou para Alex, assim como a necessidade de responsabilidade.



O polêmico livro de Burgess já tinha recebido várias propostas para tornar-se filme, inclusive do empresário dos Rolling Stones, Andrew Loog Oldham – mas a censura inglesa nem cogitou a idéia de que fosse possível fazer este filme com os “filhos mais sujos da Inglaterra” dos anos 60. Mas a idéia de bando de delinqüentes foi adotada pelos Stones – e por Oldham, como podemos perceber num texto da jaqueta do álbum The Rolling Stones, Now!:

“É uma noite de verão e toda Londres dorme, a não ser doze olhos arregalados de seis esfarrapados que vagueiam pela rua...
Aqui está o novo disco dos Stones. Revire os bolsos para comprar este disco atraente e de mensagens interessantes. Se você não tem grana, procure um homem cego – dê um soco na cabeça dele, roube a maleta dele, abaixe-se e guarde o dinheiro na bota. Muito bem. Outro disco vendido!”

As autoridades inglesas exigiram que este texto fosse retirado – muitos jovens estavam espancando cegos para roubar-lhes o dinheiro.

Assim, o livro de Burgess foi sendo deixado de lado para o cinema até cair nas mãos de Stanley Kubrick no começo dos anos 70. O diretor estava na sua melhor fase, tendo feito o clássico da ficção científica 2001: uma Odisséia no Espaço (2001: a Space Odissey, 1968), enorme sucesso de crítica e público. Com todo este sucesso, as portas para Kubrick transformar a obra de Burgess em filme foram abertas.

O filme caracteriza-se por apresentar imagens belíssimas, mesmo em cenas violentas (a montagem aproveitou-se magnificamente das músicas de Beethoven, Edward Elgar e Gioacchino Rossini, quase que transformando a violência em danças coreografadas – sem contar com o uso criativo do sintetizador pelo músico Walter Carlos, que, com o sucesso da trilha sonora do filme, pagaria sua operação de mudança de sexo e, depois, seria conhecido, aliás, conhecida como Wendy Carlos), além de uma interpretação magistral de Malcolm McDowell como o jovem Alex – papel, aliás, que marcaria McDowell para sempre.
O filme discute, essencialmente, a liberdade de escolha do indivíduo e, logicamente, a repressão social. Não existem mocinhos e bandidos no filme: Alex é intencionalmente mal e a sociedade é estruturalmente mal. Nem a questão da idade, assunto que fecha o livro de Burgess, como vimos, é tratada no filme (nota: o termo clockwork orange foi extraído de uma gíria cockney, grupo de jovens perigosos e pobres de Londres, significando uma pessoa desajustada, agressiva e desequilibrada, que agride por prazer e sem razões ideológicas ou políticas – a gíria e o estilo de falar cockney seriam utilizados por vários grupos de rock que surgiram no período, como os Kinks e o Small Faces, e muitos críticos veriam o filme com antecipação do Glitter Rock (David Bowie usou elementos da imagem de Alex para compor o seu personagem Ziggy Stardust) e do Punk do final dos anos 70).

Assim, o filme não apresenta uma linha de argumentação: cada um pode tirar suas próprias conclusões. Mas a violência em excesso e o sexo do filme chocaram o público e a crítica, que dividiu-se em chamar o filme de Kubrick de obra-prima ou de oportunista.



Burgess, no final da sua vida, lamentaria ter escrito Laranja Mecânica, pois a obra teria estimulado a criação de bandos de delinqüentes tão comum no final dos anos 70 em diante. O autor estava errado: as gangues existiram, com ou sem o livro. Mas a temática principal de seu livro e do filme, o livre-arbítrio, sempre será um tema relevante para a humanidade.

Orivaldo Leme Biagi, Doutor em História pela UNICAMP, Professor das Faculdades Atibaia (FAAT) e Membro da Academia Literária Atibaiense (ALA).

LARANJA MECÂNICA (A Clockwork Orange, Inglaterra, 1971). Duração: 138 Minutos
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, a partir de um romance de Anthony Burgess
Produção: Stanley Kubrick
Produção Executiva: Si Litvinoff e Max L. Raab
Música: Wendy Carlos e Rachel Elkind
Fotografia: John Alcott
Edição: Bill Butler
Direção de Arte: Russell Hagg e Peter Sheilds
Desenhos de Produção: John Barry
Figurino: Milena Canonero
Maquiagem: Barbara Daly; Leonard; George Partleton; Freddie Williamson; Olga Angelinetta
Elenco: Malcolm McDowell (Alexander 'Alex' de Large); Patrick Magee (Mr. Alexander); Michael Bates; Warren Clarke (Dim); John Clive; Adrienne Corri (Mrs. Alexander); Carl Duering (Dr. Brodsky); Paul Farrell (Tramp); Clive Francis (Lodger); Michael Gover; Miriam Karlin; James Marcus (Georgie); Aubrey Morris (Mr. P. R. Deltoid); Godfrey Quigley; Sheila Raynor; Madge Ryan; John Savident; Anthony Sharp; Philip Stone; Pauline Taylor


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