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As 'últimas casas' sempre deram trabalho para as vitimas dos filmes de terror, seja na Rua Inferno (LAST HOUSE ON HELL STREET, 2002), na beira do parque (HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK, de Ruggero Deodato, 1980), na praia (THE LAST HOUSE ON THE BEACH, de Franco Prosperi, 1978) ou perto do lago (THE LAST HOUSE NEAR THE LAKE, de Enzo Castellari, 1979) são todos locais a serem evitados.
Claro que tudo começou com "A última casa a esquerda" - THE LAST HOUSE ON THE LEFT ou ANIVERSÁRIO MACABRO, de 1972 - e como de praxe no mundo onde a exploração do sucesso de um é capitalização certa muitos vieram em seguida, a maioria sem a menor relação com o filme de origem, tal como a série Zombie ou as inúmeras produções com o título Massacre que vemos por aí. |
Porém se nenhum destes consiste em qualidade com o debut de Wes Craven, existe ao menos uma "casa" que deveria ser visitada por aquele que gosta de bizarrices e violência: é a última casa na rua sem saída ou THE LAST HOUSE IN DEAD END STREET, que não apenas copiou quase o título inteiro, mas também a famosa tag-line "It's only a movie" de seu predecessor mais famoso...Contudo, as semelhanças param por aí.

THE LAST HOUSE IN DEAD END STREET é um filme tão obscuro e cercado de mistério que se tornou mais conhecido no círculo por causa do
"disse que me disse" do que por pessoas que verdadeiramente assistiram e essa reputação que a produção carrega até os dias de hoje.
Pra começar o filme foi produzido e filmado entre os anos de 1972 e 1973, com um orçamento absurdo de aproximadamente mil e quinhentos dólares, contudo não pôde ser lançado na época, pois uma das atrizes acionou judicialmente os
"envolvidos" pelo uso de cenas a qual considerou de mau gosto, fazendo com que
DEAD END STREET ficou sem ver a luz do dia até 1977.


O termo
"envolvidos" está entre aspas por outro motivo: pouco se sabia dos que estavam envolvidos com tamanha barbaridade, porque os créditos eram escondidos por pseudônimos, a maioria sumiu do cinema e ninguém assumiu ter comandado o filme. Tudo isso se seguiu até o ano de 2000, quando Roger Michael Watkins, que faz o papel principal, não apenas confirmou que era o diretor, mas também o roteirista, o produtor e o cinematógrafo.
E tem mais uma, na cabeça do diretor Watkins a produção era chamada
"The Cuckoo Clocks of Hell" e contava à sua maneira a saga dos assassinatos da família Manson. Dizer que se tratava de uma saga não é exagero porque a primeira edição possuía 175 minutos! Pensando no mercado internacional, uma primeira
"limpeza" aconteceu para uma apresentação em Cannes (que nunca ocorreu) deixando com pouco mais de duas horas. Até que enfim foi picotado pela distribuidora para caber em 78 minutos que é a versão de cinema
"sem cortes" que conhecemos, todavia devido ao grau de violência existem versões significativamente menores como a australiana de 74 minutos.


Só que, acredite, apesar do tamanho pequeno, os 78 minutos de
DEAD END STREET é mais sangrento do que os fãs de
O ALBERGUE podem suportar, tanto pela veracidade amadora da produção quanto pelo clima opressor e a brutalidade gratuita das cenas.
A história é simplista até demais e difícil de acompanhar na primeira metade do filme. Basicamente acompanhamos Terrence Hawkins (Watkins), recém saído da cadeia, que, considerando a sociedade culpada por seus males, decide se vingar, iniciando seu plano de
"fazer alguns filmes realmente estranhos".


Inicia conversando com o produtor Ken Fisher (que também se chama Ken Fisher) para arrumar uma câmera e fazer pornografia caseira para ganhar uns trocos. Ken revela que trabalhou num matadouro que não serve para nada além de render algumas cenas baratas de vacas sendo mortas num matadouro real.


Mas voltando a trama, Ken orienta Terry para procurar o casal Palmer, Jim (Edward E. Pixley) e Nancy (Nancy Vrooman), para estrelar, e Steve Boley (Steve Sweet) para patrocinar as filmagens. Todavia, Terrence procura Bill Drexel (Bill Schlageter) primeiro e o convence a ser seu operador de câmera bem como recruta alguns amigos degenerados para trabalhar em seu projeto.


Enquanto isso Nancy recebe umas chicotadas numa festa de magnatas pervertidos (não me pergunte o sentido) e Jim mostra para Steve algumas de suas filmagens, só que Steve acha todas uma porcaria e pede inovação.


Terrence mostra seu material gravado para o casal Palmer e para Boley contendo um homem sendo estrangulado e é elogiado pela realidade da produção. Claro que era um snuff autêntico, porém o diretor fica muito puto, pois Steve e Jim o tiraram dos créditos e ficaram com toda a grana dos “ricos perversos cansados de pornografia” para eles mesmos. Terry pede então um encontro com Steve a fim de discutir os negócios num lugar pré-estabelecido.


E é isso, exatamente aos 40 minutos de projeção, quando o produtor finalmente entra pela porta da
"última casa da rua sem saída" esqueçam o roteiro e preparem-se para uma série das mais chocantes torturas e cenas bizarras que se pode assistir em celulóide, causando tanto repulsa quanto o genuíno medo. Precisa ser nazista ou muito masoquista para não se incomodar com estas cenas, porque é um filme que te prende pelo estômago de uma maneira absurda.


Claro que é de causar estranheza de quem assiste pela primeira vez que, para um filme de terror com a reputação que
DEAD END STREET tem, a primeira metade é bastante arrastada, monótona e sem graça. É verdade, mas isso pode causar o efeito inverso já que o espectador fica tão aborrecido e
"amaciado" que não está preparado para incessante e intensa violência que fica mais assustadora por causa da pouca iluminação e o aspecto granulado das câmeras de 16mm. De fato se eu fosse fazer um comparativo as cenas de morte deste filme com
SNUFF, por exemplo, que tem fama e polêmica semelhantes, eu ficaria com
DEAD END STREET, pela atmosfera, o profissionalismo e qualidade técnica de Roger Michael Watkins - o que para um filme com mais de 35 anos é um mérito inquestionável.


A trilha sonora merece um destaque a parte principalmente no início e no final, os cantos assustadoramente angelicais, alguns efeitos eficientes no sintetizador e muitas vezes ouvimos apenas as batidas de um coração, tão altas que poderiam ser as nossas quando o banho de sangue começa.


Claro que se é tão problemático assim, o filme não poderia passar sem causar polêmica e aconteceu lá no Reino Unido, só que não para ele, mas para um filme de
Tobe Hooper. O que ocorreu foi que na Inglaterra:
THE LAST HOUSE IN DEAD END STREET foi lançado com o título alternativo
"Funhouse" e com o escândalo dos
Vídeo Nasties (que baniu dezenas de produções das prateleiras das locadoras) o filme banido por engano foi
THE FUNHOUSE, de Hooper (
PAGUE PARA ENTRAR, REZE PARA SAIR, no Brasil) enquanto
DEAD END STREET ficou intacto a princípio. Vai entender esses censores...


Das grandes falhas podem se citar principalmente a dublagem das falas de todos os personagens tal como toda a parte sonora em mono do filme; o formato fullscreen também não é muito atraente e, obviamente, pessoas não acostumadas a produções setentistas de baixo orçamento para drive-ins encontrarão mais outro punhado de motivos inerentes a quase todos estes filmes como orçamento, qualidade de imagem, amadorismo do elenco, entre outros.


Como se trata de uma película que nunca foi lançada no Brasil (e fico infeliz em admitir que nunca será) o jeito é recorrer aos métodos tecnológicos ou comprar o DVD importado que contém comentários em áudio, documentários, curtas de Roger Michael Watkins e outras coisinhas mais. De qualquer maneira, ao ver a versão sem cortes, não estranhe a transferência pobre e que algumas cenas sejam extremamente mais castigadas do que outras. Acontece que a única cópia disponível (e talvez existente) em celulóide - comprada por Mitch Davis organizador do
Fantasia Festival - é cortada no gore em algumas partes e, para complementar o material faltando, foi utilizada uma fonte em VHS com qualidade ainda menor.


Para fechar, é a degradação do ser humano com provocações, violência e arte para ser conhecido por muitos e admirado por poucos. Se tiver a oportunidade assista sozinho em um quarto escuro e, se o apavoramento bater, fique repetindo
"É só um filme...é só um filme...". Talvez ajude, mas não será fácil, pois este é um filme como o personagem de Roger Michael Watkins diz:
"You bet your ass this is for real!".

Para contato com Gabriel Paixão:
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THE LAST HOUSE IN DEAD END STREET (The Last House on Dead End Street, EUA, 1973/1977). Duração: 78 minutos.
Direção: Roger Michael Watkins
Roteiro: Roger Michael Watkins
Produção: Roger Michael Watkins
Direção de Arte: Olivia Carnegie
Edição: Roger Michael Watkins
Efeitos Especiais: Kevin Heatley
Maquiagem: Kevin Heatley
Fotografia: Ken Fisher
Elenco: Roger Michael Watkins (Terry Hawkins); Ken Fisher (Ken Fisher); Bill Schlageter (Bill Drexel); Kathy Curtin (Kathy Hughes); Pat Canestro (Patricia Kuhn); Steve Sweet (Steve Randall); Edward E. Pixley (Jim Palmer); Nancy Vrooman (Nancy Palmer); Suzie Neumeyer (Suzie Knowles); Ken Rouse; Alan Cooper; Howard Neilsen; Doreen Ellis; Helene Roberts; Nora Tucker
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