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Recentemente, foi lançado nas locadoras brasileiras um horrendo filme classe Z feito nos Estados Unidos e chamado CAMPO SANGRENTO. Trata-se da milésima incursão de uma equipe de realizadores amadores no campo dos slasher movies - ou seja, aquelas produções onde um assassino, normalmente mascarado, dedica-se a exterminar sistematicamente (e violentamente) vítimas adolescentes, preenchendo a falta de história com mortes sangrentas de cinco em cinco minutos. CAMPO SANGRENTO não foge nem por um segundo da mesmice habitual do gênero, repetindo cada clichê. Porém, tem uma interessante auto-critica na cena em que dois personagens assistem, na TV, a um slasher movie "fake", chamado THE MILK MAN. Um deles vibra e diz que o filme é ótimo, enquanto o outro, fã de cinema, critica e diz o seguinte: "Este filme tem um assassino mal-feito perseguindo adolescentes promíscuos, algumas cenas de |
nudez, algumas garotas... Provavelmente vai faturar uns trocados... Mas e onde está a arte?".
A MALDIÇÃO DO LAGO, um obscuro filme realizado na Suécia (!!!) em 2004, é aquilo que os fãs de cinema (e de horror) vinham pedindo há décadas: é um slasher movie, sim, mas com arte, à moda antiga, justamente aquilo que faltava em THE MILK MAN, CAMPO SANGRENTO e as centenas de slasher movies padronizados lançados anualmente nas últimas duas décadas. O filme europeu conta a mesma historinha de sempre (um assassino mascarado perseguindo e matando jovens), porém o faz de uma forma tão estilizada que mantém a atenção, ainda que todo mundo saiba como a história vai se desenvolver e terminar. É a maior prova de que dá, sim, para tirar algo que preste do subgênero mais batido do cinema de horror.
Há alguns meses, eu escrevi um artigo sobre outra produção do gênero muito divertida e surpreendente, feita na Inglaterra e chamada O FAROL DA MORTE. Apesar de seguir à risca a cartilha slasher, O FAROL DA MORTE tinha um clima sinistro à la Dario Argento e um toque especial do diretor no cenário macabro de um velho farol. Em A MALDIÇÃO DO LAGO, novamente segue-se a cartilha slasher de como fazer um filme de matança, mas o diretor Mikael Häfström está mais interessado em contar uma boa história de fantasmas e mistério do que propriamente assustar o espectador, ou mostrar os detalhes gráficos dos assassinatos - acredite, trata-se de um slasher movie onde praticamente NÃO se vê sangue o tempo todo!!! O resultado é que muita gente não vai embarcar: até o balconista da minha locadora tentou me fazer desistir de levar o filme!


Chamado
STRANDVASKAREN no original (não, eu não faço a menor idéia do que isso significa) e
DROWNING GHOST ("O Fantasma Afogado") nos Estados Unidos,
A MALDIÇÃO DO LAGO é uma aposta arriscada do diretor Häfström. Acontece que este é o primeiro filme que ele realiza imediatamente após ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, pelo seu trabalho anterior, o drama
ONDSKAN ("Evil", nos EUA), de 2003. Ninguém iria imaginar que um diretor indicado ao Oscar iria se sair com um terror adolescente justamente no momento seguinte ao ponto alto de sua carreira. Mas foi o que Häfström fez. O resultado é que esta sua nova produção dividiu opiniões: é amado e odiado com a mesma intensidade.
A história se passa em Hellestad, um internato para jovens riquinhos no interior de Estocolmo, na Suécia. A escola é famosa por uma história de fantasmas acontecida 100 anos antes, no começo do século 20, quando um fazendeiro chamado Erik Skarp esquartejou três estudantes usando uma foice; ao ser perseguido pelas autoridades, atirou-se no fundo de um lago próximo à escola e nunca mais foi visto. As pessoas acreditam que se afogou, mas seu corpo nunca foi encontrado. Assim, surgiu a lenda urbana do
"Fantasma Afogado", dizendo que todo ano, no aniversário do massacre, o fantasma de Skarp aparece para dar uma voltinha pela escola.


Logo no início, descobrimos que a escola está envolvida nas comemorações do seu centenário, que acontecerá no ano seguinte. A intragável reitora Laila (Kerstin Steinbach) propõe um brinde a todos em uma cerimônia pra lá de formal, até que um acontecimento inusitado espalha o pânico na celebração: uma jovem estudante chamada Rebecka (Sasa Bjurling) se atira da torre mais alta do prédio da escola, estatelando-se no piso bem em frente aos seus professores e ex-colegas. Logo nesta introdução, já se percebe a proposta do diretor Häfström de não se render à violência gratuita, pois apesar da queda de uma altura considerável, não vemos um pinguinho de sangue no cadáver estatelado da jovem suicida!
Um ano se passa e, finalmente, a escola se prepara para comemorar seu 100 anos de fundação - e, conseqüentemente, 100 anos da matança dos três estudantes. O professor Thomas (Anders Ekborg) está assessorando a aluna Sara (Rebecka Hense) no seu trabalho de conclusão, que calha de ser justamente a investigação sobre a lenda do fantasma afogado. Em sua busca de detalhes sobre o acontecido de um século atrás, Sara abrirá velhas feridas e descobrirá segredos ocultos nos corredores de Hellestad. Ao mesmo tempo em que chegam à escola dois novos estudantes, Felix (Jesper Salén) e Leo (Peter Eggers), o pai de Rebecka, um psicopata que está preso num manicômio em Estocolmo, aproveita um momento de distração do enfermeiro para atacá-lo e fugir, indo direto a Hellestad. Neste momento, alguns jovens começam a ser atacados, outros desaparecem. Será que o psicopata foragido está por trás de tudo?


Alheia aos desaparecimentos, Sara continua nas suas investigações, auxiliada pela linda amiga Therese (Jenny Ulving). Ao contatar uma neta do lendário Erik Skarp, a estudante descobre que a história de 100 anos atrás pode ter acontecido de forma diferente, e que o fazendeiro só matou os três jovens como vingança por eles terem estuprado e assassinado sua filha pequena. A descoberta deste segredo antigo provoca mal-estar no interior da escola, pois um dos alunos, Mäns (Daniel Larsson), que é ex-namorado de Sara, também é neto de um dos jovens envolvidos no suposto caso centenário de estupro e morte, e seu pai, Peder (Kjell Bergqvist, ator preferido do diretor), é o maior financiador da instituição. Começa então a pressão para que Sara desista do trabalho e da investigação. E, na noite em que os alunos realizam uma festa no celeiro que foi palco do massacre, um assassino mascarado aparece para fazer diversas vítimas.
A MALDIÇÃO DO LAGO privilegia a investigação sobre o quê, afinal, aconteceu em Hellestad um século antes do que os crimes cometidos na modernidade pelo assassino mascarado. Durante todo filme, o espectador se pergunta que relação tem a chacina centenária com os assassinatos recentes e qual o envolvimento da suicida Rebecka na trama - e por que, afinal, ela resolveu tirar a própria vida. A resposta vem quando menos se espera e envolve segredos de infância. Mas há diversas pistas falsas ao longo da trama, como viagens ao México, aborto e chantagem. O interessante é que o próprio espectador pode bancar o detetive! Numa cena, por exemplo, Sara e seus amigos assistem um rolo de filme em oito milímetros encontrado entre as coisas de Rebecka. De repente, Sara percebe algo de estranho em uma das cenas, mas é interrompida; somente no final da história volta-se ao rolo de filme para mostrar o tal
"detalhe estranho". Mas você, em casa, como bom detetive, pode passar estas cenas quadro a quadro e perceber logo o que foi que Sara viu, num detalhe que ajudará a montar o quebra-cabeça para descobrir a identidade do assassino.
E quem será o assassino, por falar nisso? Os dois novos estudantes, Felix e Leo? O professor idealista Thomas? A rigorosa reitora de Hellestad? O psicótico pai de Rebecka, querendo vingança pelo suicídio da filha? Ou alguém disposto a apagar todos os registros da verdade sobre o crime cometido 100 anos antes? Ainda que perto do final a identidade do criminoso fique um pouco evidente - até pela falta de suspeitos, pois a maior parte dos personagens já morreu até então -, o roteiro consegue manter o interesse pela investigação de Sara e a surpresa na revelação da identidade e dos motivos do assassino - eu mesmo tentei chutar duas vezes ao longo da trama e errei. Só que o diretor poderia ter nos poupado de representar o criminoso com uma máscara ridícula, que lembra o
"saco de batata" que Jason usava em
SEXTA-FEIRA 13 PARTE 2. Considerando que o assassino de
A MALDIÇÃO DO LAGO parece ser mais
"sério" que seus colegas dos Estados Unidos, bem que o diretor podia representá-lo sem máscara, optando por focalizar apenas seus pés e mãos, ao invés da pagação de mico de mostrar o sujeito mascarado - coisa que não se encaixa, de jeito nenhum, na história.


Como eu disse no início,
A MALDIÇÃO DO LAGO não é apenas um slasher movie, é também um filme de arte. Quem viu
THRILLER - EN GRYM FILM (um dos filmes que teria inspirado Quentin Tarantino a fazer
KILL BILL) sabe bem do que estou falando. Esta produção também sueca, de 1974, narra a história mais batida possível (a vingança de uma jovem contra as pessoas que abusaram dela), mas marca o espectador pela fotografia inspiradíssima e pelo tratamento de arte que o filme recebeu, inclusive com belíssimas cenas em câmera lenta e ângulos inusitados, quase poéticos.
A MALDIÇÃO DO LAGO também é assim: a câmera nunca pára, buscando sempre os ângulos mais bonitos, e a produção faz excelente uso da sinistra trilha sonora composta por Anders Ehlin, sublinhando momentos marcantes, como o suicídio de Rebecka no início. Alguns momentos chegam a ser poéticos, como o flashback em preto-e-branco que mostra um jovem visitando o túmulo de uma familiar, à noite, durante uma tempestade. Até a retirada de um esqueleto do fundo do lago se transforma num momento bonito, quase lírico dentro do contexto do filme, a despeito da visão de um cadáver totalmente decomposto.
Mas é claro que ao procurar dar este caráter
"artístico" e
"bonito" ao filme, Häfström (também autor do roteiro) foi obrigado a sacrificar o ritmo.O resultado é que
A MALDIÇÃO DO LAGO é um filme lento, que muita gente não vai suportar - principalmente quem está acostumado com a
"técnica Michael Bay de edição de filmes", com cortes de meio segundo e câmera sempre sacudindo ao som de rock-and-roll. Pode esquecer: a produção sueca lembra os slasher movies de antigamente, como
HALLOWEEN, pois os assassinatos só começam lá pelos 50 minutos de projeção. E, mesmo assim, jamais apelam para a violência explícita, embora o assassino use foices, machados e facas para eliminar suas vítimas. Até nas cenas de crime o cineasta consegue momentos de interessante impacto visual, como quando um dos amigos de Sara é atacado pelo psicopata e começa a gritar, ela tapa os ouvidos para não ouvir e a cena, então, fica muda, poupando também o espectador dos gritos de desespero do rapaz que está sendo morto!
Quem é fã de slasher movies vai gostar de saber que
A MALDIÇÃO DO LAGO segue direitinho a cartilha do gênero, principalmente no final, que envolve até a climática perseguição dos últimos sobreviventes dentro de um apertado e escuro túnel; e o roteiro não esquece nem do detalhe do assassino que simplesmente se recusa a morrer, voltando sempre para um último susto, como é tradicional em produções deste estilo. A diferença é que o filme tem alma e inteligência, sem subestimar o espectador, pelo contrário: tenta prendê-lo com uma história minimamente aceitável, ao invés de partir direto para a matança, como fazem a maioria dos filmes americanos.

A distribuidora de
A MALDIÇÃO DO LAGO no Brasil é a obscura Video Filmes, que merece um parabéns e três puxões de orelhas. O parabéns é por ter lançado no Brasil este filme tão desconhecido, do qual eu jamais tinha ouvido falar. Num mercado nacional que privilegia produções famosinhas, é um verdadeiro milagre estarmos vendo um filme obscuro, e sueco, de horror. Então, parabéns a Video Filmes. Agora, chega de puxar saco e vamos para os puxões de orelha. O primeiro diz respeito ao título tosco, ainda mais considerando que não existe nenhuma
"maldição" no lago (apenas o final do filme se passa no tal lago!). Se fosse
A MALDIÇÃO DA ESCOLA, ainda vá lá... Melhor seria usar o título argentino,
O FANTASMA DO LAGO, bem mais condizente, ou o original,
O FANTASMA AFOGADO, que pelo menos mantém uma aura de mistério e criatividade. Se bem que qualquer coisa é melhor do que um
"Pânico na Escola"... Outro puxão de orelha vai para a edição mixuruca, que não tem nem um trailerzinho do filme. Por fim, vale um puxão de orelha mais forte pela frase que a distribuidora usou na capinha:
"Mais um grande sucesso na linha da trilogia PÂNICO!". Arghhh!!! Que heresia!
A MALDIÇÃO DO LAGO vai justamente na contramão destas bobagens auto-paródicas e descerebradas tipo
PÂNICO, por isso a comparação chega a ser um verdadeiro insulto! E volto a questionar: por que será que
PÂNICO se transformou em parâmetro para qualquer filme de horror lançado nos últimos anos???
A MALDIÇÃO DO LAGO é a maior prova de uma coisa que eu sempre preguei: com uma equipe talentosa, é possível extrair água de pedra, ou um bom filme do enredo mais batido. Embora eu prefira a forma como a história começa (a investigação do mistério) do que como ela termina (a matança perpetrada pelo assassino), este é um exemplo de como ainda dá para fazer um slasher movie à antiga, de boa qualidade e com um excelente trabalho de direção. A recepção foi tão boa em festivais de horror realizados nos Estados Unidos que a Dimension Films já comprou os direitos para refilmá-lo (argh!) com elenco americano; só que eles já deixaram bem claro que a nova versão terá mais foco no sobrenatural, com um verdadeiro fantasma no lago, e não um assassino humano. É esperar para ver o que vão aprontar...
Claro, e é uma pena, sempre vai ter aqueles que vão achar o filme muito chato, com poucas mortes, pouca violência e desenvolvimento muito lento. Felizmente, para estes, sempre haverá
FREDDY VERSUS JASON...
Felipe M.Guerra
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A MALDIÇÃO DO LAGO (Drowning Ghost / Strandvaskaren , Suécia, 2004). 100 minutos
Direção: Mikael Hafström
Roteiro: Mikael Hafström; Vasa
Produção: Hans Lönnerheden
Produção Executiva: Kim Magnusson
Música: Anders Ehlin
Fotografia: Peter Mokrosinski
Edição: Darek Hodor
Figurino: Cilla Rörby
Direção de Arte: Gert Wibe
Efeitos Especiais: Johan Harnesk
Elenco: Rebecka Hemse (Sara); Jesper Salén (Felix); Jenny Ulving (Therese); Peter Eggers (Leo); Daniel Larsson (Måns); Rebecca Ferguson (Amanda); Anders Ekborg (Thomas); Kjell Bergqvist (Peder Weine); Anders Ahlbom (Vaktmästare Bengt); Sasa Bjurling (Rebecka); Erik Hultqvist (Markus); Martin Rutegard; Kerstin Steinbach; Frans Wiklund; Filip Benko
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