A MALDIÇÃO DO LOBISOMEM
por André Bozzetto Junior
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A partir da segunda metade da década de 1950, quando o estúdio inglês Hammer adquiriu os direitos de produção dos monstros sagrados da Universal, houve um verdadeiro revival dos filmes de horror, com uma enorme quantidade de obras sendo produzidas ano a ano, uma atrás da outra. O diferencial é que agora o horror era mostrado em cores, e em função da censura mais branda, havia uma carga ligeiramente maior de erotismo e violência dos que nos filmes em preto-e-branco rodados na década de 1940 nos EUA. Além disso, para o lugar de atores lendários como Boris Karloff, Bela Lugosi e Lon Chaney Jr, despontava agora um grupo de novos astros, onde se destacavam os eternos Christopher Lee e Peter Cushing. Lamentavelmente, o aproveitamento que a Hammer fez dos direitos sobre os monstros clássicos também foi diferente do que foi posto em prática pela Universal. | Enquanto o estúdio norte-americano fez amplo uso dos personagens do Conde Drácula, Monstro de Frankenstein e Lobisomem, fazendo com que protagonizassem uma grande quantidade de filmes solo e crossovers, o seu equivalente inglês priorizou majoritariamente as figuras de Drácula e do Monstro de Frankenstein, desenvolvendo para tais longas franquias, enquanto o relegado Lobisomem protagonizou apenas uma única produção.
A obra em questão é “A Maldição do Lobisomem”, de 1961, dirigido por Terence Fisher - o diretor de filmes de terror mais badalado do período e responsável por clássicos como “A Maldição de Frankenstein”, “O Vampiro da Noite” e “O Cão dos Baskervilles”, entre outros tantos – e tendo no elenco o jovem ator inglês Oliver Reed, que anos depois viria a fazer sucesso em musicais como “Tommy” e “Oliver!” além de aventuras do porte de “Os Três Mosqueteiros”, “Leão do Deserto” e o oscarizado “Gladiador”.
O roteiro de Anthony Hinds é baseado no livro “The Werewolf of Paris”, de Guy Endore, mas ao invés de focar a ação na capital francesa, como na obra literária, nos leva até um pequeno vilarejo no interior da Espanha, em algum momento do século XVIII. O inicio do filme é bastante promissor, e nos mostra um mendigo (Richard Wordsworth) chegando a uma vila onde está vigorando uma espécie de “feriado” em honra ao casamento do Marquês Siniestro, que está ocorrendo naquele dia. Incentivado pelos aldeãos, o faminto mendigo segue até o alto da colina onde fica o castelo do Marquês, na esperança de que, na empolgação da festa, lhe dêem abrigo e comida. Porém, ao adentrar na festa, o pobre infeliz logo descobre da pior maneira que a aristocracia local é composta por pessoas cruéis e maldosas, e passa a sofrer toda sorte de humilhações e ultrajes, até ser finalmente preso no calabouço do castelo por ordem do perverso Marquês. | |
Então, à medida que as imagens mostram o transcorrer do tempo, uma narração em off no explica o que aconteceu com o mendigo: o miserável foi simplesmente esquecido pelo Marquês, que o deixou por vários e vários anos preso em uma cela imunda, sendo simplesmente alimentado pelo carcereiro e pela sua filha, uma menina muda. Com o passar do tempo, e em virtude das condições a que estava submetido, o mendigo foi progressivamente perdendo sua sanidade, ao mesmo tempo em que seu aspecto físico foi se transfigurando até lhe dar uma aparência simplesmente horrenda. No final das contas, o pobre homem se tornou não mais do que um insano animal enjaulado.
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Depois da morte do carcereiro, a sua filha, agora já uma bela moça (interpretada por Yvonne Romain) continua alimentando o mendigo. Certa noite, a moça é chamada para arrumar o quarto do Marquês, que agora vive recluso, vitimado por uma doença que lhe confere um aspecto grotesco. O perverso aristocrata tenta abusar da moça, que reage lhe mordendo a mão. Enfurecido, o Marquês ordena que os seus soldados atirem a jovem no calabouço. Então, em um dos momentos mais tensos do filme, o mendigo, aquele mesmo praticamente reduzido a um animal enjaulado e ensandecido, ataca a moça e a estupra. No dia seguinte, quando os guardam tornam a entrar no calabouço, encontram o mendigo morto e a moça acuada em um canto.
Tempos depois, o Marquês ordena que retirem a moça do calabouço e a tragam novamente ao seu quarto. Dessa vez a pobre jovem não perde tempo e parte para a vingança, matando o perverso aristocrata e fugindo para floresta. Passa-se um bom tempo, e quando a moça já está quase perecendo de fome e frio na imensidão da floresta, é encontrada por um abastado aldeão chamado Don Alfredo Corledo (Clifford Evans, de “O Beijo do Vampiro”) que a leva para casa e com o auxilio de sua empregada Teresa (Hira Talfrey) passa a cuidar da moça, que por ironia do destino, está grávida. Depois de uma gravidez difícil, onde permaneceu praticamente todo o tempo convalescendo, a jovem dá a luz justo na noite de Natal, e instantes após o nascimento do bebê, acaba falecendo. |
Comovido, o bondoso Don Corledo decide adotar o garoto recém-nascido e criá-lo como seu filho, batizando-o de Leon. Porém, a supersticiosa Teresa adverte ao patrão de que crianças nascidas na noite de Natal tendem a trazer má sorte, uma vez que a crendice popular perpetua a idéia de que Deus poderia tomar por ofensa o fato de outras crianças nascerem no mesmo dia que o Seu filho. Sem dar ouvidos à empregada, Don Corledo mantém a decisão de adotar o menino.
Os anos passam e Leon cresce aparentando ser um menino saudável e obediente. Porém quando o garoto está com cerca de sete anos, passa a ter um comportamento estranho, queixando-se de pesadelos e sofrendo de uma espécie de sonambulismo. Ao mesmo tempo, vários animais dos rebanhos dos camponeses que circundam a aldeia começam a aparecer mortos em noites de lua cheia, sem que saiba qual é o misterioso animal responsável pelos atos. Posteriormente, para a sua tristeza, Don Corledo descobre que o pequeno Leon é um lobisomem e que os animais mortos nas redondezas têm sido atacados por ele. Para piorar, o Padre (John Gabriel) explica que não há forma de o curar, mas que se ele estiver sempre rodeados de pessoas que o querem bem e o amam, a maldição pode ser mantida aprisionada em seu interior.
Sem outra alternativa, Don Corledo passa os anos monitorando os passos do jovem Leon, tratando-o com muito carinho e atenção, e conforme o Padre havia suposto, a maldição deixa de fustigá-lo, fazendo até mesmo que as lembranças daquelas noites de horror abandonem a mente do garoto.  | | Mas depois de completar 20 anos, Leon (a partir de agora interpretado por Oliver Reed) decide que é hora de se virar por conta própria e sair da casa do padrasto. Mesmo preocupados, Don Corledo e Tereza consentem quando o rapaz se muda para uma vila vizinha, onde passa a trabalhar em uma vinícola de propriedade do poderoso Don Fernando (Ewen Solon, que aparece em vários filmes do gênero na década de 1950, como “O Navio Fantasma”, “O Cão dos Baskervilles” e “Jack, o Estripador”). Ao mesmo tempo, Leon desenvolve um tórrido romance com Cristina Fernando (Catherine Feller), a filha do patrão, e cuja mão já havia sido prometida em casamento a outro. Quando os problemas decorrentes dessa nova vida começam a surgir, Leon vai progressivamente perdendo o controle, e não tarda para que a maldição do lobisomem volte a surgir, transformando-o em uma fera assassina que semeará pânico e morte pela região durante as noites de lua cheia.
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Apesar da origem do lobisomem ser meio estapafúrdia e um tanto confusa – não sabemos se foi em função do monstruoso estupro sofrido pela mãe de Leon, se foi pela “má sorte” do nascimento na noite de Natal, ou uma combinação entre ambos – e de mais alguns detalhes falhos, no geral o filme é bom. Toda a primeira parte, que aborda o triste destino do mendigo, é muito interessante, com uma atmosfera bizarra e sinistra. No segundo momento, onde aparece o pequeno Leon e a investigação sobre os ataques noturnos aos rebanhos, o ritmo continua bom, privilegiando o clima de mistério e o suspense. No terceiro ato da história, com Leon já adulto, o ritmo diminui um pouco para situar o espectador no novo contexto, mas depois que o rapaz volta a ser molestado pela maldição do lobisomem, o nível de tensão da história evolui até o clímax, no final, onde vemos o lobisomem em plena ação, fazendo vítimas pelo vilarejo e aterrorizando a população local, que não tarda a organizar uma perseguição pelas ruas escuras e telhados das habitações.
O visual do monstro segue o padrão clássico, instituído pelo personagem de Larry Talbot, no ciclo de filmes de lobisomem da Universal da década de 1940, ou seja, uma criatura bípede, com o corpo coberto por uma densa camada de pêlos e preservando pelo menos parte das vestimentas, mãos convertidas em garras e face monstruosa, misturando feições híbridas de homem e lobo. | Pode-se dizer que sua caracterização é bem elaborada e convincente, levando-se em conta os recursos disponíveis na época. Também contribui para que o visual do monstro surta maior impacto o fato dele só ser mostrado em sua plenitude próximo do final, sendo exibido apenas parcialmente até então.
A transformação também não apresenta nada de inovadora, utilizando as já conhecidas técnicas de sobreposição de imagens e seqüência de cortes para atingir o efeito desejado.
Como destaques positivos, temos a bela caracterização de época, retratando convincentemente o interior da Espanha do século XVIII e a direção eficiente de Terence Fisher, que consegue fazer o filme fluir mantendo a atenção do espectador, apesar dos vários saltos no tempo de ação da história. Entre os momentos mais memoráveis da obra, não posso deixar de mencionar a já supracitada parte inicial, destinada ao mendigo, e a empolgante cena da prisão, que geralmente é a mais mencionada pelos fãs do filme, onde temos a última transformação de Leon em lobisomem e o seu subseqüente ataque ao vilarejo.
 
Por outro lado, é bastante possível que muita gente que for assistir ao filme hoje em dia não se sinta cativado por ele, e quem sabe até o considere chato. Os principais elementos que podem contribuir para isso se devem ao fato de ser “um filme de época”, o que desagrada principalmente aos mais jovens, que tendem a sentir falta da tecnologia e da “modernidade” dos dias atuais. Também podem considerar o filme lento em muitos momentos e até rotulá-lo de “tosco”, por estarem acostumados com as técnicas contemporâneas de edição em cortes rápidos e uso constante de efeitos em CGI. Mas certamente, os verdadeiros apreciados de filmes de lobisomem, e de cinema de uma maneira geral, sabem avaliar a obra dentro do contexto em que foi concebida, e por isso reconhecem seus méritos.
Trata-se de um filme obrigatório para quem têm interesse em acompanhar a evolução do gênero ao longo do tempo, além de possuir sua importância histórica por ser o único filme de lobisomem concebido pela clássica produtora Hammer, e por reunir as características elencadas ao longo desse artigo, que fazem de “ A Maldição do Lobisomem” uma interessante e recomendável opção de entretenimento.
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A MALDIÇÃO DO LOBISOMEM (The Curse of the Werewolf, Inglaterra, 1961) - 91 minutos
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Anthony Hinds, baseado em romance de Guy Endore
Produção: Anthony Hinds
Produção Executiva: Michael Carreras
Música: Benjamin Frankel
Fotografia: Arthur Grant
Desenho de Produção: Bernard Robinson
Direção de Arte: Don Mingaye; Thomas Goswell
Efeitos Especiais: Les Bowie
Edição: Alfred Cox
Maquiagem: Roy Ashton; Frieda Steiger; Colin Garde
Elenco: Clifford Evans (Don Alfredo Corledo); Oliver Reed (Leon Corledo); Yvonne Romain (serviçal); Catherine Feller (Cristina Fernando); Anthony Dawson (Marques Siniestro); Josephine Llewellyn (Marquesa); Richard Wordsworth (Beggar); Hira Talfrey (Teresa); Justin Walters (jovem Leon); John Gabriel (Padre); Warren Mitchell; Anne Blake (Rosa Valiente); George Woodbridge (Dominique); Michael Ripper; Ewen Solon (Don Fernando); Peter Sallis (Don Enrique); Martin Matthews (Jose Amadayo); David Conville (Rico Gomez); Denis Shaw (Gaoler); Charles Lamb; Serafina Di Leo; Sheila Brennan (Vera)
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