A MÃO ASSASSINA

por Bruno C. Martino

Quando eu vi pela primeira vez o trailer de "A Mão Assassina" nas VHS de locadora lá em 1999, de cara eu fiquei meio com um pé atrás em relação à produção, pois nunca confiei em trailers onde é dada mais importância à trilha sonora (nesse caso cheia de bandas da moda na época como Offspring) do que ao filme em si, mas mesmo assim achei curioso acompanhar por noventa minutos praticamente uma versão estendida da clássica cena da mão possuída em "Uma Noite Alucinante 2". Só consegui ver o filme mesmo anos depois através de uma VHS furreca e recentemente através do DVD nacional lançado pela Columbia.



O filme narra o cotidiano de Anton Tobias (Devon Sawa, de Premonição) um moleque que só quer saber de fumar maconha e ficar vendo televisão o dia inteiro e só sai de casa - adivinhem!- pra comprar maconha com os vizinhos Pnub (Elden Henson) e Mick (Seth Green) do outro lado da rua! E é através deles que Anton fica sabendo que um perigoso serial killer está atacando as pessoas na pequena cidade e até às vésperas do Dia das Bruxas já tinha trucidado quatro pessoas, o que obrigou a polícia local a instituir toque de recolher.

Anton também nutre um amor platônico pela vizinha gostosa Molly (Jessica Alba, muito antes de fazer sucesso), mas sempre que vai falar com ela fica sem jeito ou faz alguma burrada (quem nunca já passou por isso, não é mesmo?). Mas tudo se complica quando Anton descobre que o assassino está na sua casa e matou seus pais! Ao pedir ajuda para seus amigos ele acaba descobrindo que ele próprio é o serial killer, mas não se lembra de nada! Pior ainda, sua mão direita está tendo impulsos assassinos que ele não pode controlar!

Partindo dessa idéia nem um pouco criativa (mãos assassinas não são novidade desde "The Beast with Five Fingers", "A Mão" e "Uma Noite Alucinante 2"), o diretor Rodman Flender nos brinda com um hilário e divertido filme B que homenageia diferentes produções.



Voltando à história, tudo se complica ainda mais quando Anton (ou melhor, sua mão possuída) mata seus dois amigos. Um com uma garrafa cravada na testa e o outro com uma serra circular que o faz perder a cabeça! O pior é quando acidentalmente ele dá de cara com seu amor Molly e deve a todo custo impedir os impulsos matadores de sua mão direita. Paralelamente a isso uma druidisa (!) vivida por Vivica A. Fox (de Kill Bill) tenta a todo custo encontrar o hospedeiro da mão assassina e se dá conta de que ele está em algum lugar de Bolan, a pequena cidade palco da recente onda de crimes.

Quando tudo parecia estar perdido eis que os amigos de Anton ressuscitam como zumbis! Isso mesmo! Mick com a garrafa na testa continua o mesmo incompetente de sempre assim como Pnub que passa quase o filme todo carregando sua cabeça! Hehehe. Ao pedir umas dicas para os amigos sobre o que fazer com a mão, eles dizem pra procurar o metaleiro da cidade Randy (Jack Noseworthy, de O Enigma do Horizonte), isso porque segundo Anton, por ele escutar música "demoníaca" o dia todo ele tem um grande conhecimento sobre possessões e o Diabo! hahahaha



Randy achando que Anton é louco ou coisa parecida, assim mesmo o aconselha a manter as mãos ocupadas, pois segundo ele "mãos ociosas são oficina do Diabo". O garoto segue à risca a dica se ocupando de fazer tricô (!!!) para acalmar os ímpetos assassinos de sua mão direita, mas nem isso parece adiantar já que a mão ainda consegue matar dois guardas da vizinhança. Um com uma agulha de tricô na orelha e o outro eletrocutado. Não demora e Anton decide cortar sua mão possuída que foge e promete vingança (!!!) ao tentar a todo custo matar Molly.

Como deu pra ver por essa breve introdução, "A Mão Assassina" está longe de ser um filme sério: segundo o diretor Rodman Flender, a idéia era deconstruir o gênero de terror e fazer uma fusão entre comédia e horror. O mais interessante ao se ouvir a faixa de comentários do diretor no DVD nacional é notar o quanto o cara gosta do gênero e tem ainda um passado na carreira pra se orgulhar. Ele começou a trabalhar com o lendário produtor B Roger Corman e foi até diretor do filme O Retorno do Duende (Leprechaun 2). Ele lembra com saudade os tempos ao lado de Corman e diz que para terminar os filmes no prazo, aprendeu com o mestre como filmar mais rápido, dentre outras coisas. Mas o mais divertido mesmo é caçar as referências a outros filmes e ouvir o diretor dizendo de onde tirou inspiração para certas cenas. Como por exemplo, ao dizer que o fato do quarto dos pais de Anton apresentar cores que beiravam o surreal é uma homenagem a Suspiria de Dario Argento! E ele cita uma batelada de películas que segundo ele estavam em sua cabeça ao fazer o filme como "O Abominável Dr. Phibes" e sua seqüência; Cannibal Ferox; e os filmes de Dario Argento e Lucio Fulci!! E ele ainda explica que o excesso de 'zoom-ins' do filme são uma homenagem a Mario Bava! Com certeza ele fez a lição de casa e estamos cara a cara com um fã fiel do gênero.

O que deixa um pouco a desejar é o fato do próprio diretor (fã confesso desses filmes sanguinolentos) se acovardar exatamente em mostrar violência. Apesar do filme ter cenas legais de mortes, muitas são covardes em mostrar gore, ou você já viu alguém cortar uma cabeça ou uma mão e praticamente não sair um esguicho sequer de sangue? Sem contar que a maioria das mortes é offscreen o que deixa a brincadeira menos divertida.



Outro grande problema são os furos de roteiro (que mais parecem crateras). Um deles faz qualquer um se perguntar: "Se Anton matou quatro pessoas antes, porque a polícia não achou as suas impressões digitais nos corpos?". Ainda tem o fato de muitas coisas estarem mal explicadas como a origem da personagem de Vivica A Fox e sua real intenção de destruir a mão. E ainda tem a horrível explicação para a mão de Anton ficar possuída (preparem-se, é pra rir de raiva), sem contar que nunca é explicado como o "espírito" passa de uma mão pra outra e chega a ser irritante alguns personagens no clímax da história preferirem fumar maconha a ajudar outro prestes a morrer! É claro que depois de um tempo você desconta esses erros absurdos e entra no clima do filme, que nada mais é do que um moderno filme B lembrando a falta de coerência dos filmes do próprio Roger Corman e que nunca estragaram o resultado final.

Mas o pior do filme é constatar que o melhor desfecho (que está incluído de extras no DVD) ficou fora da edição final sendo substituído por um menos emocionante e que pretendia ser "engraçadinho". Pra se ter uma idéia, o final original mostrava um portal para o inferno aberto na piscina do colégio e a mão tentando matar Molly que é salva no último momento por Anton. Além das paredes explodindo - outra citação a "Suspiria" segundo o diretor - esse final ainda contava com uma citação a "Repulsa ao Sexo" de Roman Polanski que se torna também uma citação à cena inicial de "Dia dos Mortos" de George Romero! O veterano diretor da trilogia dos mortos é também homenageado no longa quando cenas de "A Noite dos Mortos Vivos" e de "Despertar dos Mortos" são mostradas na tevê do protagonista. E o filme ainda conta com a ótima trilha sonora de Graeme Revell (de "Um Drink no Inferno" e "Sin City").

"A Mão Assassina" é um passatempo de primeira, é daqueles filmes que não tem vergonha de se assumir B e tem orgulho disso. Se bem que ele é B em termos já que custou o absurdo de 20 milhões de dólares, que nem parece que foram usados no filme. Não deu outra, foi um fracasso retumbante rendendo somente 4 milhões de dólares nas bilheterias americanas. Antes eles tivessem gasto uns 4 milhões pra fazer o filme como está em moda ultimamente em filmes como O Albergue e Jogos Mortais. No final das contas você se dá conta que assistiu a um filme bastante divertido, esquecível claro, mas bastante divertido. Pra você que gosta do subgênero "comédia de terror" saia do sofá e compre o DVD
de "A Mão Assassina". E não se esqueça de manter as mãos ocupadas senão a próxima mão possuída pode ser a sua.

Bruno C. Martino


A MÃO ASSASSINA (Idle Hands, EUA, 1999). 90 minutos
Direção: Rodman Flender
Roteiro: Terri Hughes, Ron Milbauer
Produção: Andrew Licht, Jeffrey A. Mueller, Jennifer Todd, Suzanne Todd
Produção Executiva: Jefrey Sudzin
Fotografia: Christopher Baffa
Música: Graeme Revell
Desenho de Produção: Greg Melton
Edição: Stephen E. Rivkin
Maquiagem: Greg Cannom, Barry R. Koper, Scott H. Eddo
Efeitos Especiais: James Ochoa, Ron Petruccione, Ken Tarallo
Efeitos Visuais: Peter Kuran
Elenco: Devon Sawa (Anton Tobias), Seth Green (Mick), Elden Henson (Pnub), Jessica Alba (Molly), Vivica A Fox (Debi LeCure), Cristopher Hart (A Mão), Jack Noseworthy (Randy), Katie Wright (Tanya), Fred Willard (Pai), Connie Ray (Mãe)


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