MORTE, O PLANETA VERMELHO

Por E.R.Corrêa

A coisa incorpórea estava naquilo que poderíamos classificar como "últimos momentos". Ao seu redor, inúmeros outros já haviam ultrapassado esse fase, e não mais pertenciam ao reino dos vivos. Mas, aparentemente, havia uma única possibilidade de salvação para aquelas que ainda existiam, e, embora não pudesse fazer muita coisa, a coisa sabia disso.
- Não tenho mais forças. Lamento. - disse ela, agonizando.
Uma outra criatura semi-viva fazia de tudo para encorajá-la a não desistir; a tentar aquilo que, talvez, pudesse salvá-los da morte definitiva. Embora fossem praticamente espíritos puros, que há muito (mas muito mesmo) deixaram seus invólucros carnais, sem entretanto, ter erigido qualquer civilização, elas não eram inteiramente destituídas de matéria. Havia um resquício. Quase um nada. Uma vaga presença. Algo que poderia ser - e era - soprado pelo vento; mas algo que, a despeito de tudo, ainda se mantinha vivo e consciente.
Era uma anomalia natural dividida entre a sombra e a fumaça.
Eram os marcianos.
- Não posso - continuou a coisa, depois de concentrar tudo de energia que lhe restava. - Acho... Acho que é o fim.
- Não pode parar agora! - A outra criatura também estava enfraquecendo bastante, mas, por não exaurir aquilo que lhe restava de energia telepática, ainda tinha força suficiente para se desesperar. - Está conseguindo! Vamos! Precisamos...
- Não posso. As imagens estão se perdendo. Estou ficando cada vez mais fraca. Eles precisam... precisam acreditar agora, ou...
A coisa, cuja força se esvaía mais depressa, era, na realidade, uma criadora de ilusões. E era a única que sobrara.
Sua função, agora, era criar ilusões, imagens que, na realidade, não existiam. Para quê?
Bem, elas sabiam que aquilo, aquelas imagens falsas, alimentavam o interesse e o ego de outras criaturas, em outros planetas. Aquilo - elas sabiam - aguçava-lhes a curiosidade. E se elas pudessem chamar toda a atenção, a energia da curiosidade dessas outras criaturas seria transferida para elas e, com isso, poderiam sobreviver - talvez por um longo período ainda. Ao abandonarem seus corpos físicos, as poucos as criaturas marcianas foram perdendo a capacidade de concentrar energia, e agora, mais do que nunca, precisavam recuperar.
Mas estavam fracassando.
A coisa, a despeito de criar palácios imponentes e monumentos majestosos, mas não suficientemente grandes, não tinha a força necessária, sozinha, para criar toda a complexidade contrastante de uma civilização. Algo que pudesse chamar a atenção.
Além do mais, elas não sabiam nada a respeito da capacidade dos telescópios dos habitantes dos outros planetas. Talvez fossem super-potentes, e, assim, as cidades imponentes que criavam poderiam ser detectadas. Mas, por outro lado, estes telescópios também poderiam ser fracos e rudimentares, de forma que somente construções assustadoramente monumentais poderiam ser detectadas. Esse, infelizmente, não era o caso.
Se elas ao menos tivessem domínio sobre a matéria em escalas significativas ou outros fenômenos similares, poderiam também enviar ondas de rádio ou raios de luz com comprimento e pulsações propositadamente artificiais. E, assim, seriam detectadas. E, novamente, a curiosidade e a atenção verdadeiras recairiam sobre elas, salvando-as. Mas esse, também, não era o caso.
Estavam, e sabiam, a caminho da extinção - e agora de uma vez por todas; e, o que é pior, jamais os outros povos, de outros planetas, saberiam de sua existência.
Restava muito pouco do equilíbrio energético da coisa e ela estava se desvanecendo. Contudo, tinha um aspecto a seu favor que ela não considerava, pois, evidentemente, não sabia: o tempo, para elas, passava muito lentamente, embora pudesse parecer o contrário. Dessa forma, as ilusões que criava por meio de telepatia poderiam permanecer na vista de outros povos por muitos e muitos anos.
Era uma anomalia temporal.
O que para ela parecia durar horas, apenas, para outras criaturas observadoras durava séculos, se suficientemente convincentes. Mas isto, afinal de contas, não adiantava muito, pois elas é que estavam morrendo, e necessitavam de resultados imediatos.
Sendo assim, num último esforço derradeiro, a criatura juntou toda a força que lhe restava e criou a maior de todas as ilusões. De repente, todas as fortificações e muralhas marcianas, que pareciam não surtir qualquer efeito, sumiram completamente para dar lugar a uma intrincada e complexa rede de canais.
- Consigo captar alguma coisa, percebem? - disse a criatura imediatamente - Acho que os canais... eles são... são grandes... - estava muito fraca, depois de exaurir toda a energia restante - Eles chamaram a atenção, posso sentir! Vêem! Mas não é o suficiente; é fraco. Precisamos que bastante seres acreditem, ou então...
E então a coisa morreu. Apagou. Desvaneceu-se no ar definitivamente, como se fosse um punhado de areia muito fina sendo dispersada por uma rajada de vento muito forte. Evaporou e, assim como todas as outras, nunca mais ressurgiu sobre a face do planeta Marte.
O grito silencioso de seu último esforço desesperado cumpriu seu destino mas voltou ao planeta para se desfazer entre as dunas geladas do deserto. O fim.
Na Terra, contudo, o eco ligeiramente expressivo desse grito surtiu algum efeito; durante pelo menos vinte anos, os canais marcianos criados pela coisa despertou o interesse e a curiosidade de um pequeno grupo de exploradores dedicados.
Mas o grupo era pequeno demais, e logo não sobrou nenhuma esperança.
Se a humanidade toda tivesse acreditado em Lowell (*), os marcianos teriam sido salvos.

Nota do Autor: Dificilmente uma nota de rodapé supera o artigo da qual se origina, mas tentarei realizar essa façanha...

Em fins do século XIX e começo do século XX, o mundo passava por efervescências culturais, sociais e científicas das mais variadas. A ciência especificamente, oferecia ao mundo algumas das mais arrojadas idéias de todos os tempos. Teorias e especulações surgiam por todos os lados. Einstein, Freud, Darwin, Bohr, Edison, Maxwell e muitos outros abalaram os alicerces do planeta. E foi justamente nesse cenário efervescente que surgiu um dos personagens mais controversos e enigmáticos da história da ciência, Percival Lowell. Lowell e o planeta Marte, ao seu modo, fizeram história. Vejamos.
Nessa época conturbada houve um renascimento de algumas velhas teorias que estavam esquecidas. Uma delas era a hipótese Nebular de Kant-Laplace, descrita no século XVIII, e que sugeria a possibilidade de o Sistema Solar ter sido criado a partir da conservação do momento angular da massa gasosa primordial, aquela que deu origem ao Sol e aos planetas. Isso seria feito com o Sol ejetando grandes quantidades de massa sobressalente em sua formação. Nesse processo, essas imensas quantidades de matérias seriam ejetadas justamente para as regiões mais distantes do sistema solar, formando primeiramente os planetas gigantes e gasosos, e, posteriormente, os planetas internos.
Isso deixava claro que os planetas teriam idades diferentes, sendo os internos significativamente mais novos que os externos, numa ordem decrescente de idade a contar do Sol. Assim, supunha-se que Marte era significativamente mais velho que a Terra, sendo geralmente imaginado como um planeta exaurido ou nos estágios finais de seus processos de desenvolvimento. Vênus, por outro lado, era sugerido como um mundo relativamente novo, envolto por oceanos e pântanos, e habitado por criaturas semelhantes àquelas que dominaram a Terra há milhões de anos atrás. Como a superfície de Vênus é demasiado densa para observação por telescópios - o único instrumento disponível na época - , as atenções voltaram-se para Marte, um provável berço de seres inimaginavelmente velhos. E com os telescópios todos voltados à Marte e às idéias ansiosas por descobrimentos, as imaginações científicas se excitaram. Na Itália, Giovanni Schiaparelli foi um dos primeiros divulgadores a sugerir a possibilidade de Marte ser um planeta agonizante e dominado por antigas construções, linhas retas, como sugeriu ele, "canali", ou como ficou popularmente conhecido, canais. Mas antes dele, a idéia já havia sido sugerida por outros pesquisadores do planeta vermelho, como por exemplo Pietro Secchi, o primeiro a sugerir que as linhas escuras fossem canais.



As idéias de Schiaparelli, contudo, foram as que vieram a encontrar um eco dissonante na América, através dos "cuidadosos" estudos do astrônomo norte-americano Percival Lowell (1855-1916), que imediatamente se apaixonou pelo tema a ponto de se dedicar quase que exclusivamente à divulgação de suas "descobertas". A exemplo de Schiaparelli, embora com muito mais entusiasmo, ele jurava de pés juntos observar uma intrincada redes de canais distribuidores de água na superfície do planeta. A idéia era de que Marte provavelmente havia esgotado o seu abastecimento natural de água nas regiões equatoriais, as regiões extremamente povoadas, e agora necessitava bombeá-la dos polos, fato que explicaria a necessidade dos canais. As suas idéias repercutiram positivamente nos primeiros estágios, e até conseguiram influenciar um número significativo de seguidores, mas, pouco a pouco, foram encontrando opositores ferrenhos, que se esforçavam, mas não conseguiam, ver canais na superfície de Marte. Inevitavelmente suas teorias se extinguiram. Lowell, contudo, não arredou o pé e, sozinho, continuou acreditando na existência dos canais, tal como imaginava.
O mais interessante é que, indiretamente, Lowell acabou sendo mais importante para a Ficção Científica do que para a Astronomia. Suas observações astronômicas caíram por terra; provou-se que não existiam canais em Marte - pelo menos não da maneira como ele imaginava, muito menos com o propósito. Estudiosos argumentaram que um provável motivo do engano de Lowell com relação aos canais seria uma ilusão de ótica - uma ilusão que persistiu por muitos e muitos anos. Tal fato, entretanto, é pouco provável. É mais fácil imaginar que ele foi vítima de sua própria obsessão; ele queria tanto ver que acabou vendo, não como fruto de uma ilusão de ótica, mas sim como um impulso de sua própria vontade. Freud explica.
Mas, repito, se para a Astronomia a importância de Lowell é insignificante (não de toda, é claro! De um jeito ou de outro ele fez suas contribuições), para a Ficção Científica, um gênero literário que estava verdadeiramente despontando, sua contribuição foi significativa. Por causa dele, Marte ficou na "moda". Foi nesse Marte efervescente e controverso que o escritor inglês H. G. Wells se inspirou para escrever "A Guerra dos Mundos", em 1898, a primeira batalha interplanetária convincente e cientificamente estruturada, com direito à extrapolações sociais e culturais.
Wells também aderiu à idéia de um Marte velho e esgotado, com uma civilização beirando desconfortavelmente a extinção, e nos trouxe marcianos hostis e carrancudos, inteiramente munidos do propósito de nos dominar. Se Marte era velho e gasto, e os demais planetas inóspitos e inatingíveis, a Terra era fresca e jovem, pronta para ser conquistada. Todos conhecem o desfecho dessa história clássica, mas poucos tem noção de sua dívida para com as idéias de Lowell.
Foi pouco depois desse período legitimamente marciano que surgiu Edgar Rice Burroughs e suas histórias ambientadas num Marte predominantemente humano. Mais conhecido pela criação de Tarzan, Burroughs também trouxe às páginas da ficção o personagem John Carter, um herói espacial que se utilizava de métodos prá lá de duvidosos em suas aventuras. "A Princesa de Marte" (com quem o herói da história chega a se relacionar... sexualmente!), a primeira dessas histórias, surgiu em 1917, menos de um ano após a morte de Lowell. A despeito de tudo mais, Burroughs mexeu com a imaginação de uma geração de entusiastas, que mais tarde viriam confessar abertamente o fruto de sua inspiração. Suas obras, por exemplo, inspiravam gente como Stanley G. Weinbaum, autor do clássico conto "Uma Odisséia Marciana", publicado originalmente em julho de 1934 no magazine de ficção científica "Wonder Stories", e imediatamente aclamado pelos fãs. É uma história rara que não tive a oportunidade, mas anseio por conhecer (não sei se já foi alguma vez publicada no Brasil); e Ray Bradbury, autor de "As Crônicas Marcianas", e que dispensa maiores apresentações. Ambos frutos indiretos de Percival Lowell.
É engraçado como uma personalidade científica como Lowell acabou sendo mais útil a escritores de ficção científica, ao invés de, naturalmente, ser lembrado por estudiosos de sua própria área. Talvez seja um contrasenso, mas é a verdade. Até pouco tempo atrás, uma grande parte dos documentos e escritos do astrônomo estava esquecida e negligenciada no "Lowell Observatory", Arizona, até que personalidades eminentes como Arthur C. Clarke e o falecido Carl Sagan tivessem a iniciativa de reuní-los devidamente para catalogação e divulgação.
Mas não importa; o caso é que muita coisa já rolou, muitos Martes já apareceram, muitas teorias já foram desfeitas, muitas descobertas já foram anunciadas, mas o nostálgico Marte de Lowell, com seus canais artificiais e sua civilização enferrujada, é o que continua mais inspirador.

E.R.Corrêa



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