DOSSIÊ: MASSACRES NO TEXAS

Por Felipe M.Guerra

Nos anos 30 e 40, as pessoas iam aos cinemas para assustar-se com filmes trazendo aqueles monstros clássicos, com Drácula, Frankenstein e lobisomem, em seus efeitos, intérpretes e cenários de papelão totalmente ingênuos e tão pouco amedrontadores hoje em dia. Nos anos 50 e 60, a moda era colocar predadores alienígenas (marcianos, venusianos, jupterianos e o escambau) ou monstros gerados por energia nuclear, como aranhas gigantescas. Mas foi nos anos 70 que os filmes de horror passaram a investir no monstro mais assustador de todas as décadas: o próprio ser humano.



Nunca homens, mulheres e crianças foram tão assustadores, selvagens, cruéis, frios e psicóticos como nos anos 70. Claro, tivemos bons filmes sobre assassinos e psicopatas feitos antes desta época, e um clássico absoluto é "Psicose", de Alfred Hitchcock (feito em 1960), que praticamente lançou as regras e clichês para os modernos Michael Myers e Jason Voorhees.

Mas a década de 70 mostrou como o ser humano pode ser destrutivo e assustador sem a necessidade de fantasmas, demônios ou forças extraterrestres. Quando lembramos que os criminosos de "Last House On The Left" (1972, de Wes Craven), "Deranged: The Confessions Of A Necrophile" (1974, de Jeff Gillen e Alan Ormsby, ainda inédito no Brasil), "Quadrilha de Sádicos" (1977, também de Craven) e "Halloween" (1978, de John Carpenter) podem existir no mundo real, bem perto de nossas cidades civilizadas e da nossa sociedade "moderna", não tem como não ficar arrepiado.

Enquanto escrevo estas linhas, por exemplo, uma notícia no telejornal chama minha atenção. É um coronel de polícia sei lá de onde que se enfureceu ao envolver-se num acidente de automóvel e resolveu moer o outro motorista a pancadas, além de destruir parte do carro da outra vítima. As cenas foram feitas por uma câmera da emissora de TV que, por coincidência, estava ali no momento. Mas na semana passada mesmo eu li sobre uma desavença durante um jogo de futebol que evoluiu para homicídio, quando um rapaz cansou de ouvir corneta de outro e devolveu-lhe um tiro na cabeça. Ou seja: é o ser humano atingindo o ponto mais baixo da agressividade e da selvageria, em situações simples, do cotidiano, em meio a uma cidade grande e civilizada. Nunca a vida valeu tão pouco. Agora imagine o que estes psicopatas do dia-a-dia fariam se estivessem isolado no meio do deserto ou da floresta!



Foi em meio aos anos 70 que um jovem estudante de cinema nascido em Austin, no Texas, resolveu fazer um filme sobre psicopatas, aproveitando que o cinema de horror estava no auge e produções baratas e escatológicas tinham distribuição garantida em pequenos cinemas de toda a América. Seu nome era Tobe Hooper. Apesar de ter feito um filme experimental em 1969, um drama chamado "Eggshells", em parceria com o amigo Kim Henkel, Hooper viveu nos últimos quatro anos fazendo documentários e bobagens diversas, afastado das obras cinematográficas.

O jovem cineasta sabia o que queria fazer: um filme inspirado na vida do serial killer Ed Gein, preso no Texas em 1957. Personagem assustadoramente real, Gein era um fazendeiro débil mental que mantinha a mãe morta em casa, matava mulheres e guardava lembranças dos cadáveres. Fazia roupas com pele humana e móveis de ossos, além de comer a carne de cadáveres que desenterrava do cemitério local. Sua prisão foi um choque, pois a comunidade acreditava que Ed era um cara pacífico, que pouco saía da sua fazenda. Um cidadão acima de qualquer suspeita, enfim...

O problema enfrentado por Hooper é que ele não conseguia encontrar um diferencial para realizar a obra. Mais de dez anos antes, Hitchcock já havia realizado seu "Psicose", baseado em um livro de Robert Bloch que era confessadamente inspirado na vida de Ed Gein. Para rodar um novo filme sobre o escandaloso fato real, Hooper precisaria de algo diferente... A ficha só caiu quando ele estava numa loja de ferragens e viu, exposta, uma reluzente motosserra. Surgia assim um dos maiores clássicos do horror mundial: "The Texas Chainsaw Massacre", ou, em tradução nacional, "O Massacre da Serra Elétrica".



O título, na verdade, é extremamente sensacionalista, considerando que a tal serra elétrica (na verdade, uma motosserra, já que a ferramenta é movida a motor, e não à eletricidade) é apenas figurante na história, sendo usada em uma única morte - as demais são a marretadas no crânio, atropelamento, perda de sangue, etc etc. Mas Hooper sabia que um filme com este nome só poderia ser um sucesso. Além, é claro, de lhe trazer óbvios problemas com a censura.

O roteiro escrito por Hooper e Henkel até tentou pegar leve, mostrando a maior parte da brutalidade off-screen e dando uma polida nos diálogos para que eles não ficassem nem tão escabrosos, nem tão revoltantes. Mesmo assim, o filme deixou a censura com os cabelos em pé: apesar de não mostrar os assassinatos e os detalhes mórbidos da trama (cenas explícitas de canibalismo, por exemplo), "O Massacre da Serra Elétrica" continuava apavorante. Talvez, até, mais apavorante do que se mostrasse realmente a serra cortando os corpos das vítimas - o que nunca aparece.

Por isso, as pessoas têm a péssima idéia de que o filme é um gratuito exercício de sangue e tripas à la "Sexta-Feira 13", por exemplo. Tem gente que nem deve ter visto a obra, como um crítico da revista SET que, resenhando o DVD do filme lançado no Brasil, disse que "O Massacre da Serra Elétrica" era um festival hediondo de sangue e tripas, uma total injustiça, considerando que a quantidade de sangue é irrisória (comparando com um "Evil Dead" ou um "Fome Animal", então!) e nunca vemos tripas, órgãos internos ou mesmo feridas expostas.

A violência de "O Massacre da Serra Elétrica" é totalmente psicológica, e por isso mesmo chocante. Tudo bem que um filme tipo "Cannibal Holocaust" deixa o espectador extremamente chocado e revoltado, tal a quantidade de cenas realistas de mutilação, violência e morte. Mas em "O Massacre da Serra Elétrica", a violência é tão crua e tão sugerida que consegue ser ainda mais apavorante, mostrando um mínimo, encobrindo boa parte do que acontece por sombras ou deixando a matança fora do ângulo da câmera.



Eu amo este clássico, talvez o filme de horror que eu mais vi em todos os tempos, e vou resumir as qualidades da produção dizendo apenas que "O Massacre da Serra Elétrica" surpreende a cada minuto, tanto analisado como filme de suspense quanto tecnicamente. Nada é mais interessante do que assistir a ele, sabendo tudo o que vai acontecer, e tendo ao lado no sofá uma pessoa que está vendo pela primeira vez (namorada, amigo, parente, que seja). E analisar como esta pessoa reage ao que é mostrado. Talvez nunca tenha sido feito um filme tão apavorante quanto este. E, em comparação, "O Exorcista" chega a se transformar em uma comédia inocente.

Na minha modesta opinião, este pequeno filme de baixíssimo orçamento dirigido por Tobe Hooper é o maior clássico do horror de todos os tempos, um filme emblemático, o retrato universal e atemporal da crueldade humana e uma coleção dos clichês que seriam explorados infinitamente pelo cinema de terror/suspense nos anos seguintes, até hoje.

Infelizmente, com todo o potencial que a história tinha, as inevitáveis continuações surgidas com o passar dos anos nada mais fizeram do que recriar as melhores partes do original - ou seja, apenas mostraram mais massacres no Texas, sem alterar a história básica, parecendo-se, assim, mais com refilmagens do que com verdadeiras continuações. E isso vale até para a fiasquenta parte 2, que foi dirigida pelo próprio Tobe Hooper, e mesmo assim não trouxe nenhuma novidade.



Aos poucos, a série entraria em franca decadência devido aos problemas com a censura sofridos pela parte 3 e pela extrema ruindade da parte 4 que, ironicamente, foi dirigida por Kim Henkel, o roteirista do filme original! Em meio ao ano 2000, William Hooper, filho de Tobe, quis homenagear a obra-prima do pai com "All American Massacre", uma produção independente em vídeo que dá continuidade à trama de "O Massacre da Serra Elétrica 2". Mas o filme teve problemas e nunca foi lançado.

Parecia o fim de Leatherface e sua família de canibais, mas volta e meia, como acontece na vida real, os crimes escabrosos ressurgem para nos tirar a paz e o sossego. E, em 2003, foi lançada nos cinemas americanos a refilmagem do clássico, "O Massacre da Serra Elétrica" versão século 21, revitalizando o mito com uma carga muito maior de violência e sangue. Com o sucesso de bilheteria do remake, não será de se estranhar se a franquia voltar a gerar seqüências. Só espera-se que, desta vez, com uma melhor qualidade no roteiro e cuidado na produção.

E os massacres no Texas, ao som do ronco de uma motosserra, continuarão ainda por muito, muito tempo...



- O Massacre da Serra Elétrica
- O Massacre da Serra Elétrica 2
- O Massacre da Serra Elétrica - Leatherface
- O Massacre da Serra Elétrica - O Retorno
- All American Massacre

Felipe M.Guerra

N.E.: Esse artigo foi cedido pelo autor Felipe M. Guerra para publicação no site Boca do Inferno, extraído originalmente do prestigiado site www.myers.cjb.net ("Halloween - o site brasileiro de Michael Myers"), editado por Alexandre Sobrino.

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